Sinopse
O filme reúne
duas histórias curtas e independentes, ambas ambientadas na Hong Kong densa e
labiríntica dos anos noventa, e ligadas apenas pela mesma lanchonete noturna
que os personagens de ambas frequentam. Na primeira, o policial 223 tenta
superar o fim de um relacionamento de cinco anos comprando, todos os dias, uma
lata de abacaxi com validade fixada para o dia primeiro de maio, prazo que ele
mesmo impõe para decidir se ainda há esperança de reconciliação, enquanto cruza
o caminho de uma misteriosa mulher de peruca loira envolvida num esquema de
contrabando que desandou.
Na segunda
história, o policial 663 lida com o fim do próprio namoro conversando com os
objetos do apartamento vazio que a ex-namorada deixou para trás, sem perceber
que Faye, a nova atendente da lanchonete que ele frequenta, desenvolveu por ele
um interesse silencioso e obstinado. Wong Kar-wai entrelaça essas duas
narrativas de solidão urbana e conexões fugazes numa Hong Kong filmada como
organismo vivo, elétrico e constantemente em movimento.
Análise Crítica
Amores Expressos
nasceu durante uma pausa forçada na finalização de Cinzas do Passado, e essa
origem quase improvisada explica parte de sua energia particular: Wong Kar-wai
escreveu e filmou o longa em poucas semanas, sem roteiro fechado, permitindo
que o resultado carregasse uma leveza e uma espontaneidade que contrastam com a
solenidade épica do projeto anterior. É talvez por isso que o filme se tornou,
para muitos espectadores ao redor do mundo, a porta de entrada mais acessível
para a obra do diretor.
A fotografia
assinada por Christopher Doyle e Andrew Lau utiliza extensivamente a técnica de
step-printing, que reduz a taxa de quadros durante a filmagem e depois duplica
ou triplica cada frame na montagem, produzindo um efeito de movimento
entrecortado e onírico especialmente presente nas cenas em que a mulher da
peruca loira atravessa os corredores apertados do Chungking Mansions. Esse
recurso visual, hoje um dos elementos mais reconhecíveis da linguagem de Wong
Kar-wai, transforma a cidade em borrão constante de luz e movimento, contra o
qual os momentos de quietude entre os personagens ganham peso emocional ainda
maior por contraste.
A estrutura em
dois blocos narrativos, sem qualquer tentativa de amarrar as duas histórias
além do espaço físico que compartilham, permite ao filme explorar registros
emocionais distintos sem perder coesão temática. A primeira metade, mais
sombria e filmada com maior nervosismo visual, acompanha um romance que nunca
chega a se concretizar entre dois estranhos que compartilham apenas uma noite
de companhia silenciosa. A segunda metade adota tom mais leve e lúdico,
acompanhando a aproximação improvável entre um policial deprimido e uma jovem
que invade repetidamente seu apartamento na ausência dele, numa dinâmica que
beira o absurdo cômico sem nunca perder sinceridade emocional.
Faye Wong,
cantora pop em sua estreia relevante como atriz, constrói uma personagem
definida por energia física quase incontrolável, sempre em movimento, sempre
dançando ao som da faixa que dá nome à sua obsessão musical, e Tony Leung
Chiu-wai responde a essa vitalidade com um registro mais contido, de homem que
precisa reaprender a se abrir para o mundo depois do fim abrupto do próprio
relacionamento. A trilha sonora, que intercala a canção California Dreamin da
banda The Mamas and the Papas com uma versão cantonesa de Dreams, da banda
irlandesa The Cranberries, interpretada pela própria Faye Wong, funciona como
personagem à parte, ditando o ritmo emocional de toda a segunda metade do
filme.
⚠️ ATENÇÃO: A
PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS
Se você ainda não
assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.
A Interpretação
da Obra
A relação entre o
policial 223 e a mulher da peruca loira nunca chega a se consumar como romance
no sentido convencional, e essa recusa é, ela própria, o argumento do filme
sobre esse primeiro bloco narrativo. Os dois passam uma noite juntos, dormem no
mesmo quarto de hotel sem qualquer contato físico além do sono lado a lado, e
se despedem pela manhã sem trocar sequer os nomes verdadeiros um do outro. O
filme sugere que essa proximidade sem consumação, esse gesto mínimo de
companhia compartilhada entre dois estranhos igualmente solitários, tem valor
emocional próprio, independente de qualquer desenvolvimento romântico posterior
que a narrativa convencional normalmente exigiria.
O ritual das
latas de abacaxi, que o policial 223 consome obsessivamente até a data limite
que ele mesmo estabeleceu, funciona como tentativa de impor controle racional
sobre um processo emocional que resiste a qualquer cronograma. Ao decidir
arbitrariamente que o amor expira numa data específica, como se fosse produto
industrializado com prazo de validade estampado na embalagem, o personagem
tenta transformar dor difusa em processo administrável, e o filme trata essa
tentativa com ironia gentil, reconhecendo tanto sua futilidade quanto sua
função protetora genuína diante do luto amoroso.
Na segunda
história, as invasões repetidas de Faye ao apartamento do policial 663 em sua
ausência, reorganizando móveis, trocando itens de decoração e alimentando
peixinhos que ela mesma introduziu no espaço, constituem um gesto de intimidade
que se desenvolve inteiramente à revelia do consentimento explícito dele. O
filme opta por tratar essa invasão de privacidade com tom lúdico e afetuoso em
vez de ameaçador, apostando na leitura de que Faye está, à sua maneira
desajeitada, reconstruindo silenciosamente o espaço afetivo que a ex-namorada
de 663 deixou vazio, um gesto de cuidado que o próprio personagem só reconhece
integralmente depois de descobrir as visitas.
A partida
repentina de Faye para se tornar comissária de bordo, exatamente quando 663
finalmente reúne coragem para convidá-la para sair, repete a estrutura de
desencontro temporal que marca praticamente toda a filmografia de Wong Kar-wai
até aquele ponto. Mais uma vez, dois personagens que se desejam mutuamente
falham em sincronizar o momento exato da declaração, e o filme parece, por
instantes, prestes a repetir o padrão de perda definitiva que fechou Dias
Selvagens e Cinzas do Passado.
O reencontro
final, um ano depois, quando Faye retorna à lanchonete agora como comissária de
bordo de verdade e encontra 663 administrando o próprio negócio no mesmo local,
rompe deliberadamente com esse padrão de desencontro fatal que caracterizava as
obras anteriores do diretor. Ao entregar a ela um novo cartão de embarque
desenhado à mão, convite metafórico para uma nova viagem juntos, 663 inverte o
gesto de invasão de espaço que definiu o relacionamento dos dois, agora
oferecendo deliberadamente o que antes havia sido tomado sem permissão. O filme
termina em ambiguidade quanto ao futuro dos dois, mas essa ambiguidade final é
mais esperançosa do que resignada, sugerindo que, ao menos dessa vez, ainda
existe tempo para que o desencontro se resolva de outra forma.
Conclusão
Amores Expressos
permanece, mais de três décadas depois de seu lançamento, o ponto de entrada
mais acolhedor à obra de Wong Kar-wai justamente por equilibrar, com rara
leveza, os temas de solidão urbana e desencontro amoroso que definem toda a sua
filmografia. Ao permitir que ao menos uma de suas duas histórias termine em
possibilidade aberta, em vez de perda consumada, o filme oferece um contraponto
mais esperançoso à melancolia que caracteriza tanto Dias Selvagens quanto
Cinzas do Passado.
É essa disposição
de tratar o acaso urbano, o cruzamento fugaz entre estranhos numa cidade densa
e apressada, como matéria-prima legítima para reflexão sobre conexão humana que
a FILMOTECA reconhece como o valor mais duradouro desta obra: a lembrança de que
mesmo os vínculos mais breves e não resolvidos podem carregar peso emocional
genuíno.