Amei um Bicheiro (1953) - IMDb
O título e o que ele esconde
Amei um Bicheiro tem um título que promete melodrama
romântico e entrega outra coisa. As relações amorosas servem de pretexto para a
trama se desenrolar, e nelas se revelam as raízes do filme: o thriller
policial. Carlos sai da prisão depois de cumprir pena ligada ao jogo do bicho e
quer recomeçar a vida ao lado de Laura, a mulher que ama. Sem contatos na
cidade grande e sem dinheiro, ele se envolve novamente com o submundo do jogo
ilegal. O romance está ali, mas funciona como estrutura para algo mais sombrio:
um homem que tenta sair de um mundo que não costuma deixar ninguém sair.
A produção é da Atlântida, estúdio mais conhecido pelas
chanchadas que dominavam o cinema brasileiro do período. A escolha de investir
num noir urbano carioca durante o governo Vargas, com argumento de Jorge Dória
e elenco de primeira linha, foi uma aposta na pluralização do repertório do
estúdio
Um noir com endereço carioca
Amei um Bicheiro foi o primeiro filme brasileiro a tratar
abertamente do jogo do bicho, a loteria ilegal que estruturava parte da
economia informal do Rio de Janeiro. A escolha não é apenas temática. Como a
referência popular mais próxima da atividade mafiosa no Brasil é o jogo do
bicho, o filme constrói em torno dele um noir repleto de sombras e jogatinas no
centro do Rio.
Há influência visível do neorrealismo italiano na forma como
o filme observa esse mundo, e o resultado foge das chanchadas que dominavam os
cinemas brasileiros do período, com uma sobriedade que era exceção, não regra.
O jogo de luzes e sombras do noir americano aparece traduzido para um Rio de
Janeiro que o cinema brasileiro raramente havia filmado com essa linguagem.
Grande Otelo fora do registro habitual
Grande Otelo aparece num papel sério, fora do registro de
comédia que era seu habitual, interpretando Passarinho. É o ponto alto do
filme, ainda que sua participação seja menor do que o ideal, e a cena de sua
morte é tocante e bem atuada. Para um ator associado quase exclusivamente à
chanchada, a oportunidade de carregar peso dramático num filme como esse é
significativa, e o que faz com esse espaço justifica a menção.
O elenco reúne nomes que se tornariam centrais ao cinema
brasileiro nas décadas seguintes: José Lewgoy, Jece Valadão, Wilson Grey. É um
time de atores que o filme usa bem nos momentos certos, ainda que a direção de
Jorge Ileli e Paulo Wanderley nem sempre sustente o nível que o material e o
elenco permitiam.
O que o filme é e o que não é
Amei um Bicheiro é um noir mediano, distante do melhor do
gênero, mas é um filme bem realizado para os padrões brasileiros da época, com
valor sentimental para quem se interessa pelo cinema nacional. Mostra um Rio de
Janeiro que não existe mais, e essa dimensão documental involuntária é parte do
que torna o filme relevante hoje.
A história tem momentos ingênuos e melodramáticos, e as
cenas de violência física são pouco convincentes. São limitações reais, e
nenhuma análise séria deveria escondê-las. O que o filme tem de valor não está
na execução impecável, está na ousadia do material: tratar o jogo do bicho como
tema central num momento em que o cinema brasileiro preferia o riso fácil, e
fazer isso com uma ambição estética que olhava para fora do país sem perder o
endereço local.
Por que vale revisitar