Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
A relação de um casamento através dos anos.
O amor não acaba num momento. Acaba em todos os momentos pequenos que ninguém registra.
Dois tempos, uma destruição
Blue Valentine é construído em dois eixos temporais que o filme embaralha sem aviso e sem legenda: o começo da relação entre Dean e Cindy, filmado com a luz quente e a câmera à mão de quem está descobrindo algo, e o presente desse casal anos depois, filmado com uma frieza visual que é ela mesma um argumento. Derek Cianfrance. Confia que o espectador vai sentir a diferença dos dois tempos antes de entendê-la, porque a diferença entre estar apaixonado e estar preso numa versão antiga de um amor é uma das coisas que o corpo reconhece antes da razão. A estrutura não serve para fazer algo perturbador: mostrar o começo e o fim simultaneamente, de forma que cada cena de amor jovem é contaminada pelo conhecimento do que vem, e cada cena de desgaste adulto carrega o eco do que foi. Cianfrance filma o luto amoroso como experiência em tempo real, não como retrospecto.Cianfrance e os doze anos de gestação
Blue Valentine levou doze anos para ser feito, e essa gestação longa não é detalhe biográfico irrelevante. Cianfrance reescreveu o roteiro repetidamente, filmou testes, desenvolveu a linguagem visual do filme durante anos antes de ter elenco e orçamento. O resultado é um filme que sabe exatamente o que quer dizer e escolheu cada instrumento para dizer isso com precisão.A decisão de filmar as cenas do passado em 16mm e as do presente em vídeo digital não é argumento: o passado tem a textura do analógico, do imperfeito, do humano, e o presente tem a dureza do digital, a clareza excessiva que não deixa nada escondido. Dean e Cindy jovens existem numa luz que os favorece. Dean e Cindy adultos existem numa luz que não perdoa nada, que registra cada linha de cansaço, cada distância entre os corpos, cada palavra que falta e cada palavra que sobra.Ryan Gosling e Michelle Williams no limite
Ryan Gosling e Michelle Williams passaram semanas vivendo juntos antes das filmagens, construindo a história compartilhada que o filme precisava que existisse antes de começar. Esse processo de imersão é visível nas cenas de silêncio, nas refeições, nos momentos em que Dean e Cindy estão no mesmo espaço sem estar no mesmo lugar.Gosling constrói Dean como alguém que amou completamente e não cresceu junto com o amor que sentia. Dean aos vinte anos é espontâneo, presente, cheio de gestos que custam pouco e significam muito. Dean adulto é o mesmo homem, e é exatamente isso o problema: ficou igual enquanto Cindy e a vida ao redor mudaram, e essa imobilidade que era charme virou âncora. Michelle Williams faz o movimento oposto: Cindy jovem é contida, carregando uma história anterior que o filme revela em camadas, e Cindy adulta é alguém que aprendeu que o que sente não vai ser resolvido por Dean, e ainda não sabe o que fazer com esse aprendizado.
O quarto de hotel como câmara
Há uma sequência no centro do filme em que Dean e Cindy passam uma noite num quarto de hotel temático, uma tentativa de reacender algo que os dois sabem, em algum nível, que não pode ser reacendido por uma noite num quarto diferente. Cianfrance filma essa sequência com uma crueldade que vem de filmar a verdade sem desviar o olhar.O quarto foi escolhido por Dean com a melhor intenção possível, e é exatamente isso que o torna insuportável de assistir. A boa intenção colidindo com a incapacidade de entender o que Cindy precisa, que não é um quarto diferente mas um Dean diferente, ou talvez a permissão de admitir que o que foram não é o que são. O sexo que acontece ali não é reconciliação nem ruptura. É a tentativa de dois corpos de resolver o que as palavras não conseguiram, e o fracasso tem a qualidade específica do esforço que não chegou onde precisava chegar.
O amor como escolha e como desgaste
Blue Valentine recusa a explicação simples para o fim da relação. O filme documenta um processo mais lento e mais comum: duas pessoas que se escolheram num momento específico de suas vidas e que foram mudando em direções que o amor inicial não tinha como prever. Cindy tinha um futuro que o relacionamento com Dean foi redefinindo. Dean tinha um presente que era suficiente para ele e que foi se tornando insuficiente para ela. Nenhum dos dois está errado. Nenhum dos dois está certo. Estão num lugar em que o amor que sentem, ou que sentiram, ou que ainda sentem de formas diferentes, não é mais argumento suficiente para sustentar a estrutura que construíram ao redor dele. Cianfrance filma essa situação sem absolver nem condenar ninguém, e essa recusa de julgamento é o que torna o filme insuportável da forma certa.Onde assistir e o que esperar
Blue Valentine está disponível no Sony One Amazon Channel e na Filmoteca Seu Manolo. O filme recebeu classificação NC-17 originalmente nos Estados Unidos por uma cena de sexo que foi posteriormente reclassificada após recurso, e essa história diz algo sobre como a intimidade real incomoda mais do que a intimidade espetacular. A fotografia de Andrij Parekh é um dos trabalhos mais funcionalmente expressivos do cinema americano dos anos 2010, e a trilha de Grizzly Bear existe nos momentos certos com a dosagem certa. O filme não tem cena desperdiçada, e a segunda visita, sabendo o que se sabe, transforma cada cena do começo numa despedida que você não sabia que estava vendo.
A fantasia que o cotidiano não sustenta
Blue Valentine mostra o amor depois da idealização romântica e é o retrato mais preciso disponível no cinema recente do momento em que a fantasia amorosa encontra o desgaste da convivência e nenhum dos dois cede. Cianfrance filma o fim acontecendo em tempo real, a erosão ainda em curso, o momento em que o amor ainda existe mas já não é suficiente para segurar o que está desmoronando. A idealização romântica é uma estrutura que o tempo e a convivência testam sem parar, e o que resta depois do teste é o amor real, se houver amor real, ou o vazio que ele deixa quando não há.