quarta-feira, 23 de setembro de 2026

No Coração do Mundo (2019) - 2 h 01 min

 


Dir: Gabriel Martins, Maurílio Martins

Drama


CLC Score: 7,4 (só público)





Sinopse

Na periferia de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, diferentes personagens atravessam uma rotina marcada por trabalhos precários, pequenos negócios, relações afetivas instáveis e pela necessidade constante de conseguir dinheiro. Entre eles estão Marcos, que tenta sobreviver entre atividades informais e pequenos delitos; Selma, sua companheira, que trabalha e procura alguma estabilidade; Ana, policial que conhece de perto aquele território; e Miro, homem ligado ao crime que começa a articular um plano capaz de oferecer a alguns deles a perspectiva de uma mudança financeira radical.

Essas trajetórias inicialmente parecem formar um painel relativamente disperso da comunidade, mas gradualmente convergem em torno da preparação de um assalto. O crime promete uma saída rápida para personagens que possuem poucas possibilidades concretas de alterar suas condições de vida, embora cada um projete sobre essa oportunidade desejos diferentes. Dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, No Coração do Mundo acompanha esse grupo sem separar rigidamente cotidiano e criminalidade, construindo um universo em que afeto, dinheiro, amizade, violência e esperança convivem dentro das mesmas relações.

Análise Crítica

Gabriel Martins e Maurílio Martins partem de um território que conhecem e que já ocupava lugar central na produção da Filmes de Plástico, coletivo surgido em Contagem e responsável por uma das experiências mais significativas do cinema brasileiro independente das últimas décadas. Essa proximidade é essencial para compreender No Coração do Mundo, porque a periferia não aparece como espaço observado de fora, definido previamente pela pobreza ou pela violência. Antes que o assalto adquira importância narrativa, o filme dedica tempo aos deslocamentos, trabalhos, festas, conversas, relações familiares e pequenas negociações que constituem a vida naquele lugar, fazendo com que o crime surja dentro de uma realidade social já existente, e não como aquilo que a define integralmente.

A construção coral reforça essa perspectiva. Em vez de estabelecer imediatamente um protagonista e organizar todos os acontecimentos ao redor dele, os diretores distribuem a atenção entre personagens cujas vidas se cruzam de maneiras diferentes. Essa estratégia exige algum tempo para revelar sua arquitetura, mas produz um efeito importante: nenhum indivíduo consegue representar sozinho aquele território. Há pessoas que trabalham dentro da legalidade, outras que transitam por atividades ilícitas, algumas que tentam conciliar diferentes estratégias de sobrevivência e outras que exercem autoridade institucional sem por isso deixarem de pertencer ao mesmo universo social.

Leo Pyrata, Grace Passô, Kelly Crifer e MC Carol integram um conjunto de interpretações que contribui decisivamente para essa sensação de comunidade. Grace Passô, em particular, confere a Selma uma presença que impede a personagem de existir apenas em função das escolhas de Marcos. O mesmo ocorre com Ana, cuja condição de policial introduz uma posição especialmente interessante dentro do filme: ela pertence àquele território ao mesmo tempo que representa uma instituição que exerce poder sobre ele. A divisão tradicional entre comunidade e autoridade torna-se, assim, menos simples do que seria num relato construído a partir de personagens inteiramente externos ao bairro.

O dinheiro atravessa praticamente todas essas relações sem precisar ser anunciado continuamente como tema. Ele aparece nas dificuldades cotidianas, nos trabalhos disponíveis, nas pequenas dívidas, nos desejos de consumo e na possibilidade oferecida pelo crime. No Coração do Mundo não reduz seus personagens à pobreza, mas tampouco romantiza a precariedade. A ausência de recursos limita escolhas concretas e modifica o horizonte dentro do qual cada pessoa consegue imaginar o futuro.

Quando o assalto começa a ocupar o centro da narrativa, o filme aproxima-se de códigos reconhecíveis do gênero criminal, mas preserva a atenção dedicada anteriormente ao cotidiano. Essa combinação impede que a preparação do crime transforme repentinamente os personagens em profissionais especializados. Eles continuam carregando relações, medos, impulsos e limitações que existiam antes do plano. A tensão decorre justamente da entrada de pessoas comuns numa situação que exige um grau de controle que suas próprias vidas raramente lhes permitiram possuir.

Há também uma recusa importante de transformar a periferia exclusivamente em espaço de sofrimento. Música, humor, desejo, amizade e sociabilidade convivem com a violência e a precariedade, evitando tanto a idealização quanto a representação miserabilista. Os diretores parecem interessados em devolver complexidade a um território frequentemente reduzido pelo audiovisual a algumas imagens recorrentes. A periferia de No Coração do Mundo não constitui um universo homogêneo, mas um espaço atravessado por diferenças internas, conflitos e projetos individuais.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

O título introduz uma das ideias fundamentais do filme ao inverter uma relação geográfica e simbólica muito comum. A periferia costuma ser definida a partir de um centro: ela é aquilo que está distante, aquilo que fica nas bordas, aquilo que precisa ser localizado em relação a outro lugar considerado mais importante. Ao chamar aquele território de “coração do mundo”, Gabriel Martins e Maurílio Martins recusam essa hierarquia. Para as pessoas que vivem ali, aquele espaço não é margem de alguma realidade mais significativa; é justamente o lugar a partir do qual o mundo é experimentado.

Essa mudança de perspectiva explica por que o filme dedica tanto tempo ao cotidiano antes de concentrar-se no assalto. Se os diretores começassem pelo crime, correriam o risco de confirmar uma imagem recorrente da periferia como território essencialmente definido pela ilegalidade. Ao mostrar primeiro as relações, os empregos, as festas e os desejos, estabelecem que a criminalidade constitui apenas uma das possibilidades existentes naquele ambiente, embora uma possibilidade cuja atração aumenta diante das limitações econômicas enfrentadas pelos personagens.

O dinheiro adquire então um significado que ultrapassa o consumo. Para quem possui estabilidade econômica, determinada quantia pode representar principalmente aquilo que será comprado com ela. Para vários personagens de No Coração do Mundo, entretanto, dinheiro significa capacidade de alterar a própria relação com o futuro. Possuir recursos permitiria deixar de responder continuamente às urgências do presente e começar a escolher alguma coisa.

É essa promessa que torna o assalto tão sedutor. O crime oferece aquilo que o trabalho disponível dificilmente parece capaz de proporcionar: uma ruptura. Não se trata simplesmente de ganhar mais dinheiro, mas de conseguir de uma só vez a quantidade necessária para mudar de posição. O risco enorme da operação torna-se compreensível quando comparado à perspectiva de continuar indefinidamente numa rotina em que esforço e sobrevivência estão muito próximos, mas esforço e transformação social permanecem distantes.

O filme não converte essa constatação numa justificativa moral automática para o crime. Marcos e os demais continuam responsáveis pelas escolhas que fazem, e a violência produz consequências que não desaparecem porque conhecemos as condições sociais dos personagens. A operação mais interessante realizada pelos diretores consiste justamente em substituir julgamento abstrato por compreensão concreta. Entender por que alguém aceita determinado risco não significa declarar que qualquer decisão tomada a partir dele seja legítima.

A preparação do assalto revela também uma diferença entre imaginar uma saída e possuir condições para realizá-la. Durante algum tempo, o plano permite que os envolvidos experimentem uma sensação de controle sobre o próprio destino. Existe um objetivo, uma sequência de ações e a expectativa de um resultado capaz de reorganizar suas vidas. Essa organização contrasta com a imprevisibilidade econômica que marca o cotidiano, no qual pequenas circunstâncias podem destruir qualquer planejamento.

Quando a operação começa a escapar ao controle, essa fantasia de domínio entra em colapso. O gênero criminal frequentemente constrói o assalto como demonstração de competência: personagens estudam um sistema, antecipam obstáculos e executam uma estratégia. No Coração do Mundo utiliza elementos dessa tradição, mas permite que a precariedade e a improvisação permaneçam dentro do mecanismo. O crime não suspende as condições anteriores da vida dos personagens; ele as transporta para uma situação muito mais perigosa.

Marcos representa de maneira especialmente clara essa dificuldade de transformar desejo em projeto. Ele quer alguma coisa diferente da vida que possui, mas nem sempre consegue converter essa insatisfação numa direção estável. O personagem circula entre possibilidades e impulsos, carregando uma inquietação que não encontra facilmente uma forma produtiva de realização. O assalto oferece a ilusão de condensar numa única ação aquilo que ele não conseguiu construir gradualmente.

Selma introduz uma perspectiva diferente porque sua relação com a realidade material é mais diretamente ligada à necessidade de organizar a vida cotidiana. Ela conhece os limites daquele mundo sem precisar transformá-los numa aventura. Por isso, sua presença impede que o filme associe automaticamente desejo de mudança à transgressão. Existem diferentes maneiras de tentar sobreviver e construir alguma autonomia dentro do mesmo território, ainda que todas estejam submetidas a restrições semelhantes.

A personagem de Ana torna ainda mais complexa a divisão entre legalidade e ilegalidade. Como policial e moradora daquele universo social, ela demonstra que as instituições não existem simplesmente fora da periferia. A autoridade também possui rosto, relações, interesses e contradições. Essa proximidade impede uma oposição fácil entre um Estado inteiramente exterior e uma comunidade inteiramente homogênea.

O filme parece particularmente interessado nessas zonas de contato. Pessoas que se conhecem podem ocupar posições sociais diferentes; alguém pode participar de um crime e continuar sendo companheiro, vizinho ou amigo; uma policial pode representar o aparato estatal sem deixar de possuir vínculos com o território em que atua. A vida comunitária não desaparece quando surgem conflitos de poder, e justamente por isso esses conflitos tornam-se mais complexos.

A violência que emerge na parte final modifica o sentido da expectativa construída em torno do dinheiro. Aquilo que deveria funcionar como instrumento de liberdade passa a produzir novas formas de aprisionamento, porque cada decisão gera consequências que exigem outras decisões. O atalho capaz de eliminar a precariedade revela sua própria precariedade.

Essa transformação impede que o assalto funcione como fantasia de ascensão social. O dinheiro pode modificar condições materiais, mas não existe isoladamente das relações através das quais foi obtido. Quando sua conquista depende de violência, segredo e risco, aquilo que deveria ampliar possibilidades pode reduzir dramaticamente o número de caminhos disponíveis.

É nesse ponto que o título retorna com outro significado. Estar “no coração do mundo” não significa que os personagens tenham finalmente chegado a algum centro de poder. Significa reconhecer que suas experiências já pertenciam ao mundo e mereciam ser tratadas como centrais antes de qualquer deslocamento social. A legitimidade de suas vidas não depende de conseguir escapar da periferia.

Essa ideia distingue o filme de narrativas em que a vitória de um personagem periférico é medida pela capacidade de abandonar seu lugar de origem. Gabriel Martins e Maurílio Martins não negam que seus personagens desejem outras condições materiais, mas recusam a premissa de que o território precise ser deixado para adquirir valor cinematográfico. A transformação necessária é econômica e social, não uma validação externa de que aquelas pessoas finalmente chegaram a um lugar digno de ser visto.

Conclusão

No Coração do Mundo utiliza uma história criminal para investigar uma questão que começa muito antes da preparação do assalto: o que significa imaginar um futuro quando grande parte da energia cotidiana precisa ser empregada simplesmente para manter o presente funcionando? A resposta do filme não é única porque seus personagens desenvolvem estratégias diferentes diante da mesma limitação. Alguns trabalham, outros improvisam, alguns atravessam a fronteira da ilegalidade e vários combinam essas possibilidades de maneiras contraditórias.

A força da narrativa está em não transformar essas pessoas em exemplos destinados a comprovar previamente uma tese sobre a periferia brasileira. Gabriel Martins e Maurílio Martins concedem a elas contradições que normalmente são reservadas aos personagens percebidos como indivíduos, e não como representantes de um problema social. Podem ser generosas e egoístas, responsáveis e impulsivas, amorosas e violentas sem que cada comportamento precise ser explicado diretamente por sua condição econômica.

Essa complexidade modifica também a representação do território. Contagem não é apresentada como lugar do qual a narrativa precisa escapar para encontrar acontecimentos relevantes. As relações capazes de sustentar o filme já estão ali, e a câmera reconhece como centro aquilo que uma organização tradicional da cidade classificaria como periferia.

O assalto torna-se especialmente significativo porque promete inverter rapidamente a relação dos personagens com o dinheiro, mas termina expondo os limites dessa fantasia. A precariedade não é apenas ausência de recursos; ela também significa ausência de margem para errar. Quem dispõe de pouca proteção econômica e institucional pode experimentar consequências enormes diante de uma única decisão equivocada, e o risco assumido para escapar dessa condição pode aprofundá-la ainda mais.

O filme evita, contudo, transformar essa constatação em fatalismo. Seus personagens não são condenados simplesmente porque nasceram ou vivem naquele lugar, assim como o bairro não é representado como máquina inevitável de produzir violência. O que existe é uma distribuição desigual de possibilidades, dentro da qual determinadas escolhas custam mais e determinadas saídas parecem menos disponíveis.

Ao colocar amizade, desejo, trabalho, crime e vida familiar dentro do mesmo campo narrativo, No Coração do Mundo recusa a divisão entre uma periferia cotidiana e outra excepcionalmente violenta. Tudo pertence ao mesmo espaço social, assim como cada personagem possui dimensões que não podem ser reduzidas à ocupação profissional ou à relação com a legalidade.

O sentido mais amplo do título nasce dessa recusa. O “coração do mundo” não precisa ser descoberto em algum lugar distante nem alcançado depois de uma ascensão econômica. Ele pode estar numa rua de Contagem, numa festa, numa casa, num trabalho mal remunerado ou numa conversa entre pessoas que tentam descobrir o que fazer com suas vidas. O gesto político e cinematográfico de Gabriel Martins e Maurílio Martins consiste em não pedir autorização a nenhum centro para reconhecer essa centralidade.

A periferia, em No Coração do Mundo, não precisa tornar-se outra coisa para merecer ser filmada. O que precisa mudar é o olhar acostumado a enxergá-la apenas como margem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário