Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
VALE O PLAY: Prime Video - Edição 2
Truman Capote passou seis anos escrevendo A Sangue Frio. O livro foi um sucesso extraordinário. Capote nunca mais escreveu nada.
Bennett Miller, Dan Futterman e o projeto
Capote foi produzido com orçamento de 7 milhões de dólares e arrecadou 49,9 milhões mundialmente. É o primeiro longa-metragem de ficção de Bennett Miller, que havia dirigido o documentário The Cruise em 1998. O roteiro é de Dan Futterman, baseado na biografia de Truman Capote escrita por Gerald Clarke e publicada em 1988.Miller e Philip Seymour Hoffman eram amigos desde que frequentaram juntos um programa de teatro quando Miller tinha 16 anos. Quando Miller desenvolveu o projeto, sabia que era Hoffman e apenas Hoffman que precisava. A confiança da escolha foi validada pelos resultados: Hoffman venceu o Oscar de Melhor Ator, o BAFTA de Melhor Ator, o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama e o SAG Award de Melhor Ator pelo mesmo papel.
Truman Capote e A Sangue Frio
Em novembro de 1959, Truman Capote leu no New York Times uma notícia de quatro parágrafos sobre o assassinato de uma família inteira numa fazenda em Holcomb, Kansas. Foi ao local investigar para a revista The New Yorker. Levou consigo a amiga de infância Harper Lee, que havia acabado de terminar o manuscrito de O Sol é Para Todos. O que Capote encontrou em Holcomb mudou o que ele achava que a literatura podia fazer.Capote passou seis anos em Kansas, tornando-se próximo dos dois assassinos Perry Smith e Dick Hickock, especialmente de Perry Smith, cuja infância marcada por abuso e abandono Capote reconhecia como espelho da sua própria. A Sangue Frio foi publicado em 1966 e é considerado o fundador do gênero jornalismo literário. Vendeu milhões de cópias, tornou Capote a celebridade literária mais famosa do mundo naquele momento, e foi o último livro que ele completou antes de morrer em 1984.
O que o filme examina
Capote não é um filme sobre o crime que A Sangue Frio documenta. É um filme sobre o que acontece com um escritor quando o material que escolheu é grande demais para sobreviver a ele. O argumento central de Miller e Futterman é que Capote precisava que Perry Smith fosse executado para que o livro pudesse terminar, e que a consciência desse conflito de interesses foi o que destruiu a capacidade criativa de Capote depois da publicação.Capote construiu uma relação com Perry Smith que o livro precisava, uma relação de proximidade e de confiança que permitiu que Perry contasse coisas que não havia contado antes, e ao mesmo tempo sabia que estava usando essa relação para um fim que Perry não aprovaria se soubesse completamente. Essa traição silenciosa, nunca declarada, nunca admitida, é o coração moral do filme.
Philip Seymour Hoffman e a performance
Miller descreveu a abordagem de Hoffman ao papel: "Hoffman não conseguia imitar. Não conseguia dizer 'tenho que fazer isso e acertar aquela marca'. Tinha que dizer a si mesmo o que Capote teria dito a si mesmo, apenas para se colocar onde Capote estaria naquele momento."O resultado é tecnicamente extraordinário: Hoffman construiu a voz de Capote, o sotaque específico, a gestualidade, a forma de ocupar o espaço numa festa de nova-iorquinos sofisticados versus a forma de ocupar o espaço numa cela no corredor da morte do Kansas. Mas o que distingue a performance de uma imitação é que Hoffman encontrou a lógica interna que produzia esses comportamentos externos: a insegurança de alguém que aprendeu desde criança a usar o charme e a performance como instrumentos de sobrevivência num mundo que não o aceitaria de outra forma.
Miller disse que havia paralelos na vida de Hoffman com a vida de Capote que eram evidentes e que só se tornaram mais evidentes com o tempo. Hoffman morreu de overdose em 2014. A observação de Miller, feita antes da morte de Hoffman, ganhou uma dimensão que nenhum dos dois poderia ter antecipado.
Catherine Keener e Harper Lee
Catherine Keener interpreta Harper Lee com uma precisão que o papel não exigia em termos de tempo de tela mas que o filme precisava em termos de argumento moral. Harper Lee é a consciência do filme: a amiga que observa Capote de perto, que o conhece melhor do que qualquer outra pessoa, e que vê o que está acontecendo com ele à medida que a relação com Perry Smith aprofunda e o livro avança.A cena em que Harper Lee diz a Capote que ele não pode ser o amigo de Perry Smith e ao mesmo tempo escrever o livro que está escrevendo é o momento mais explícito do argumento moral do filme, e Keener e Hoffman a entregam com uma qualidade de conversa real, de dois adultos que se conhecem há décadas e que sabem que estão discutindo algo que nenhum dos dois pode resolver.
Adam Kimmel e a fotografia
A fotografia de Adam Kimmel usa o Kansas dos anos 1960, suas planícies, sua luz fria, seus interiores severos, como argumento sobre o isolamento de Capote num ambiente completamente diferente de tudo o que conhecia. Nova York e Kansas são filmados com paletas e qualidades de luz diferentes, e a transição entre os dois mundos ao longo do filme cria uma sensação de deslocamento que replica o que Capote estava vivendo: um homem que foi longe demais de onde começou para conseguir voltar completamente.
O legado de Philip Seymour Hoffman
Capote é o filme que a maioria dos críticos cita quando fala de Philip Seymour Hoffman como um dos maiores atores americanos da sua geração. É a performance que justifica essa avaliação não por exibicionismo técnico mas pelo que Hoffman encontrou dentro do personagem: um homem que usou a arte para destruir o que o tornava humano, e que pagou o preço pelo resto da vida.
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