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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Estrangeiro (2025) L'étranger - 2 h 2 min



O Estrangeiro (2025) - IMDb
Dir: François Ozon
Crime, Drama


AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 8,2
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,7
91%Tomatometer

Quando nada faz sentido, até existir se torna um ato estranho.


Um Homem Desalinhado do Mundo

O Estrangeiro (2025), dirigido por François Ozon, acompanha Meursault, um personagem que parece sempre deslocado da própria vida. Ele não reage como se espera, não sente como os outros, não performa emoção. A morte da mãe não o abala, o amor não o transforma, e o mundo ao redor parece passar por ele sem realmente tocá-lo.


A Indiferença Como Escândalo

O mais desconcertante não é o crime em si, mas o modo como ele acontece. Quase sem intenção clara, quase sem explicação. E depois, no julgamento, o filme deixa evidente que o problema não é só o que Meursault fez, mas quem ele é. A sociedade não julga apenas o ato, mas a incapacidade dele de seguir as regras invisíveis da emoção.


O Absurdo em Preto e Branco


A escolha estética de filmar em preto e branco reforça essa sensação de distanciamento. Tudo parece seco, duro, sem espaço para conforto. Não existe romantização aqui. O filme abraça o vazio e transforma isso em linguagem. É como se a imagem também recusasse qualquer calor humano, refletindo o próprio estado interno do protagonista.


Mais do que Adaptação, Uma Revisita


Baseado no clássico de Albert Camus, o filme não tenta suavizar a obra original. Pelo contrário, ele atualiza sua dureza. Ao ampliar certos elementos, como as personagens femininas e o contexto colonial, a adaptação propõe uma leitura mais crítica e contemporânea sem perder o núcleo existencialista da história.


O Julgamento do Invisível

No fim, O Estrangeiro não é sobre um assassinato. É sobre o desconforto que alguém causa ao simplesmente não se encaixar. O filme expõe uma ideia incômoda: talvez a sociedade não tolere quem não joga o jogo emocional coletivo. E talvez o verdadeiro crime de Meursault seja não fingir que a vida faz sentido.

 









terça-feira, 31 de março de 2026

Caso 137 (2025) Dossier 137 - 1 h 55 min



Caso 137 (2025) - IMDb
Dir: Dominik Moll
Crime, Drama

Disponível em streaming no Reserva Imovision

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 7,3
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,3
93%Tomatometer

Alguém atirou na cabeça de um manifestante. Stéphanie foi descobrir quem. O sistema foi descobrir como proteger os seus.


Moll depois de A Noite do 12

Dominik Moll reencontra seu roteirista habitual Gilles Marchand em Caso 137, seu terceiro filme de gênero consecutivo depois de Apenas os Animais e do estrondoso sucesso de A Noite do 12. A comparação com A Noite do 12 é inevitável e em parte desfavorável: aquele filme usava o procedimento policial para investigar algo mais profundo sobre misoginia e impunidade. Caso 137 usa o mesmo procedimento para investigar a violência policial durante os protestos dos Coletes Amarelos, e o resultado é tecnicamente sólido e tematicamente menos surpreendente do que o antecessor sugeria que seria.

Stéphanie e a posição impossível

Caso 137 coloca o espectador num lugar desconfortável: entre a lei e a ordem, o bom policial e o mau policial, o manifestante e o agitador, levantando perguntas para as quais não há respostas simples. Stéphanie Bertrand trabalha na IGPN, a polícia que investiga a própria polícia, e sua posição estrutural é o argumento mais interessante do filme: ela é o sistema tentando se responsabilizar, o que é uma tarefa que o sistema projetou para falhar. Léa Drucker carrega essa contradição com uma precisão que torna Stéphanie simultaneamente competente, limitada e humana, o que é o equilíbrio mais difícil disponível para um personagem nessa posição.

O procedimento como tensão e como limitação

É um filme sobre perguntas. Sobre o negócio oficial de fazê-las, as novas que instantaneamente substituem as respondidas e as suprimidas que envenenam qualquer chance de igualdade social. Moll filma o processo investigativo com uma paciência que replica a burocracia real: depoimentos contraditórios, câmeras que não filmaram o ângulo certo, testemunhos que mudam com a pressão. O problema é que essa fidelidade ao procedimento real torna o segundo ato mais árido do que deveria. 

Léa Drucker e o peso de cada cena

Dizer que Léa Drucker carrega o filme nos ombros é um eufemismo. Ela é o filme, e o filme vale ser visto pela performance dela sozinha. Drucker encontrou em Stéphanie um personagem que exige contenção absoluta numa situação que pede explosão, e essa tensão entre o estado interno e a postura profissional é onde ela entrega seu melhor trabalho. Ganhou o César de Melhor Atriz por essa performance, e o prêmio é justo: é uma das atuações mais economicamente precisas do cinema francês recente.

O que o filme diz sobre a França e o que não diz

Caso 137 é baseado num episódio real dos protestos dos Coletes Amarelos de 2018, e a triste ironia do filme é que ambas as mulheres centrais querem fazer a coisa certa. O problema é que vivem num mundo onde não se trata mais de certo ou errado, mas de de que lado você está. Essa dimensão política poderia ter sido explorada com mais radicalidade, e é onde a comparação com o Godard que teria feito um filme muito diferente sobre o mesmo tema pesa sobre Moll. O diretor optou pela contenção social-realista quando o material talvez pedisse algo mais disposto a incomodar.

Onde assistir e o que esperar

O filme teve sua estreia mundial na competição principal do Festival de Cannes de 2025, onde concorreu à Palme d'Or. Está disponível em plataformas europeias com acesso variável no Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. Os 115 minutos são densos no primeiro e no terceiro atos e mais áridos no segundo, onde o acúmulo de procedimento investigativo testa a paciência antes de a tensão retornar. Chegar ao filme sem expectativa de thriller convencional é a melhor preparação: o que Moll oferece é mais próximo do docudrama do que do suspense.

Um bom filme que poderia ter sido mais

Caso 137 é um thriller político competente com uma performance central excepcional e um argumento sobre impunidade institucional que o cinema francês raramente aborda com essa clareza. O que falta é a disposição de ir além do que o procedimento permite, de fazer o sistema desconfortável de forma que a investigação interna, por definição, não consegue. Moll entrega um filme honesto sobre os limites da accountability dentro de uma instituição que controla seus próprios limites. É um argumento válido e bem executado. É também um argumento que fica seguro exatamente onde poderia arriscar.


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