Crime, Drama
Disponível em streaming no Reserva Imovision
AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2 METASCORE: 7,3
Letterboxd: 7,0 CLC Balanced Rating: 7,3
93%Tomatometer
Alguém atirou na cabeça de um manifestante. Stéphanie foi
descobrir quem. O sistema foi descobrir como proteger os seus.
Moll depois de A Noite do 12
Dominik Moll reencontra seu roteirista habitual Gilles
Marchand em Caso 137, seu terceiro filme de gênero consecutivo depois de Apenas
os Animais e do estrondoso sucesso de A Noite do 12. A comparação com A Noite
do 12 é inevitável e em parte desfavorável: aquele filme usava o procedimento
policial para investigar algo mais profundo sobre misoginia e impunidade. Caso
137 usa o mesmo procedimento para investigar a violência policial durante os
protestos dos Coletes Amarelos, e o resultado é tecnicamente sólido e
tematicamente menos surpreendente do que o antecessor sugeria que seria.
Stéphanie e a posição impossível
Caso 137 coloca o espectador num lugar desconfortável: entre
a lei e a ordem, o bom policial e o mau policial, o manifestante e o agitador,
levantando perguntas para as quais não há respostas simples. Stéphanie Bertrand
trabalha na IGPN, a polícia que investiga a própria polícia, e sua posição
estrutural é o argumento mais interessante do filme: ela é o sistema tentando
se responsabilizar, o que é uma tarefa que o sistema projetou para falhar. Léa
Drucker carrega essa contradição com uma precisão que torna Stéphanie
simultaneamente competente, limitada e humana, o que é o equilíbrio mais
difícil disponível para um personagem nessa posição.
O procedimento como tensão e como limitação
É um filme sobre perguntas. Sobre o negócio oficial de
fazê-las, as novas que instantaneamente substituem as respondidas e as
suprimidas que envenenam qualquer chance de igualdade social. Moll filma o
processo investigativo com uma paciência que replica a burocracia real:
depoimentos contraditórios, câmeras que não filmaram o ângulo certo,
testemunhos que mudam com a pressão. O problema é que essa fidelidade ao
procedimento real torna o segundo ato mais árido do que deveria.
Léa Drucker e o peso de cada cena
Dizer que Léa Drucker carrega o filme nos ombros é um
eufemismo. Ela é o filme, e o filme vale ser visto pela performance dela
sozinha. Drucker encontrou em Stéphanie um personagem que exige contenção
absoluta numa situação que pede explosão, e essa tensão entre o estado interno
e a postura profissional é onde ela entrega seu melhor trabalho. Ganhou o César
de Melhor Atriz por essa performance, e o prêmio é justo: é uma das atuações
mais economicamente precisas do cinema francês recente.
O que o filme diz sobre a França e o que não diz
Caso 137 é baseado num episódio real dos protestos dos
Coletes Amarelos de 2018, e a triste ironia do filme é que ambas as mulheres
centrais querem fazer a coisa certa. O problema é que vivem num mundo onde não
se trata mais de certo ou errado, mas de de que lado você está. Essa dimensão
política poderia ter sido explorada com mais radicalidade, e é onde a
comparação com o Godard que teria feito um filme muito diferente sobre o mesmo
tema pesa sobre Moll. O diretor optou pela contenção social-realista quando o
material talvez pedisse algo mais disposto a incomodar.
Onde assistir e o que esperar
O filme teve sua estreia mundial na competição principal do
Festival de Cannes de 2025, onde concorreu à Palme d'Or. Está disponível em
plataformas europeias com acesso variável no Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. Os 115 minutos são densos
no primeiro e no terceiro atos e mais áridos no segundo, onde o acúmulo de
procedimento investigativo testa a paciência antes de a tensão retornar. Chegar
ao filme sem expectativa de thriller convencional é a melhor preparação: o que
Moll oferece é mais próximo do docudrama do que do suspense.
Um bom filme que poderia ter sido mais
Caso 137 é um thriller político competente com uma
performance central excepcional e um argumento sobre impunidade institucional
que o cinema francês raramente aborda com essa clareza. O que falta é a
disposição de ir além do que o procedimento permite, de fazer o sistema
desconfortável de forma que a investigação interna, por definição, não
consegue. Moll entrega um filme honesto sobre os limites da accountability
dentro de uma instituição que controla seus próprios limites. É um argumento
válido e bem executado. É também um argumento que fica seguro exatamente onde
poderia arriscar.
Clique aqui para conhecer as mostras temáticas da Filmoteca