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ANSIEDADE - Do Cotidiano ao Limite
O gênero como armadilha e como argumento
Panic começa com todos os elementos de um thriller sobre assassino profissional e vai sistematicamente recusando as convenções do gênero. O que há é um homem sentado num consultório de terapia tentando encontrar palavras para algo que nunca teve palavras. Henry Bromell usa o gênero como armadilha para o espectador: você chega esperando um tipo de filme e encontra outro, e essa desorientação replica a experiência de Alex, que também chegou à própria vida esperando um tipo de história e encontrou outra.Os ataques de pânico como linguagem do corpo
O que Panic retrata com uma precisão rara é o mecanismo específico pelo qual o transtorno do pânico emerge em pessoas que passaram a vida suprimindo o que sentem. Alex não desenvolveu ataques de pânico por acaso: desenvolveu porque o sistema que usava para manter a ansiedade sob controle, o profissionalismo, a rotina, a separação entre trabalho e vida, parou de funcionar. O corpo encontrou uma saída para o que a mente não admitia. Bromell filma os ataques com a mesma sobriedade que filma tudo: o pânico de Alex é real precisamente porque não é espetacular.
Donald Sutherland e a origem do problema
Michael Lerner é o pai de Alex, o homem que o iniciou no ofício e que representa tudo que Alex está tentando deixar de ser. A relação entre os dois é o coração sombrio do filme: o pai que transmitiu ao filho não apenas uma profissão mas um modo de existir no mundo, uma forma de suprimir o que se sente em nome do que se faz. Bromell filma essa relação com uma economia que é ela mesma um argumento: quanto menos os dois dizem, mais fica claro o que foi transmitido e o que Alex está pagando por isso.
A terapia como espaço de risco
As cenas de Alex no consultório do terapeuta, interpretado por John Ritter numa das suas melhores performances, são onde o filme encontra sua melhor forma. Alex chega com resistência, com ironia, com a suspeita de que falar sobre o que sente é uma forma de fraqueza. E vai sendo desarmado não por grandes revelações mas pelo simples processo de ter que encontrar palavras para o que nunca foi nomeado. Bromell entendeu que a terapia filmada de forma honesta não é dramática: é lenta, desconfortável e produtiva de maneira que só aparecem muito depois de cada sessão.
Onde assistir e o que esperar
Panic está disponível em plataformas com disponibilidade variável e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem um ritmo que combina a contenção do drama de câmara com a tensão latente do thriller que nunca se realiza completamente. William H. Macy, Neve Campbell, Donald Sutherland e John Ritter formam um elenco que o filme usa com uma economia que amplifica cada cena. É um dos filmes mais subestimados do cinema americano independente dos anos 2000 e um dos retratos mais honestos disponíveis sobre o que acontece quando o corpo decide parar de obedecer ao que a mente ordenou a vida inteira.A ansiedade que explode sem aviso
Panic coloca a ansiedade no lugar mais inesperado possível: num homem que passou a vida inteira sendo pago para ser frio, preciso e indiferente ao que sente. O pânico de Alex é o sinal de que alguma parte dele ainda está intacta, ainda responde ao que a vida que construiu exige que ignore. Panic define a ansiedade que explode sem aviso. A ansiedade não tem uma forma, não tem um rosto, não tem um momento certo para aparecer. Ela simplesmente ocupa. E quando ultrapassa o limite, não pede licença para ninguém.