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"Cantando na Chuva" é uma comédia musical que se passa na transição do cinema mudo para o cinema falado. A história segue Don Lockwood, um astro do cinema mudo, e sua luta para se adaptar às novas tecnologias e às mudanças na indústria cinematográfica. Ele se envolve em um romance com uma jovem aspirante a atriz, Kathy Selden, enquanto enfrenta os desafios impostos pela sua parceira de cena, Lina Lamont, cuja voz é inaceitável para os filmes sonoros.
Dir: Stanley Donen, Gene Kelly
Comédia Romântica, Jukebox Musical, Musical Clássico, Romance Alegre, Sátira
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 8,3 METASCORE: 9,9
FLICKMETRIX: 90 Letterboxd: 8,6
O filme mais feliz da história do cinema esconde dentro de si um argumento bastante sério sobre ilusão e artifício.
A chuva que não molha ninguém
Singin' in the Rain começa numa première de Hollywood em 1927 e termina num palco onde as cortinas se abrem e a verdade aparece literalmente: a voz que o público achava que estava ouvindo vinha de outro lugar. Stanley Donen e Gene Kelly constroem o filme inteiro sobre essa tensão entre aparência e realidade, entre o que Hollywood vende e o que Hollywood é, entre a performance que o público recebe e o trabalho que a performance esconde. E fazem isso com uma leveza e uma alegria tão genuínas que o argumento chega sem que o espectador perceba que está recebendo um argumento.
O contexto histórico é preciso e usado de forma precisa: a transição do cinema mudo para o sonoro em Hollywood no final dos anos 1920, um momento de pânico institucional em que estrelas que haviam construído carreiras inteiras na linguagem do corpo e da expressão facial descobriam que a voz podia destruir tudo que haviam construído. Donen e Kelly usam esse momento histórico como motor narrativo e como metáfora sobre a natureza do entretenimento industrial.
Donen, Kelly e a coreografia como argumento
Gene Kelly coreografou Singin' in the Rain com uma consciência de que a dança no cinema pode fazer coisas que a dança no palco não pode: usar o espaço da cidade, interagir com objetos cotidianos, existir em locações que o teatro não alcança. A sequência que dá nome ao filme, Kelly dançando sob chuva numa rua de Hollywood com um guarda-chuva e um poste de luz, é o momento mais reconhecível do cinema musical americano porque captura algo sobre a alegria física que nenhuma outra sequência capturou com a mesma simplicidade.
Kelly passou dias ensaiando sob chuva artificial com febre alta, e essa informação é parte do argumento do filme sobre o trabalho que a performance esconde: o que parece espontâneo e leve é o resultado de um esforço que o espectador não vê e que não deveria ver, porque ver o esforço quebraria a ilusão que o esforço está construindo. Donen e Kelly estão fazendo um filme sobre ilusão usando todos os instrumentos da ilusão, e a honestidade dessa posição é parte do que torna o filme mais inteligente do que parece.
O trio e o que cada um carrega
Gene Kelly interpreta Don Lockwood com um charme físico que o filme usa de forma consciente: Don é uma estrela que construiu uma persona pública que não corresponde completamente à pessoa privada, e Kelly habita essa duplicidade com uma facilidade que é ela mesma uma performance sobre performance. Donald O'Connor como Cosmo Brown existe numa frequência cômica que o filme usa como válvula de pressão: as sequências de O'Connor, especialmente Make 'Em Laugh, têm uma energia física que chega à beira do surrealismo e que alivia o peso do que o filme está examinando sem diminuir esse peso.
Debbie Reynolds como Kathy Selden é o personagem através do qual o filme examina o que acontece com quem tem talento real num sistema que privilegia a aparência sobre o talento. Kathy tem voz, tem presença, tem o que Lina Lamont não tem, e o sistema que deveria reconhecer isso prefere usar Kathy de forma invisível para sustentar a ilusão de Lina. Reynolds tinha dezenove anos quando filmou Singin' in the Rain e aprendeu a dançar em semanas para o papel, e essa trajetória replica de forma biográfica o que o personagem está vivendo dentro do filme.
Lina Lamont e o sistema que a criou
Jean Hagen interpreta Lina Lamont com uma precisão cômica que o filme precisa que seja também uma precisão crítica. Lina não é apenas o alvo da comédia sobre a estrela sem voz: é o produto de um sistema que a fabricou como produto, que construiu ao redor dela uma persona que nunca correspondeu à pessoa, e que agora descobre que a persona tem prazo de validade e que a pessoa por baixo não tem os recursos para sobreviver ao vencimento.
Hagen recebeu indicação ao Oscar pela performance e a indicação é justa por razões que o filme não verbaliza: Lina Lamont é simultaneamente ridícula e trágica, e Hagen sustenta essa ambiguidade sem colapsar num dos dois lados. O sistema de Hollywood que Singin' in the Rain examina com humor produziu Lina Lamonts reais, estrelas construídas sobre ilusões que o som ou o tempo ou a mudança de gosto destruiu, e o filme sabe disso mesmo enquanto ri.
Broadway Melody e o filme dentro do filme
A sequência de Broadway Melody, o número musical elaborado que Don Lockwood propõe como adição ao filme que estão fazendo, é o momento em que Singin' in the Rain decide ser ambicioso de uma forma diferente do resto. São quinze minutos de cinema musical que existem dentro do filme como visão do futuro do entretenimento, filmados com uma escala e uma inventividade visual que contrasta deliberadamente com o resto do filme.
Donen e Kelly usam essa sequência para mostrar o que o cinema sonoro tornava possível que o mudo não tornava, e ao mesmo tempo para examinar o excesso que essa possibilidade carregava: Broadway Melody é simultaneamente uma celebração do espetáculo e uma demonstração de que o espetáculo pode se tornar sua própria justificativa, grande demais para significar qualquer coisa além de sua própria grandeza. É o momento mais autoconsciente do filme, e que existe dentro de um filme já bastante autoconsciente.
Onde assistir e o que esperar
Singin' in the Rain está disponível em plataformas de streaming com boa qualidade de cópia, e a qualidade importa porque Harold Rosson fotografou o filme numa Technicolor que usa o vermelho e o amarelo e o azul com uma saturação que era argumento estético na época e continua sendo argumento estético agora. O filme tem 103 minutos que não têm cena desperdiçada, e a segunda visita, prestando atenção ao que o filme está dizendo sobre Hollywood em vez de apenas ao prazer que está oferecendo, revela uma camada de crítica institucional que a superfície radiante esconde com eficiência. A trilha é inseparável da experiência: Good Morning, Make 'Em Laugh e a sequência título são três dos números musicais mais bem realizados da história do gênero, e funcionam tanto para quem conhece o contexto histórico quanto para quem está chegando ao filme pela primeira vez.
A alegria que sabe o que custa
Singin' in the Rain pertence à lista do Sight & Sound 2022 no décimo lugar, e sua presença ali é a mais improvável da lista para quem associa grandeza cinematográfica a seriedade formal. É um musical de estúdio de 1952, feito dentro do sistema que examina, usando os instrumentos do entretenimento industrial para fazer uma crítica ao entretenimento industrial, e fazendo tudo isso com uma alegria tão genuína que a crítica chega como presente em vez de chegar como lição.
Que um eleitorado que colocou Jeanne Dielman no primeiro lugar tenha colocado Singin' in the Rain no décimo é o argumento mais claro que a lista de 2022 faz sobre o que o campo decidiu valorizar: não um tipo único de grandeza, não apenas o cinema que desafia e perturba, mas também o cinema que entrega prazer com a inteligência suficiente para saber o que está entregando e por quê.