Mostrando postagens com marcador Stephen Frears. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stephen Frears. Mostrar todas as postagens

domingo, 31 de maio de 2026

Florence: Quem é Essa Mulher? (2016) Florence Foster Jenkins - 1 h 51 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Biografia, Comédia, Drama, Música

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,8   METASCORE: 7,1
Letterboxd: 6,4   Flick Metrix: 7,0
87%Tomatometer235 Reviews

Florence achava que tinha a voz mais bonita do mundo. Não tinha. O filme não é sobre isso.

Florence Foster Jenkins e a história real

Florence Foster Jenkins nasceu em 1868 numa família abastada da Pensilvânia e passou décadas como socialite e mecenas musical em Nova York, financiando concertos e organizando recitais nos quais ela própria cantava. O problema era que Florence cantava desafinado de uma forma que a crítica musical descrevia como extraordinária em seus defeitos: não era simplesmente ruim, era ruim com uma consistência e uma dedicação que produzia nos ouvintes uma reação entre o riso e o desconforto.

O que tornava Florence fascinante não era a falta de talento mas a completa ausência de consciência dessa falta. Florence acreditava genuinamente que tinha uma voz extraordinária, e o marido St. Clair Bayfield passava a vida gerenciando os concertos para garantir que apenas plateias selecionadas e dispostas a protegê-la ouvissem. Em outubro de 1944, com 76 anos, Florence alugou o Carnegie Hall para um recital aberto. A plateia lotou. Florence morreu um mês depois.

O filme foi dirigido por Stephen Frears e produzido com orçamento de 29 milhões de dólares, arrecadando 56 milhões mundialmente. Streep recebeu sua 20ª indicação ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel.

Meryl Streep cantando desafinado

A exigência técnica de Florence Foster Jenkins é inversa à de A Escolha de Sofia: em vez de dominar uma habilidade ao ponto da perfeição, Streep precisava desafinar de forma consistente e específica, replicando os defeitos documentados das gravações reais de Florence com a precisão de uma atriz com voz treinada que está deliberadamente fazendo o oposto do que a voz quer fazer.

O resultado é ao mesmo tempo engraçado e devastador. Engraçado porque a incompetência específica de Florence produz momentos de humor genuíno. Devastador porque Streep nunca permite que Florence seja apenas cômica: Florence canta com uma convicção e uma alegria que o espectador reconhece como autênticas, e essa autenticidade é o que torna a situação trágica além do cômico.

Hugh Grant e o personagem mais complexo do filme

Críticos e espectadores apontaram Hugh Grant como a revelação do filme, com uma performance que supera em complexidade o que seria esperado do papel. Bayfield ama Florence genuinamente e ao mesmo tempo mantém uma amante num apartamento separado pago pela própria Florence. Vive uma dupla vida que o filme não condena e não absolve: a lealdade de Bayfield a Florence é real, e o que ele faz para protegê-la das críticas tem a qualidade de um ato de amor que tomou uma forma torta. 

Grant constrói Bayfield como um homem que descobriu tardiamente que a forma mais importante do amor que sente por Florence é protegê-la da verdade, e que essa proteção tem um custo que ele paga sem reclamar. É a performance mais contida e mais precisa da carreira de Grant.


Clique aqui para saber onde assistir

Siga a Filmoteca no Instagram. Você vai assistir melhor.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Alta Fidelidade (2000) High Fidelity - 1 h 53 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado

Rob, dono de uma loja de discos e criador de listas compulsivo, relata seus cinco principais términos de relacionamento, incluindo o que está em andamento.


Alta Fidelidade (2000) - IMDb
Dir: Stephen Frears
Comédia Romântica, Romance Alegre, Drama, Música



MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 7,9
Letterboxd: 7,2   Flick Metrix: 7,8
91%Tomatometer165 Reviews

Um homem que sabe tudo sobre música e quase nada sobre por que as pessoas que amou foram embora.

O inventário como fuga

Rob Gordon tem uma loja de discos em Chicago, um conhecimento enciclopédico de música pop e uma capacidade notável de organizar qualquer coisa em listas exceto a própria vida emocional. Alta Fidelidade começa com o fim do relacionamento de Rob com Laura e com Rob construindo mentalmente o ranking dos cinco maiores términos de sua vida, não para entender o que aconteceu mas para administrar o que está sentindo através do instrumento que sempre usou para administrar o que sente: a classificação, a catalogação, a transformação da experiência em lista que pode ser ordenada e controlada.

Stephen Frears adapta o romance de Nick Hornby com uma fidelidade ao espírito do livro que sobrevive à transposição de Londres para Chicago sem perder nada essencial, porque o que Hornby estava descrevendo não é geograficamente específico. É um tipo de homem que existe em qualquer cidade grande com lojas de discos e tempo livre para pensar demais sobre a própria vida sentimental enquanto evita fazer qualquer coisa concreta a respeito dela.


Frears e o monólogo como método

A decisão mais importante de Frears é manter os monólogos diretos para a câmera que o livro usa em forma de narração em primeira pessoa. Rob fala com o espectador ao longo de todo o filme, explica seu raciocínio, justifica suas escolhas, constrói casos para sua própria defesa com a articulação de alguém que passou muito tempo pensando sobre si mesmo e pouco tempo ouvindo o que as outras pessoas dizem sobre ele.

Essa estrutura de monólogo é argumento sobre o personagem. Rob tem acesso privilegiado à própria perspectiva e acesso muito limitado às perspectivas das pessoas ao redor, e o filme usa isso de forma que o espectador vai percebendo antes que Rob perceba. Cada vez que Rob explica por que alguém foi embora, a explicação revela mais sobre Rob do que sobre a pessoa que foi embora, e essa distância entre o que Rob acredita sobre si mesmo e o que o filme mostra sobre ele é onde Alta Fidelidade mora.


John Cusack e o charme como armadura

John Cusack constrói Rob com um charme que funciona exatamente como o personagem usa o charme: para manter distância segura enquanto parece estar se aproximando. Rob é engraçado, é inteligente, tem opiniões sobre tudo e as articula bem, e usa essas qualidades para criar uma versão de intimidade que não exige a vulnerabilidade real que a intimidade exige. Cusack entendeu que o personagem precisa ser suficientemente atraente para que o espectador entenda por que as mulheres se interessaram por ele, e suficientemente opaco para que o espectador entenda por que foram embora.

A performance funciona porque Cusack nunca pede simpatia para Rob de forma explícita: deixa que o personagem construa seu próprio caso e confia que o espectador vai perceber as lacunas. Rob desenvolveu mecanismos de proteção tão eficientes que não sabe que precisaria desmontar esses mecanismos para ter o tipo de relação que diz querer.


As cinco ex e o padrão que Rob não vê

O dispositivo central do filme, Rob visitando as cinco maiores ex para entender o que deu errado, é simultaneamente engraçado e revelador da forma mais precisa. Cada ex tem sua versão do que aconteceu com Rob, e as versões convergem num padrão que Rob é o último a reconhecer: ele estava presente fisicamente e ausente emocionalmente, comprometido com a ideia do relacionamento mas resistente ao trabalho real que o relacionamento exige, capaz de sentir mas incapaz de demonstrar o que sentia de formas que a outra pessoa pudesse receber.

Frears filma essas recordações com um humor que torna o desconforto suportável, e cada ex funciona como um espelho ligeiramente diferente que mostra um ângulo diferente do mesmo problema. Rob sai de cada recordação com uma compreensão parcial e incompleta, acrescentando a nova informação ao inventário sem ainda saber o que fazer com o inventário completo.


Laura e a questão real

Iben Hjejle interpreta Laura com uma presença que o filme reserva estrategicamente: ela aparece em flashback e em imaginação de Rob antes de aparecer em carne e osso, e quando aparece traz consigo uma qualidade de pessoa real que contrasta com as versões que Rob havia construído dela na própria cabeça. Laura não é a mulher idealizada que Rob perdeu nem a inimiga que o abandonou. É alguém que tentou estar num relacionamento com alguém que não estava completamente disponível e que decidiu que o custo era alto demais.

A cena em que Laura e Rob finalmente têm a conversa real, a conversa que o filme inteiro estava adiando, é o momento em que Alta Fidelidade para de ser comédia e decide ser outra coisa por tempo suficiente para que o que está em jogo fique claro. Laura quer que Rob mude porque percebe que ele quer mudar e não sabe como, e essa distinção é o que o filme estava construindo desde o primeiro monólogo.


Onde assistir e o que esperar

Alta Fidelidade está disponível na Disney+ e na Filmoteca Seu Manolo. A trilha sonora é parte inseparável da experiência: as escolhas musicais de Rob funcionam como comentário sobre seu estado emocional com uma precisão que o diálogo não precisaria explicar para quem conhece as músicas, e para quem não conhece o filme oferece contexto suficiente. Jack Black como Barry e Todd Louiso como Dick, os dois funcionários da loja, existem numa frequência cômica que alivia o peso das cenas de Rob sem diminuir o que essas cenas estão fazendo. O filme tem 113 minutos que passam com a velocidade de uma boa lista de reprodução, e a segunda visita revela o quanto a estrutura é mais precisa do que a leveza do tom sugere.




A masculinidade que não aprendeu a habitar outra forma

Alta Fidelidade é o retrato mais honesto e mais gentil disponível no cinema sobre um tipo específico de homem que o modelo tradicional de masculinidade produziu e que o mundo contemporâneo dos relacionamentos não sabe mais acomodar. Rob foi ensinado a ser competente, a ter opiniões, a construir identidade através do gosto e do conhecimento, e ninguém o ensinou que nada disso substitui a capacidade de estar emocionalmente presente para outra pessoa.

Frears filma um homem que usa o humor e o conhecimento cultural para gerar distância como proteção contra a vulnerabilidade que o amor exige, num mundo que mudou as regras dos relacionamentos sem oferecer manual para quem foi formado pelas regras antigas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A Rainha (2006) The Queen - 1 h 43 min

Mostra Os Vencedores do BAFTA: Uma Linhagem de Grandes Filmes

Quando a morte de Diana Spencer, ex-princesa de Gales, choca os britânicos, a popularidade e viabilidade da monarquia ficam em jogo. Cabe a Isabel II mostrar ao povo que é capaz de se adaptar, apesar das desavenças com a falecida nora.


A Rainha (2006) - IMDb
Dir: Stephen Frears
Docudrama, Drama Político, Biografia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3   METASCORE: 9,0
97%Tomatometer202 Reviews   76%Popcornmeter


Um retrato íntimo do poder quando a tradição é confrontada pela emoção pública.


👑 A Coroa Sob Pressão

Ambientado nos dias que se seguiram à morte da princesa Diana, em 1997, o filme acompanha a reação da monarquia britânica diante de uma comoção popular sem precedentes. Enquanto o país mergulha em luto coletivo, a rainha Elizabeth II mantém postura reservada, fiel ao protocolo e à tradição. O choque entre expectativa pública e rigidez institucional torna-se o centro dramático da narrativa.


📰 Monarquia e Opinião Pública


A ascensão de Tony Blair ao cargo de primeiro-ministro adiciona nova dinâmica à crise. Representante de uma geração política mais conectada à mídia e à sensibilidade popular, Blair percebe rapidamente a necessidade de adaptação da Coroa. O filme expõe, com sutileza, a tensão entre permanência histórica e transformação social.


🎭 Intimidade e Contenção

Dirigido por Stephen Frears, o longa opta por abordagem contida e observacional. A performance magistral de Helen Mirren humaniza uma figura frequentemente envolta em formalidade, revelando fragilidades por trás da postura institucional. A narrativa equilibra respeito histórico e análise crítica.


🏆 Recepção e Legado

Amplamente elogiado, The Queen consolidou-se como um dos dramas políticos mais relevantes da década. Vencedor do BAFTA e responsável por múltiplas premiações internacionais, o filme tornou-se referência na representação contemporânea da monarquia britânica no cinema. Seu legado reside na reflexão sobre liderança em tempos de crise e na delicada relação entre tradição e modernidade.

 




domingo, 28 de setembro de 2025

Os Imorais (1990) The Grifters - 1 h 50 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Um vigarista de pouca importância tem sua lealdade dividida entre sua mãe, que estava afastada, e a nova namorada, sendo que ambas são estelionatárias com seus próprios interesses.


Dir: Stephen Frears
Neo-noir, Tragédia, Crime, Drama, Suspense


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,9   METASCORE: 8,6
92%Tomatometer50 Reviews   69%Popcornmeter

Os Imorais (1990): O Noir da Sedução, da Fraude e do Amor que Sempre Vem com Preço

Dirigido por Stephen Frears e produzido por Martin Scorsese, Os Imorais (The Grifters) é um dos mais sofisticados e devastadores neo-noirs dos anos 1990. Baseado no romance de Jim Thompson, o filme reencena com brilho gélido a tradição do noir psicológico — aquele em que o crime é menos um ato e mais uma condição de existência, onde os golpes acontecem nos bares, nos quartos de motel e nos vínculos familiares quebrados.

A história acompanha três vigaristas que orbitam uns aos outros com desconfiança, desejo e violência emocional:

  • Roy Dillon (John Cusack), um golpista de pequeno porte que se acredita esperto e invulnerável;
  • Lilly Dillon (Anjelica Huston), sua mãe, uma manipuladora experiente que trabalha para um poderoso chefão das apostas;
  • Myra Langtry (Annette Bening), amante de Roy e golpista profissional, tão sedutora quanto brutal na leitura das fraquezas alheias.

O que começa como um drama criminal logo se transforma em um confronto psicológico sobre poder, lealdade, maternidade distorcida e a impossibilidade de escapar do próprio passado.


Crime como estilo de vida — e como relação afetiva

No universo de The Grifters, ninguém trabalha: todos golpeiam.

A moralidade não envolve escolha entre certo e errado, mas entre:

  • lucrar ou ser enganado,
  • dominar ou ser dominado,
  • manipular ou ser manipulado.

O filme não é sobre “grandes assaltos”; ele é sobre golpes emocionais, transações invisíveis que ocorrem em olhares, sorrisos e lembranças mal resolvidas.
Os laços familiares, sexuais e profissionais se confundem perigosamente — e o afeto é sempre uma possível armadilha.


Roy Dillon: o golpista que quer ser respeitável

John Cusack constrói Roy como um homem dividido:

  • inteligente, mas não o bastante;
  • ambicioso, mas sem coragem para os golpes maiores;
  • sensível, mas incapaz de admitir vulnerabilidade.

Ele tenta viver “duas vidas” — uma estruturada, outra criminosa — mas as duas acabam se chocando com força fatal.
Roy é a figura clássica do noir: um homem que acredita conseguir controlar todos os ângulos, mas que não compreende o tamanho da teia em que está preso.


Lilly Dillon: amor, culpa e chantagem — tudo misturado

A atuação de Anjelica Huston é monumental.
Lilly é uma mãe que nunca foi mãe, uma sobrevivente do submundo, uma mulher com:

  • dor contida,
  • charme perigoso,
  • violência emocional,
  • e inteligência ímpar para jogos de poder.

Seu vínculo com Roy é complexo, quase incestuoso no nível psicológico — uma mistura de culpa, proteção, manipulação e domínio.
As cenas entre os dois são carregadas de ambivalência: cada abraço parece esconder ameaça, cada gesto de carinho carrega cálculo.

Lilly é, acima de tudo, a figura mais trágica do filme: uma mulher que só sabe amar da mesma forma que golpeia.


Myra Langtry: o glamour do perigo

Annette Bening interpreta Myra com brilho, ironia e charme destrutivo.
Ela é:

  • sedutora,
  • ousada,
  • cruel quando necessário,
  • e capaz de ler fraquezas como quem lê instruções de manual.

Myra é a femme fatale atualizada: com agenda própria, desejo próprio e técnica refinada.
Seu papel não é destruir homens, mas sobreviver entre eles — usando todas as armas disponíveis.

A tensão entre Myra e Lilly é um dos motores do filme: duas mestres do engano, duas mulheres poderosas, duas forças opostas tentando dominar a vida de Roy.


Um mundo sem inocência — apenas sobrevivência

O filme descreve um ecossistema moral onde não existe “redenção” possível.
No universo de Thompson/Frears:

  • amor é transação,
  • confiança é estratégia,
  • e bondade é vulnerabilidade — portanto, fatal.

A violência não é apenas física, mas emocional e psicológica.
O espectador sente, desde o início, que alguém vai perder — e perder feio.


O final: tragédia, elegância e inevitabilidade noir

Sem entregar detalhes do desfecho, é possível dizer que:

  • a tragédia final é lógica,
  • brutal,
  • estilisticamente impecável,
  • e respeita profundamente o espírito do noir literário de Thompson.

É um final que revela, de forma cruel e perfeita, a verdadeira natureza da relação entre mãe e filho — e o preço devastador da vida no mundo dos golpes.


Conclusão

Os Imorais é um dos grandes filmes neo-noir de todos os tempos.
Um thriller psicológico afiado, elegante e profundamente humano em sua brutalidade.
Frears, Huston, Bening e Cusack constroem um estudo sobre crime, afeto e identidade que é tão sofisticado quanto implacável.

É noir no sentido mais puro:
um mundo onde ninguém é inocente, onde todos jogam para sobreviver e onde o amor é sempre uma faca de dois gumes.

Obra essencial — elegante, ácida, amarga e inesquecível.