domingo, 31 de maio de 2026

Florence: Quem é Essa Mulher? (2016) Florence Foster Jenkins - 1 h 51 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Biografia, Comédia, Drama, Música

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,8   METASCORE: 7,1
Letterboxd: 6,4   Flick Metrix: 7,0
87%Tomatometer235 Reviews

Florence achava que tinha a voz mais bonita do mundo. Não tinha. O filme não é sobre isso.

Florence Foster Jenkins e a história real

Florence Foster Jenkins nasceu em 1868 numa família abastada da Pensilvânia e passou décadas como socialite e mecenas musical em Nova York, financiando concertos e organizando recitais nos quais ela própria cantava. O problema era que Florence cantava desafinado de uma forma que a crítica musical descrevia como extraordinária em seus defeitos: não era simplesmente ruim, era ruim com uma consistência e uma dedicação que produzia nos ouvintes uma reação entre o riso e o desconforto.

O que tornava Florence fascinante não era a falta de talento mas a completa ausência de consciência dessa falta. Florence acreditava genuinamente que tinha uma voz extraordinária, e o marido St. Clair Bayfield passava a vida gerenciando os concertos para garantir que apenas plateias selecionadas e dispostas a protegê-la ouvissem. Em outubro de 1944, com 76 anos, Florence alugou o Carnegie Hall para um recital aberto. A plateia lotou. Florence morreu um mês depois.

O filme foi dirigido por Stephen Frears e produzido com orçamento de 29 milhões de dólares, arrecadando 56 milhões mundialmente. Streep recebeu sua 20ª indicação ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel.

Meryl Streep cantando desafinado

A exigência técnica de Florence Foster Jenkins é inversa à de A Escolha de Sofia: em vez de dominar uma habilidade ao ponto da perfeição, Streep precisava desafinar de forma consistente e específica, replicando os defeitos documentados das gravações reais de Florence com a precisão de uma atriz com voz treinada que está deliberadamente fazendo o oposto do que a voz quer fazer.

O resultado é ao mesmo tempo engraçado e devastador. Engraçado porque a incompetência específica de Florence produz momentos de humor genuíno. Devastador porque Streep nunca permite que Florence seja apenas cômica: Florence canta com uma convicção e uma alegria que o espectador reconhece como autênticas, e essa autenticidade é o que torna a situação trágica além do cômico.

Hugh Grant e o personagem mais complexo do filme

Críticos e espectadores apontaram Hugh Grant como a revelação do filme, com uma performance que supera em complexidade o que seria esperado do papel. Bayfield ama Florence genuinamente e ao mesmo tempo mantém uma amante num apartamento separado pago pela própria Florence. Vive uma dupla vida que o filme não condena e não absolve: a lealdade de Bayfield a Florence é real, e o que ele faz para protegê-la das críticas tem a qualidade de um ato de amor que tomou uma forma torta. 

Grant constrói Bayfield como um homem que descobriu tardiamente que a forma mais importante do amor que sente por Florence é protegê-la da verdade, e que essa proteção tem um custo que ele paga sem reclamar. É a performance mais contida e mais precisa da carreira de Grant.


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As Horas (2002) The Hours - 1 h 50 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



As Horas (2002) - IMDb
Dir: Stephen Daldry
Drama Psicológico, Tragédia, Romance

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 8,0
Letterboxd: 7,8   FLICK METRIX: 7,7
79%Tomatometer194 Reviews

Clarissa organizou a vida inteira em torno do cuidado dos outros. Num único dia percebeu o custo disso.

Michael Cunningham, o romance e a adaptação

Michael Cunningham publicou As Horas em 1998 e venceu o Prêmio Pulitzer. O romance conecta três mulheres em três épocas diferentes através do romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf: a própria Woolf escrevendo o livro na Inglaterra dos anos 1920, uma dona de casa lendo o livro na Califórnia dos anos 1950, e uma editora vivendo uma versão contemporânea da narrativa do livro na Nova York de 2001.

David Hare adaptou o roteiro e Stephen Daldry dirigiu. O filme foi produzido pela Miramax com orçamento de 25 milhões de dólares e arrecadou 108,8 milhões mundialmente. A trilha de Philip Glass e a fotografia de Seamus McGarvey estabelecem desde o início uma qualidade de presença que o filme mantém consistentemente ao longo de duas horas.

As três mulheres e o que as conecta

O argumento central de Cunningham e de Daldry é que a mesma pressão, a de organizar a vida em torno das necessidades dos outros enquanto as próprias necessidades ficam sem nome, opera em mulheres de épocas e contextos completamente diferentes. Virginia Woolf nos anos 1920, Laura Brown nos anos 1950 e Clarissa Vaughan em 2001 são versões do mesmo problema em estágios diferentes de consciência sobre ele.

Streep como Clarissa Vaughan é a mais consciente das três: ela chegou ao lugar que queria chegar, tem uma vida que escolheu, e num único dia em que prepara uma festa para o amigo que está morrendo de AIDS percebe o que a chegada custou. A questão que As Horas coloca para Clarissa não é se ela fez as escolhas certas mas se as escolhas que fez foram de fato suas ou foram aquelas que o mundo ao redor esperava que ela fizesse.

Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep

A crítica especializada considerou Streep o elemento mais preciso do filme, descrita como extraordinária na sua versão da Mrs. Dalloway do século XXI. Nicole Kidman venceu o Oscar de Melhor Atriz pelo papel de Virginia Woolf, uma performance de transformação radical com prótese nasal e sotaque britânico específico. Julianne Moore foi indicada ao Oscar por Laura Brown.

As três performances são tecnicamente distintas e tematicamente coerentes: Kidman opera no registro da crise iminente, Moore no da sufocação gradual, Streep no da realização tardia. Cada uma ilumina o problema central do filme de um ângulo diferente, e a montagem que alterna entre as três cria um argumento que nenhuma das histórias isoladas conseguiria.


Philip Glass e o que a música faz

A trilha de Philip Glass para As Horas é um dos trabalhos mais estudados da música de cinema contemporânea. Glass usa padrões de piano repetitivos com variações graduais que criam uma sensação de tempo que avança sem que nada se resolva, o que é precisamente o estado emocional das três protagonistas. A música não ilustra o drama, produz o mesmo efeito no espectador que o drama produz nos personagens: a sensação de estar dentro de algo que se move sem ter para onde ir.




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A Escolha de Sofia (1982) Sophie's Choice - 2 h 30 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Drama de Época, Romance Trágico, Tragédia

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,5   METASCORE: 6,8
Letterboxd: 7,2   Flick Metrix: 72
75%Tomatometer44 Reviews

Sofia fez uma escolha. Passou o resto da vida tentando esquecer que a fez.

William Styron e o romance

William Styron publicou A Escolha de Sofia em 1979, um romance semi-autobiográfico narrado pelo jovem escritor Stingo, que se muda para um quarto alugado no Brooklyn e conhece o casal vizinho: Nathan, um pesquisador americano de saúde mental instável, e Sofia, uma refugiada polonesa que sobreviveu a Auschwitz e carrega um segredo que o romance só revela perto do final. O livro venceu o National Book Award e foi considerado pela crítica como uma das obras mais importantes da literatura americana do século XX sobre o Holocausto.

Após planos iniciais de escalar uma atriz eslovaca desconhecida, Pakula ofereceu o papel a Streep em 1980. Os dois adiaram a produção para que ela pudesse terminar A Mulher do Tenente Francês e Rollover. O filme foi rodado em três meses, de março a maio de 1982 em Brooklyn, com as últimas semanas em Zagreb, na Iugoslávia, para as cenas de flashback, e lançado em dezembro do mesmo ano. 

A exigência técnica da performance

A Escolha de Sofia é estudada em escolas de cinema como o exemplo mais documentado de preparação técnica para um papel. Streep precisava dominar três idiomas distintos de forma crível: inglês com sotaque polonês específico da região de Cracóvia, polonês e alemão. Cada idioma exigiu um professor diferente e meses de trabalho separado antes das filmagens.

Mas a preparação linguística é apenas a camada mais visível de uma performance que exige muito mais. Sofia existe em dois tempos completamente diferentes: a mulher jovem e viva nos flashbacks de Auschwitz e a mulher destruída pelo que sobreviveu no presente do filme. Streep constrói as duas Sofias com corpos diferentes, ritmos diferentes, relações com o espaço diferentes. A Sofia do passado tem uma presença física que a Sofia do presente perdeu completamente, e essa diferença é o que comunica o que Auschwitz produziu numa pessoa antes que qualquer palavra seja dita.

A cena da escolha

A cena que dá título ao filme, em que um oficial nazista obriga Sofia a escolher qual dos seus dois filhos vai para a câmara de gás, é filmada por Pakula com uma austeridade que recusa o espetáculo. Não há música. A câmera não dramatiza. O que Streep faz nessa cena é o que torna impossível esquecer: a velocidade com que Sofia faz a escolha, porque a velocidade é o único gesto de misericórdia disponível para alguém que está sendo forçado a fazer o inaceitável.

Streep venceu o Oscar de Melhor Atriz e o Globo de Ouro, além de prêmios da National Board of Review, New York Film Critics Circle e praticamente todos os outros reconhecimentos disponíveis naquele ano. É a performance que estabeleceu definitivamente Streep como a atriz mais tecnicamente rigorosa da geração dela, e provavelmente de todas as gerações que vieram depois.

Kevin Kline e Peter MacNicol


Kevin Kline em seu primeiro papel cinematográfico como Nathan e Peter MacNicol como Stingo são os dois pontos de referência que permitem ao espectador calibrar o que está vendo em Sofia. Nathan, com toda a sua instabilidade, é a única pessoa que viu Sofia antes de Auschwitz, e a relação entre os dois tem a qualidade de algo que o presente não consegue mais sustentar mas que nenhum dos dois sabe como abandonar. Stingo como narrador é o espectador dentro do filme: descobre aos poucos o que Sofia carrega, e o que descobre é o que o filme comunica ao espectador externo.




quinta-feira, 28 de maio de 2026

Los domingos (2025) - 1 h 55 min

Filme incluso na série "CINEMA 2026: O que Vale Ver" da Filmoteca.



Dir: Alauda Ruiz de Azúa
Drama, Suspense

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,4
Letterboxd: 7,8   Flick Metrix: 79

Ainara tem 17 anos, é boa aluna e órfã de mãe. Um dia comunica à família que quer entrar num convento de clausura. O pai fica paralisado. A tia acha que a Igreja a está manipulando.

Alauda Ruiz de Azúa e o projeto

Alauda Ruiz de Azúa estreou na direção de longas-metragens com Cinco Lobitos em 2022, um filme sobre maternidade e tensões familiares que foi bem recebido nos festivais e estabeleceu uma voz específica: a de uma cineasta interessada na vida privada filmada sem tese, sem melodrama, com a atenção de quem observa antes de concluir. Los Domingos toma uma premissa que nas mãos de outro diretor teria terminado em sermão, provocação fácil ou retrato geracional simples, e a transforma numa película de observação precisa sobre o que acontece quando uma decisão individual descompõe uma família inteira.

Ruiz de Azúa lembrou ao público da cerimônia do Goya que em quarenta anos de prêmios apenas três diretoras, Isabel Coixet, Pilar Miró e Iciar Bollain, haviam recebido o prêmio de Melhor Direção antes dela. Los Domingos é o filme que chegou depois de duas obras menores mas consistentes e que confirma uma trajetória de amadurecimento formal acelerado. 

Ainara e a decisão

Ainara é uma jovem de 17 anos, boa estudante e órfã de mãe, que comunica à família que quer ingressar num convento de clausura. A notícia cai como uma bomba. O pai fica paralisado, incapaz de reagir de nenhuma forma. A tia, interpretada por Patricia López Arnaiz, considera que a Igreja está manipulando a sobrinha e toma para si a missão de impedir a entrada no convento. A avó tem sua própria relação com a religião, diferente das duas. Ainara, interpretada pela debutante Blanca Soroa, permanece inabalável.

O que Ruiz de Azúa filma não é a fé de Ainara em si. O que está dentro da protagonista permanece parcialmente opaco ao espectador, como permanece opaco à família. O filme filma os mistérios que o cinema, e a vida, não pode explicar, apenas mostrar. Essa opacidade é a escolha mais honesta do filme sobre o que a vocação religiosa é para quem não a tem e para quem não a pode compreender de fora.

Blanca Soroa e a performance central

Blanca Soroa não tinha experiência cinematográfica quando foi escolhida para Ainara. A interpretação da debutante é magistral, com sequências genuinamente emocionantes. O que Soroa faz com o personagem é construir a convicção de Ainara sem nunca torná-la fanática ou ingênua: é uma jovem de inteligência evidente que chegou a uma conclusão sobre o que quer da vida e que não vai ser movida por argumentos que ela já considerou e descartou.

A cena em que Ainara explica à tia o que sente, com a calma específica de quem não precisa convencer ninguém porque não está buscando aprovação, é o momento mais preciso do filme sobre o que separa uma convicção genuína de uma postura defensiva. Soroa sustenta essa distinção com uma maturidade que performers muito mais experientes não garantiriam.

Patricia López Arnaiz e o personagem mais complexo

Patricia López Arnaiz venceu o Goya de Melhor Atriz pela performance da tia de Ainara. É o personagem mais difícil do filme precisamente porque tem as razões mais compreensíveis para fazer o que faz: é uma mulher secular, progressista, que viu a Igreja causar dano em contextos que conhece, e que acredita genuinamente que está protegendo a sobrinha de uma instituição que vai controlá-la. 

Los Domingos questiona quem dá a vida à religião, mas inclui nesse questionamento também quem tem a posição contrária diante do espiritual. A tia é tão convicta na sua visão de mundo quanto Ainara é na dela, e o filme examina o que acontece quando duas convicções igualmente sólidas não têm espaço para coexistir numa mesma família. 

A fotografia e os espaços

A fotografia de Bet Rourich usa movimentos de câmera etéreos e silenciosos, com enquadramentos fechados, íntimos, naturalistas e por momentos opressivos, que acentuam a guerra particular de Ainara entre dois mundos. 

O uso de planos e espaços, a casa e o convento, sugere que o que vemos é uma prisão. Mas a precisão do filme está em que os dois espaços funcionam como prisão e como liberdade simultaneamente, dependendo de quem está olhando: para a tia, o convento é um aprisionamento. Para Ainara, a casa com suas expectativas e seus projetos para o futuro dela é o confinamento real. 

O que o filme recusa fazer

Los Domingos não busca apontar quem é o mau, mas mostrar o quão diferentes podem ser as posições dos personagens. Essa recusa de hierarquizar as posições é o gesto editorial mais importante do filme e o que o distingue da maioria dos filmes sobre religião, que raramente conseguem não tomar partido de alguma forma.

Alguns críticos apontaram que o filme não explora suficientemente a dúvida ou o processo da fé, apresentando um choque de convicções onde ninguém verdadeiramente evolui. É uma objeção legítima. O que Ruiz de Azúa parece mais interessada é precisamente nessa impossibilidade de evolução: há decisões que não têm meio-termo disponível, e Los Domingos examina o que uma família faz quando se encontra diante de uma delas.

San Sebastián, os Goya e o que representam

Los Domingos venceu a Concha de Ouro em San Sebastián em setembro de 2025 e cinco Goya em março de 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. O reconhecimento duplo, no maior festival espanhol e no prêmio da Academia espanhola, é raro e significativo: os dois costumam valorizar tipos diferentes de cinema, e Los Domingos conseguiu os dois por razões que o filme justifica: é acessível o suficiente para um público amplo e preciso o suficiente para satisfazer uma audiência mais exigente.

O filme faturou cinco milhões de euros em bilheteria na Espanha, um resultado expressivo para um drama de autor sem estrelas internacionais e com um tema que a crítica havia apostado ser comercialmente arriscado.

Onde assistir: Los Domingos ainda não tem data confirmada de lançamento no Brasil. Está disponível em plataformas com VPN ou por importação. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo e os membros do Clube de Cinema podem ter acesso. Um filme para assistir quando você quer ver uma diretora no controle total do que está fazendo.




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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Szürkület (1990) (TWILIGHT) - 1 h 45 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca:



Szürkület (1990) - IMDb
Dir: György Fehér
Crime, Drama, Mistério

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 8,2
Letterboxd: 7,8   Flick Metrix: 75
93%Tomatometer15 Reviews

Três meninas foram assassinadas numa aldeia húngara. O único suspeito se suicida antes de ser preso. O detetive investigador não consegue abandonar o caso.

György Fehér e Béla Tarr

György Fehér trabalhou durante anos como assistente e colaborador de Béla Tarr, o cineasta húngaro conhecido por Sátántangó e Werckmeister Harmonies, filmes de planos longuíssimos em preto e branco que operam mais como experiências de tempo e espaço do que como narrativas convencionais. Miklós Gurbán, o diretor de fotografia de Szürkület, é o mesmo que fotografou Werckmeister Harmonies de Tarr em 2000. 

A influência de Tarr é visível em Szürkület mas não define o filme. Fehér usa os mesmos instrumentos, planos longos, preto e branco, câmera que observa sem comentar, para contar um tipo de história diferente: um thriller criminal que vai se dissolvendo nos seus próprios elementos até que a distinção entre investigação policial e obsessão pessoal desaparece completamente.

Dürrenmatt e a origem literária

Szürkület é baseado no romance policial A Promessa de Friedrich Dürrenmatt, publicado em 1958. Dürrenmatt descreveu o livro como um réquiem para o romance policial: é a história de um detetive que promete à mãe de uma criança assassinada que vai encontrar o culpado, e que passa anos numa aldeia esperando que o assassino apareça, usando uma menina como isca, destruindo a própria vida no processo. 

A mesma base literária foi adaptada por Sean Penn em 2001 com A Promessa, protagonizado por Jack Nicholson. As duas adaptações chegam a lugares completamente diferentes: a versão americana mantém a estrutura do thriller e a catarse da obsessão. A versão de Fehér dissolve a estrutura e remove a catarse. O que fica é a obsessão em si, sem moldura que a contenha ou explique.

O inspetor e o caso que não fecha

Péter Haumann interpreta o inspetor com uma fisicalidade de exaustão acumulada que Fehér filma sem nenhum apelo à simpatia do espectador. O inspetor chega à aldeia numa missão específica, encontra um ambiente de névoa permanente e desconfiança muda, vê o único suspeito morrer sem confessar, e decide ficar. O que o mantém ali é a incapacidade de aceitar que o caso não tem resolução disponível.

A névoa é constante e implacável, cobrindo literalmente o lugar num mistério que sugere que o dia nunca atravessa completamente a bruma dessa aldeia remota. Fehér usa essa condição climática como argumento sobre o estado mental do inspetor: é um homem que está num crepúsculo permanente, num espaço entre saber e não saber que o filme não vai resolver. 

Os planos longos e o que produzem

Szürkület tem uma montagem de planos longos e tomadas lentas que parecem ponderosas, meditativas e às vezes voyeurísticas, com design de som elaborado e uma trilha assombrosa. Fehér filma o interior de casas, corredores, janelas embaçadas, rostos que olham sem ver, com a paciência de um observador que não tem pressa de chegar a lugar nenhum porque sabe que não há lugar para chegar.

Essa qualidade temporal, o ritmo que recusa a urgência que o thriller convencional exige, é o que torna Szürkület inacessível para o espectador que chega esperando um noir de resolução. É também o que torna o filme extraordinário para quem aceita seus termos: a atmosfera acumula-se com uma precisão que transforma o desconforto em experiência.

É difícil resistir à comparação com Twin Peaks, que saiu no mesmo ano de 1990. Enquanto Twin Peaks é inerentemente mais surreal e tem interlúdios lúdicos, os dois claramente tocavam num zeitgeist global de escuridão insondável à margem da sociedade, usando uma estrutura de investigação notavelmente similar para explorá-la. 

A trilha sonora e o único tropeço

Szürkület tem uma trilha de László Vidovszky que funciona bem na maior parte do filme, mas inclui uma escolha desconcertante: um trecho de Hello Earth de Kate Bush, que aparece repetidamente sem edição cuidadosa. É o único elemento do filme que parece não ter sido completamente controlado, e a crítica tem anotado esse detalhe consistentemente. Fehér era um perfeccionista em quase tudo o que filmou, e essa costura sonora específica permanece como uma nota fora do lugar numa obra que em tudo o mais é precisa.

O desaparecimento e a restauração

A restauração em 4K usando o negativo original de 35mm e as fitas de som magnéticas foi realizada pelo Instituto Nacional de Cinema da Hungria, com a supervisão do cinematógrafo Miklós Gurbán. Estreou na seção Berlinale Classics em 2023, 33 anos depois da estreia em Locarno. A Arbelos Films adquiriu os direitos norte-americanos e o filme chegou ao Film at Lincoln Center em abril de 2023, onde ficou em cartaz por mais de uma semana além do previsto. 

Fehér realizou apenas mais um longa-metragem depois de Szürkület: Szenvedély, de 1998, também baseado em Dürrenmatt. Morreu em 2002. O que deixou é um dos menores catálogos e um dos mais singulares do cinema europeu da década de 1990.

Onde assistir: Szürkület está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver o noir levado até o limite do que o gênero consegue suportar.

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Chunhyang, Amor Proibido (2000) Chunhyangdyun - 2 h 17 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Drama, Musical, Romance

MP4 / HD / LEG: Português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 7,9
Letterboxd: 7,0   Flick Metrix: 7,4
86%Tomatometer42 Reviews

Mongryong é filho de um governador. Chunhyang é filha de uma cortesã. Se casam em segredo. O que vem depois o cantor já estava contando antes de o filme começar.

Im Kwon-taek e o projeto

Im Kwon-taek é frequentemente descrito como o pai do cinema coreano moderno. Começou a carreira nos anos 1960 fazendo filmes de gênero para sobreviver e foi gradualmente desenvolvendo uma voz própria que culminou em obras como Sopyonje, de 1993, sobre a tradição do pansori, e Chihwaseon, de 2002, sobre o pintor Jang Seung-ub, pelo qual venceu o prêmio de Melhor Direção em Cannes. Im foi também agraciado com a Medalha Fellini pela UNESCO e recebeu o Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim de 2005 pelo conjunto da obra. 

Chunhyang foi o seu 97º filme e o resultado de décadas de interesse pelo pansori como forma narrativa. O filme usa como base a gravação do pansori Chunhyangga feita em 1995 pelo renomado cantor Cho Sang-hyun, numa versão que Im havia acompanhado desde os anos 1970. 

O pansori e o que ele é

O pansori é uma forma de performance musical narrativa coreana que existe há pelo menos três séculos. Um único cantor, chamado sorikgun, narra e canta uma história épica acompanhado apenas por um baterista, num espetáculo que pode durar horas. A voz do sorikgun assume todos os personagens, descreve todos os cenários, carrega toda a emoção da narrativa. O público participa ativamente com exclamações de aprovação ou desaprovação ao longo da performance.

Im estruturou o filme de modo que cada capítulo da narrativa é paralelo aos versos cantados por Cho Sang-hyun, com diálogos falados entrelaçados à estrutura musical. O que isso significa na prática é que o espectador vê os eventos da história enquanto ouve o sorikgun descrevê-los e cantá-los ao mesmo tempo, com o público da performance reagindo ao que está sendo contado. É uma experiência que não tem equivalente no cinema ocidental e que não pode ser reduzida a nenhuma categoria convencional.

A história de Chunhyang

Chunhyang é um conto popular coreano que existe em versões orais e escritas há séculos. Até hoje há mais de dezesseis adaptações cinematográficas, incluindo três filmes norte-coreanos. É a história de amor entre Chunhyang, filha de uma cortesã, e Mongryong, filho de um aristocrata, que se casam em segredo antes de Mongryong partir para a capital para os exames do serviço público. Na ausência de Mongryong, um novo governador corrupto chega à cidade e tenta forçar Chunhyang a ser sua concubina. Ela recusa. O que acontece depois é o coração do conto: a fidelidade de Chunhyang e o retorno de Mongryong num papel que ninguém esperava.

A história é conhecida de todo coreano da mesma forma que brasileiros conhecem histórias folclóricas nacionais. Im não está contando uma história nova: está encontrando uma forma cinematográfica para uma história que já existe na memória coletiva de uma cultura.

A escolha dos atores

Para honrar o conto original, no qual os protagonistas têm 16 anos, Im escalou estudantes do ensino médio sem experiência, Yi Hyo-jeong e Cho Seung-woo, nos papéis principais, uma escolha ousada que trouxe frescor ao filme. 

Os dois atores não sabiam que havia uma cena de amor até começarem as filmagens e ficaram assustados. Im Kwon-taek trabalhou com eles ao longo de semanas antes de filmar as cenas mais difíceis. O resultado tem uma qualidade de presença genuína que atores mais experientes raramente produzem: a timidez real de dois jovens que estão descobrindo um ao outro em frente à câmera é exatamente o que a história de Chunhyang e Mongryong precisa.


A estrutura formal e o que ela produz

A cena em que Chunhyang é espancada por recusar-se a ir para o leito do governador corrupto é filmada em grande parte fora de cena: em vez das imagens da violência, Im mostra o sorikgun e seu público, sentados na beira dos assentos e chorando enquanto ele conta a recusa heroína. É uma das decisões formais mais precisas do cinema coreano dos anos 2000: a emoção não vem do que é mostrado mas da reação de quem está ouvindo ser contado. 

Essa estrutura de dupla narrativa, o que acontece nos flashbacks do século XVIII e o que o sorikgun está cantando para o público presente, cria uma distância temporal que amplifica em vez de diminuir a força emocional. O espectador assiste ao sofrimento de Chunhyang e ao mesmo tempo vê esse sofrimento sendo recebido por um público que o conhece há séculos e que chora assim mesmo.

O Cannes de 2000 e o que representou

Chunhyang foi o primeiro filme coreano convidado para a seção de competição do Festival de Cannes. O convite chegou dois anos antes de Oldboy e da explosão internacional do cinema coreano que se seguiu. Im Kwon-taek chegou a Cannes com um filme radicalmente diferente de tudo o que o festival havia visto: uma obra que mergulhava numa tradição cultural específica da Coreia com a confiança de quem não está pedindo permissão para existir.

O filme não venceu a Palma de Ouro, mas a presença em Cannes abriu o caminho para que o cinema coreano chegasse à atenção internacional de uma forma que os filmes seguintes de Park Chan-wook e Bong Joon-ho completariam.

Onde assistir: Chunhyang, Amor Proibido está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver uma forma de contar histórias que o cinema ocidental nunca inventou.

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Touki Bouki - A viagem da hiena (1973) Touki Bouki - 1 h 25 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca:



Drama

MP4 / SD+ / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,0
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 74
88%Tomatometer16 Reviews

Mory e Anta vivem em Dakar e querem ir para a França. O que está entre eles e Paris é o argumento do filme.

Mambéty e o contexto do Senegal pós-independência

Djibril Diop Mambéty nasceu em 1945 em Colobane, perto de Dakar, filho de um clérigo muçulmano. Não teve formação formal em cinema: passou pela atuação teatral, foi expulso de um grupo de teatro de vanguarda em 1968, e fez dois curtas antes de realizar Touki Bouki em 1973. O filme pinta um retrato fragmentado do desencantamento do Senegal no início dos anos 1970, pouco mais de uma década após a independência do país. 

O Senegal que aparece no filme é um país que trocou o colonialismo francês por uma independência que para muitos jovens urbanos de Dakar parecia ter prometido mais do que entregou. As construções europeias sobre as habitações africanas mais modestas, a voz de Joséphine Baker repetindo "Paris, Paris, Paris" num disco que nunca avança, a riqueza visível de poucos ao lado da precariedade de muitos: Mambéty filma esse ambiente com uma câmera que não é documental nem surrealista mas as duas coisas ao mesmo tempo.

Mory, Anta e a viagem que pode não acontecer

Mory, interpretado por Magaye Niang, conduz uma motocicleta decorada com um crânio de boi pelos morros de Dakar. Anta, interpretada por Mareme Niang, estuda na universidade e está tão impaciente com o que encontra quanto Mory. Os dois querem ir para a França, onde imaginam que existe uma vida diferente da que Dakar parece oferecer. O plano é vago, as tentativas de conseguir dinheiro são malsucedidas, e a distância entre o desejo e a realização é o espaço onde o filme vive.

Mambéty não julga Mory e Anta por quererem partir nem por não conseguirem. O que filma é mais complexo: a consciência simultânea de que Paris pode não ser o que imaginam e de que ficar pode não ser o que conseguem. É uma armadilha sem saída boa, e o filme tem a honestidade de não fingir que tem.

A linguagem formal e o que ela faz

Touki Bouki tem uma sensibilidade de vanguarda caracterizada por imagens vívidas, humor sombrio, montagem não convencional e paisagens sonoras irregulares. Mambéty usa rimas visuais que conectam elementos aparentemente díspares: o abate de um boi no início liga-se visualmente à motocicleta de Mory, o sangue de um animal escorre numa ligação de montagem com as ondas do mar. São conexões que a lógica narrativa convencional não faria e que Mambéty faz porque está filmando não uma história mas um estado de espírito, uma condição, uma forma específica de estar num lugar que você quer deixar mas que ainda é o único lugar que conhece. 

A trilha sonora mistura música tradicional senegalesa com as canções francesas de Joséphine Baker e Mado Robin. Esse choque cultural na banda sonora é o argumento mais preciso do filme sobre o que Mory e Anta estão vivendo: dois mundos que existem simultaneamente sem que nenhum dos dois seja completamente deles.

A Nouvelle Vague africana que não foi assim chamada

Touki Bouki é frequentemente descrito como um filme da Nouvelle Vague africana, e a influência de Godard e Varda é visível na montagem e na liberdade formal. Mas Mambéty rejeitava esse enquadramento. O que ele estava fazendo não era aplicar uma estética francesa a um contexto africano: estava encontrando uma linguagem para contar histórias africanas de um jeito que o realismo social que dominava o cinema africano da época não conseguia capturar.

Mambéty rejeitou o realismo preferido pela maioria dos cineastas africanos. Seus filmes eram notáveis pela qualidade onírica que deixava os temas completamente abertos à interpretação do espectador, o que era, claro, o efeito desejado. Essa recusa do didatismo foi o que isolou Touki Bouki no contexto do cinema africano dos anos 1970 e que o tornou simultaneamente o mais singular e o menos distribuído dos filmes importantes daquele momento.

O desaparecimento e a restauração

Apesar do sucesso de Touki Bouki, Mambéty não faria outro longa-metragem por quase vinte anos, até Hyenas em 1992. O filme ficou praticamente inacessível durante décadas, com cópias deteriorando e sem distribuição consistente em nenhum mercado. Foi restaurado em 2008 pela Cineteca di Bologna em associação com o World Cinema Foundation de Martin Scorsese. Scorsese havia incluído Touki Bouki entre os filmes que considerava essenciais para a história do cinema e cuja preservação era urgente. 

A restauração devolveu ao filme a qualidade visual que Mambéty havia criado com 30 mil dólares em 1973, e tornou possível que uma nova geração de espectadores chegasse a ele. Na Sight and Sound 2022, apareceu no 66º lugar entre os maiores filmes de todos os tempos. A desproporção entre reconhecimento crítico e visibilidade do público é o dado mais preciso sobre o que aconteceu com a distribuição do cinema africano ao longo do século XX.

Mambéty e a morte prematura

Djibril Diop Mambéty morreu de câncer de pulmão em 1998, aos 53 anos, depois de ter realizado apenas dois longas-metragens e uma série de curtas. Hyenas, de 1992, foi o único outro longa que completou. Estava trabalhando numa trilogia sobre os pequenos povos da África quando morreu. O que deixou é extraordinário e incompleto ao mesmo tempo, o que é a forma mais precisa de descrever o que Touki Bouki também é: uma obra que vai até onde vai e que deixa o resto para o espectador completar.

Onde assistir: Touki Bouki está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em streaming no Brasil Touki Bouki - A viagem da hiena - onde assistir. Um filme para assistir quando você quiser ver o cinema que fez algo que nunca viu antes.

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