O casamento como contrato em guerra
Lançado em 1938, A Oitava Esposa de Barba-Azul
(Bluebeard’s Eighth Wife) ocupa um lugar singular dentro da screwball
comedy. Dirigido por Ernst Lubitsch e roteirizado por Billy Wilder, o filme injeta no caos do
subgênero uma sofisticação irônica particular: menos histeria, mais cálculo;
menos colisão, mais estratégia.
Se Levada da Breca destrói a lógica masculina pelo
excesso, Lubitsch a corrói pelo refinamento.
Enredo: quando o amor nasce do contrato
Michael Brandon é um bilionário excêntrico com sete
casamentos fracassados, todos terminados rapidamente, como negócios
malsucedidos. Nicole de Loiselle, uma jovem espirituosa e financeiramente
precária, cruza seu caminho recusando-se a comprar
apenas metade de um pijama.
O encontro já estabelece o tom do filme: intimidade,
dinheiro e poder estão indissociáveis.
O casamento acontece cedo e o conflito se instala
imediatamente. Nicole decide não consumar a união até que Michael abandone sua
postura cínica em relação às mulheres e ao matrimônio.
A mulher como estrategista
Interpretada por
Claudette Colbert, Nicole não é uma
força do caos à moda hawksiana. Ela é precisa, calculista e consciente do
jog
o.
Sua imprevisibilidade não está no gesto, mas no método:
- ela
usa a recusa,
- explora
o desejo frustrado,
- transforma
o casamento em campo de barganha.
Na lógica da screwball, Nicole representa uma evolução: a
mulher que domina as regras e as vira contra o próprio sistema.
O homem rico em crise moral
Gary Cooper encarna um milionário infantilizado,
incapaz de lidar com limites afetivos. Acostumado a resolver tudo com dinheiro,
Michael se vê desarmado diante de alguém que se recusa a ser comprada, inclusive no casamento.
A guerra dos sexos aqui não é física nem verbalmente
explosiva: ela é psicológica e econômica.
O “toque Lubitsch”
O filme é exemplar do famoso
Lubitsch Touch:
- elipses
elegantes,
- erotismo
sugerido,
- humor
que nasce da omissão,
- crítica
social feita com leveza aparente.
Sob o Código Hays, Lubitsch transforma a ausência de sexo em
motor dramático, fazendo do quarto fechado um espaço de tensão
permanente.
Casamento como problema estrutural
A Oitava Esposa de Barba-Azul é talvez o filme que
mais claramente articula um dos temas centrais da screwball comedy: o casamento como problema e não solução.
Aqui, casar expõe
desigualdades, revela relações de poder e obriga renegociações constantes.
Lugar histórico na mostra
Inserido no
NÚCLEO 2 - Mulheres Imprevisíveis, Homens em
Colapso da mostra
SCREWBALL COMEDY: O Amor em Estado de Guerra (1934-1945), o filme representa a face sofisticada e estratégica da
radicalização do conflito de gênero.