Este filme se concentra em um ex-oficial da Legião Estrangeira que relembra sua vida antes gloriosa, liderando tropas em Djibouti.
O corpo como única linguagem disponível para o que não pode ser dito.
O deserto como interior
Beau Travail começa e termina com Galoup, ex-sargento da Legião Estrangeira Francesa, numa discoteca em Marselha, sozinho entre corpos que dançam. Entre essas duas cenas, Claire Denis constrói um filme sobre a vida militar no Djibuti, sobre hierarquia e disciplina e desejo reprimido e destruição, usando uma gramática visual que recusa a narrativa convencional com uma consistência que é ela mesma um argumento. Não há diálogo que explique o que está acontecendo. Não há cena de confronto que verbalize o que está em jogo. Há corpos no deserto, exercícios militares filmados com a atenção de uma coreografia, e a presença de Sentain, o soldado cuja beleza e integridade Galoup não consegue suportar.
Denis filmou Beau Travail a partir de Billy Budd de Herman Melville, transpondo a história do marinheiro injustamente destruído por um superior para o contexto da Legião Estrangeira no final do século XX, e essa transposição preserva o que Melville estava examinando: o que acontece quando a inveja e o desejo e a incapacidade de nomear o que se sente se combinam numa pessoa com poder suficiente para agir a partir disso.
Denis e o cinema do corpo
Claire Denis é a cineasta contemporânea que mais consistentemente filmou o corpo como território narrativo primário, e Beau Travail é o ponto mais alto dessa filmografia. A câmera de Agnès Godard habita o espaço entre os corpos dos soldados, registra o contato e a distância com uma atenção que transforma cada exercício militar numa dança e cada dança num mapa de desejo e poder.
A decisão de filmar os exercícios da Legião como coreografia é o argumento central do filme: numa instituição onde a linguagem emocional é proibida e o corpo é o único instrumento disponível, tudo que não pode ser dito encontra forma no movimento. Os soldados dobram, esticam, rolam, marcham em formações que têm a precisão de balé e a violência contida de algo que está sempre prestes a explodir. Denis filma esse vocabulário físico com uma câmera que se move dentro dele em vez de observá-lo de fora, e o resultado é uma experiência que o espectador sente antes de entender.
Denis Lavant e o corpo como confissão
Denis Lavant interpreta Galoup com uma fisicalidade que o filme usa de forma precisa. Galoup é um homem que existe inteiramente no corpo: na postura militar, na contenção dos gestos, na forma como ocupa o espaço com uma autoridade que é também uma armadura. Lavant construiu o personagem a partir do exterior para dentro, e essa construção é visível de uma forma que o filme precisa que seja: o que Galoup sente nunca aparece diretamente, aparece na tensão do corpo, na forma como ele olha para Sentain, no espaço que mantém e que mantém com esforço.
A narração em voz over de Galoup, fragmentada e não linear, existe em contraste com o que o corpo mostra: as palavras organizam e racionam e controlam, e o corpo entrega o que as palavras estão escondendo. Denis usa essa contradição como instrumento narrativo central, e Lavant a sustenta com uma precisão que exige do espectador uma atenção ao físico que o cinema narrativo convencional raramente solicita.
Sentain e o que Galoup não suporta
Grégoire Colin interpreta Sentain com uma presença que o filme mantém deliberadamente opaca. Sentain não tem narração, não tem cenas que expliquem seu estado interno, não tem momento em que o filme entra dentro de sua perspectiva. Ele existe como Galoup o vê: como objeto de uma atenção que Galoup não consegue nomear e não consegue desviar.
O que Galoup não suporta em Sentain não é hostilidade nem rivalidade no sentido convencional. É a integridade de Sentain, a forma como ele existe plenamente dentro de si mesmo sem precisar de aprovação ou de hierarquia para se sustentar, e o desejo que essa presença desperta em Galoup, desejo de destruir o que não se pode ter ou ser. Denis não explica essa dinâmica. Filma os dois em cena com uma atenção à distância entre os corpos que diz o suficiente sem precisar de mais.
A música como ruptura
Beau Travail usa a música de forma que poucos filmes tentaram. A trilha de Charles Henri de Pierrefeu e Eran Tzur coexiste com Neil Young e com Benjamin Britten, e essas camadas musicais diferentes criam a textura de um filme que existe em múltiplos registros ao mesmo tempo, o documental e o lírico e o operístico.
O uso de The Rhythm of the Night de Corona na cena final é o movimento mais audacioso do filme e o mais discutido. Galoup sozinho numa discoteca de Marselha, dançando com uma intensidade que o filme inteiro havia contido, liberando num espaço vazio e numa música de dança comercial tudo que a Legião e a masculinidade e a incapacidade de se nomear haviam reprimido. Denis não prepara essa cena nem a explica. Chega nela e a deixa durar, e o que acontece nessa duração é o filme se revelando completamente depois de ter ficado à beira de si mesmo por noventa minutos.
Onde assistir e o que esperar
Beau Travail está disponível no Filmicca e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 90 minutos que exigem uma forma de atenção diferente da que o cinema narrativo convencional solicita: a atenção ao que os corpos fazem, ao espaço entre eles, ao que a câmera escolhe registrar e ao que escolhe deixar fora do quadro. Espectadores que chegam esperando história no sentido convencional vão precisar de ajuste. O que Denis oferece é mais próximo de poema do que de romance, e a experiência de se render ao ritmo do filme é parte do que o filme está pedindo.
O que o corpo diz quando a palavra falha
Beau Travail pertence à lista do Sight & Sound 2022 no sétimo lugar, e sua presença ali é ela mesma um argumento sobre o que o eleitorado ampliado decidiu valorizar. É um filme feito por uma mulher sobre homens que não têm linguagem para o que sentem, filmado num território colonial com uma atenção à dimensão física da existência que o cinema dominante raramente oferece. Denis não faz concessões à legibilidade imediata, não oferece chave interpretativa, não resolve o que deixou em aberto.
O que Beau Travail oferece em vez disso é a experiência de um cinema que confia completamente na imagem e no corpo como instrumentos de significado, que entende que o que não pode ser dito pode ser filmado, e que o espaço entre dois corpos num deserto pode conter o mesmo peso que qualquer diálogo jamais carregaria. Que um eleitorado de dois mil e quinhentos pessoas tenha colocado esse filme no sétimo lugar da maior lista do cinema mundial diz algo sobre onde a crítica cinematográfica internacional está olhando agora, e para que tipo de grandeza decidiu apontar.