segunda-feira, 22 de junho de 2026

The Watermelon Woman (1996) - 1 h 30 min

 <= Fora do Radar

The Watermelon Woman (1996) - IMDb
Dir: Cheryl Dunye

Comédia, Drama, Romance


CLC Balanced Ranking: 7,5





Sinopse

Cheryl é uma jovem negra e lésbica que trabalha em uma locadora de vídeo na Filadélfia enquanto tenta desenvolver seu primeiro projeto como cineasta. Assistindo a antigos filmes de Hollywood, interessa-se por uma atriz negra que aparece nos créditos apenas como “The Watermelon Woman”, sem que seu verdadeiro nome seja informado. Intrigada com esse apagamento, decide investigar quem foi aquela mulher.

A pesquisa conduz Cheryl por arquivos, bibliotecas, entrevistas e relatos contraditórios, até que ela começa a reconstruir a trajetória de Fae Richards, atriz que teria trabalhado em produções cinematográficas das décadas de 1930 e 1940. Paralelamente, Cheryl inicia um relacionamento com Diana, uma mulher branca, e percebe que sua investigação histórica começa a dialogar com questões presentes em sua própria vida.

Análise Crítica

The Watermelon Woman ocupa uma posição singular no cinema independente norte-americano porque transforma a ausência de registros históricos em matéria de invenção cinematográfica. Cheryl Dunye parte de um problema real: durante décadas, mulheres negras participaram do cinema norte-americano em posições subalternizadas, frequentemente interpretando empregadas, criadas ou figuras estereotipadas, enquanto suas histórias pessoais e profissionais permaneciam ausentes dos arquivos tradicionais. Diante dessa lacuna, a cineasta não procura apenas denunciar o apagamento. Decide imaginar aquilo que a história não preservou.

Essa escolha modifica completamente a natureza do filme. À primeira vista, acompanhamos um documentário em primeira pessoa sobre uma jovem diretora tentando descobrir a identidade de uma atriz esquecida. Entretanto, Fae Richards não existiu. A personagem, suas fotografias, sua filmografia e boa parte do material de arquivo apresentado foram criados especificamente para a obra. Dunye constrói uma falsa história para tornar visível uma verdade histórica muito concreta.

O procedimento poderia ser reduzido a simples jogo metalinguístico, mas sua implicação é muito mais profunda. Se os arquivos não registraram adequadamente determinadas vidas, a ausência documental não significa que essas vidas não tenham existido. Significa apenas que determinadas instituições decidiram quais experiências mereciam ser preservadas. A ficção torna-se então uma forma de confrontar a autoridade do arquivo.

Cheryl Dunye interpreta uma versão de si mesma, dissolvendo deliberadamente as fronteiras entre autora, personagem e narradora. Essa estratégia aproxima o filme do chamado cinema ensaístico, no qual a investigação do objeto é inseparável da experiência subjetiva de quem investiga. Cheryl não pesquisa Fae Richards de uma posição neutra. Procura nela uma genealogia possível para compreender sua própria condição de mulher negra, lésbica e cineasta.

Esse movimento produz uma relação especialmente interessante entre identidade e história. A protagonista não busca apenas informações sobre uma atriz antiga, mas uma antepassada simbólica que possa demonstrar que mulheres semelhantes a ela também participaram da construção do cinema. A ausência de referências torna sua própria posição no presente mais precária.

A pesquisa avança de maneira aparentemente informal. Cheryl entrevista familiares, conversa com especialistas, visita arquivos e reúne testemunhos que frequentemente se contradizem. O filme utiliza recursos associados ao documentário tradicional, como fotografias, depoimentos e registros históricos, mas cada nova informação torna mais evidente que a verdade biográfica não pode ser recuperada integralmente.

Dunye questiona, assim, a confiança automática depositada nas instituições responsáveis por preservar a memória. Bibliotecas, arquivos cinematográficos e coleções particulares não funcionam como espaços neutros. Aquilo que possuem depende de decisões anteriores sobre o que deveria ser documentado, catalogado e conservado.

A dimensão racial dessa crítica é inseparável da história do cinema norte-americano. Atrizes negras frequentemente apareciam nas telas dentro de papéis definidos pela imaginação branca, enquanto suas experiências fora dos filmes recebiam pouca atenção. Ao criar Fae Richards, Dunye não pretende corrigir esse passado com uma biografia falsa. Expõe justamente a violência de um sistema que torna plausível a existência de inúmeras figuras semelhantes sobre as quais pouco ou nada sabemos.

O título também participa desse processo. “Watermelon Woman” remete diretamente ao repertório racista de imagens que associou pessoas negras à melancia dentro da cultura popular norte-americana. O apelido reduz a atriz a uma caricatura, apagando seu nome e substituindo sua individualidade por um estereótipo imediatamente reconhecível pelo público da época.

A investigação de Cheryl consiste, em grande medida, em devolver um nome à mulher escondida atrás dessa imagem. Nomear torna-se gesto político porque permite reconhecer uma pessoa onde antes existia apenas uma função narrativa.

Paralelamente, o relacionamento com Diana impede que o filme se transforme em investigação histórica abstrata. Cheryl começa a confrontar questões de raça dentro de sua própria comunidade lésbica, especialmente quando amigas questionam sua relação com uma mulher branca. A narrativa evita oferecer respostas simples, permitindo que desejo, identidade racial e pertencimento comunitário permaneçam em tensão.

Guinevere Turner interpreta Diana com uma naturalidade que impede sua redução à figura da mulher branca privilegiada utilizada apenas para ilustrar um debate. Sua relação com Cheryl contém atração genuína, mas também revela assimetrias e diferentes formas de compreender a experiência racial.

A montagem aproxima frequentemente o romance contemporâneo da história atribuída a Fae Richards, especialmente quando surgem informações sobre sua possível relação amorosa com Martha Page, diretora branca com quem teria trabalhado. A correspondência entre passado e presente não oferece uma repetição perfeita, mas mostra como determinadas questões atravessam gerações.

Formalmente, The Watermelon Woman utiliza sua aparente simplicidade como recurso estético. Imagens em vídeo, entrevistas informais, fotografias e cenas ficcionais convivem sem preocupação em estabelecer uma hierarquia rígida entre registros. O resultado preserva a energia do cinema independente dos anos 1990 e transforma limitações materiais em parte da linguagem da obra.

Mais do que narrar a descoberta de uma cineasta esquecida, Dunye investiga quem possui o direito de produzir memória e o que acontece quando determinados grupos precisam inventar suas próprias genealogias porque a história oficial não se preocupou em registrá-las.


Atenção: a partir deste ponto, o texto contém spoilers

A Interpretação da Obra

A revelação decisiva ocorre fora da narrativa propriamente dita. Ao final, o filme informa que Fae Richards é uma personagem inventada e que todo o material histórico associado a ela foi produzido pela equipe. A frase final resume a operação: “Sometimes you have to create your own history.”

Essa declaração não significa que qualquer ficção possa substituir livremente os fatos. Dunye realiza precisamente o movimento oposto. Ao revelar a fabricação, obriga o espectador a reconsiderar por que acreditou tão facilmente na existência de Fae. A personagem parece historicamente plausível porque conhecemos a extensão do apagamento de artistas negras dentro da indústria cinematográfica.

A ficção torna visível uma ausência real.

Essa estratégia também questiona a posição do documentário como forma privilegiada de acesso à verdade. Fotografias e depoimentos parecem oferecer evidências confiáveis, mas o filme demonstra como esses elementos podem ser construídos e contextualizados de maneira a produzir uma narrativa convincente. O arquivo não deixa de possuir importância. Apenas perde a aparência de neutralidade.

A investigação modifica Cheryl mesmo quando o objeto procurado nunca existiu. Ao construir a história de Fae Richards, ela constrói também uma linhagem artística para si mesma. O gesto revela que pertencimento cultural não depende apenas de encontrar antecessores, mas também de reconhecer e preencher os espaços deixados pelo apagamento histórico.

A dimensão lésbica da personagem inventada torna esse processo ainda mais significativo. Se a história registrou insuficientemente mulheres negras no cinema, registrou ainda menos suas experiências afetivas fora dos padrões heterossexuais. Dunye não afirma que uma Fae Richards específica tenha existido. Afirma que o desaparecimento documental de mulheres semelhantes não pode ser confundido com inexistência.

Conclusão

The Watermelon Woman é uma obra fundamental do cinema queer norte-americano porque transforma uma questão histórica em problema formal. Cheryl Dunye não apenas fala sobre apagamento. Constrói um filme cuja própria estrutura obriga o espectador a experimentar a instabilidade existente entre memória, documento e ficção.

Ao interpretar uma versão de si mesma, a diretora elimina a distância confortável entre pesquisadora e objeto de estudo. A busca por Fae Richards é também uma tentativa de compreender o lugar que Cheryl pode ocupar dentro de uma história cinematográfica que raramente preservou mulheres como ela.

A invenção da atriz não reduz a dimensão política da obra. Pelo contrário, demonstra que o vazio dos arquivos também constitui informação. Quando determinadas vidas não foram preservadas, o silêncio documental revela as prioridades e exclusões das instituições responsáveis por construir a memória coletiva.

O filme permanece particularmente atual porque vivemos em uma época na qual arquivos, imagens e registros são constantemente apresentados como provas transparentes do passado. Dunye lembra que todo arquivo é resultado de seleção e que toda memória institucional possui zonas de silêncio.

A frase final não deve ser entendida como defesa da substituição da história pela fantasia. Ela constitui uma reivindicação do direito de imaginar aquilo que foi deliberadamente deixado fora do registro. Para grupos historicamente excluídos, criar imagens também pode significar disputar o passado.

É nessa combinação entre humor, investigação, romance e reflexão sobre a própria linguagem documental que The Watermelon Woman encontra sua força. Cheryl Dunye não recupera uma atriz perdida porque sabe que nenhuma reconstrução seria suficiente para reparar décadas de apagamento. Faz algo mais radical: inventa uma presença capaz de tornar a ausência impossível de ignorar.

Aos Nossos Amores (1983) À nos amours - 1 h 39 min

 

Aos Nossos Amores (1983) - IMDb
Dir: Maurice Pialat
Amadurecimento, Drama de Época, Romance

CLC Balanced Rating: 7,1





Suzanne tem quinze anos, uma família em colapso e a certeza de que só se sente viva quando está com alguém. O único homem que ela realmente ama é o pai, que vai embora.


O Cassavetes francês e uma atriz descoberta por acaso

Maurice Pialat foi chamado de o John Cassavetes do cinema francês e Aos Nossos Amores é uma das suas maiores conquistas. Sandrine Bonnaire foi descoberta quando acompanhou a irmã a um teste de elenco e Pialat decidiu fazer um filme dedicado a ela. O resultado é uma estreia reveladora de uma atriz dinâmica de quinze anos que interpreta Suzanne, uma parisiense que embarca numa série de aventuras sexuais impulsivas para se separar do pai adorado e dominador, da mãe ineficaz e do irmão brutal.

O método de trabalho de Pialat amplificou essa naturalidade: o roteiro original não previa que o pai retornaria na cena do jantar e Pialat simplesmente entrou no set sem avisar os atores, que precisaram improvisar durante quase dez minutos diante de um acontecimento completamente inesperado. Nenhum deles errou a cena.


Suzanne e a impossibilidade de amar

A única pessoa que Suzanne realmente ama é o pai, talvez porque ele seja a única pessoa que a entende e a ama incondicionalmente. Tudo o mais é fuga. Os rapazes com quem ela dorme não são objeto de desejo no sentido convencional, são territórios onde ela se perde temporariamente de uma casa que não a contém. Ela evita justamente Luc, o único que a ama de verdade, tratando-o com uma crueldade que o filme nunca explica completamente, mas que a câmera de Pialat filma com uma atenção que sugere que Suzanne também não a entende.

Há um momento no filme em que Suzanne volta para casa à uma da manhã e o pai, que a havia esbofeteado antes de ela sair, observa que ela sorri menos do que antes e que onde havia duas covinhas nas bochechas agora há apenas uma. É a cena que define o filme: um pai que conhece a filha melhor do que qualquer pessoa ao redor e que por isso mesmo é o único que vê o que está sendo perdido.


Pialat na frente da câmera

Pialat interpreta o pai com um magnetismo assombroso, notável porque ele nunca havia atuado antes. A decisão de colocar-se no filme é coerência com um método que sempre preferiu: a presença real à performance preparada. Todas as cenas entre Pialat e Bonnaire são o coração do filme. Quando o pai some, o filme muda de temperatura, e Suzanne passa a buscar nos outros homens algo que nenhum deles pode dar porque nenhum deles é ele.

O irmão, interpretado por Dominique Besnehard, é o contraponto necessário e o elemento mais perturbador do filme: um homem que substitui o pai na família, mas sem nenhuma da generosidade do pai, apenas com a autoridade e a violência. A crítica o descreve como um dos personagens mais detestáveis do cinema.


Improvisação como método, violência como registro

Pialat trabalhou principalmente com atores estreantes, ou não profissionais, e o estilo cru e imediato que resulta disso faz do filme um estudo de personagem delicado que pode explodir em violência surpreendente. As brigas familiares não são coreografadas para parecer violência de cinema. Têm a irregularidade e o excesso real de conflitos entre pessoas que se conhecem há tempo suficiente para saber exatamente onde doer.

A Criterion Collection descreve o estilo do filme como doloroso, belo e desconcertante, tão honesto na sua mistura de selvageria e delicadeza quanto era em 1983. Damien Chazelle, em texto publicado pela Criterion, descreveu como um encontro precoce com Aos Nossos Amores o ensinou a misturar espontaneidade e surpresa no próprio trabalho, o que é, em si, uma declaração sobre a influência específica que Pialat exerce sobre diretores de gerações muito posteriores.


César de Melhor Filme e o que ficou

Aos Nossos Amores venceu o César de Melhor Filme em 1984 e o Prix Louis Delluc de Melhor Filme em 1983. A Time Out o listou em 38º lugar entre os 100 melhores filmes franceses de todos os tempos, citando o retrato emocionante da relação pai-filha e a conclusão de que a felicidade é tão rara quanto um dia de sol, e a tristeza é permanente.

O corte final do filme, de Bonnaire num avião para Pialat sozinho num ônibus mergulhando na escuridão e de volta a Bonnaire recomeçando, é descrito por críticos como um dos finais mais devastadores do cinema francês dos anos 1980. Quarenta anos depois, o filme não envelheceu porque a questão que coloca sobre amor, fuga e o que acontece quando a pessoa que nos ancora desaparece continua sem resposta disponível.

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sábado, 20 de junho de 2026

Assim Estava Escrito (1952) The Bad and the Beautiful - 1 h 58 min

 

Assim Estava Escrito (1952) - IMDb
Dir: Vincente Minnelli
Drama do Mundo do Espetáculo, Drama Psicológico, Romance

CLC Balanced Rating: 8,2





Jonathan Shields construiu carreiras e destruiu vidas com a mesma frieza. Anos depois, três pessoas que ele traiu são convocadas para decidir se trabalham com ele de novo.


Hollywood julgando a si mesma

The Bad and the Beautiful é um dos maiores filmes já feitos sobre Hollywood, e a ironia central é que foi a própria MGM quem produziu esse retrato implacável da indústria que a sustentava. O filme ajudou a consolidar a imagem popular nada lisonjeira do magnata de Hollywood sem escrúpulos, e fez isso de dentro do sistema de estúdios, não como crítica externa. 

A estrutura é precisa: contado em flashback, o filme traça a ascensão e queda do produtor Jonathan Shields através dos olhos de quem trabalhou com ele, um roteirista, uma atriz e um diretor, cada um carregando uma traição específica que Shields cometeu contra eles no caminho até o topo. A semelhança com a estrutura de Rashomon, de Kurosawa, vencedor do Leão de Ouro no ano anterior, não passou despercebida pela crítica da época.

Kirk Douglas e o magnetismo da crueldade

Clark Gable recusou o papel antes de Kirk Douglas ler o roteiro, achá-lo maravilhoso e aceitar de imediato. O resultado é uma das performances mais magnéticas da carreira de Douglas: poucos atores conseguiram ir do zero ao auge da escala emocional com a velocidade que Douglas demonstra, especialmente na cena em que Lana Turner descobre a traição dele, com uma intensidade assustadoramente real. 

Shields é um produtor magnético cuja ambição e visão arrastam todos para dentro do próprio campo gravitacional, e o filme permite que o espectador sinta a emoção dessa força ao mesmo tempo em que revela o estrago que ela deixa para trás. É um retrato que não pede desculpas pela sedução do personagem, e é exatamente essa recusa que torna Shields mais perturbador do que um vilão convencional. 


Lana Turner e o papel que ela teve que reivindicar

Turner relataria depois, em autobiografia, que como estrela glamourosa da MGM dificilmente teria a chance de interpretar o papel dramático de Georgia Lorrison se John Houseman e Vincente Minnelli não tivessem pedido especificamente por ela. Ela reconheceu de imediato que entendia aquela personagem, uma estrela de cinema vista no início como um desastre encharcado de álcool e depois ressuscitada pela vontade de um produtor sem escrúpulos. 

A interpretação rendeu o que muitos consideram a melhor performance da carreira de Turner, embora a recepção tenha sido dividida: alguns críticos a consideram o ponto fraco do elenco, especialmente numa cena de carro deliberadamente artificial que o público da época já apontava como implausível, levando Minnelli e o produtor Houseman a cortarem doze minutos do filme após reações negativas em exibições-teste. 


Cinco Oscars e uma vitória inesperada

Apesar das complicações na edição, o filme arrecadou lucro modesto e foi amplamente premiado: cinco Oscars conquistados, de seis indicações. Gloria Grahame, com participação relativamente pequena, venceu Melhor Atriz Coadjuvante, e a direção de arte de Cedric Gibbons também levou estatueta, com cenários ricos em detalhes que comunicam volumes sobre cada personagem e cada lugar. Curiosamente, Kirk Douglas foi indicado a Melhor Ator mas perdeu para o discreto Gary Cooper, premiado por Matar ou Morrer. 


Críticas contemporâneas, ainda divididas

A recepção atual reflete a mesma divisão da época. Parte da crítica o trata como um dos grandes clássicos sobre a indústria, ao lado de Crepúsculo dos Deuses e A Malvada, com elogios à confiança melodramática e ao retrato sem piscar dos egos feios que moldaram a história de Hollywood. Outra parte considera o filme excessivamente seco e formal, com um enredo que poderia caber em noventa minutos mas se estende por quase duas horas com ritmo arrastado. 

A crítica original do New York Times, embora elogiosa em partes, lamentava que, apesar de toda a escavação no interior do produtor, o filme nunca explicasse de fato o que move esse homem vicioso. 


Por que ainda importa

Assim Estava Escrito é Hollywood produzindo seu próprio espelho deformado, um estúdio celebrando a si mesmo ao mesmo tempo em que expõe a crueldade que sustenta a fábrica de sonhos. Setenta anos depois, continua sendo referência obrigatória para qualquer filme que queira olhar para dentro da indústria com honestidade, e prova que o melodrama, quando bem executado, pode ser tão afiado quanto qualquer crítica direta.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Os Desajustados (1961) The Misfits - 2 h 05 min



Faroeste Contemporâneo, Drama, Romance


CLC Score: 7,6



Roslyn se divorcia em Reno e encontra três homens que vivem fora do tempo, capturando cavalos selvagens. Nenhum deles sabe o que fazer com ela. Ela também não sabe o que fazer com eles.

O roteiro como autobiografia de dois casamentos


Arthur Miller escreveu o roteiro de Os Desajustados originalmente como conto, inspirado por homens que conheceu em Nevada durante o período em que esperava a aprovação do próprio divórcio, em 1956. Quando o conto se tornou roteiro e o roteiro se tornou o veículo para um filme estrelado por Monroe, a mulher com quem havia se casado naquele mesmo ano, a distância entre arte e vida pessoal já havia desaparecido completamente.

As filmagens aconteceram em 1960, durante o colapso do casamento dos dois. Miller escrevia e reescrevia cenas no set enquanto o casamento se desfazia ao redor delas. Monroe sabia que Roslyn havia sido escrita a partir dela e que o homem que a estava escrevendo já não estava mais do seu lado. Esse contexto não é anedota de bastidor. É o substrato do filme inteiro, visível em cada cena em que Monroe está na tela.


Reno como limiar


O filme começa com Roslyn concluindo o divórcio em Reno, Nevada, cidade que processava dissoluções matrimoniais com uma eficiência industrial que exigia apenas seis semanas de residência. Reno era, na época, o lugar onde casamentos americanos terminavam e Huston a filma como tal: pó, calor, néons, mulheres esperando que o papel chegue para que possam começar de novo.

A amiga Isabelle, interpretada por Thelma Ritter, conhece o ritual e o descreve com uma ironia cansada de quem já passou por ele mais de uma vez. Roslyn enfrenta o divórcio com uma mistura de alívio e desorientação que Monroe filma sem nunca explicar, deixando o espectador montar o que Roslyn está sentindo a partir do que o rosto comunica, não do que o roteiro diz.


Gay, Perce e Guido: três formas de estar fora do tempo


Os três homens que Roslyn encontra, Gay Langland, Perce Howland e Guido, interpretados por Clark Gable, Montgomery Clift e Eli Wallach, são desajustados no sentido que o título propõe: homens que não cabem no mundo que os rodeia, cada um por razões diferentes, e que encontraram no velho oeste americano, já inexistente, uma forma de continuar sendo quem precisam ser.

Gay, o mais velho dos três, é o personagem central no sentido de que organiza a lógica do grupo e eventualmente organiza também a relação com Roslyn. Gable, filmando com Monroe pela única vez na carreira, entrega um homem de uma geração que está terminando, o último cowboy real numa paisagem onde os cavalos selvagens que ele captura vão se tornar ração para cachorros. A consciência desse fim está em cada cena de Gable e o ator filmou suas cenas com uma saúde já comprometida que tornaria Os Desajustados seu último filme: morreu de ataque cardíaco dez dias depois do fim das filmagens.

Montgomery Clift, igualmente em fim de carreira por razões diferentes, acidentes, vícios, a violência do sistema de estúdios contra um homem que recusava categorias, interpreta Perce com uma fragilidade que o papel pede mas que a vida real havia instalado antes do roteiro existir. A cena do rodeio, em que Perce é jogado repetidamente pelo touro enquanto o público aplaude, é uma das imagens mais perturbadoras do filme e Clift a filma de um lugar que parece muito além da ficção.


Roslyn e o que ela representa para cada um


Roslyn não é uma personagem construída em torno de um objetivo narrativo claro e essa ausência de objetivo é o que a torna interessante e o que tornou o papel difícil de definir. Ela reage ao mundo com uma sensibilidade que os três homens ao redor dela encontram ao mesmo tempo atraente e incompreensível: sente a dor dos animais, chora por razões que ninguém ao redor entende imediatamente e recusa a brutalidade casual que os outros tratam como inevitável.

Monroe constrói Roslyn como uma mulher que ainda não sabe onde se encaixar depois do divórcio e que, ao mesmo tempo, já sabe que os homens que encontrou em Nevada não são a resposta para essa pergunta. Essa dupla consciência, de estar buscando algo e de saber que o que está diante dela não é isso, é o que Monroe sustenta durante todo o filme sem que o roteiro precise declarar explicitamente.


A cena dos cavalos como argumento moral


O terceiro ato do filme é organizado em torno da captura de cavalos selvagens que Gay, Perce e Guido realizam num vale do deserto. Roslyn assiste e vai entendendo progressivamente o que vai acontecer com os animais depois e a reação dela, que começa como mal-estar e se transforma em desespero, é o ponto em que o filme explicita o que havia sido um subtexto até então: Roslyn não consegue aceitar a brutalidade que os outros chamam de tradição ou de necessidade.

A cena é longa, filmada no deserto com cavalos reais e Huston não suaviza o que está acontecendo. Os animais são laçados, derrubados, amarrados. Roslyn grita, implora e finalmente oferece dinheiro para que os cavalos sejam soltos. Gay liberta os cavalos, mas o gesto não resolve nada: ele faz isso por Roslyn, não porque mudou de opinião sobre o que é certo, e os dois sabem a diferença.


O último dia no set


As filmagens foram encerradas em novembro de 1960. Monroe havia sido hospitalizada durante a produção por exaustão e dependência de barbitúricos e voltado para completar as cenas restantes. O divórcio de Miller foi finalizado pouco depois. Gable morreria em semanas. Montgomery Clift sobreviveria cinco anos.

Monroe morreria em agosto de 1962, antes da indicação ao Globo de Ouro pela performance chegar, antes de qualquer reconhecimento formal do que havia feito em Os Desajustados. O filme estreou em fevereiro de 1961 com recepção dividida: a crítica não sabia bem o que fazer com um western existencial sem ação, com personagens que o roteiro tratava com uma seriedade que o gênero raramente admitia.


O que o tempo revelou

Os Desajustados foi revisado com crescente generosidade nas décadas seguintes e a performance de Monroe passou a ser reconhecida como o centro de um filme que precisava desse centro para existir. Roslyn é o único personagem que não está fora do tempo: ela está, muito precisamente, no seu próprio tempo, tentando entender o que vem depois de um casamento que terminou e de uma vida que precisava ser refeita.

Miller escreveu Roslyn a partir de Monroe e o paradoxo é que o retrato mais honesto que alguém fez dela na ficção foi escrito por um homem durante o fim do casamento dos dois e filmado por ela com uma consciência desse fato que está presente em cada cena. O que Monroe fez com esse material é, junto com Nunca Fui Santa, a prova mais clara do que ela poderia ter feito se a indústria houvesse permitido que tentasse com mais frequência.



O Príncipe Encantado (1957) The Prince and the Showgirl - 1 h 55 min

 Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Comédia, Romance

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,4
Letterboxd: 6,4   CLC Balanced Scoring: 6,3
55%Tomatometer

Uma corista americana e um regente europeu se encontram em Londres durante uma coroação. Nos bastidores, dois atores travavam uma guerra silenciosa que o filme não mostra.

Como o filme chegou a existir

O Príncipe Encantado nasceu de uma peça de Terence Rattigan, The Sleeping Prince, escrita originalmente para Laurence Olivier e Vivien Leigh interpretarem juntos em 1953, como celebração da coroação da Rainha Elizabeth II. Quando a peça foi adaptada para o cinema, Olivier imaginou-se como o personagem central: o Grão-Duque Karl Franz, regente fictício de um principado europeu que visita Londres para a coroação de 1911 e se envolve com Elsie Marina, uma corista americana.

A Marilyn Monroe Productions entrou na produção como coprodutora, e Monroe assumiu o papel de Elsie. Era a realização de um objetivo que havia motivado parte da criação da própria produtora: ter controle suficiente sobre um projeto para escolher o tipo de trabalho dramático que a Fox continuava resistindo a oferecer. Olivier seria diretor e coprotagonista. A soma de dois prestígios tão diferentes numa mesma produção gerou expectativa considerável antes mesmo das filmagens começarem.


Dois métodos, uma sala de ensaio

Laurence Olivier representava a tradição teatral britânica em sua forma mais distilada: formação clássica, disciplina técnica, a crença de que a performance é resultado de escolhas deliberadas e ensaiadas com precisão. Paula Strasberg, professora e representante do Actors Studio que acompanhou Monroe durante toda a produção como coach pessoal, representava o oposto: a escola de interpretação que priorizava a verdade emocional interna sobre a técnica externa.

O choque entre os dois métodos foi inevitável. Monroe chegava atrasada, pedia repetição após repetição, consultava Paula Strasberg entre tomadas e buscava uma verdade emocional que Olivier considerava desnecessária para o que o papel exigia. Olivier, segundo relatos da época, ficou progressivamente frustrado e sua frustração se expressou de formas que Monroe descreveu como condescendência. A pergunta que ele teria feito numa tomada, "por que você não simplesmente tenta ser sexy, querida?", circula em biografias como o símbolo do abismo entre os dois.


O método de Monroe no trabalho

O que a narrativa da produção caótica frequentemente obscurece é o resultado na tela. Elsie Marina é um personagem que exige de Monroe exatamente o que o Actors Studio havia treinado: uma ingenuidade genuína que não é burrice, uma capacidade de ser completamente presente numa cena sem sinalizar para o espectador que está atuando.

As cenas em que Elsie gradualmente desequilibra o Grão-Duque, um homem acostumado a controlar todos ao redor, funcionam porque Monroe constrói Elsie como alguém que genuinamente não percebe que está fazendo isso. Não há cálculo visível na personagem, o que é tecnicamente o mais difícil de executar e o que Olivier, segundo seus próprios relatos posteriores, demorou a reconhecer que ela estava conseguindo.


O que Olivier disse depois

Décadas depois, em sua autobiografia, Olivier revisou o julgamento que havia feito durante as filmagens. Reconheceu que Monroe havia entregado algo real na tela que ele não havia conseguido prever durante o processo de produção e que o método dela, por mais frustrante que fosse de lidar nos bastidores, havia produzido resultados que o método dele não teria alcançado para aquele personagem específico.

Esse reconhecimento tardio é parte do argumento que os bastidores de O Príncipe Encantado colocam em perspectiva: a condescendência que Monroe enfrentou não era só de Olivier. Era o padrão de como Hollywood e o establishment teatral britânico tratavam uma atriz que havia sido vendida como símbolo sexual e que insistia em ser levada a sério como profissional. Quando a produção era descrita como caótica, a fonte do caos identificada era sempre ela, nunca o método que ela estava tentando aplicar.


A Marilyn Monroe Productions e seus limites

O Príncipe Encantado foi o único filme produzido pela Marilyn Monroe Productions que chegou às telas. A produtora existiu como instrumento de negociação mais do que como estrutura de produção independente real, e o filme expôs os limites desse instrumento: mesmo sendo coprodutora, Monroe não tinha poder suficiente para controlar o ambiente de trabalho, a relação com o diretor ou a forma como a produção seria descrita publicamente.

A bilheteria foi modesta. A crítica foi dividida. E o filme ficou conhecido, por décadas, menos pelo que Monroe fez na tela e mais pelo que Olivier disse sobre as filmagens.


O que o filme deixou

O Príncipe Encantado é hoje revisitado com mais generosidade do que recebeu na época e a performance de Monroe é frequentemente apontada como o elemento mais vivo de uma produção que envelhece de forma desigual. O Grão-Duque de Olivier é competente e elegante e está sempre claramente sendo atuado. Elsie de Monroe é imprevisível e parece estar simplesmente existindo numa tarde de domingo em Londres.

A distância entre as duas performances na tela é a mesma distância que havia nos bastidores entre os dois atores e a ironia é que o método que Olivier tratou com condescendência foi o que produziu o personagem mais memorável do filme que ele dirigiu.











Nunca Fui Santa (1956) Bus Stop - 1 h 36 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Comédia, Drama, Romance

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,3
Letterboxd: 5,6   CLC Balanced Rating: 6,7
73%Tomatometer

Cherie canta numa boate de Phoenix e sonha com Hollywood. Um cowboy decide que ela vai ser dele. Ela tem outros planos para a própria vida.


O ano que faltou e o que ele mudou

Entre 1955 e 1956, Marilyn Monroe desapareceu de Hollywood por um ano. Mudou-se para Nova York, passou a estudar interpretação com Lee Strasberg no Actors Studio e fundou a própria produtora, a Marilyn Monroe Productions, junto com o fotógrafo Milton Greene. Quando voltou, negociou um novo contrato com a Fox que lhe dava mais controle sobre os papéis e Nunca Fui Santa foi o primeiro filme produzido sob esses novos termos.

A escolha do papel já era uma declaração. Cherie, cantora de talento modesto numa boate chamada Blue Dragon, em Phoenix, é uma personagem dramática, vulnerável e fisicamente apresentada sem o glamour calculado dos papéis anteriores. Monroe pediu maquiagem mais discreta e figurino que comunicasse cansaço, não sedução. Era a primeira vez que ela usava a própria imagem para construir personagem, em vez de construir personagem em torno da própria imagem.


O cowboy, o laço e a comédia que esconde um sequestro

Don Murray interpreta Bo Decker, cowboy criado isolado num rancho de Montana, que chega a Phoenix para competir num rodeio e se apaixona por Cherie à primeira vista. A partir daí, Bo decide que ela vai se casar com ele e voltar para Montana e o filme trata a recusa repetida de Cherie como obstáculo cômico a ser superado pela determinação ingênua de Bo, que literalmente a coloca à força num ônibus.

Visto hoje, o enredo expõe um desconforto que a comédia da época não via como problema: Bo sequestra Cherie e o filme espera que o espectador torça para que ela acabe se afeiçoando a ele de qualquer forma. Arthur O'Connell, como Virgil, o amigo mais velho e paternal de Bo, funciona como a voz que reconhece os limites do comportamento dele, ainda que o filme nunca chegue a chamar a situação pelo nome que ela merece.


That Old Black Magic, cantada para não impressionar

A cena em que Cherie canta "That Old Black Magic" no Blue Dragon é o momento em que o filme mais claramente sinaliza o que está fazendo de diferente. Monroe canta com um vocal deliberadamente fraco, atrapalhado, sem o controle e o brilho que ela demonstrava em números musicais anteriores. A escolha é proposital: Cherie não tem talento de verdade e parte da tragédia silenciosa da personagem é que ela mesma sabe disso, mas continua sonhando com uma carreira que provavelmente nunca vai acontecer.

É um tipo de vulnerabilidade que exige de uma atriz famosa pela perfeição da própria imagem o oposto completo: aceitar parecer ruim, de propósito, para servir ao personagem. Monroe fez essa escolha conscientemente e a cena se tornaria uma das mais lembradas de "That Old Black Magic" na história do cinema, justamente por não ser, em termos técnicos, uma boa performance vocal.


O sotaque, a postura, o trabalho

Monroe construiu para Cherie um sotaque que misturava influências do Ozark com observações que ela mesma fez durante viagens ao sul dos Estados Unidos e manteve essa voz consistente durante todo o filme, algo que exigia disciplina técnica incomum para uma atriz que, até então, era frequentemente descrita pela imprensa como alguém que dependia apenas de instinto e aparência.

A crítica da época notou a diferença. Pela primeira vez, Marilyn Monroe foi discutida não como fenômeno de bilheteria ou ícone visual, mas como atriz que havia feito um trabalho de construção de personagem reconhecível como tal. Anos depois, ela diria que Nunca Fui Santa era o filme de que mais se orgulhava.



O que esse orgulho custou para ser possível

A ironia de Nunca Fui Santa é que o filme que Monroe considerava seu melhor trabalho só existiu porque ela passou um ano lutando contra o próprio estúdio, estudando fora de Hollywood, e usando a alavanca rara que tinha, ser a estrela mais rentável da Fox, para negociar o direito de tentar algo diferente. A maioria das atrizes na posição contratual dela não teria essa alavanca.

Nunca Fui Santa não resolveu a tensão entre a mulher e o mito. Mas é o filme em que essa tensão aparece pela primeira vez como conquista, não como acidente, o único momento da carreira em que Monroe conseguiu, ainda que parcialmente, decidir como queria ser vista.





Os Homens Preferem as Louras (1953) Gentlemen Prefer Blondes - 1 h 31 min




Screwball Comedy, Musical, Romance


CLC Score: 7,7






Da Broadway para o cinema, e o nascimento de uma fórmula

Os Homens Preferem as Louras chegou ao cinema já consagrado: começou como romance de Anita Loos em 1925, satirizando os costumes da alta sociedade americana através dos olhos de uma showgirl que persegue diamantes com uma lógica própria, e depois se tornou musical de sucesso na Broadway, com Carol Channing no papel principal. Quando a 20th Century Fox decidiu adaptar para o cinema, escolheu Marilyn Monroe para Lorelei Lee, e Jane Russell, então a estrela mais estabelecida das duas, para Dorothy Shaw.

Howard Hawks dirige com o ritmo ágil que definia suas comédias, mas o que diferencia este filme de qualquer outra comédia de showgirls da época é a precisão com que Lorelei é escrita. Ela não é burra. É alguém que decidiu, com clareza total, que beleza é um recurso com prazo de validade, e que riqueza é a única forma de segurança disponível para uma mulher na posição dela. O filme deixa essa lógica explícita logo na primeira cena, e nunca recua dela.


Lorelei e Dorothy, duas estratégias de sobrevivência

Dorothy, interpretada por Jane Russell, funciona como contraponto a Lorelei: pragmática onde Lorelei é calculista, cínica onde Lorelei é estratégica, e romântica de um jeito que Lorelei considera ingenuidade. A amizade entre as duas é o centro emocional do filme e Hawks filma essa amizade sem nenhuma rivalidade artificial entre elas. Lorelei e Dorothy estão do mesmo lado, navegando o mesmo mundo de homens ricos, propriedade familiar e duplo padrão moral, cada uma com sua própria forma de jogar o jogo.

O que o roteiro nunca permite é que o espectador esqueça que esse jogo tem regras impostas por outra pessoa. Lorelei está noiva de Gus Esmond, herdeiro de fortuna, mas o pai dele se opõe ao casamento e contrata um detetive para vigiá-la durante a viagem de navio até Paris. A vigilância constante, o julgamento moral sobre o comportamento de Lorelei e a necessidade dela de provar a própria "respeitabilidade" para alguém que nunca precisaria provar nada parecido, são o motor da trama inteira.


Diamonds Are a Girl's Best Friend

O número musical em que Lorelei, vestida de rosa, cercada de homens em smoking, declara que diamantes são os melhores amigos de uma garota, se tornaria a imagem definidora da carreira de Monroe. A coreografia, a cor, a confiança da performance, tudo foi desenhado para ser memorável, e funcionou além de qualquer expectativa: décadas depois, o número continua sendo referenciado, recriado e parodiado.

O que a popularidade do número apagou foi o contexto da letra. Lorelei não está cantando sobre vaidade. Está cantando sobre a única forma de segurança financeira disponível para uma mulher sem outras opções num mundo que trata mulheres como Lorelei como descartáveis no momento em que a juventude passa. "Diamonds are a girl's best friend" é, na letra original, um argumento sobre precariedade, mas a imagem que ficou foi apenas a do glamour.


A disparidade que ninguém via

Apesar de o filme ter sido construído em torno de Monroe e de Lorelei ser a personagem que carrega o argumento central da história, Jane Russell recebeu salário consideravelmente maior pela produção. A diferença refletia o status contratual das duas atrizes na Fox naquele momento, mas também antecipava um padrão que acompanharia Monroe pelo resto da carreira: o valor que ela gerava nas bilheterias raramente se traduzia em controle proporcional sobre os próprios termos.

O sucesso de Os Homens Preferem as Louras foi imediato e enorme. A partir desse filme, "Marilyn Monroe" deixou de ser uma atriz em ascensão e se tornou uma fórmula replicável: a loira que todo homem rico desejaria, espalhafatosa na superfície e calculista por baixo, mas sempre filmada de um jeito que privilegiava a superfície sobre o cálculo.


O que o filme sabia e o que escolheu mostrar

Há uma ironia em Os Homens Preferem as Louras que o tempo tornou mais visível: o filme entende perfeitamente que Lorelei é mais inteligente do que qualquer homem ao redor dela percebe e usa essa inteligência como piada recorrente, sempre revelada no momento certo para surpreender quem a subestimou. Mas o sucesso comercial do filme não veio dessa inteligência. Veio da superfície que a escondia.

Hawks construiu uma comédia que sabia exatamente o que estava fazendo. A indústria que distribuiu e vendeu o filme escolheu vender apenas uma parte dele e essa escolha definiria como o público veria Marilyn Monroe pelos vinte anos seguintes, mesmo depois da morte dela, mesmo até hoje.






Torrentes de Paixão (1953) Niagara - 1 h 32 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Film Noir

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,0   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 6,8   CLC Balanced Score: 7,0
78%Tomatometer

George levou Rose para Niagara Falls numa lua de mel atrasada. Ela tinha outros planos. As cataratas não vão poupar nem ela nem ele.

1953, o ano em que tudo mudou

Torrentes de Paixão chegou aos cinemas no início de 1953, meses antes de Os Homens Preferem as Loiras transformar Marilyn Monroe na maior estrela do mundo. Nos créditos, o nome dela vem depois do de Jean Peters e Joseph Cotten, os protagonistas oficiais da história. A 20th Century Fox ainda estava testando até onde aquela atriz conseguia carregar um filme e Torrentes de Paixão funciona, em retrospecto, como o experimento que confirmou a resposta.

O filme é um thriller passado nas cataratas do Niágara, com um casal em lua de mel, Ray e Polly Cutler, hospedado no mesmo motel que George e Rose Loomis, casal cujo casamento já está em ruínas antes mesmo de a história começar. Rose tem um amante. George tem cicatrizes de guerra que o roteiro nunca explica em detalhe, mas que a performance de Cotten deixa visíveis em cada gesto contido. As cataratas, filmadas em Technicolor por Joseph MacDonald, são tratadas como força que amplifica tudo: o som constante, a água que nunca para, a sensação de estar perto de algo que pode engolir qualquer coisa.


Rose Loomis e o nascimento de um tipo

Rose é o primeiro papel de Monroe a explorar abertamente a sensualidade como ameaça, não como charme. Ela aparece pela primeira vez dormindo, indiferente ao barulho e à movimentação do motel, e a câmera de Hathaway a filma com uma demora que comunica imediatamente o que o roteiro vai confirmar depois: Rose é o centro de gravidade de qualquer cena em que está, e todo mundo ao redor dela sabe disso, inclusive ela.

O plano de Rose é simples na superfície e cruel na execução: o amante deveria matar George durante uma excursão até a base das cataratas, criando a aparência de acidente. O que torna a personagem interessante não é a maldade do plano, mas a naturalidade com que Rose o conduz, sorrindo para Polly, fingindo preocupação com o marido, vivendo a vida normal do motel enquanto espera a notícia da morte dele. Monroe constrói essa naturalidade sem nenhum sinal exterior de culpa, o que torna Rose mais perturbadora do que uma vilã caricatural seria.


George e a guerra que não terminou

Joseph Cotten interpreta George como um homem que sobreviveu a algo, provavelmente a Segunda Guerra, e que voltou incapaz de confiar, de relaxar, de habitar a própria vida com normalidade. A instabilidade de George é o motor real do filme: quando o plano de Rose dá errado e é o amante quem morre, George, presumido morto, na verdade sobrevive, e a partir daí o filme se torna sobre o que um homem já fragilizado faz quando descobre que a própria mulher tentou matá-lo.

A cena em que George confronta Rose no hospital, sussurrando, contido, é mais aterrorizante do que qualquer grito poderia ser. Cotten entrega um homem que processou a traição em silêncio e que chegou a uma conclusão que ele mesmo trata como inevitável.



A caminhada e o que ela estabeleceu

Existe uma cena em Torrentes de Paixão que se tornaria referência: Rose caminhando por uma rua, de costas para a câmera, num vestido justo, por um tempo que se estende além do que qualquer necessidade narrativa exigiria. A imprensa da época chamou de "a caminhada mais longa do cinema", e a cena foi desenhada deliberadamente para isso, para que o público olhasse, sem pressa, sem interrupção.

É o tipo de cena que, vista hoje, antecipa exatamente o mecanismo que definiria o resto da carreira de Monroe: o corpo dela como atração que justifica, por si só, segundos de tela que nenhum roteiro pediria de qualquer outro ator.



Onde o instrumento começa

Torrentes de Paixão termina com George estrangulando Rose na torre do carrilhão, e morrendo pouco depois, ao tentar escapar num barco que é sugado pelas cataratas. É um final de tragédia clássica, dois personagens destruídos pela mesma força que os trouxe até ali. Mas o que o filme deixou, além do enredo, foi a primeira demonstração pública de como Hollywood pretendia usar Marilyn Monroe: como presença que a câmera trata com uma atenção diferente de tudo ao redor, justificada pela narrativa como perigo, mas comunicada ao espectador como prazer.

Meses depois, a mesma atenção seria reembalada como comédia, como charme, como a loira que todo homem rico desejaria. A ferramenta era a mesma. Só a moldura mudaria.