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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Asteroid City (2023) - 1 h 44 min

WES ANDERSON: Pequenos Mundos, Grandes Sentimentos

Eventos que mudam o mundo perturbam espetacularmente a celebração anual do Dia do Asteroide em uma cidade do deserto americano.


Comédia Peculiar, Drama do Mundo do Espetáculo, Ficção Científica, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,4   METASCORE: 7,6
Flick Metrix: 69   Criticker Average Percentile: 47%
76%Tomatometer363 Reviews   62%Popcornmeter

Quando tudo parece artificial, talvez seja porque a realidade já não basta.


O Deserto como Espaço de Suspensão


Em Asteroid City (2023), Wes Anderson desloca sua encenação para um território onde o vazio não é ausência, mas condição. A pequena cidade no deserto funciona como um espaço suspenso — quase fora do tempo — onde eventos extraordinários irrompem sem romper completamente a lógica do cotidiano. O cenário, ao mesmo tempo vasto e artificial, reforça a sensação de que estamos diante de um mundo construído, onde cada elemento parece existir sob uma camada de mediação.


Teatro, Cinema e a Consciência da Forma

O filme radicaliza o jogo entre representação e realidade ao estruturar-se como uma peça dentro de um programa televisivo. Anderson explicita os mecanismos de encenação, revelando bastidores, atores e processos. Não se trata mais apenas de estilização, mas de uma investigação sobre o próprio ato de representar. O cinema se aproxima do teatro, e a narrativa se fragmenta em níveis que se observam mutuamente, criando um efeito de distanciamento que é, paradoxalmente, revelador.


Personagens em Busca de Sentido

Os personagens de Asteroid City parecem menos definidos por seus desejos do que por suas perguntas. Eles habitam um mundo onde algo aconteceu — ou está prestes a acontecer — mas cuja significação permanece indefinida. O luto, a solidão e a incomunicabilidade atravessam suas trajetórias, mas nunca se resolvem plenamente. Anderson constrói figuras que não encontram respostas, apenas modos de continuar existindo.


O Humor Diante do Inexplicável


O humor, característico de sua obra, assume aqui uma tonalidade mais rarefeita, quase desconcertante. Situações absurdas surgem sem clímax, diálogos parecem deslocados, e o riso emerge de uma estranheza persistente. Não há mais a mesma função de alívio — o humor convive com o vazio, como uma tentativa de organizar aquilo que não pode ser compreendido.


Leitura Crítica: O Artifício como Limite

Asteroid City representa um dos momentos mais radicais do cinema de Anderson. Ao expor a estrutura, ao fragmentar a narrativa e ao esvaziar certas expectativas dramáticas, o filme questiona os próprios limites de sua linguagem. Para alguns espectadores, essa abordagem pode parecer excessivamente abstrata ou distante; para outros, é precisamente essa ruptura que revela um novo horizonte. Aqui, o artifício não apenas constrói o mundo — ele também evidencia sua insuficiência, abrindo espaço para uma experiência onde o sentido já não está dado, mas precisa ser continuamente buscado.

 


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Questão de Tempo (2013) About Time - 2 h 3 min

VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento

Tim descobre que pode viajar no tempo e mudar o que acontece e aconteceu em sua vida. Sua decisão de tornar seu mundo um lugar melhor ao conseguir uma namorada acaba não sendo tão fácil.


Dir: Richard Curtis
Romance Alegre, Viagem no Tempo, Comédia, Drama, Ficção Científica


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 5,5
Flick Metrix: 71  Criticker Average Percentile: 59%
71%Tomatometer168 Reviews   82%Popcornmeter



About Time, dirigido por Richard Curtis, é um dos filmes mais delicados e enganosamente simples sobre viagem no tempo. Sob a aparência de comédia romântica, ele propõe uma reflexão madura e profundamente humana: e se a viagem no tempo não servisse para mudar o mundo, mas apenas para aprender a viver melhor dentro dele?

Na lógica da mostra, o filme se insere no eixo existencial-afetivo do subgênero, onde o tempo não é conflito externo, mas ferramenta íntima de consciência.


A viagem no tempo como herança


O filme apresenta uma regra mínima e quase banal: os homens de uma família podem voltar a momentos específicos do próprio passado, desde que estejam sozinhos e em um espaço fechado. Não há máquinas, portais ou efeitos espetaculares. O tempo é tratado como dom doméstico, passado de pai para filho como um segredo incômodo.

Essa escolha é crucial. Ao naturalizar a viagem no tempo, o filme desloca a pergunta central: não “como funciona?”, mas “como usar sem se perder?”


Corrigir o erro… e depois?


Inicialmente, o protagonista usa o poder como qualquer um faria: para consertar gafes sociais, melhorar encontros amorosos, evitar humilhações. O tempo funciona como ensaio geral da vida, permitindo versões cada vez mais “perfeitas” de si mesmo.

Mas logo surge a fratura moral do filme:
👉 se tudo pode ser refeito, o que ainda é vivido de verdade?

A repetição começa a esvaziar a experiência.


O custo invisível da correção

Ao contrário de narrativas mais sombrias, About Time não pune o uso do poder com catástrofes imediatas. A punição é afetiva e silenciosa. Cada correção elimina algo que não pode coexistir com o novo arranjo: memórias, encontros, até pessoas.

O tempo ensina que toda escolha “melhor” implica uma perda invisível, mesmo quando parece correta.


Pai e filho: o tempo compartilhado


O coração do filme não está no romance, mas na relação entre pai e filho. A viagem no tempo se torna, progressivamente, ritual de convivência, uma forma de estender momentos, de revisitar conversas, de adiar despedidas.

Aqui, o tempo deixa de ser ferramenta de controle e se torna espaço de luto antecipado. O filme reconhece que nem tudo deve, ou pode, ser refeito.


A decisão radical: parar de voltar

O gesto mais importante de Questão de Tempo não é uma correção, mas uma renúncia. O protagonista escolhe viver cada dia como se pudesse repeti-lo sem jamais repeti-lo de fato.

Essa decisão redefine o subgênero: a verdadeira viagem no tempo é aprender a estar presente.


Tempo, felicidade e aceitação


O filme rejeita tanto o fatalismo quanto a obsessão pelo controle. Ele propõe uma ética suave, mas firme: viver bem não é eliminar erros, e sim aceitar a imperfeição do fluxo.

A felicidade surge não da manipulação do tempo, mas da atenção ao cotidiano: às conversas triviais, aos dias comuns, às pequenas alegrias que só existem porque não podem ser refeitas.


Lugar no subgênero da viagem no tempo


Dentro da história do cinema, About Time dialoga com:

  • It’s a Wonderful Life (tempo como revelação moral),
  • Somewhere in Time (amor e sacrifício),
  • Arrival (escolha consciente diante do inevitável).

Mas se diferencia por sua gentileza conceitual. Não há paradoxo a resolver, nem ameaça a vencer. O conflito é interno e cotidiano.

O filme representa o ponto em que a viagem no tempo abandona a fantasia de controle e assume a maturidade da aceitação.


Conclusão: viver sem rascunho

Questão de Tempo sustenta uma ideia simples e profundamente transformadora: o problema não é não poder voltar no tempo; é viver como se sempre fosse necessário.

Ao final, o filme afirma que a maior sabedoria não está em corrigir o passado nem antecipar o futuro, mas em habitar plenamente o presente, sabendo que ele é único justamente porque passa.

About Time funciona como lembrete essencial: depois de paradoxos, guerras e loops, talvez a viagem no tempo mais radical seja decidir não usá-la.





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Lobo de Wall Street (2013) The Wolf of Wall Street - 3 h

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

MARTIN SCORSESE: Vida, Obra e Estilo

ATÉ ONDE VOCÊ VAI? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito


O Lobo de Wall Street (2013) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Comédia Atrevida, Comédia de Humor Negro, Crime Verdadeiro, Docudrama, Drama no Trabalho, Sátira, Biografia

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 7,5
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 8,1
79%Tomatometer283 Reviews


Uma farsa épica sobre excesso, ambição, vício e a fantasia interminável do capitalismo americano


1. Contexto Histórico e Produção

Baseado no livro autobiográfico de Jordan Belfort, o filme explora a trajetória de um corretor que construiu (e destruiu) um império financeiro através de:

  • fraude,
  • lavagem de dinheiro,
  • manipulação do mercado,
  • corrupção,
  • e um hedonismo fora de controle.



Scorsese viu no material não apenas uma história sobre crimes financeiros, mas uma chance de:

  • retratar a lógica do capitalismo como vício,
  • examinar masculinidades tóxicas,
  • explorar excessos com energia cômica,
  • e criar uma sátira feroz sobre a cultura americana da ganância.

O filme tornou-se um fenômeno cultural, indicado ao Oscar (inclusive Melhor Diretor e Melhor Ator) e lembrado por suas cenas icônicas e sua linguagem provocadora.


2. Enredo

⭐ Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio)

Jovem ambicioso que entra em Wall Street buscando sucesso rápido.
Após a queda da bolsa em 1987, ele percebe que pode ganhar mais enganando pequenos investidores do que vendendo ações legítimas.



⭐ A Straton Oakmont

Belfort funda sua própria empresa, uma espécie de:

  • seita corporativa,
  • sala de culto ao dinheiro,
  • ambiente de degradação constante.



A empresa se transforma em símbolo de excessos:

  • drogas,
  • sexo público,
  • lavagem de dinheiro,
  • festas destrutivas,
  • discursos motivacionais histéricos.


⭐ Donnie Azoff (Jonah Hill)

Braço direito de Belfort; carismático e profundamente perturbado.





⭐ Naomi Lapaglia (Margot Robbie)

Esposa de Belfort, que representa o fascínio e o custo emocional e pessoal de sua vida de excessos.





A história acompanha ascensão meteórica, queda espetacular e prisão, mas, mais importante, a incapacidade total de Belfort de sentir remorso.


3. Temas Centrais

⭐ 3.1 O capitalismo como vício

A narrativa mostra que Belfort é o produto ideal de um sistema que recompensa:

  • manipulação,
  • falta de ética,
  • narcisismo,
  • agressividade,
  • performatividade.

Jordan é o “monstro” que o mercado cria e depois finge repudiar.


⭐ 3.2 Masculinidade tóxica como espetáculo

O filme mergulha em:

  • competitividade destrutiva,
  • humilhação,
  • sexualização,
  • agressividade,
  • tribalismo masculino.

Toda a cultura da Straton Oakmont é construída como um delírio machista Nietzscheano.

⭐ 3.3 Excessos como anestesia emocional

Os personagens usam:

  • cocaína,
  • Quaaludes,
  • prostituição,
  • dinheiro,
  • violência verbal.

Tudo para evitar lidar com a própria mediocridade emocional.


⭐ 3.4 A ética como ilusão perdida

A linha entre certo e errado desaparece completamente quando os personagens percebem que:

“Se ninguém está olhando, tudo é permitido.”

⭐ 3.5 O humor como forma de revelação

Scorsese filma o horror como comédia para expor sua estupidez. A risada vira desconforto.


4. Estilo Visual e Estético

4.1 Montagem frenética (Thelma Schoonmaker)

O filme corre em velocidade alucinada, com ritmo intenso, cortes ágeis e energia contagiante.

4.2 Narrativa em primeira pessoa

Belfort fala direto para a câmera, quebra a quarta parede, manipula o público e mente descaradamente.




4.3 Estilo documental exagerado

Scorsese usa técnicas de:

  • comerciais de TV,
  • vídeos motivacionais,
  • reality shows,
  • palestras,
  • videoclipes.

Tudo para construir um mundo onde cada pessoa é um personagem de si mesma.

4.4 Coreografia dos excessos

As cenas com centenas de figurantes em festas, escritórios e reuniões corporativas são filmadas como números musicais caóticos.


5. Leonardo DiCaprio – atuação histórica

DiCaprio entrega uma performance:

  • cômica,
  • física,
  • neurótica,
  • exagerada,
  • carismática,
  • desprezível,
  • impossível de ignorar.



A cena dos Quaaludes vencidos, em que ele se arrasta pelo chão até o carro, virou imediatamente parte da história do cinema.


6. Um filme sobre nós, não sobre Jordan

Scorsese deixa claro: Jordan Belfort não é incomum, apenas extremo. O sistema financeiro real produz “mini Belforts” todos os dias. O filme mostra:

  • a mitologia americana do self-made man,
  • a ilusão de mérito,
  • a pornografia do sucesso,
  • a substituição da moral por performance,
  • o apetite por narrativas de ascensão.

Quando o público ri, participa do jogo e é isso que Scorsese quer expor.


7. O Final – a pergunta incômoda

No fim, Belfort vira um guru motivacional. Não está arrependido, não aprendeu nada e não mudou.

As pessoas continuam olhando para ele como um modelo.

O plano final - rostos fascinados por suas palavras - é uma crítica violenta: “O problema não é o lobo. O problema é que queremos ser devorados.”


8. Importância na Carreira de Scorsese

  • seu filme mais abertamente cômico desde Depois de Horas;
  • sua obra mais caótica e barulhenta;
  • crítica feroz ao capitalismo moderno;
  • consolida DiCaprio como colaborador essencial;
  • mostra um Scorsese livre, sem pudores, irreverente e radical.

Conclusão

O Lobo de Wall Street é um carnaval obsceno para mostrar o vazio que existe dentro da busca por poder e prazer ilimitados.

É Scorsese no auge da energia, filmando o capitalismo como uma comédia infernal, onde a queda é tão espetacular quanto a ascensão.

Onde assistir: O Lobo de Wall Street esta disponível na Filmoteca Seu Manolo em plataformas de streaming no Brasil: O Lobo de Wall Street - Veja onde assistir. O filme tem 180 minutos que passam com a velocidade do thriller bem executado.







sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Era Uma Vez Em... Hollywood (2019) Once Upon a Time... in Hollywood - 2 h 41 min

Rick (Leonardo DiCaprio), e seu dublê, Cliff (Brad Pitt), fazem de tudo para voltarem a fama em uma Hollywood que não reconhecem mais. Se passando em 1969, a busca por fama de Rick e Cliff fica mais urgente quando o casal mais famoso se muda para a casa ao lado.


Dir: Quentin Tarantino
Drama do mundo do espetáculo, comédia


MEGA1
MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6   METASCORE: 8,4
86%Tomatometer581 Reviews   70%Popcornmeter

Certified fresh score.

Temas
  • Hollywood dos anos 60: Retrata a era de ouro do cinema.
  • Amizade: A relação entre Rick e Cliff é central na narrativa.
  • Violência e Cultura Pop: O filme faz referência a eventos históricos e à cultura pop da época.

Recepção

  • Crítica: Geralmente positiva, elogiando a direção de Tarantino e as atuações de DiCaprio e Pitt.
  • Prêmios: Vencedor de 2 Oscars, incluindo Melhor Ator Coadjuvante (Brad Pitt).

Curiosidades

  • O filme é uma homenagem a Hollywood e a filmes clássicos.
  • Tarantino fez diversas referências a filmes e programas de TV da época.
  • A cena final é uma reinterpretação fictícia de eventos reais.

Conclusão

"Era Uma Vez Em... Hollywood" é uma mistura de nostalgia, crítica social e um olhar único sobre a indústria do cinema, consolidando ainda mais o talento de Quentin Tarantino como um dos grandes cineastas contemporâneos.