Mostra Roman Polanski - Cinema do Cerco
Um comerciante de livros curiosos está envolvido em uma conspiração com nuances sobrenaturais enquanto procura pelas duas últimas cópias de um texto demoníaco.
O Último Portal (1999) - IMDbDir: Roman Polanski
Suspense Psicológico, Mistério
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 6,7 METASCORE: 4,4
Em O Último Portal, Roman Polanski retorna ao
território do oculto, mas o faz de maneira singular: não pelo horror explícito
ou pela ameaça imediata, e sim pela sedução do conhecimento, da crença e do
poder simbólico. Trata-se de um thriller esotérico frio, irônico e
deliberadamente ambíguo, em que a busca pelo sobrenatural é menos importante do
que a disposição humana para acreditar.
Aqui, o cerco não é físico nem social — é intelectual e
metafísico.
Um detetive sem moral
Dean Corso é um investigador de livros raros, cínico,
solitário e absolutamente pragmático. Ele não acredita em nada além do próprio
interesse. Polanski constrói um protagonista distante do herói clássico ou do
investigador noir moralizado: Corso não busca a verdade — busca
vantagem.
Essa postura o torna ideal para o universo do filme: alguém
disposto a atravessar bibliotecas, mansões e ruínas sem se perguntar o preço
do que procura.
O livro como objeto de poder
A narrativa gira em torno de um suposto livro demoníaco
capaz de invocar o próprio Diabo. No entanto, Polanski evita qualquer
fetichização simplista do oculto. O livro é tratado como
objeto de desejo,
cercado por especialistas, colecionadores, falsificadores e fanáticos.
O mal não reside no texto em si, mas na rede de obsessões
que ele cria. O conhecimento, quando isolado de qualquer ética, torna-se
instrumento de dominação.
O ocultismo sem espetáculo
Diferente de
O Bebê de Rosemary, o sobrenatural em
O
Último Portal permanece sempre em suspenso. O filme opera no limite entre
explicação racional e sugestão metafísica. Mortes acontecem, coincidências se
acumulam, símbolos se repetem — mas nunca há confirmação definitiva.
Polanski recusa o espetáculo do horror para construir algo
mais inquietante: a normalização do inexplicável.
Europa como território ambíguo
O percurso de Corso pela Europa — Espanha, França, Portugal
— reforça a ideia de deslocamento constante. Bibliotecas silenciosas, castelos
isolados e cidades antigas criam uma atmosfera de erudição decadente, onde
tradição e superstição convivem sem conflito.
O espaço europeu surge como arquivo vivo do passado,
onde o presente ainda obedece a regras arcaicas e invisíveis.
A figura feminina como enigma
A mulher que acompanha Corso não é musa, vítima ou
antagonista clássico. Ela funciona como
presença simbólica, guia e
teste. Polanski evita psicologizá-la, mantendo-a como elemento de perturbação e
orientação ambígua.
Como em outras obras do diretor, o feminino não explica — desestabiliza.
Ironia e descrença
Apesar do tema aparentemente solene, O Último Portal
é atravessado por ironia constante. Polanski parece zombar tanto dos crentes
fanáticos quanto dos céticos arrogantes. Ninguém é plenamente confiável. A
busca pela transcendência soa, muitas vezes, como forma sofisticada de
vaidade.
O mal não exige pacto formal — basta querer demais.
Um final aberto e perturbador
O desfecho do filme recusa explicação. Não há revelação
clara, nem punição exemplar. O último gesto sugere passagem, não conclusão. O
conhecimento máximo não liberta —
isola.
Polanski encerra o filme reafirmando uma de suas ideias mais
persistentes: atravessar o limite não significa compreender o que está além.
Lugar na filmografia de Polanski
O Último Portal integra a fase de
teatro filmado,
ironia negra e encenação do absurdo, dialogando com
Lua de Fel e
A
Morte e a Donzela. Aqui, a palavra escrita substitui a violência física; o
ritual intelectual substitui o cerco arquitetônico.
É um filme sobre fé sem transcendência e poder sem
moral.
Conclusão
O Último Portal não é um filme sobre o Diabo, mas
sobre a
disposição humana para negociar com qualquer força que prometa
exceção, controle ou superioridade. Polanski observa esse desejo com frieza
e sarcasmo, recusando tanto a crença ingênua quanto o ceticismo confortável.
O verdadeiro portal, no cinema de Polanski,
nunca leva à salvação. Ele conduz apenas a mais um espaço de cerco — agora, sem
paredes visíveis.