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CONVERSAS, SONHOS E PASSAGENS: O Cinema de Richard Linklater
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Nove anos depois de se conhecerem, Jesse e Celine se encontram novamente na França.
Romance Alegre, Drama
MP4 / HD- / LEG: Português
IMDB: 8,1 METASCORE: 9,1
Flick Metrix: 84 Letterboxd: 8,6
Nove anos de silêncio e noventa minutos para dizer o que ficou por dizer. Não é tempo suficiente. Nunca é.
O tempo real como argumento
Antes do Pôr do Sol foi filmado em ordem cronológica, em locações reais de Paris, em tempo aproximadamente real: os 80 minutos do filme correspondem de forma quase literal aos 80 minutos que Jesse e Celine passam juntos numa tarde antes que ele precise pegar o avião de volta para Nova York. Richard Linklater tomou essa decisão formal antes de qualquer outra, e tudo que o filme é deriva dela. Não há cortes para outros personagens, não há subtramas, não há alívio da presença constante dos dois. O espectador está preso na mesma tarde que eles, com o mesmo relógio correndo, com a mesma consciência de que o tempo está acabando antes que tudo que precisa ser dito seja dito.
Essa estrutura em tempo real é o argumento central do filme sobre o que acontece quando duas pessoas que se perderam têm uma quantidade finita e insuficiente de tempo para recuperar o que foi perdido, ou para descobrir se há algo para recuperar, ou para admitir que a pergunta em si é o que os manteve em movimento por nove anos.
Linklater e a trilogia como forma de pensar
Before Sunset é o segundo filme de uma trilogia que começou com Before Sunrise em 1995 e terminou com Before Midnight em 2013, e entender isso muda a experiência de cada filme individualmente. Linklater filmou Jesse e Celine em intervalos de nove anos, usando o envelhecimento real de Ethan Hawke e Julie Delpy como instrumento narrativo: os corpos que aparecem em cada filme são os corpos reais de duas pessoas que envelheceram juntas na ficção e separadas na vida, e essa coincidência entre tempo ficcional e tempo real produz uma qualidade de documento que a ficção convencional não alcança.
Before Sunset especificamente existe no intervalo entre a promessa do primeiro filme e o peso do terceiro, e é o mais agudo dos três precisamente porque opera nesse território intermediário: Jesse e Celine já têm história suficiente para que o reencontro seja carregado, e ainda têm juventude suficiente para que o que fazem com esse reencontro pareça uma escolha real em vez de uma resignação. É o filme onde tudo ainda é possível e onde essa possibilidade é o que torna tudo mais difícil.
Hawke e Delpy além dos personagens
Ethan Hawke e Julie Delpy coescreveram o roteiro com Linklater, e essa autoria compartilhada é visível na forma como os diálogos funcionam: não como texto entregue por atores mas como pensamento acontecendo em tempo real, com as hesitações e as correções e as voltas que o pensamento real tem. Hawke e Delpy não estão interpretando Jesse e Celine. Estão sendo versões de si mesmos que foram atravessadas por esses personagens por quase uma década, e a distinção entre ator e personagem ficou suficientemente porosa para que o que aparece na tela tenha a textura da pessoa real além da textura do papel.
Jesse carrega nove anos de uma vida que não foi o que esperava que fosse depois de Viena, um casamento que existe por causa de um filho e que ambos os lados sabem que não seria suficiente sem ele, um romance publicado que é uma forma de não esquecer e uma forma de manter vivo o que deveria talvez ter sido deixado morrer. Celine carrega sua própria versão dos nove anos, suas próprias escolhas e suas próprias dúvidas sobre essas escolhas, e a conversa entre os dois é também uma conversa entre duas pessoas comparando as vidas que construíram com as vidas que imaginaram naquela noite em Viena.
Paris como espaço de suspensão

Linklater e o diretor de fotografia Lee Daniel filmam Paris com uma atenção que transforma a cidade em participante ativa da tarde. Não a Paris turística dos cartões postais, mas a Paris dos jardins públicos e das ruas laterais e dos barcos no Sena, uma cidade que tem a qualidade de lugar onde coisas importantes acontecem sem precisar de monumentos para provar isso.
Jesse e Celine caminham por essa Paris numa direção que vai mudando conforme a conversa muda, e Linklater usa a mobilidade dos corpos no espaço como mapa emocional da tarde: quando estão próximos do que precisam dizer estão próximos fisicamente, quando recuam para território mais seguro a câmera abre e o espaço entre eles aumenta. A cidade é o ambiente que contém a possibilidade do que pode acontecer, e cada rua que percorrem é uma escolha de continuar em vez de parar.
Conversar Para Existir
Jesse e Céline apenas falam. Mas a conversa carrega urgência vital. As palavras funcionam como
ponte, tentativa desesperada de recuperar os anos perdidos entre uma frase e
outra.
Before Sunset é construído sobre uma ausência: o que aconteceu depois que Jesse e Celine se separaram na estação de Viena no fim do primeiro filme. Cada um tem sua versão, e as versões não coincidem completamente, e essa divergência de memória é o primeiro argumento do filme sobre como o passado compartilhado não é nunca realmente compartilhado: cada pessoa carrega uma versão que foi moldada pelo que veio depois, pelos anos que intervieram, pelas histórias que cada um precisou contar para si mesmo para fazer sentido da escolha de não ter voltado.
A pergunta que o filme vai construindo ao longo dos 80 minutos não é se Jesse e Celine ainda se amam. Essa pergunta tem resposta visível desde os primeiros minutos. A pergunta é o que fazem com isso agora, com o avião saindo em poucas horas e as vidas que construíram esperando do outro lado do Atlântico, e se o que sentem é suficientemente real para justificar o custo de agir a partir dele ou se é a memória de algo real que ficou preservado exatamente porque nunca foi testado pelo cotidiano.
O Passado Que Nunca Se Resolveu
A lembrança da noite em Viena retorna como fantasma doce e
dolorido. O que poderia ter sido pesa mais do que o que foi. O filme constrói
sua melancolia a partir dessa pergunta insolúvel: e se tivessem ficado juntos?
Agora adultos, ambos trazem frustrações, compromissos, pequenas derrotas. O romantismo juvenil cede espaço a uma lucidez cansada. Amar deixou de ser promessa infinita — tornou-se escolha difícil em meio a responsabilidades.
Amar Também É Ter Medo
Ambos hesitam. Aproximam-se e recuam. Confessam sentimentos
em tom de piada. A vulnerabilidade adulta é feita de cautela: depois de tantas
decepções, entregar-se novamente parece salto sem rede.
Ficar Ou Partir: O Instante Que Decide uma Vida
No apartamento final, o mundo encolhe ao tamanho de uma
sala. Não há trilha grandiosa, apenas conversa e música suave. A decisão não é
dramática, é quase doméstica. E justamente por isso, profundamente humana.
Onde assistir e o que esperar
Before Sunset está disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme funciona independentemente de Before Sunrise, mas a experiência é mais rica para quem conhece o primeiro: saber o que foi prometido em Viena torna cada frase da tarde em Paris mais carregada. A câmera de Lee Daniel tem uma mobilidade que replica o movimento dos dois pela cidade sem nunca se tornar visível como técnica, e a trilha usa Nina Simone de uma forma que o final do filme tornará impossível de dissociar do que acontece nele. Os 80 minutos terminam num apartamento em Paris com uma frase que é o final mais preciso que esse filme poderia ter, e que funciona como resposta e como nova pergunta ao mesmo tempo.
O desejo que encontrou forma
Before Sunset é o retrato mais preciso disponível no cinema de como o desejo de conexão persiste através do tempo e da distância e das vidas construídas em direções diferentes, e de como ele encontra forma mesmo quando as condições para sua realização são complicadas demais para ter resolução simples.
Linklater filma o desejo que tem espaço, que tem tarde, que tem cidade e tem conversa e tem a liberdade de se dizer, e que mesmo assim encontra nos obstáculos internos, nas vidas construídas, nas escolhas que custaram algo, uma resistência que o espaço externo não resolve. Porém, o desejo de conexão não precisa de obstáculos externos para ser difícil: carrega seus próprios obstáculos internamente, e encontrá-los é parte do que significa desejar de verdade.