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domingo, 28 de setembro de 2025

Os Imorais (1990) The Grifters - 1 h 50 min

MOSTRA FILMES NEO-NOIR

Um vigarista de pouca importância tem sua lealdade dividida entre sua mãe, que estava afastada, e a nova namorada, sendo que ambas são estelionatárias com seus próprios interesses.


Dir: Stephen Frears
Neo-noir, Tragédia, Crime, Drama, Suspense


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,9   METASCORE: 8,6
92%Tomatometer50 Reviews   69%Popcornmeter

Os Imorais (1990): O Noir da Sedução, da Fraude e do Amor que Sempre Vem com Preço

Dirigido por Stephen Frears e produzido por Martin Scorsese, Os Imorais (The Grifters) é um dos mais sofisticados e devastadores neo-noirs dos anos 1990. Baseado no romance de Jim Thompson, o filme reencena com brilho gélido a tradição do noir psicológico — aquele em que o crime é menos um ato e mais uma condição de existência, onde os golpes acontecem nos bares, nos quartos de motel e nos vínculos familiares quebrados.

A história acompanha três vigaristas que orbitam uns aos outros com desconfiança, desejo e violência emocional:

  • Roy Dillon (John Cusack), um golpista de pequeno porte que se acredita esperto e invulnerável;
  • Lilly Dillon (Anjelica Huston), sua mãe, uma manipuladora experiente que trabalha para um poderoso chefão das apostas;
  • Myra Langtry (Annette Bening), amante de Roy e golpista profissional, tão sedutora quanto brutal na leitura das fraquezas alheias.

O que começa como um drama criminal logo se transforma em um confronto psicológico sobre poder, lealdade, maternidade distorcida e a impossibilidade de escapar do próprio passado.


Crime como estilo de vida — e como relação afetiva

No universo de The Grifters, ninguém trabalha: todos golpeiam.

A moralidade não envolve escolha entre certo e errado, mas entre:

  • lucrar ou ser enganado,
  • dominar ou ser dominado,
  • manipular ou ser manipulado.

O filme não é sobre “grandes assaltos”; ele é sobre golpes emocionais, transações invisíveis que ocorrem em olhares, sorrisos e lembranças mal resolvidas.
Os laços familiares, sexuais e profissionais se confundem perigosamente — e o afeto é sempre uma possível armadilha.


Roy Dillon: o golpista que quer ser respeitável

John Cusack constrói Roy como um homem dividido:

  • inteligente, mas não o bastante;
  • ambicioso, mas sem coragem para os golpes maiores;
  • sensível, mas incapaz de admitir vulnerabilidade.

Ele tenta viver “duas vidas” — uma estruturada, outra criminosa — mas as duas acabam se chocando com força fatal.
Roy é a figura clássica do noir: um homem que acredita conseguir controlar todos os ângulos, mas que não compreende o tamanho da teia em que está preso.


Lilly Dillon: amor, culpa e chantagem — tudo misturado

A atuação de Anjelica Huston é monumental.
Lilly é uma mãe que nunca foi mãe, uma sobrevivente do submundo, uma mulher com:

  • dor contida,
  • charme perigoso,
  • violência emocional,
  • e inteligência ímpar para jogos de poder.

Seu vínculo com Roy é complexo, quase incestuoso no nível psicológico — uma mistura de culpa, proteção, manipulação e domínio.
As cenas entre os dois são carregadas de ambivalência: cada abraço parece esconder ameaça, cada gesto de carinho carrega cálculo.

Lilly é, acima de tudo, a figura mais trágica do filme: uma mulher que só sabe amar da mesma forma que golpeia.


Myra Langtry: o glamour do perigo

Annette Bening interpreta Myra com brilho, ironia e charme destrutivo.
Ela é:

  • sedutora,
  • ousada,
  • cruel quando necessário,
  • e capaz de ler fraquezas como quem lê instruções de manual.

Myra é a femme fatale atualizada: com agenda própria, desejo próprio e técnica refinada.
Seu papel não é destruir homens, mas sobreviver entre eles — usando todas as armas disponíveis.

A tensão entre Myra e Lilly é um dos motores do filme: duas mestres do engano, duas mulheres poderosas, duas forças opostas tentando dominar a vida de Roy.


Um mundo sem inocência — apenas sobrevivência

O filme descreve um ecossistema moral onde não existe “redenção” possível.
No universo de Thompson/Frears:

  • amor é transação,
  • confiança é estratégia,
  • e bondade é vulnerabilidade — portanto, fatal.

A violência não é apenas física, mas emocional e psicológica.
O espectador sente, desde o início, que alguém vai perder — e perder feio.


O final: tragédia, elegância e inevitabilidade noir

Sem entregar detalhes do desfecho, é possível dizer que:

  • a tragédia final é lógica,
  • brutal,
  • estilisticamente impecável,
  • e respeita profundamente o espírito do noir literário de Thompson.

É um final que revela, de forma cruel e perfeita, a verdadeira natureza da relação entre mãe e filho — e o preço devastador da vida no mundo dos golpes.


Conclusão

Os Imorais é um dos grandes filmes neo-noir de todos os tempos.
Um thriller psicológico afiado, elegante e profundamente humano em sua brutalidade.
Frears, Huston, Bening e Cusack constroem um estudo sobre crime, afeto e identidade que é tão sofisticado quanto implacável.

É noir no sentido mais puro:
um mundo onde ninguém é inocente, onde todos jogam para sobreviver e onde o amor é sempre uma faca de dois gumes.

Obra essencial — elegante, ácida, amarga e inesquecível.