Toda adaptação é também uma autobiografia
Existe uma expectativa quase inevitável quando um grande
cineasta decide adaptar um clássico da literatura. Espera-se que ele seja fiel
ao texto, que preserve sua essência e que encontre uma forma cinematográfica
para uma obra que nasceu em outro tempo e em outra linguagem. Mas essa
expectativa talvez parta de um equívoco. Nenhuma adaptação é apenas um encontro
com a obra original. Ela é também o encontro de um artista com sua própria
maneira de enxergar o mundo.
É por isso que raramente saímos de uma adaptação conhecendo melhor o autor adaptado. Na maioria das vezes, saímos conhecendo melhor o cineasta que a realizou. A Odisseia, de Christopher Nolan, confirma essa impressão.
Ao escolher um dos textos fundadores da cultura ocidental, Nolan não tenta esconder sua presença atrás de Homero. Pelo contrário. O poema parece funcionar como uma matéria-prima sobre a qual ele continua investigando as questões que percorrem toda a sua filmografia: a relação entre tempo e memória, a reconstrução da identidade, a culpa, o peso das escolhas e a dificuldade de distinguir aquilo que realmente aconteceu da maneira como nos lembramos dos acontecimentos. Nesse sentido, A Odisseia é um filme profundamente nolaniano.
Isso não significa que seja infiel ao poema. Significa
apenas que sua fidelidade não está na superfície da narrativa, mas naquilo que
ela lhe permite explorar.
Talvez seja justamente aí que Nolan encontre seu ponto de
contato com Homero. Seus filmes nunca trataram o tempo apenas como uma medida
cronológica. Em Amnésia, a memória determina a forma da narrativa. Em A
Origem, o tempo psicológico vale mais do que o tempo do relógio. Em Interestelar,
ele se torna a própria matéria da experiência humana. Em A Odisseia, o
tempo assume outra função: mede a distância entre aquele que partiu para Troia
e aquele que finalmente retorna a Ítaca.
Essa aproximação, entretanto, produz um efeito curioso.
Se Homero parece oferecer a Nolan um terreno fértil para
desenvolver suas preocupações, Nolan também submete Homero à lógica de seu
próprio cinema. A narrativa torna-se fragmentada, reorganiza acontecimentos,
alterna tempos distintos e exige do espectador uma participação constante para
reconstruir os vínculos entre as diferentes partes da história. Não é um
procedimento estranho ao poema, que também rompe a linearidade ao começar a
narrativa quando Ulisses ainda está longe de casa. Mas Nolan radicaliza essa
estrutura e a transforma em um princípio organizador de toda a experiência.
As reservas dirigem-se a outro aspecto. Diversos críticos observaram que a extraordinária precisão formal do filme acaba produzindo uma certa distância emocional. A narrativa impressiona pela complexidade de sua construção, mas nem sempre permite que o espectador compartilhe plenamente o desejo que move Ulisses durante toda a viagem. Não se trata de uma crítica nova. Ela acompanha Christopher Nolan desde seus primeiros trabalhos e reaparece sempre que sua engenharia narrativa parece competir com a dimensão afetiva de seus personagens.
Essa observação torna-se especialmente significativa em A
Odisseia. O poema de Homero não permanece vivo apenas por causa de seus
monstros, tempestades ou aventuras extraordinárias. Ele continua sendo lido
porque, sob todas essas imagens, existe uma experiência profundamente humana: a
tentativa de voltar para casa depois de ter sido transformado pela guerra. Se
essa experiência perde intensidade, parte da força do poema inevitavelmente se
enfraquece.
No fim, talvez essa seja a função mais valiosa de uma grande
adaptação. Não encerrar uma obra em imagens, mas devolvê-la ao debate. Homero
continua presente em A Odisseia de Christopher Nolan, mas o que vemos na
tela é também o retrato de um cineasta olhando para um clássico e,
inevitavelmente, encontrando nele um reflexo de si mesmo.