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segunda-feira, 9 de março de 2026

Alice nas Cidades (1974) Alice in den Städten - 1 h 53 min

<= Juventude em Trânsito

Philip Winter é um jornalista alemão que percorre os Estados Unidos tentando produzir uma reportagem. Incapaz de escrever e cada vez mais distante da realidade que observa, decide retornar à Europa. No aeroporto, acaba aceitando cuidar temporariamente de Alice, uma menina de nove anos cuja mãe desaparece inesperadamente. Sem saber exatamente para onde ir, os dois iniciam uma viagem pela Alemanha em busca da avó da garota. Aos poucos, o deslocamento geográfico transforma-se também em uma jornada de descoberta mútua.



Road Movie, Drama


CLC Score: 7,9





Análise Crítica

Poucos filmes capturam com tanta delicadeza a experiência de estar perdido quanto Alice nas Cidades. Realizado em 1974, o primeiro capítulo da chamada "Trilogia da Estrada", de Wim Wenders, apresenta um cineasta já plenamente consciente de que o verdadeiro movimento do cinema nem sempre acontece entre um ponto de partida e um destino. Muitas vezes, ele ocorre no interior daqueles que viajam.

À primeira vista, a narrativa parece simples. Um jornalista sem rumo acompanha uma criança em busca de sua família. No entanto, como acontece em grande parte da obra de Wenders, o percurso importa muito mais do que a chegada. O filme não organiza sua força dramática em torno da resolução de um conflito, mas da lenta transformação do olhar de seus personagens.

Philip inicia a narrativa profundamente desconectado do mundo. Viaja pelos Estados Unidos fotografando compulsivamente paisagens, placas e cidades, como se a câmera pudesse substituir sua própria experiência. As imagens acumulam-se, mas nenhuma delas consegue aproximá-lo da realidade que pretende registrar. Quanto mais fotografa, menos parece enxergar. Essa relação entre imagem e experiência constitui um dos grandes temas do filme.

Wenders realiza Alice nas Cidades em um momento em que a cultura visual se torna cada vez mais dominante. A fotografia aparece não apenas como instrumento de registro, mas também como metáfora da dificuldade contemporânea de estabelecer uma relação direta com o mundo. Philip observa tudo através da câmera e, justamente por isso, parece incapaz de viver plenamente aquilo que observa. A chegada de Alice modifica lentamente essa dinâmica.

A menina não oferece respostas filosóficas nem grandes lições de vida. Sua presença simplesmente obriga Philip a abandonar a posição de observador passivo. Pela primeira vez, ele precisa tomar decisões, assumir responsabilidades e prestar atenção ao presente em vez de buscar incessantemente a próxima imagem. Essa transformação acontece sem qualquer dramatização excessiva.

Wenders demonstra extraordinária confiança na força dos pequenos acontecimentos. Conversas banais, deslocamentos de trem, caminhadas pelas cidades e momentos de silêncio tornam-se matéria-prima de um cinema que encontra significado justamente naquilo que outras narrativas costumam considerar secundário.

A fotografia em preto e branco de Robby Müller desempenha papel essencial nessa experiência. Seus enquadramentos combinam rigor formal e aparente espontaneidade, transformando estradas, postos de gasolina, hotéis e estações ferroviárias em paisagens carregadas de melancolia. Não existe exotismo. O cotidiano adquire densidade poética simplesmente porque o filme aprende a observá-lo.

As interpretações seguem essa mesma lógica de contenção. Rüdiger Vogler constrói Philip como um homem permanentemente hesitante, incapaz de encontrar seu lugar no mundo. Yella Rottländer, por sua vez, evita qualquer idealização infantil. Alice possui curiosidade, inteligência e autonomia, mas também impaciência e insegurança. A relação entre ambos cresce naturalmente, sem recorrer às convenções sentimentais normalmente associadas a filmes sobre adultos e crianças.

Outro aspecto marcante é o tratamento do espaço. As cidades atravessadas durante a viagem nunca aparecem como cartões-postais. Wenders interessa-se menos pelos monumentos do que pelos lugares de passagem: estradas, estações, quartos de hotel e cafés. São espaços provisórios, coerentes com personagens que vivem sem saber exatamente onde pertencem.

Essa condição de permanente deslocamento aproxima Alice nas Cidades das grandes questões do Novo Cinema Alemão. Mais do que discutir apenas indivíduos, Wenders investiga uma geração que tenta reconstruir sua identidade em um país ainda marcado pelas consequências da guerra e pela crescente influência da cultura norte-americana.

Mais do que um road movie, Alice nas Cidades é um filme sobre reaprender a olhar. É justamente essa capacidade de transformar o deslocamento físico em experiência existencial que faz da obra uma das realizações mais importantes do cinema europeu dos anos 1970.



⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

Existe um paradoxo que atravessa todo o filme. Philip inicia sua viagem acreditando que observar o mundo significa acumular imagens dele. Fotografa cidades, estradas, pessoas e paisagens como se cada fotografia representasse uma aproximação da realidade. Aos poucos, Wim Wenders inverte completamente essa lógica. Quanto maior o arquivo de imagens, mais distante Philip parece daquilo que procura compreender.

Alice rompe esse mecanismo sem sequer perceber. Sua presença desloca o jornalista de uma postura contemplativa para uma relação concreta com o mundo. A viagem deixa de ser uma sucessão de lugares registrados pela câmera e transforma-se em uma experiência compartilhada. Cuidar de alguém exige um tipo de atenção que nenhuma fotografia pode substituir.

É significativo que a menina demonstre uma capacidade muito maior de orientação do que o adulto. Enquanto Philip atravessa o filme inteiro tomado por dúvidas, Alice conserva uma confiança quase intuitiva na possibilidade de encontrar o caminho. Ela conhece pouco do mundo, mas relaciona-se com ele sem a necessidade constante de interpretá-lo. Philip conhece muito mais, mas sua consciência excessiva o impede de agir.

Essa diferença aproxima os dois personagens de duas formas distintas de olhar. O jornalista representa o olhar moderno, permanentemente mediado por imagens, informações e análises. Alice encarna um olhar ainda capaz de experimentar o mundo antes de classificá-lo. O encontro entre ambos não transforma apenas o adulto em alguém mais responsável. Transforma também sua maneira de perceber a realidade.

Não é por acaso que a busca pela avó jamais adquire a estrutura de uma investigação convencional. O destino existe, mas permanece em segundo plano. O verdadeiro percurso acontece entre uma cidade e outra, nos intervalos, nas conversas sem objetivo aparente e nos momentos em que nada extraordinário acontece. Wenders parece sugerir que a vida dificilmente se revela durante os grandes acontecimentos. Ela costuma manifestar-se justamente nas pausas que aprendemos a ignorar.

Também a estrada adquire um significado particular. Em muitos road movies, ela simboliza liberdade absoluta ou fuga das convenções sociais. Em Alice nas Cidades, a estrada possui outro sentido. Ela representa um espaço de disponibilidade. Enquanto permanecem em movimento, Philip e Alice não pertencem completamente a lugar algum. É essa condição provisória que torna possível o encontro entre duas pessoas que, em circunstâncias normais, talvez jamais compartilhassem a mesma experiência.

Ao final da viagem, pouco mudou objetivamente. Nenhum grande conflito social foi resolvido e nenhuma revelação extraordinária reorganiza a narrativa. Ainda assim, tudo parece diferente. Philip recupera algo que havia perdido antes mesmo do início do filme: a capacidade de estar presente. Seu reencontro com o mundo não acontece por meio de respostas intelectuais, mas pela redescoberta da experiência cotidiana.

Talvez seja essa a ideia mais profunda de Wim Wenders. Antes de interpretar a realidade, é preciso aprender novamente a habitá-la. O cinema, como a viagem, deixa então de ser uma coleção de imagens e passa a constituir uma forma de presença.

Conclusão

Alice nas Cidades permanece como uma das obras fundamentais de Wim Wenders porque transforma uma narrativa de deslocamento em uma reflexão sobre o olhar, a memória e a experiência. Com extrema economia dramática, o diretor demonstra que as viagens mais importantes raramente conduzem apenas a novos lugares; elas transformam a maneira como percebemos aquilo que sempre esteve diante de nós.

Mais do que um dos grandes road movies da história do cinema, esta é uma obra sobre a recuperação da presença em um mundo cada vez mais mediado por imagens. Ao acompanhar a lenta transformação de Philip através de sua convivência com Alice, Wenders convida o espectador a reconsiderar a própria relação com o tempo, com os espaços que atravessa e com as pessoas que encontra pelo caminho. É justamente essa confiança na força dos pequenos gestos e na capacidade do cinema de revelar o extraordinário escondido no cotidiano que faz de Alice nas Cidades uma obra inesgotável, destinada a permanecer viva muito depois do término da viagem.

domingo, 8 de março de 2026

Hammett - Mistério em Chinatown (1982) Hammett - 1 h 37 min

Mostra A Ópera de Coppola

Relato fictício do escritor de mistério da Dashiell Hammett e seu envolvimento na investigação do misterioso desaparecimento de uma bela atriz de cabaré chinês em San Francisco.


Hammett - Mistério em Chinatown (1982) - IMDb
Dir: Wim Wenders, Francis Ford Coppola
Comédia de Humor Negro, Detetive Obstinado, Crime, Drama, Mistério


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,4   METASCORE: 6,1
75%Tomatometer12 Reviews   63%Popcornmeter

Um Escritor Perdido nas Sombras da Própria Imaginação

Nas ruas enevoadas de San Francisco, um homem que inventa crimes nas páginas de seus livros descobre que a realidade pode ser ainda mais sombria do que a ficção.


O Detetive que Criou Detetives

Hammett imagina um episódio fictício na vida do escritor Dashiell Hammett, criador de alguns dos mais influentes detetives da literatura policial. No filme, o autor é arrastado para uma investigação real quando uma jovem desaparece, levando-o a percorrer os labirintos perigosos de Chinatown.


Um Noir que Nasce do Cinema

Ambientado nos anos 1920, o filme recria a atmosfera clássica do cinema noir, com becos escuros, intrigas políticas e personagens ambíguos. A narrativa mistura ficção literária e realidade, transformando o próprio escritor em protagonista de uma trama digna das histórias que ajudou a popularizar.


Um Experimento Estético na Filmografia de Coppola

Produzido pela American Zoetrope, Hammett foi um projeto marcado por dificuldades de produção e extensas refilmagens. Ainda assim, o resultado revela o interesse de Coppola em explorar diferentes estilos e universos cinematográficos durante os anos 1980, experimentando com o imaginário clássico do cinema policial.


Leitura Crítica — O Cinema Investigando a Si Mesmo

Hammett funciona como uma curiosa homenagem ao próprio nascimento do noir. Ao colocar o escritor dentro de uma história que parece saída de seus livros, o filme transforma o ato de criar ficção em um mistério a ser desvendado. Mais do que um thriller policial, a obra reflete sobre a relação entre literatura, cinema e imaginação — um jogo de espelhos onde realidade e ficção se confundem. 🎬


sexta-feira, 6 de março de 2026

Além das Nuvens (1995) Al di là delle nuvole - 1 h 50 min

MOSTRA ARQUITETURAS DO VAZIO — O Universo de Antonioni

Quatro histórias sobre relacionamentos curtos ou longos entre homens e mulheres na Itália e na França.


Além das Nuvens (1995) - IMDb
Dir: Michelangelo Antonioni, Wim Wenders
Drama, Romance




IMDB: 6,4   METASCORE: 6,6
68%Tomatometer22 Reviews   67%Popcornmeter

Quatro histórias de amor — quatro encontros com o mistério do desejo.

Um retorno contemplativo

Realizado por Michelangelo Antonioni em colaboração com Wim Wenders, Além das Nuvens marca o retorno de Antonioni ao cinema após mais de uma década afastado da direção. O filme surge depois do grave derrame sofrido pelo cineasta nos anos 1980, e sua realização só foi possível com o apoio de Wenders, que ajudou a completar a produção mantendo o espírito estético e filosófico do diretor italiano.

Estruturado em quatro episódios independentes, o filme acompanha encontros amorosos em diferentes cidades europeias. Em cada história, personagens se aproximam, hesitam, desejam e se afastam, revelando a complexidade dos sentimentos humanos e a dificuldade de transformar o desejo em relação concreta.



O amor como enigma

Diferentemente do romance tradicional, Antonioni observa o amor como um território ambíguo, marcado por silêncios, dúvidas e incompreensões. Os personagens parecem sempre à beira de uma revelação emocional que nunca se completa totalmente.

As paisagens urbanas, os interiores elegantes e os espaços vazios continuam a desempenhar um papel fundamental na narrativa. Como em suas obras mais famosas, o espaço não serve apenas de cenário, mas funciona como extensão do estado interior dos personagens.




Um cinema de observação


O próprio Antonioni aparece no filme interpretando um diretor que viaja pela Europa em busca de histórias. Essa presença confere ao filme um caráter quase ensaístico, aproximando-o de uma reflexão sobre o próprio ato de observar o mundo e transformá-lo em cinema.

A narrativa se constrói através de fragmentos, encontros e impressões visuais, reforçando a ideia de que o amor — assim como a vida — é feito de momentos incompletos.



Leitura Crítica


Além das Nuvens
funciona como uma espécie de epílogo poético da obra de Antonioni. O filme retoma temas centrais de sua filmografia — incomunicabilidade, desejo, distância emocional — agora filtrados por um olhar mais contemplativo e melancólico. Em vez de respostas, o cineasta oferece imagens suspensas e encontros efêmeros, como se sugerisse que o amor e o sentido da vida talvez existam justamente além daquilo que conseguimos compreender plenamente. 🎬

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Estado das Coisas (1982) Der Stand der Dinge - 2 h 1 min

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Uma equipe de filmagem está gravando o remake de um antigo filme de ficção científica sobre um holocausto nuclear em Portugal. Os problemas não demoram a surgir. O diretor, desesperado, começa a temer que não conseguirá terminar seu filme.


Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB 6,9



O Estado das Coisas (Der Stand der Dinge) é um ensaio melancólico e metacinematográfico dirigido por Wim Wenders que transforma a paralisação de um filme em reflexão sobre criação, dependência e esgotamento cultural. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 1982, o longa se impôs como um dos retratos mais lúcidos da crise do cinema europeu no início dos anos 1980.

Um filme que não consegue continuar

A premissa é simples e reveladora: uma equipe europeia filma uma ficção científica em Portugal quando o dinheiro acaba — e, com ele, a possibilidade de seguir adiante. A espera se instala. O tempo se dilata. Wenders filma esse impasse como condição existencial: artistas e técnicos vagam entre o set, o hotel e a paisagem costeira, presos a uma obra que já não avança.

O cinema aparece aqui não como glamour, mas como trabalho interrompido, dependente de forças externas.


Metacinema como diagnóstico

O Estado das Coisas é um filme sobre fazer filmes — e sobre não conseguir fazê-los. Wenders reflete abertamente sobre a dependência financeira do cinema europeu em relação ao capital americano, sobre a perda de autonomia autoral e sobre a tensão entre arte e indústria. A passagem do preto-e-branco europeu para a Los Angeles colorida, no terço final, materializa esse conflito em forma visual.




Tempo morto, imagens vivas

O ritmo é deliberadamente contemplativo. Planos longos, diálogos rarefeitos e gestos banais constroem uma atmosfera de suspensão. O “tempo morto” não é vazio: ele revela relações, frustrações, cumplicidades. A imagem ganha densidade justamente quando a ação escasseia. O cinema de Wenders encontra sentido na observação do intervalo.





Criação, violência e desencanto

Quando a narrativa se desloca para os Estados Unidos, o tom muda: a violência irrompe de forma abrupta e sem glamour. O encontro com o produtor americano expõe a lógica implacável do dinheiro e do controle. A criação artística, sugere o filme, paga um preço alto ao se submeter a essa engrenagem. O gesto final é seco, quase anti-climático — coerente com a recusa a qualquer reconciliação fácil.




Forma austera, ética do olhar


A fotografia de Henri Alekan confere ao filme uma textura clássica e elegíaca. Wenders filma ruínas, costas vazias, interiores provisórios — espaços que espelham o estado de espírito dos personagens. O cinema, aqui, é lugar de exílio.





Por que o Leão de Ouro

Ao premiar O Estado das Coisas, Veneza reconheceu:

  • um metacinema que funciona como diagnóstico histórico;
  • a coragem de transformar a crise em matéria estética;
  • um gesto autoral que pensa o cinema a partir de suas próprias fraturas.

👉 O Estado das Coisas é um filme sobre criar quando tudo conspira contra. Um cinema da espera e do desencanto que encontra, no próprio impasse, sua forma mais honesta de expressão — e que permanece atual ao lembrar que toda imagem carrega as condições materiais que a tornam possível.