Mostra:
Até Onde Você Vai? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito
A posição não revela quem você é. Revela quem você se
permite ser.
O experimento real e o que ele provou
Em agosto de 1971, o psicólogo Philip Zimbardo da Universidade de Stanford recrutou 24 estudantes universitários psicologicamente estáveis para participar de um experimento sobre comportamento em prisões. Metade foi designada como guardas, metade como prisioneiros, numa prisão simulada no subsolo do departamento de psicologia. O experimento estava planejado para duas semanas. Foi interrompido em seis dias porque os guardas haviam começado a humilhar, torturar psicologicamente e desumanizar os prisioneiros de formas que nenhum protocolo havia previsto, e porque Zimbardo, que havia assumido o papel de superintendente da prisão, demorou cinco dias para perceber que havia cruzado a linha entre pesquisador e participante.Das Experiment de Oliver Hirschbiegel é baseado no romance
Die Welle de Mario Giordano, que por sua vez é baseado no experimento de
Stanford, e chega ao cinema alemão em 2001 com a consciência de um país que não
precisa de experimentos psicológicos americanos para entender o que acontece
quando pessoas comuns recebem autoridade sem limite sobre outras pessoas
comuns. O filme não é documentário nem alegoria histórica simples: é um
thriller que usa o material do experimento para fazer uma pergunta que o ambiente
profissional de qualquer organização em qualquer época coloca sem jamais
articular diretamente.
A divisão e o que ela produz
T
Tarek Fahd se candidata ao experimento por razões que o filme deixa deliberadamente ambíguas: precisa do dinheiro, está entediado, tem algo a provar para si mesmo. Quando é designado como prisioneiro em vez de guarda, aceita com a leveza de quem não acredita que a designação importa. O que o filme examina nas horas seguintes é a velocidade com que a designação passa a importar completamente.Berus, o bancário tranquilo que se torna o guarda mais
brutal do experimento, não é construído como psicopata latente que a situação
libera. É construído como homem comum que descobre, pela primeira vez na vida,
que tem autoridade e que a autoridade é uma droga. Hirschbiegel filma essa
transformação com uma precisão que recusa o julgamento fácil: não há momento em
que Berus decide ser cruel. Há uma série de pequenas decisões, cada uma
defensável dentro da lógica do papel que lhe foi atribuído, que se acumulam numa
crueldade que nenhuma decisão individual produziria sozinha.
Essa progressão é o argumento central do filme e o motivo
pelo qual Das Experiment continua sendo o filme mais preciso sobre poder
hierárquico no ambiente profissional: não porque escritórios se transformem em
prisões, mas porque o mecanismo pelo qual a posição transforma o comportamento
é o mesmo em ambos os casos. A autoridade sem limite e sem consequência produz
o mesmo resultado independentemente do ambiente em que é exercida.
Hirschbiegel e a câmera como instrumento de pressão
A fotografia de Rainer Klausmann usa luz fluorescente e
sombras duras que transformam o ambiente em algo simultaneamente banal e
claustrofóbico, e Hirschbiegel corta com uma urgência crescente que replica a
escalada do próprio experimento: o ritmo do filme acelera à medida que o
experimento acelera, e o espectador sente a mesma sensação de que as coisas
estão saindo do controle antes de conseguir articular por quê.
Moritz Bleibtreu como Tarek e Justus von Dohnányi como Berus
são o centro de uma dinâmica que o filme usa para examinar os dois lados do
poder hierárquico: quem resiste e o que a resistência custa, e quem cede e o
que a cessão revela. Bleibtreu constrói Tarek com uma teimosia que começa como
característica simpática e vai se tornando algo mais complicado à medida que o
espectador percebe que Tarek também está jogando, que sua resistência tem
componentes de ego e de performance que o tornam tão problemático quanto os
guardas que enfrenta.
O que o experimento real provou e o que o filme
acrescenta
O experimento de Stanford foi criticado metodologicamente nos anos seguintes: Zimbardo havia orientado ativamente os guardas a serem mais duros, a seleção dos participantes não foi tão aleatória quanto apresentada, e as conclusões foram generalizadas além do que os dados suportavam. Essa crítica não invalida o argumento central do experimento nem o do filme: que as pessoas ajustam o comportamento às expectativas do papel que ocupam de formas que elas mesmas frequentemente não percebem, e que a combinação de autoridade, uniformes e ausência de consequência real produz comportamentos que os mesmos indivíduos considerariam inadmissíveis fora daquele contexto.
Das Experiment acrescenta ao experimento uma dimensão que a
metodologia científica não podia capturar: a experiência subjetiva de estar
dentro do sistema enquanto ele se transforma. O filme não é sobre o que o poder
faz com as pessoas em abstrato. É sobre o que a sensação de poder faz com
pessoas específicas em tempo real, e essa especificidade é o que o torna mais
perturbador do que qualquer relatório psicológico.
Por que abre a mostra
Das Experiment está disponível em plataformas
de streaming com disponibilidade variável no Brasil e na Filmoteca Seu Manolo. Vale buscar pelo título
original em plataformas de cinema europeu. O filme tem 119 minutos em alemão
legendado que passam com a velocidade do thriller bem executado.