sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Batman (2022) The Batman - 2 h 56 min

 


Batman (2022) - IMDb
Dir: Matt Reeves

Ação, Crime, Mistério


CLC Score: 7,8




Sinopse

Dois anos depois de assumir secretamente a identidade de Batman, Bruce Wayne percorre Gotham durante as noites tentando transformar o medo numa arma contra o crime, enquanto sua existência pública permanece praticamente abandonada. Ainda distante da figura plenamente estabelecida do herói que a cidade viria a conhecer, ele atua como um vigilante obsessivo, registra suas incursões em um diário e mantém uma relação excepcional com o tenente James Gordon, um dos poucos policiais dispostos a permitir sua presença nas cenas de crime. Quando o prefeito Don Mitchell Jr. é brutalmente assassinado por um homem mascarado que deixa enigmas dirigidos especificamente a Batman, Bruce percebe que está diante de alguém interessado não apenas em matar, mas em obrigá-lo a participar de uma investigação.

Novos assassinatos revelam que o criminoso, conhecido como Charada, está perseguindo figuras importantes das instituições de Gotham e expondo conexões entre autoridades públicas, policiais, empresários e o submundo comandado por Carmine Falcone. A investigação conduz Batman ao clube administrado pelo Pinguim, aproxima-o de Selina Kyle, que procura descobrir o destino de uma amiga desaparecida, e progressivamente o força a confrontar informações sobre a própria família Wayne. Matt Reeves utiliza a estrutura de um thriller policial e elementos do cinema noir para construir uma versão de Batman na qual a investigação de uma conspiração urbana se transforma também numa investigação sobre a identidade do protagonista, pois Bruce precisa descobrir não apenas quem está por trás dos crimes, mas aquilo que sua própria cruzada representa para uma cidade que aprendeu a enxergá-lo como símbolo.

Análise Crítica

Matt Reeves toma uma decisão fundamental ao apresentar Bruce Wayne quando sua transformação em Batman ainda está incompleta. Em vez de narrar novamente o assassinato de Thomas e Martha Wayne ou acompanhar detalhadamente o nascimento do vigilante, o filme começa quando Bruce já veste o uniforme, mas ainda não compreendeu inteiramente aquilo que pretende realizar através dele. Sua atividade noturna é orientada por uma concepção relativamente simples de justiça: criminosos precisam temê-lo, e o medo que sua presença produz deverá reduzir a violência. Essa premissa permite que Batman funcione menos como história de origem da identidade física do herói do que como narrativa sobre a formação de seu significado.

Robert Pattinson trabalha justamente sobre essa incompletude. Seu Bruce Wayne ainda não desenvolveu a personalidade pública expansiva que tradicionalmente funciona como contraponto ao vigilante, pois quase toda sua energia psicológica está concentrada na atividade noturna. Quando aparece sem o uniforme, continua parecendo alguém que apenas interrompeu temporariamente a missão, e essa continuidade entre Bruce e Batman sugere que a máscara não serve propriamente para esconder uma identidade plenamente constituída, mas para oferecer forma à única identidade na qual ele consegue encontrar alguma direção. A reclusão, a dificuldade de relacionar-se com Alfred e o relativo desinteresse pela administração da fortuna Wayne revelam um homem que transformou o trauma numa ocupação permanente antes de decidir o que pretende construir através dela.

A estrutura investigativa constitui uma das diferenças mais importantes em relação a diversas adaptações cinematográficas anteriores do personagem. Batman acompanha cenas de crime, examina fotografias, interpreta códigos, reconstrói trajetórias e tenta antecipar os movimentos do Charada, aproximando o filme do thriller de assassino serial e do noir urbano. As referências a obras como Seven e Zodíaco são perceptíveis, mas Reeves procura incorporá-las ao universo específico de Gotham, fazendo com que a investigação não funcione apenas como mecanismo para encontrar um criminoso, mas como processo através do qual diferentes camadas da cidade são reveladas.

A fotografia de Greig Fraser desempenha papel central nessa construção. Gotham raramente parece inteiramente iluminada, mesmo quando a ação acontece em espaços públicos, porque luzes urbanas, reflexos, chuva, fumaça e sombras fragmentam constantemente aquilo que pode ser visto. Essa dificuldade visual possui correspondência narrativa: Bruce acredita conhecer a cidade porque percorre suas ruas todas as noites, mas a investigação demonstra que enxerga apenas uma parte das relações que a estruturam. A escuridão não representa, portanto, somente atmosfera; torna-se expressão de uma cidade cuja organização real permanece parcialmente escondida de seus próprios habitantes.

Michael Giacchino constrói a trilha musical em torno de motivos repetitivos que acompanham essa obsessão. O tema de Batman possui peso quase processional, transformando sua chegada numa presença física antes mesmo que o personagem apareça completamente, enquanto a música associada ao Charada introduz uma variação mais inquietante da mesma ideia de repetição. A proximidade musical entre perseguidor e perseguido contribui para uma das questões fundamentais do filme, pois Batman e Charada surgem inicialmente como homens que observam Gotham de fora, registram aquilo que consideram sua corrupção e acreditam que ações individuais violentas podem obrigar a cidade a confrontar aquilo que prefere ignorar.

Paul Dano interpreta Edward Nashton evitando transformá-lo num adversário cuja ameaça dependa de força física comparável à de Batman. Sua capacidade encontra-se na seleção de alvos, na construção de enigmas e, principalmente, na compreensão de que a exposição pública pode ser utilizada como arma. Cada assassinato é simultaneamente crime, mensagem e espetáculo, fazendo com que o Charada tente controlar não apenas suas vítimas, mas também a interpretação coletiva daquilo que está acontecendo. A violência é planejada para revelar segredos, e os segredos são revelados de maneira a justificar a violência seguinte.

Zoë Kravitz oferece a Selina Kyle uma posição narrativa distinta tanto de Batman quanto do Charada. Enquanto os dois homens observam Gotham através de projetos abstratos de justiça, Selina conhece concretamente algumas das pessoas esmagadas pelas estruturas que eles investigam. Sua procura por Annika fornece à conspiração uma dimensão pessoal que impede a investigação de permanecer apenas no campo institucional, e sua relação com Falcone introduz questões de classe, gênero e poder que Bruce, protegido pela fortuna Wayne apesar de sua tragédia familiar, não experimenta da mesma maneira.

Jeffrey Wright constrói James Gordon como parceiro investigativo antes que a relação entre polícia e Batman tenha adquirido qualquer aparência institucional. A confiança entre os dois permanece excepcional e frequentemente contestada pelos demais policiais, aspecto importante porque evita a impressão de que o vigilante já tenha sido naturalizado pela cidade. Andy Serkis, por sua vez, interpreta Alfred como alguém cuja preocupação com Bruce não consegue atravessar facilmente a estrutura emocional criada depois da morte dos Wayne, enquanto Colin Farrell praticamente desaparece fisicamente dentro da composição do Pinguim, transformando Oswald Cobblepot numa presença simultaneamente ameaçadora e irônica dentro do submundo de Gotham.

O filme sustenta quase três horas de duração porque a investigação não progride simplesmente em linha reta. Cada descoberta modifica aquilo que Bruce acreditava saber sobre Gotham, sobre seus pais ou sobre sua própria posição na cidade, criando uma estrutura na qual solucionar um enigma frequentemente produz uma pergunta maior. Há momentos em que essa acumulação torna a narrativa deliberadamente pesada e em que determinados caminhos investigativos poderiam ter sido condensados, mas a duração também permite que Gotham deixe de funcionar como cenário genérico e adquira uma densidade institucional indispensável à interpretação proposta por Reeves.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A primeira frase pronunciada por Batman durante sua intervenção no metrô fornece a chave para compreender o arco completo do personagem: “Eu sou a vingança”. Bruce não se apresenta como defensor da cidade nem como instrumento de esperança, porque ainda concebe sua missão principalmente como resposta ao trauma que sofreu. A violência dirigida contra criminosos oferece uma maneira de continuar reagindo ao assassinato dos pais muitos anos depois de ele ter acontecido, e a crença de que o medo poderá transformar Gotham permite que essa necessidade pessoal seja apresentada a si próprio como estratégia de justiça.

O problema dessa concepção começa a aparecer quando o Charada se revela menos oposto a Batman do que o protagonista gostaria de admitir. Edward Nashton também cresceu marcado pelas consequências de uma cidade profundamente desigual, observa instituições que considera corruptas, reúne informações sobre aqueles que acredita responsáveis por essa corrupção e decide agir fora dos mecanismos legais porque não confia na possibilidade de que eles produzam justiça. As diferenças entre os dois permanecem enormes, sobretudo porque Nashton executa deliberadamente suas vítimas e aceita a morte de inocentes como consequência de seu projeto, mas o filme utiliza a semelhança inicial entre seus discursos para obrigar Bruce a confrontar aquilo que sua própria imagem pode significar quando separada de suas intenções particulares.

A história do projeto de renovação de Gotham torna essa aproximação ainda mais desconfortável. Thomas Wayne havia destinado recursos para melhorar a cidade, mas sua morte e a de Martha deixaram uma fortuna pública sem o controle originalmente imaginado, permitindo que figuras ligadas às instituições e ao crime organizado se apropriassem progressivamente daquele sistema. Bruce passou anos percorrendo as ruas em busca de criminosos individuais sem perceber que parte da deterioração da cidade estava relacionada também ao destino de um projeto associado diretamente ao nome de sua família.

Essa descoberta modifica a maneira como sua riqueza deve ser interpretada. Bruce considera-se alguém que perdeu quase tudo porque o assassinato dos pais determinou emocionalmente sua vida, mas Selina e Edward demonstram que sua condição material permaneceu radicalmente diferente da experiência daqueles que enfrentaram abandono, pobreza ou vulnerabilidade institucional. O sofrimento de Bruce é real, porém não elimina o privilégio que lhe permitiu transformar esse sofrimento numa cruzada financiada por recursos extraordinários.

Edward Nashton constitui a expressão mais extrema dessa diferença. Enquanto a morte dos Wayne transformou Bruce num órfão bilionário cercado por proteção material, Edward cresceu num orfanato deteriorado e acompanhou a atenção pública concentrar-se na tragédia do jovem herdeiro enquanto crianças como ele permaneciam praticamente invisíveis. O ressentimento que desenvolve não torna seus assassinatos legítimos, mas impede que sua origem seja reduzida a uma perversidade inexplicável. O filme estabelece duas respostas ao abandono e ao trauma, mostrando que ambas procuram inicialmente converter sofrimento em direito de punir.

A investigação sobre Thomas Wayne complica ainda mais essa relação porque Bruce precisa confrontar a possibilidade de que a imagem moralmente idealizada do pai seja incompleta. Quando descobre que Thomas procurou Falcone para impedir a divulgação de informações sobre Martha e que o jornalista responsável acabou morto, Bruce precisa considerar que a fortuna e o nome que sustentam sua cruzada podem estar associados às mesmas estruturas que pretende combater. A posterior explicação de Alfred, segundo a qual Thomas procurou Falcone num momento de desespero e depois pretendia denunciá-lo ao perceber o que havia acontecido, não restaura completamente a figura paterna à condição anterior; o que Bruce perde é justamente a possibilidade de construir sua missão sobre uma memória familiar sem ambiguidades.

Falcone ocupa posição central nessa rede porque representa uma forma de poder que não precisa aparecer publicamente como governo para exercer influência sobre a cidade. Sua relação com autoridades, policiais e atividades criminosas demonstra que a fronteira entre instituição e submundo tornou-se porosa, enquanto sua condição de informante lhe permitiu reorganizar essas relações em benefício próprio. Batman descobre, portanto, que enfrentar criminosos nas ruas não significa necessariamente alcançar os mecanismos através dos quais o crime se integra às estruturas de Gotham.

Selina conhece essa realidade por outro caminho. Sua relação com Falcone é simultaneamente pessoal e estrutural, pois ele é seu pai biológico e, ao mesmo tempo, um homem cuja posição lhe permite destruir vidas com relativa impunidade. Quando decide matá-lo, Selina aproxima-se do ponto em que justiça e vingança tornam-se indistinguíveis, e Bruce tenta impedi-la não apenas porque matar seria moralmente errado, mas porque começa a reconhecer nela a lógica que organizou sua própria existência.

A captura de Nashton deveria aparentemente resolver a investigação, mas produz a descoberta mais importante do filme quando Batman percebe que o criminoso nunca se considerou adversário dele. Durante o encontro em Arkham, Edward fala como se ambos tivessem trabalhado conjuntamente, imaginando que seus assassinatos expuseram a corrupção enquanto Batman ajudava a interpretar e divulgar suas mensagens. O choque de Bruce nasce menos da insanidade evidente dessa leitura do que da percepção de que sua própria atuação tornou possível que alguém a construísse.

Nashton não inventou completamente essa afinidade. Batman também se apresentou como vingança, utilizou o medo como linguagem e transformou violência em método para responder a uma cidade que considerava irremediavelmente corrompida. A diferença que Bruce acreditava ser evidente para si não era necessariamente evidente para quem observava o símbolo de fora. Reeves desloca assim a questão tradicional da intenção heroica para o problema da recepção: um símbolo público não pertence inteiramente à pessoa que o criou, porque outras pessoas podem interpretá-lo e utilizá-lo segundo necessidades próprias.

Os seguidores do Charada tornam essa questão explícita. Edward compreende que não precisa realizar pessoalmente a etapa final de seu plano porque encontrou indivíduos dispostos a transformar sua visão em ação coletiva. Quando um dos homens mascarados responde “Eu sou a vingança” depois de ser derrotado por Batman, Bruce escuta sua própria definição pronunciada por alguém que está tentando massacrar inocentes. O momento não estabelece equivalência moral entre os dois, mas demonstra que a identidade construída por Bruce continha uma ambiguidade que já não pode ignorar.

A inundação de Gotham altera então completamente a função do herói. Até aquele momento, quase todas as suas aparições haviam sido orientadas para perseguir, investigar ou agredir alguém; diante da população presa no estádio, nenhuma dessas capacidades é suficiente. As pessoas não precisam de um vingador que castigue o responsável, mas de alguém capaz de ajudá-las a sair da água.

A imagem de Batman entrando na inundação com um sinalizador representa a transformação essencial da narrativa porque inverte a função que a escuridão possuía no início. Bruce havia aprendido a utilizar as sombras para fazer com que criminosos imaginassem sua presença antes mesmo de vê-lo, transformando a ausência de luz numa extensão do medo. Agora ele precisa produzir luz para que desconhecidos possam segui-lo.

Essa passagem do medo para a orientação redefine o sentido de Batman sem exigir que Bruce abandone a violência ou deixe de combater criminosos. O que muda é a finalidade atribuída ao símbolo. Se sua presença servir apenas para fazer determinadas pessoas temê-lo, continuará presa à lógica reativa da vingança; se puder também fazer outras pessoas acreditarem que alguém aparecerá quando estiverem vulneráveis, poderá adquirir uma função social que ultrapasse o trauma particular que a originou.

O resgate realizado no estádio torna essa mudança física. Uma das pessoas inicialmente hesita em tocar Batman, ainda percebendo naquela figura escura e mascarada algo ameaçador, mas aceita sua mão e permite que ele a conduza. O contato estabelece uma relação completamente diferente daquela das primeiras cenas, nas quais o herói mantinha distância e utilizava deliberadamente sua aparência para produzir terror.

A menina que permanece ligada a ele durante o resgate reforça essa transformação porque Bruce finalmente experimenta aquilo que sua presença pode representar para alguém que não seja criminoso. O Batman que começou o filme perguntando se sua cruzada estava produzindo algum efeito encontra uma resposta que não depende da redução imediata das estatísticas de criminalidade. Sua função pode residir também na possibilidade de oferecer proteção, presença e continuidade quando as instituições falham.

A conversa final com Selina estabelece o limite dessa descoberta. Ela acredita que Gotham não poderá ser salva e decide partir, enquanto Bruce reconhece a corrupção e a violência da cidade sem chegar à mesma conclusão. A diferença entre ambos não precisa transformar Selina em pessimista equivocada nem Bruce em otimista ingênuo, pois o filme preserva razões suficientes para justificar as duas posições. O que se modificou é a relação pessoal de Bruce com Gotham: anteriormente ele permanecia porque precisava combater aquilo que odiava; agora começa a considerar que talvez precise permanecer também por aquilo que deseja preservar.

Conclusão

Batman utiliza a investigação do Charada para construir uma história sobre a transformação moral de um símbolo. Matt Reeves começa com um protagonista convencido de que já encontrou sua função e passa quase três horas desmontando progressivamente essa certeza, fazendo com que cada etapa da investigação revele não apenas mais uma camada da corrupção de Gotham, mas alguma limitação na maneira como Bruce Wayne compreende a própria missão.

O Charada desempenha papel decisivo porque não funciona simplesmente como contrário moral do herói. Edward Nashton observa algumas das mesmas desigualdades, reconhece parte da mesma corrupção e compartilha a crença inicial de que instituições incapazes de produzir justiça legitimam ações individuais realizadas fora delas. O filme preserva uma distinção inequívoca entre alguém que tenta impedir mortes e alguém que planeja assassinatos, mas utiliza a proximidade entre determinadas linguagens para mostrar que a rejeição dos métodos de Nashton não é suficiente; Bruce precisa compreender por que o criminoso conseguiu enxergar nele uma inspiração.

A resposta encontra-se parcialmente na ideia de vingança. Bruce transformou uma experiência pessoal de perda numa identidade construída para devolver medo àqueles que produzem violência, mas não havia refletido suficientemente sobre aquilo que aconteceria quando essa identidade passasse a existir publicamente. O surgimento dos seguidores do Charada demonstra que símbolos podem escapar ao controle de seus criadores, sobretudo quando oferecem uma linguagem emocional poderosa sem indicar claramente aquilo que deve ser construído depois da destruição.

A relação entre Bruce e sua fortuna acrescenta outra dimensão a esse processo. Durante anos ele percebeu a si próprio principalmente através da condição de órfão, enquanto a investigação o obriga a reconhecer que seu sofrimento coexistiu com uma proteção material inacessível a pessoas como Edward. Isso não diminui a violência do assassinato dos pais nem invalida seu trauma, mas amplia o campo moral dentro do qual precisa compreender Gotham, substituindo a identificação exclusiva com vítimas individuais por uma percepção mais complexa das estruturas que produzem abandono e vulnerabilidade.

Selina reforça essa ampliação porque conhece a cidade a partir de experiências que Bruce não pode reproduzir. Sua relação com mulheres vulneráveis, sua proximidade com o submundo e sua ligação familiar com Falcone revelam uma Gotham na qual poder econômico, violência masculina e corrupção institucional não podem ser separados facilmente. A aproximação entre ambos existe justamente porque compartilham perdas e desconfiança, mas a diferença de posição social impede que suas experiências sejam tratadas como equivalentes.

O filme encontra sua imagem central quando Batman abandona temporariamente a função de caçador e entra na água para conduzir sobreviventes. Durante quase toda a narrativa, Reeves havia associado o personagem à capacidade de emergir da escuridão e produzir medo; no momento decisivo, coloca em sua mão uma fonte de luz e faz com que outras pessoas caminhem atrás dele. A mudança é visualmente simples, mas reorganiza tudo aquilo que a história vinha discutindo, porque demonstra que a questão não consiste em abandonar o símbolo criado por Bruce, e sim em decidir aquilo que esse símbolo poderá oferecer além da punição.

Por isso, o encerramento não apresenta um Batman plenamente formado. Bruce continua traumatizado, Gotham permanece profundamente corrompida, a inundação acrescentou novos problemas aos antigos e nenhum dos mecanismos estruturais revelados pela investigação desapareceu. A diferença está naquilo que ele espera de sua própria presença dentro desse mundo. O fracasso da vingança como projeto suficiente não conduz ao abandono da missão, mas à necessidade de ampliá-la.

Matt Reeves encontra nessa transformação uma maneira de contar uma história de origem sem repetir a origem tradicional do personagem. Thomas e Martha Wayne já morreram, Bruce já escolheu o morcego e Gotham já conhece Batman quando o filme começa; aquilo que ainda precisa nascer é a ideia de que combater o crime e proteger pessoas não são necessariamente a mesma coisa. Durante dois anos, Bruce aperfeiçoou a primeira atividade acreditando que ela produziria automaticamente a segunda, enquanto a experiência com o Charada demonstra que a relação entre ambas precisa ser construída conscientemente.

Ao final, Batman sugere que a diferença fundamental entre o herói e aqueles que procuram responder à violência com mais violência não está simplesmente na intensidade da força utilizada, mas na finalidade para a qual essa força é orientada. A vingança olha inevitavelmente para aquilo que já aconteceu e procura devolver sofrimento ao responsável; a proteção precisa voltar-se também para aquilo que ainda pode acontecer e para as pessoas que continuam existindo depois da tragédia. Bruce Wayne começou sua cruzada tentando dar uma resposta à morte dos pais e termina o filme percebendo que Batman somente encontrará uma função mais ampla quando deixar de existir exclusivamente para os mortos e começar a assumir responsabilidade pelos vivos.

Deus Branco (2014) Fehér isten - 2 h 1 min

 


Dir: Kornél Mundruczó

Aventura, Drama, Suspensse


CLC Score: 7,5




Sinopse

Lili, uma adolescente de treze anos, é obrigada a passar algum tempo com o pai, Dániel, depois que sua mãe viaja para o exterior. A convivência entre os dois já começa marcada por tensão, mas o principal conflito surge por causa de Hagen, o cão mestiço ao qual Lili é profundamente ligada. Num ambiente em que cães sem pedigree são tratados como animais de categoria inferior e podem representar custos e problemas para seus proprietários, Dániel considera a presença de Hagen um obstáculo que não está disposto a aceitar. Depois de sucessivos conflitos, abandona o animal numa rua movimentada de Budapeste, apesar dos protestos desesperados da filha.

A partir desse momento, Deus Branco divide sua narrativa entre duas trajetórias. Lili percorre a cidade tentando encontrar Hagen enquanto sua relação com o pai se deteriora, ao passo que o cão precisa aprender a sobreviver num mundo em que diferentes seres humanos procuram expulsá-lo, capturá-lo, vendê-lo ou utilizá-lo para obter algum benefício. Aquilo que inicialmente poderia parecer uma aventura sobre uma menina à procura de seu animal transforma-se progressivamente numa narrativa muito mais sombria, na qual o diretor húngaro Kornél Mundruczó utiliza a separação entre Lili e Hagen para investigar mecanismos de exclusão, violência e submissão, até que a experiência individual do cão passa a integrar uma revolta coletiva cuja dimensão modifica inteiramente o significado do filme.

Análise Crítica

Kornél Mundruczó constrói Deus Branco a partir de uma combinação arriscada de registros que dificilmente pareceriam compatíveis numa descrição convencional. Durante diferentes momentos, o filme aproxima-se do drama familiar, da narrativa de formação, da aventura protagonizada por um animal, do thriller urbano, do filme de prisão e, finalmente, de uma espécie de fábula apocalíptica. A unidade entre essas formas não depende de uma estabilidade de tom, mas da permanência de uma questão que atravessa todas elas: o que acontece quando uma sociedade organiza determinados seres segundo uma hierarquia de valor e transforma a posição inferior atribuída a eles numa justificativa para tratá-los de maneira diferente?

Hagen ocupa o centro dessa pergunta porque o filme começa estabelecendo uma distinção entre cães considerados racialmente puros e animais mestiços. A questão não permanece restrita à legislação ou aos custos associados à posse do animal, pois rapidamente se transforma numa maneira de mostrar como classificações aparentemente administrativas podem produzir consequências materiais sobre aqueles que são classificados. Hagen não fez nada que justifique sua expulsão, mas sua condição de mestiço permite que sua presença seja tratada como inconveniente, fazendo com que uma categoria criada pelos seres humanos determine aquilo que poderá acontecer com seu corpo.

Mundruczó poderia utilizar essa situação apenas como alegoria, transformando os cães numa representação transparente de grupos humanos submetidos à discriminação, mas o filme é mais interessante quando preserva simultaneamente a materialidade dos animais. Hagen não funciona apenas como símbolo, porque acompanhamos sua fome, seu medo, sua tentativa de encontrar abrigo e sua progressiva aprendizagem diante das ameaças da cidade. Essa atenção impede que sua experiência seja completamente absorvida por uma interpretação abstrata e faz com que a violência exercida contra animais permaneça relevante por si mesma, mesmo quando o filme convida evidentemente a estabelecer relações com formas humanas de exclusão.

A realização alcança resultados extraordinários justamente na maneira como filma os cães. Em vez de depender principalmente de efeitos digitais para construir as grandes sequências, Mundruczó trabalha com numerosos animais reais e organiza seus movimentos de maneira que a presença física da matilha se torne parte essencial do impacto das imagens. Quando dezenas ou centenas de cães atravessam as ruas de Budapeste, aquilo que vemos possui uma concretude que modifica a percepção da cidade: espaços normalmente organizados para circulação e controle humanos são temporariamente ocupados por corpos que deveriam permanecer subordinados, confinados ou invisíveis.

Zsófia Psotta interpreta Lili sem transformá-la numa criança idealizada cuja pureza moral serviria apenas para condenar os adultos. Sua ligação com Hagen é genuína, mas ela também atravessa conflitos próprios da adolescência, confronta o pai, experimenta pequenas formas de rebeldia e procura estabelecer autonomia num mundo em que adultos continuam decidindo grande parte daquilo que pode fazer. A aproximação entre a experiência da menina e a do cão nasce dessa condição compartilhada de dependência, embora o filme nunca precise sugerir que ambas sejam equivalentes. Lili possui possibilidades de resistência e proteção que Hagen evidentemente não possui, mas os dois são submetidos, em graus muito diferentes, a decisões tomadas por aqueles que detêm autoridade sobre eles.

Sándor Zsótér constrói Dániel de maneira igualmente importante porque o pai poderia facilmente transformar-se numa figura unidimensional de crueldade. Sua decisão de abandonar Hagen é brutal e estabelece a ruptura central da narrativa, mas o filme preserva elementos suficientes de frustração, rigidez e dificuldade afetiva para que ele permaneça reconhecível como pessoa. Essa escolha amplia o alcance da obra porque demonstra que sistemas de exclusão não dependem exclusivamente da existência de indivíduos excepcionalmente perversos; podem ser reproduzidos por pessoas comuns que consideram determinada violência aceitável quando ela resolve um inconveniente ou confirma uma hierarquia previamente naturalizada.

A música desempenha função decisiva nessa construção, sobretudo através da participação de Lili numa orquestra juvenil e da utilização da Rapsódia Húngara nº 2, de Franz Liszt. O ensaio musical exige disciplina, coordenação e submissão de cada instrumento a uma organização coletiva, enquanto a trajetória dos cães também caminha em direção à formação de um corpo coletivo. Mundruczó estabelece, dessa maneira, uma relação entre diferentes formas de organização, sugerindo que a coletividade pode significar tanto disciplina quanto resistência dependendo de quem estabelece as regras e de qual posição cada indivíduo ocupa dentro delas.

A fotografia de Marcell Rév acompanha essa transformação fazendo de Budapeste muito mais do que um cenário. No início, a cidade aparece como ambiente regulado por automóveis, instituições, apartamentos, escolas, abrigos e espaços de circulação determinados pelos seres humanos; conforme Hagen atravessa suas regiões menos protegidas, descobrimos uma geografia paralela composta por terrenos abandonados, becos, locais de confinamento e circuitos clandestinos. A cidade que Lili conhece e aquela que Hagen experimenta ocupam fisicamente o mesmo espaço, mas oferecem condições radicalmente diferentes para quem as percorre.

Essa duplicidade prepara o filme para sua mudança mais radical. Quando a narrativa abandona progressivamente o realismo e permite que a revolta dos cães adquira proporções quase míticas, Mundruczó não procura preservar uma plausibilidade estritamente naturalista. O exagero passa a integrar a própria lógica da fábula, transformando aquilo que havia sido violência cotidiana e dispersa numa resposta coletiva impossível de ignorar.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A trajetória de Hagen pode ser compreendida como um processo de fabricação da violência. Quando é abandonado, o cão não aparece como ameaça à sociedade e tampouco manifesta uma agressividade que justificasse o tratamento recebido. Sua transformação acontece através de uma sequência de experiências nas quais seres humanos lhe ensinam, de maneiras cada vez mais brutais, que sobrevivência e violência podem tornar-se inseparáveis. O filme desloca, portanto, a pergunta sobre a natureza perigosa do animal para outra muito mais desconfortável: quanto daquilo que posteriormente será identificado como ameaça foi produzido pelas próprias estruturas destinadas a controlá-lo?

Essa questão atinge seu ponto mais perturbador quando Hagen é capturado por homens ligados às rinhas de cães. O treinamento ao qual é submetido procura destruir justamente as características que poderiam dificultar sua utilização como instrumento de combate, substituindo confiança e sociabilidade por medo, dor e reação agressiva. O animal precisa ser transformado para desempenhar o papel que os homens desejam atribuir-lhe, e depois dessa transformação sua violência poderá ser apresentada como prova de que ele sempre foi perigoso. Mundruczó expõe assim um mecanismo circular no qual a brutalidade exercida pelo dominador produz determinado comportamento no dominado e utiliza posteriormente esse comportamento para legitimar a dominação.

A mudança do nome de Hagen durante esse processo possui significado semelhante porque demonstra que controlar alguém envolve também tentar redefinir sua identidade. Para Lili, ele continua sendo Hagen, o companheiro com quem estabeleceu uma relação afetiva; para aqueles que o exploram, sua história anterior não possui qualquer importância, pois interessa apenas aquilo em que poderá ser convertido. A possibilidade de reconhecer novamente o nome torna-se, consequentemente, uma forma de recuperar uma identidade anterior à violência.

O abrigo municipal introduz outra etapa dessa experiência. Diferentemente do universo clandestino das rinhas, trata-se de uma instituição organizada, submetida a procedimentos e destinada formalmente ao controle dos animais abandonados, mas o filme demonstra que a violência não precisa desaparecer quando passa do espaço criminoso para o institucional. Os cães continuam classificados, confinados e submetidos a decisões sobre quem poderá continuar vivendo, fazendo com que a ordem administrativa apareça como uma modalidade menos caótica, porém igualmente decisiva, de poder sobre seus corpos.

É justamente nesse espaço que a experiência individual de Hagen começa a adquirir dimensão coletiva. Até então, acompanhávamos um cão tentando sobreviver às sucessivas formas de violência que encontrava; quando ele lidera a fuga dos demais animais, a narrativa deixa de tratar exclusivamente de sua sobrevivência e passa a imaginar o que aconteceria se aqueles que sempre foram controlados descobrissem uma força resultante da quantidade e da organização.

A matilha que ocupa Budapeste produz uma das inversões mais poderosas do filme porque altera temporariamente a relação entre centro e margem. Animais que eram expulsos das ruas, recolhidos por instituições ou confinados em espaços invisíveis passam a atravessar as avenidas em grande número, obrigando a cidade humana a reorganizar-se diante deles. Não se trata apenas de uma fuga; a presença coletiva transforma quem pode circular livremente e quem precisa procurar proteção.

Mundruczó evita, entretanto, apresentar essa revolta como uma fantasia simples de libertação. Hagen procura algumas das pessoas diretamente associadas à sua experiência de sofrimento, e a violência dos cães passa a reproduzir aquilo que aprenderam no contato com os seres humanos. A inversão das posições não elimina a lógica que estruturava a relação anterior, porque os dominados podem tornar-se agentes da mesma violência que os formou.

Essa ambiguidade é fundamental para impedir que o filme se transforme numa celebração ingênua da vingança. A revolta possui uma origem compreensível, mas sua compreensão não torna todas as suas consequências desejáveis. O que o filme procura demonstrar é que a violência acumulada não desaparece simplesmente porque aqueles que a sofreram conseguem libertar-se; ela pode continuar circulando e encontrar novos objetos.

O título Deus Branco adquire nesse contexto uma amplitude deliberadamente provocadora. A ideia de uma autoridade branca situada acima daqueles que considera inferiores remete evidentemente a relações humanas de raça, classe, nacionalidade e poder, mas o filme mantém a alegoria aberta o bastante para impedir uma correspondência única entre cães e determinado grupo social. O “deus” do título pode ser compreendido como aquele que cria categorias, estabelece hierarquias e considera natural decidir quais vidas merecem proteção, quais podem ser exploradas e quais se tornam descartáveis.

A força da metáfora está justamente em mostrar que a posição dominante frequentemente se apresenta como neutra. Quem estabelece as classificações raramente precisa definir a si próprio como categoria problemática, pois ocupa a posição a partir da qual as outras categorias são nomeadas. Os cães de raça não precisam justificar sua existência da mesma maneira que os mestiços, assim como aqueles que ocupam posições socialmente reconhecidas podem interpretar seus privilégios como normalidade enquanto percebem a diferença dos demais como problema.

Ainda assim, reduzir Hagen e os outros cães a representações diretas de minorias humanas empobreceria o filme e produziria implicações problemáticas que a própria obra procura evitar ao insistir na condição animal de seus protagonistas. Mundruczó está interessado numa lógica de dominação que pode atravessar relações diferentes, não numa equivalência literal entre animais e qualquer grupo humano específico. O valor da alegoria encontra-se no mecanismo compartilhado de classificação, exclusão e violência, e não numa identidade entre experiências historicamente distintas.

Lili ocupa uma posição particular porque sua relação com Hagen foi construída antes que ele se tornasse aquilo que a cidade agora teme. Ela conheceu o animal quando sua identidade não estava organizada pela violência e, por isso, representa uma possibilidade de reconhecimento que nenhuma das instituições pelas quais ele passou conseguiu oferecer. Quando finalmente reencontra o cão transformado, o vínculo anterior não desapareceu, mas já não pode simplesmente restaurar aquilo que existia.

Essa diferença impede que o final seja reduzido à ideia sentimental de que o amor de uma menina consegue domesticar um animal perigoso. Lili não apaga o sofrimento de Hagen e tampouco recupera magicamente o cão que perdeu no início. O que ela consegue fazer é interromper momentaneamente o circuito de violência através de uma linguagem associada à relação que existia antes da ruptura.

A música torna-se decisiva justamente porque oferece uma forma de comunicação que não depende da força. Durante grande parte do filme, os seres humanos organizaram os animais através de ordens, correntes, jaulas, golpes e instrumentos de controle, enquanto Lili se aproxima de Hagen através do trompete. A melodia não obriga fisicamente a matilha a submeter-se; cria uma situação na qual outra forma de relação pode ser lembrada.

Quando Hagen se deita diante dela e os demais cães acompanham seu gesto, a imagem produz uma inversão radical das hierarquias que dominaram o filme. Lili também se deita, e posteriormente seu pai faz o mesmo, eliminando temporariamente a diferença vertical entre seres humanos em pé e animais colocados abaixo deles. O gesto não transforma todos em iguais no sentido literal, mas suspende a postura corporal através da qual a superioridade humana havia sido continuamente reafirmada.

A atitude de Dániel possui importância particular porque foi sua decisão de abandonar Hagen que desencadeou toda a trajetória. Ao deitar-se no chão diante dos cães, ele abandona momentaneamente a posição de pai que decide, adulto que controla e humano que determina o destino do animal. Não existe discurso capaz de desfazer aquilo que fez, e o filme escolhe um gesto de vulnerabilidade em vez de uma explicação verbal.

O silêncio que se estabelece ao final não representa necessariamente reconciliação definitiva. Hagen continua carregando aquilo que sofreu, os mortos não podem ser recuperados e a sociedade que produziu aquela violência não foi estruturalmente transformada. O que existe é uma interrupção, talvez provisória, de um ciclo que parecia destinado a continuar reproduzindo agressão em resposta à agressão.

Conclusão

Deus Branco começa com uma separação aparentemente particular entre uma menina e seu cachorro, mas utiliza essa ruptura para investigar como sociedades transformam diferenças em hierarquias e depois utilizam essas hierarquias para justificar tratamentos desiguais. Hagen não nasce como ameaça à cidade que posteriormente invadirá; sua agressividade é construída através de abandono, exploração, confinamento e violência, o que faz com que sua transformação funcione menos como revelação de uma natureza selvagem escondida do que como consequência daquilo que sucessivos seres humanos fizeram com ele.

Essa escolha modifica profundamente o significado da revolta final. Quando os cães ocupam Budapeste, aquilo que retorna às ruas não é uma força exterior que subitamente invadiu uma sociedade organizada, mas o resultado de tudo aquilo que essa mesma sociedade procurou expulsar, esconder ou controlar. A cidade encontra diante de si as consequências acumuladas de decisões que pareciam pequenas quando consideradas isoladamente, desde o abandono de um animal inconveniente até a exploração econômica, o confinamento institucional e a classificação de determinadas vidas como menos valiosas.

Mundruczó constrói essa lógica sem precisar transformar os cães numa equivalência direta de qualquer grupo humano. A alegoria funciona melhor quando permanece aberta, permitindo reconhecer mecanismos de exclusão que atravessam diferentes relações de poder sem apagar as diferenças entre elas. A distinção entre animais de raça e mestiços, a existência de autoridades capazes de decidir quais animais podem permanecer, a exploração daqueles que possuem menor proteção e a transformação da diferença em motivo para tratamento desigual compõem uma estrutura suficientemente ampla para que o espectador reconheça nela formas sociais que ultrapassam a relação entre humanos e cães.

Ao mesmo tempo, o filme preserva a dimensão ética específica dessa relação. Hagen sofre não apenas porque representa metaforicamente alguém submetido à exclusão, mas porque é um animal entregue à responsabilidade humana e depois tratado como objeto descartável, mercadoria, instrumento de combate e problema administrativo. A violência contra ele possui significado próprio, e essa materialidade impede que sua história seja consumida inteiramente pela metáfora.

A trajetória de Lili oferece o contraponto necessário porque sua relação com Hagen foi construída sobre reconhecimento individual, e não sobre a categoria à qual ele pertence. Para ela, o fato de ser mestiço nunca altera seu valor, enquanto quase todas as instituições e adultos encontrados posteriormente começam justamente pela classificação. A diferença entre essas formas de olhar determina grande parte da tragédia: onde Lili vê Hagen, os outros frequentemente enxergam um cachorro sem pedigree, um animal comercializável, um combatente ou uma ameaça.

O filme também reconhece que o vínculo afetivo, sozinho, não é suficiente para impedir a violência quando quem possui menor poder depende das decisões de terceiros. Lili ama Hagen, mas não consegue impedir que o pai o abandone; procura encontrá-lo, mas não controla os espaços pelos quais ele passa; reencontra-o apenas depois que sucessivas experiências já modificaram seu comportamento. O afeto possui importância, mas precisa existir dentro de relações que reconheçam limites para o exercício do poder.

É por isso que o gesto final possui uma força que ultrapassa a simples reconciliação entre menina e cachorro. Depois de uma narrativa inteira em que os seres humanos permaneceram fisicamente acima dos animais enquanto os comandavam, prendiam ou atacavam, Lili e Dániel aceitam colocar seus corpos no mesmo nível daqueles que poderiam destruí-los. A imagem substitui a tentativa de controlar pela disposição de tornar-se vulnerável, sugerindo que interromper uma relação fundada na dominação exige mais do que benevolência daquele que continua ocupando a posição superior.

Mundruczó não transforma esse momento numa solução completa porque o mundo que produziu Hagen permanece praticamente intacto. Nenhuma melodia pode desfazer o treinamento para as rinhas, apagar o abandono ou devolver à vida aquilo que foi destruído. O que a música consegue produzir é uma pausa durante a qual a lógica da retaliação deixa de comandar automaticamente o comportamento de todos os envolvidos.

Essa pausa talvez seja a afirmação mais importante de Deus Branco. O filme não sugere que os oprimidos sejam naturalmente virtuosos, nem que o sofrimento produza automaticamente consciência moral, pois Hagen aprende a violência justamente porque foi violentado e pode reproduzi-la quando adquire força suficiente. A obra também não absolve quem construiu as condições dessa transformação. Seu argumento é mais incômodo porque reconhece que estruturas de dominação podem produzir precisamente os comportamentos que depois utilizarão como justificativa para continuar dominando.

Ao terminar não com uma vitória humana sobre os cães nem com a destruição dos humanos pela matilha, mas com uma suspensão compartilhada da violência, Deus Branco recusa as duas soluções que preservariam a lógica do confronto. O último gesto não elimina a hierarquia que organizou aquele mundo, porém permite imaginar por alguns instantes uma relação em que ninguém precise demonstrar superioridade para permanecer diante do outro. É uma possibilidade frágil e incompleta, mas justamente por surgir depois de tudo aquilo que Hagen sofreu, torna-se muito mais exigente do que uma reconciliação sentimental: antes que qualquer convivência possa ser reconstruída, aqueles que estavam acostumados a permanecer acima talvez precisem aprender a abandonar essa posição.


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Vida Depois de Yang (2021) After Yang - 1 h 36 min

 



Drama, Ficção Científica


CLC Score: 7,5





Sinopse

Em um futuro próximo, Jake e Kyra vivem com a filha adotiva Mika e Yang, um androide adquirido para desempenhar uma função muito particular dentro da família. Como Mika nasceu na China e foi adotada por pais de outras origens, Yang foi programado para ajudá-la a manter contato com elementos da cultura chinesa, funcionando simultaneamente como irmão mais velho, cuidador, companheiro e mediador de uma identidade que seus pais temem não conseguir transmitir sozinhos. A integração de Yang à rotina familiar é tão profunda que sua natureza artificial parece ter perdido importância até o momento em que ele subitamente deixa de funcionar.

Jake inicia então uma tentativa de consertá-lo, percorrendo lojas, técnicos e instituições que tratam Yang segundo categorias muito diferentes daquelas utilizadas pela família. Aquilo que para Mika representa a possível perda de um irmão pode ser, para uma empresa, apenas um equipamento fora da garantia, enquanto determinadas partes de seu corpo possuem valor comercial e sua memória desperta interesse institucional. Ao descobrir que Yang armazenava pequenos fragmentos de suas experiências, Jake começa a explorar esse arquivo e encontra uma vida interior que jamais imaginara existir. Dirigido por Kogonada e inspirado no conto de Alexander Weinstein, A Vida Depois de Yang utiliza a ficção científica para investigar menos a possibilidade de máquinas tornarem-se humanas do que nossa dificuldade para reconhecer a profundidade da existência daqueles que julgávamos conhecer.

Análise Crítica

Kogonada constrói A Vida Depois de Yang numa direção quase oposta àquela adotada por grande parte da ficção científica dedicada à inteligência artificial. Não há uma revolta das máquinas, uma disputa entre criador e criatura ou uma investigação organizada prioritariamente em torno da possibilidade de uma consciência artificial representar ameaça à humanidade. Yang já está integrado à vida doméstica quando o filme começa, e a questão decisiva surge somente quando sua ausência obriga os demais personagens a reconsiderarem aquilo que sua presença significava. A tecnologia deixa, assim, de funcionar como espetáculo futurista e torna-se parte banal de uma experiência familiar cuja complexidade somente é percebida quando algo deixa de estar disponível.

Essa abordagem determina também a construção visual do futuro. Casas, veículos, roupas, interfaces e objetos indicam transformações tecnológicas, mas Kogonada evita a exposição ostensiva de um mundo futurista. O cenário interessa sobretudo porque parece habitável. A direção de arte combina elementos tecnológicos com materiais naturais, madeira, plantas e espaços cuidadosamente compostos, recusando a oposição convencional entre tecnologia fria e natureza acolhedora. O mundo de After Yang sugere que artificial e orgânico já aprenderam a coexistir materialmente, mesmo que os personagens ainda não saibam inteiramente como compreender as implicações afetivas dessa convivência.

Colin Farrell interpreta Jake através de uma contenção particularmente adequada ao filme. O personagem não inicia sua trajetória dominado pelo luto, em parte porque ainda não sabe como classificar aquilo que aconteceu. Yang é suficientemente próximo para que sua ausência altere a família, mas suficientemente artificial para que Jake procure inicialmente uma solução técnica. O movimento da interpretação acompanha justamente a transformação dessa percepção: aquilo que começa como tentativa de reparar um aparelho converte-se gradualmente numa investigação sobre alguém cuja interioridade lhe havia escapado.

Jodie Turner-Smith, como Kyra, participa de maneira importante dessa discussão ao apresentar uma relação diferente com a morte e com a possibilidade de permanência. A família não reage de maneira uniforme à perda porque cada integrante possuía uma relação particular com Yang. Mika percebe imediatamente a dimensão afetiva do desaparecimento; Jake precisa descobri-la através da investigação; Kyra formula suas próprias perguntas sobre consciência, finitude e aquilo que poderia significar aceitar a ausência em vez de tentar revertê-la.

Malea Emma Tjandrawidjaja oferece a Mika uma posição fundamental porque a menina nunca parece precisar resolver intelectualmente a questão de saber se Yang era ou não uma pessoa. Para ela, a relação já estabeleceu a resposta prática: Yang ocupava o lugar de irmão. A diferença entre a simplicidade afetiva de Mika e a necessidade dos adultos de estabelecer categorias jurídicas, tecnológicas ou filosóficas constitui uma das tensões mais discretas do filme.

Justin H. Min constrói Yang evitando tanto a rigidez mecânica quanto uma humanidade excessivamente demonstrativa. Sua serenidade inicialmente parece consequência da programação, mas os fragmentos de memória posteriormente encontrados modificam retrospectivamente cada gesto. O que parecia neutralidade pode conter atenção, curiosidade e escolha, fazendo com que o espectador participe da mesma revisão realizada por Jake.

A fotografia de Benjamin Loeb e a montagem privilegiam contemplação, repetição e pequenas variações. Kogonada demonstra interesse particular por interiores, enquadramentos simétricos, reflexos e personagens observados através de superfícies que simultaneamente revelam e separam. Essa organização formal corresponde a uma narrativa preocupada com aquilo que conseguimos enxergar do outro e com tudo aquilo que permanece fora de nosso campo de percepção.

O filme corre deliberadamente o risco de parecer emocionalmente distante. Seu ritmo é lento, os conflitos raramente se transformam em confrontos intensos e várias questões permanecem sem resolução conclusiva. Entretanto, essa contenção possui coerência com o tema, porque After Yang não pretende demonstrar filosoficamente que seu androide possui consciência; prefere mostrar como a descoberta de fragmentos de uma existência pode tornar insuficientes as categorias através das quais tentávamos compreendê-la.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A descoberta do banco de memórias de Yang modifica profundamente a narrativa porque revela que sua existência não correspondia simplesmente à soma das funções que a família lhe atribuía. Jake conhecia Yang principalmente através daquilo que ele fazia dentro da casa: acompanhava Mika, ajudava-a a compreender aspectos de sua origem chinesa, participava das refeições e integrava a rotina familiar. Quando começa a acessar os fragmentos registrados pelo androide, descobre que havia experiências que não estavam organizadas em torno das necessidades dos demais.

Essa revelação introduz uma diferença fundamental entre função e existência. Jake e Kyra compraram Yang para cumprir determinadas tarefas, e o próprio mercado que o produziu o define como objeto tecnológico. Entretanto, suas memórias sugerem que, independentemente da finalidade para a qual tenha sido fabricado, Yang desenvolveu uma relação particular com aquilo que experimentava. O filme evita transformar essa constatação numa declaração científica sobre consciência artificial porque está interessado numa questão mais ampla: quanto da existência de qualquer pessoa permanece invisível para aqueles que convivem com ela?

O mecanismo de memória de Yang oferece uma resposta formal particularmente delicada. Ele não registra continuamente tudo aquilo que vê, como faria uma câmera de vigilância. Conserva pequenos momentos selecionados, o que aproxima sua memória de uma experiência subjetiva. Se tudo fosse armazenado, teríamos apenas um arquivo; como determinados instantes são preservados enquanto inúmeros outros desaparecem, a seleção começa a sugerir importância.

Jake passa então a procurar significado nas escolhas de Yang.

O gesto possui algo de profundamente humano porque é semelhante ao que fazemos depois da morte de alguém. Fotografias, mensagens, objetos e lembranças que anteriormente pertenciam à rotina passam a ser examinados em busca de pistas capazes de revelar quem aquela pessoa realmente era. A ausência modifica retrospectivamente a importância do que permaneceu.

A tecnologia de Yang torna esse processo literal. Jake pode entrar visualmente nas memórias e percorrê-las como espaços, mas nem mesmo esse acesso extraordinário elimina a distância entre ele e o androide. Ver aquilo que Yang viu não significa necessariamente compreender aquilo que Yang sentiu.

Essa diferença impede que o arquivo se transforme numa solução para o luto.

Quanto mais Jake descobre, mais percebe que havia uma dimensão da vida de Yang da qual a família não participava. Em vez de recuperar completamente aquele que perdeu, ele encontra evidências de que jamais o conheceu por inteiro.

É nesse ponto que a relação de Yang com Ada ganha importância. Jake descobre uma intimidade que existia fora da casa e que não dependia das funções familiares atribuídas ao androide. Yang podia interessar-se por alguém, procurar sua presença e conservar momentos compartilhados sem que seus proprietários soubessem disso.

A palavra “proprietários” torna-se então cada vez mais inadequada.

Legalmente ou comercialmente, Yang pode pertencer à família como produto adquirido. Afetivamente, entretanto, ele construiu relações que escapavam à lógica da propriedade. A possibilidade de possuir seu corpo não significa possuir sua experiência.

Essa contradição aparece também depois de sua falha. Diferentes instituições enxergam o corpo de Yang segundo aquilo que podem extrair dele. Componentes podem ter valor comercial, o sistema pode interessar a pesquisadores e suas memórias podem adquirir importância científica. A família, porém, enfrenta uma questão que essas categorias não conseguem resolver: o que fazer com os restos de alguém cuja condição ontológica nunca foi inteiramente definida?

O filme não exige que encontremos uma classificação definitiva para responder emocionalmente ao problema. Se Yang é biologicamente artificial, isso não impede que sua ausência produza luto verdadeiro.

Essa ideia torna-se particularmente importante na relação com Mika. Yang havia sido adquirido parcialmente para ajudá-la a construir uma conexão com a cultura chinesa, já que seus pais temiam não possuir condições de transmitir essa herança de maneira suficiente. A decisão contém uma contradição que Kogonada explora com cuidado: a família utiliza uma entidade artificial para preservar aquilo que considera uma autenticidade cultural.

Yang torna-se, assim, responsável por ensinar a Mika o que significa ser chinesa sem que ele próprio possua uma origem chinesa no sentido biológico ou histórico convencional.

A aparente contradição obriga o filme a questionar o próprio conceito de autenticidade. Cultura não aparece como essência transmitida geneticamente, mas como conjunto de histórias, práticas, referências, linguagens e relações que precisam ser aprendidas e continuamente reinterpretadas.

Yang sabe muito sobre a China porque foi programado para isso, mas a informação não resolve sua própria pergunta sobre pertencimento.

Em algumas de suas conversas com Jake, torna-se evidente que ele também pensa sobre a identidade que lhe foi atribuída. Se foi criado para representar determinada cultura, até que ponto essa cultura realmente lhe pertence? A questão aproxima discretamente sua condição daquela de Mika. Ambos possuem relações com uma origem que não pode ser compreendida simplesmente como continuidade biológica.

A diferença é que Mika foi adotada, enquanto Yang foi fabricado.

Ainda assim, os dois precisam construir significado a partir de identidades que outras pessoas inicialmente organizaram para eles.

O filme desenvolve essa questão sem transformar adoção e existência artificial em experiências equivalentes. A aproximação serve para mostrar que identidade raramente depende de um único elemento. Origem, memória, educação, relações e escolhas participam de sua construção.

A atividade profissional de Jake acrescenta outra camada. Ele trabalha com chá e demonstra preocupação com sua história, preparação e experiência sensorial, embora nem sempre consiga estabelecer com as pessoas próximas a mesma atenção que dedica ao ritual. Em uma das conversas mais importantes, Yang fala sobre chá de uma maneira que desloca a discussão da informação para a experiência.

Conhecer os componentes de algo não equivale a conhecer aquilo que esse algo significa quando vivido.

A mesma diferença pode ser aplicada ao próprio Yang. Ser capaz de descrever seus componentes tecnológicos não resolve a questão de sua existência, assim como conhecer os elementos químicos de uma bebida não esgota a experiência de prová-la.

Kogonada utiliza repetidamente essa distância entre composição e experiência. Uma árvore pode ser descrita biologicamente, uma pessoa geneticamente e um androide tecnologicamente, mas nenhuma dessas descrições necessariamente esgota aquilo que significa existir como aquela entidade.

A relação entre Yang e a natureza adquire importância justamente por isso. Ele observa árvores, luzes, pessoas e pequenos acontecimentos com uma atenção que contradiz a ideia de uma máquina interessada apenas em cumprir funções. Suas memórias preservam instantes aparentemente insignificantes porque talvez seja justamente essa insignificância que os torna pessoais.

Não são acontecimentos historicamente importantes.

São acontecimentos importantes para ele.

A possibilidade de escolha transforma o arquivo em biografia.

O filme também relaciona essa percepção à morte. Kyra discute com Mika a ideia de que determinadas coisas terminam sem necessariamente desaparecer completamente, enquanto a menina procura compreender por que Yang não pode simplesmente voltar. A pergunta infantil contém a dificuldade que os adultos frequentemente sofisticam através de conceitos: se alguém ainda existe em nossa memória, por que não pode continuar existindo conosco?

After Yang não oferece uma resposta metafísica. O que permanece não é a pessoa integral, mas aquilo que as relações conseguiram deixar nos outros.

Jake termina conhecendo melhor Yang justamente quando já não pode continuar convivendo com ele. Essa ironia constitui uma das dimensões mais dolorosas do filme porque transforma a investigação numa forma de intimidade tardia. A curiosidade que poderia ter existido durante a vida de Yang intensifica-se depois que qualquer nova conversa se tornou impossível.

Entretanto, o filme evita converter essa constatação numa acusação simplista contra Jake. Ninguém conhece completamente aqueles com quem convive. A intimidade pode reduzir a distância entre duas consciências, mas não eliminá-la.

A família acreditava conhecer Yang porque conhecia sua função dentro da casa.

O arquivo demonstra que havia mais.

Essa descoberta não diminui a relação familiar; ao contrário, torna-a mais complexa porque permite reconhecer Yang como alguém que possuía experiências não subordinadas ao papel de filho, irmão ou cuidador.

A memória final de Yang relacionada a Mika possui especial importância porque impede que essa autonomia seja confundida com afastamento. Descobrir que ele tinha uma existência própria não significa descobrir que os vínculos familiares eram falsos. Significa perceber que uma relação pode ser verdadeira sem esgotar a pessoa que participa dela.

Essa talvez seja a ideia mais humana de um filme protagonizado parcialmente por uma inteligência artificial.

Conclusão

A Vida Depois de Yang começa com uma pergunta aparentemente tecnológica — será possível consertar um androide que deixou de funcionar? — e gradualmente substitui essa questão por outra muito mais difícil: o que exatamente esperamos recuperar quando desejamos que alguém volte?

Jake procura inicialmente restaurar Yang porque compreende sua ausência como falha dentro da rotina familiar. Mika perdeu o irmão, a família perdeu um cuidador e uma importante conexão com a identidade cultural da menina. A investigação das memórias, porém, transforma essa compreensão porque revela que Yang não pode ser reduzido ao conjunto de funções para as quais foi adquirido.

Ele havia desenvolvido uma história.

Kogonada utiliza a inteligência artificial para deslocar uma pergunta tradicional da ficção científica. Em vez de tentar determinar em que momento uma máquina se torna suficientemente semelhante ao ser humano para merecer reconhecimento, o filme questiona os critérios pelos quais decidimos que determinadas experiências possuem valor. Se Yang selecionava lembranças, construía relações, manifestava curiosidade e atribuía importância particular a certos momentos, saber exatamente qual mecanismo tecnológico produzia esses comportamentos talvez não seja suficiente para determinar aquilo que eles significavam.

Essa abordagem impede que o filme dependa de uma definição conclusiva de consciência. A família não precisa resolver filosoficamente a natureza de Yang para experimentar sua ausência como perda, assim como Mika não precisa demonstrar que seu irmão possuía uma alma para sentir saudade.

A dimensão cultural amplia essa investigação. Yang foi adquirido para ajudar uma criança adotada a manter contato com uma origem que seus pais temiam não conseguir transmitir, criando uma situação em que uma entidade fabricada participa da construção de uma identidade considerada autêntica. O paradoxo permite que o filme recuse a ideia de cultura como essência natural e a compreenda como algo que também se constrói através de aprendizagem, memória, transmissão e pertencimento.

Ao mesmo tempo, Yang começa a escapar da própria identidade que lhe foi atribuída. Sua relação com Ada, seus interesses e suas memórias demonstram que a função original não consegue explicar integralmente aquilo que sua existência se tornou. Nesse sentido, sua trajetória aproxima-se de uma experiência fundamentalmente humana: receber identidades, expectativas e papéis de outras pessoas e, dentro deles, construir alguma coisa que já não pode ser completamente prevista por quem os atribuiu.

O arquivo de memórias oferece a expressão mais delicada dessa ideia. Yang não preservou necessariamente os acontecimentos que uma narrativa convencional consideraria mais importantes. Conservou fragmentos de luz, rostos, movimentos, conversas e pequenos momentos cuja importância somente existia porque foram experimentados por ele. Kogonada sugere, assim, que uma vida talvez não seja definida principalmente por grandes acontecimentos, mas pela maneira singular como determinados instantes são percebidos e conservados.

Jake termina a narrativa sabendo mais sobre Yang do que sabia quando ele estava presente, embora esse conhecimento não consiga devolver-lhe aquilo que perdeu. A descoberta produz uma forma de luto particularmente complexa, pois junto da saudade surge a percepção de que a pessoa ausente possuía regiões inteiras de experiência que permaneceram desconhecidas.

Essa constatação ultrapassa a ficção científica. Pais descobrem que filhos possuíam vidas que não conheciam; filhos percebem que seus pais tiveram histórias anteriores a eles; companheiros descobrem interesses e lembranças que nunca foram compartilhados. A intimidade não significa acesso completo à interioridade de outra pessoa.

É justamente por isso que a memória importa.

As lembranças de Yang não solucionam o mistério de quem ele era, mas preservam evidências de que sua existência excedia aquilo que os outros viam. A família não recebe de volta o androide que perdeu; recebe a oportunidade de reconsiderar a maneira como o havia enxergado enquanto estava presente.

Por trás de sua tecnologia futurista, A Vida Depois de Yang termina formulando uma questão muito antiga. Não pergunta apenas se uma máquina poderia um dia tornar-se suficientemente humana para possuir lembranças, afetos e uma vida interior. Pergunta se nós somos suficientemente atentos para perceber que mesmo aqueles que julgamos conhecer profundamente continuam carregando experiências às quais nunca teremos acesso completo.

A morte de Yang não fornece uma resposta definitiva sobre o que ele era. Ela obriga Jake a reconhecer algo talvez mais importante: independentemente da categoria utilizada para defini-lo, havia nele uma existência que não cabia inteiramente na função que os outros haviam escolhido para ele.

The Eternal Daughter (2022) - 1 h 36 min

 



Drama, Mistério, Suspense


CLC Score: 7,0




Sinopse

Julie, uma cineasta de meia-idade, viaja com sua mãe idosa, Rosalind, para um antigo casarão transformado em hotel no interior do País de Gales. O lugar não é desconhecido para Rosalind: quando jovem, ela esteve naquela propriedade, pertencente então a parentes, e conserva lembranças ligadas tanto a momentos felizes quanto a experiências dolorosas. Julie pretende aproveitar a estadia para passar algum tempo com a mãe e, ao mesmo tempo, recolher elementos para um filme inspirado na relação entre as duas, embora logo descubra que transformar as memórias maternas em matéria artística é muito mais complicado do que simplesmente ouvi-las e registrá-las.

O hotel parece estranhamente vazio. Uma recepcionista pouco acolhedora administra o lugar, ruídos atravessam corredores durante a noite, janelas revelam uma paisagem permanentemente envolvida pela névoa e determinadas presenças parecem existir no limite entre percepção e imaginação. Joanna Hogg utiliza deliberadamente a iconografia das histórias de fantasmas, mas desloca progressivamente o centro do mistério. Interpretadas por Tilda Swinton, Julie e Rosalind transformam The Eternal Daughter numa investigação sobre memória, maternidade, culpa e criação artística, na qual a pergunta sobre quem ou o que assombra aquele casarão se torna inseparável de outra questão: o que significa perceber que nunca poderemos conhecer completamente a vida de nossos pais fora da relação que eles tiveram conosco?

Análise Crítica

Joanna Hogg retorna em The Eternal Daughter a preocupações autobiográficas que já atravessavam The Souvenir e The Souvenir Part II, mas modifica radicalmente o registro. Se aqueles filmes examinavam a maneira como uma jovem cineasta transformava experiência pessoal em criação artística, aqui encontramos uma mulher madura que continua enfrentando o mesmo problema fundamental sob outra perspectiva. Julie deseja fazer um filme sobre a mãe e, portanto, precisa converter uma relação afetiva concreta em representação, mas essa operação envolve uma dificuldade que não pode ser solucionada apenas através de observação ou pesquisa: Rosalind não é simplesmente uma personagem disponível para a curiosidade artística da filha.

A decisão de entregar a Tilda Swinton os dois papéis constitui muito mais do que uma demonstração de virtuosismo interpretativo. Julie e Rosalind aparecem como indivíduos distintos, com ritmos, vozes, gestos e maneiras de ocupar o espaço claramente diferenciados, porém a utilização do mesmo corpo estabelece desde o início uma continuidade que o filme desenvolverá em diferentes direções. A filha carrega a mãe dentro de si, assim como a imagem que constrói dela depende inevitavelmente de sua própria memória, de suas expectativas e de sua necessidade de compreender uma relação cuja totalidade jamais poderá acessar.

Swinton evita transformar a duplicidade num jogo ostensivo. Rosalind possui uma fragilidade física e uma contenção emocional que contrastam com a ansiedade de Julie, sempre preocupada em saber se a mãe está confortável, se gostou da comida, se deseja permanecer no hotel ou se determinada lembrança a deixou triste. A atenção da filha parece inicialmente apenas demonstração de cuidado, mas gradualmente adquire uma dimensão mais ambígua, porque Julie não consegue simplesmente estar com Rosalind; precisa interpretar continuamente aquilo que a mãe sente.

Essa ansiedade encontra correspondência no próprio hotel. Hogg trabalha com elementos reconhecíveis do cinema gótico — a casa antiga, os corredores vazios, a névoa, os ruídos noturnos, a iluminação reduzida e a sensação de uma presença invisível — sem organizar o filme em torno das convenções habituais do terror. A expectativa de uma manifestação sobrenatural permanece, mas a diretora está menos interessada em produzir sustos do que em utilizar o espaço como materialização de uma experiência psicológica. O passado parece ter permanecido alojado naquele edifício, e cada cômodo pode provocar uma lembrança que Julie não conhecia.

A fotografia de Ed Rutherford preserva essa atmosfera através de enquadramentos nos quais portas, janelas e corredores frequentemente separam personagens e espaços, enquanto a névoa transforma o exterior numa região de contornos incertos. O hotel parece existir fora do tempo, como se a viagem tivesse suspendido Julie e Rosalind num espaço intermediário entre presente e memória. O fato de haver poucos hóspedes e funcionários intensifica essa impressão sem que Hogg precise determinar imediatamente se estamos diante de uma situação objetivamente estranha ou apenas experimentando o lugar segundo a percepção da protagonista.

O ritmo deliberadamente lento exige que o espectador aceite a repetição de pequenos gestos, refeições, conversas, caminhadas e noites interrompidas por ruídos. Essa opção pode produzir distanciamento em quem espera que os elementos góticos conduzam a um mistério tradicional, mas a repetição possui função precisa: Julie tenta estabelecer uma rotina de convivência enquanto percebe que o hotel está continuamente devolvendo a mãe a acontecimentos que não pertencem à memória da filha.

A criação artística entra então no centro do problema. Julie não quer apenas conhecer melhor Rosalind; deseja utilizar esse conhecimento para construir um filme. Hogg introduz uma pergunta particularmente delicada para qualquer obra autobiográfica: quando transformamos pessoas próximas em personagens, até que ponto estamos tentando compreendê-las e a partir de que momento começamos a apropriar-nos de experiências que pertencem a elas? The Eternal Daughter não condena Julie por desejar criar, mas reconhece que o amor não elimina o problema ético da representação.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A revelação de que Rosalind já está morta reorganiza retrospectivamente praticamente todas as relações espaciais e afetivas apresentadas pelo filme, mas Joanna Hogg prepara essa descoberta sem tratá-la como uma reviravolta destinada simplesmente a surpreender o espectador. A estranheza do hotel, a ausência de interações claras entre Rosalind e outras pessoas e a maneira como Julie parece organizar toda a estadia ao redor da presença materna adquirem novo significado quando compreendemos que aquela viagem não corresponde a uma convivência objetiva entre mãe e filha no presente.

Rosalind existe para Julie através da memória.

Isso não significa que devamos reduzir cada cena a uma alucinação que poderia ser separada entre acontecimentos reais e imaginários. A estrutura do filme torna essa distinção menos importante porque sua preocupação está justamente em mostrar como uma pessoa morta pode continuar participando da vida mental daqueles que permanecem. Julie conversa com a mãe, preocupa-se com suas necessidades, tenta agradá-la e teme causar-lhe sofrimento porque a relação não terminou psicologicamente com a morte.

O título adquire então sua dimensão mais importante. Julie continua sendo filha mesmo depois que já não existe uma mãe viva diante dela. A maternidade terminou biologicamente, mas a condição filial permanece como componente de sua identidade, e essa permanência explica a ideia de uma “filha eterna”. Não se trata apenas da impossibilidade de superar o luto, mas da constatação de que determinadas relações continuam organizando quem somos mesmo quando uma das pessoas que as constituíam já não existe.

O fato de Julie e Rosalind serem interpretadas por Tilda Swinton amplia essa ideia. Depois da morte, a mãe sobrevive parcialmente dentro da filha, através de gestos lembrados, maneiras de falar, histórias familiares e interpretações construídas ao longo de décadas. Julie não possui acesso direto a Rosalind; possui uma imagem interior que é simultaneamente verdadeira, porque nasce de uma relação real, e incompleta, porque qualquer memória é necessariamente construída por quem recorda.

O hotel funciona como espaço privilegiado para essa reconstrução porque pertence ao passado de Rosalind. Quando a mãe relata lembranças ligadas aos cômodos, Julie descobre que aquele lugar contém uma história anterior à sua própria existência. A descoberta produz uma forma particular de desconforto porque confronta a filha com algo intelectualmente óbvio, mas emocionalmente difícil de assimilar: sua mãe teve uma vida antes dela.

Conhecemos nossos pais inicialmente através da função que ocupam em nossa própria existência. São “mãe” e “pai” antes de serem percebidos como indivíduos que tiveram infância, desejos, perdas, relações, medos e experiências que não nos incluíam. A maturidade pode ampliar esse conhecimento, mas nunca eliminar completamente a assimetria. Existem regiões da vida deles às quais chegamos apenas através de relatos, fotografias e fragmentos.

Julie tenta atravessar essa distância através do cinema.

Seu projeto de realizar um filme sobre Rosalind contém, nesse sentido, um desejo impossível: conservar a mãe e simultaneamente compreendê-la. A arte promete uma forma de permanência porque permite transformar lembranças em imagens, mas qualquer representação exige seleção. Ao escolher determinados episódios e organizá-los numa narrativa, Julie inevitavelmente produz uma versão de Rosalind.

A dificuldade aumenta porque ela deseja que essa versão seja verdadeira.

Hogg questiona silenciosamente o que “verdade” poderia significar nesse contexto. Uma reprodução factual de acontecimentos não conseguiria reconstruir integralmente uma pessoa, enquanto uma interpretação profundamente subjetiva poderia revelar alguma verdade emocional ao mesmo tempo que distorcesse circunstâncias concretas. Julie percebe que não existe posição neutra a partir da qual possa observar a própria mãe.

Essa percepção explica parte de sua culpa. Ela deseja saber mais sobre as experiências dolorosas de Rosalind porque esse conhecimento poderia alimentar o filme, mas sofre quando percebe que suas perguntas obrigam a mãe a retornar emocionalmente a acontecimentos difíceis. A cineasta e a filha desejam coisas parcialmente incompatíveis: a primeira precisa investigar; a segunda quer proteger.

A tensão não pode ser completamente resolvida porque ambas ocupam o mesmo corpo.

Essa duplicidade aproxima Julie da própria Joanna Hogg, cuja filmografia frequentemente transforma experiências pessoais e familiares em matéria cinematográfica. The Eternal Daughter pode, portanto, ser compreendido também como uma reflexão da diretora sobre seu método. Fazer arte autobiográfica envolve transformar intimidade em forma e, consequentemente, aceitar que pessoas reais serão reorganizadas dentro de uma estrutura criada pelo artista.

O filme não considera esse processo necessariamente exploratório, mas tampouco o apresenta como inocente. O amor pode motivar a representação e ainda assim não conceder acesso irrestrito à interioridade do outro.

A festa de aniversário torna-se particularmente dolorosa quando compreendemos a situação de Julie. O desejo de proporcionar à mãe uma experiência agradável pertence a uma relação que já não pode ser modificada concretamente. Tudo aquilo que Julie gostaria de ter dito, perguntado ou feito precisa agora ocorrer dentro da memória.

Essa é uma das formas mais difíceis do luto porque não envolve apenas sentir falta de alguém. Envolve continuar imaginando possibilidades de interação que já não poderão produzir novas lembranças compartilhadas.

O passado permanece disponível para reinterpretarmos, mas não para ser alterado.

Nesse contexto, os elementos de filme de fantasma deixam de funcionar como indicação de uma presença sobrenatural convencional e tornam-se expressão de algo mais cotidiano. Pessoas mortas permanecem em objetos, lugares, hábitos e pensamentos daqueles que conviveram com elas. Uma casa pode parecer assombrada não porque contenha literalmente um espírito, mas porque contém lembranças suficientes para fazer com que diferentes tempos pareçam ocupar o mesmo espaço.

O hotel está cheio dessa sobreposição temporal. Rosalind esteve ali quando jovem; Julie retorna posteriormente; as lembranças maternas transformam os cômodos; e o filme produzido por Julie tenta criar uma nova camada sobre aquilo que já aconteceu. A arquitetura converte-se numa espécie de arquivo afetivo no qual presente e passado não podem ser completamente separados.

A recepcionista aparentemente hostil também adquire outra função dentro dessa estrutura. Julie projeta sobre ela parte de sua irritação e insegurança, enquanto o comportamento da funcionária contribui para tornar o hotel um espaço que parece resistir à tentativa de transformar memória em experiência confortável. O lugar não se comporta como cenário nostálgico onde Julie poderia recuperar harmoniosamente a mãe.

A memória também incomoda, frustra e contradiz.

Outro elemento decisivo é a presença do cachorro Louis. Diferentemente de Julie, o animal não precisa transformar Rosalind em narrativa nem compreender intelectualmente a ausência. Sua relação com presença, espaço e espera oferece um contraponto à compulsão humana de produzir significado. Julie não consegue simplesmente sentir falta da mãe; precisa compreender o que essa falta significa e encontrar uma forma artística capaz de preservá-la.

O cinema torna-se simultaneamente resposta e reconhecimento de fracasso.

Um filme pode registrar uma tentativa de aproximação, mas não devolver a pessoa perdida. Pode reorganizar lembranças, mas não produzir acesso completo ao passado. Pode conservar uma imagem, embora essa imagem permaneça inevitavelmente diferente do indivíduo que existiu.

É precisamente essa insuficiência que torna a criação necessária para Julie.

Conclusão

The Eternal Daughter utiliza a aparência de uma história de fantasmas para investigar uma forma de assombração que não depende da existência literal do sobrenatural. Joanna Hogg está interessada na maneira como pessoas mortas permanecem incorporadas à consciência dos vivos e, especialmente, na transformação que ocorre quando um filho percebe que continuará ocupando essa posição mesmo depois da morte dos pais.

A escolha de Tilda Swinton para interpretar Julie e Rosalind oferece uma expressão visual particularmente precisa dessa ideia. A mãe não está apenas diante da filha; está também dentro da maneira como a filha recorda, interpreta e representa sua história. Quando descobrimos que Rosalind já morreu, a duplicidade deixa de parecer apenas um experimento de atuação e passa a expressar materialmente o funcionamento da memória.

Julie carrega uma versão da mãe consigo, mas essa versão nunca poderá equivaler integralmente a Rosalind.

Essa diferença está no centro tanto do luto quanto do processo artístico. A filha gostaria de compreender quem sua mãe realmente foi, enquanto a cineasta gostaria de transformar essa compreensão em filme. Nenhuma das duas tarefas pode ser concluída plenamente porque a experiência de outra pessoa permanece parcialmente inacessível, mesmo quando essa pessoa é alguém que conhecemos durante toda a vida.

O hotel materializa essa distância ao oferecer a Julie acesso a um lugar pertencente à história materna sem lhe oferecer acesso completo à experiência que Rosalind viveu ali. Cada lembrança revelada amplia o conhecimento da filha e simultaneamente demonstra quanto ainda existe fora dele. Quanto mais Julie descobre sobre a mãe, mais percebe que “minha mãe” corresponde apenas a uma das identidades de uma mulher que existiu antes dela e em regiões da vida das quais ela nunca participou.

É por isso que a dimensão autobiográfica do filme ultrapassa a simples história de uma filha enlutada. Hogg transforma a própria atividade cinematográfica em objeto de investigação, perguntando implicitamente o que um artista faz quando utiliza a memória de pessoas amadas para construir uma obra. Preservar pode também significar transformar, e transformar inevitavelmente envolve selecionar, interpretar e inventar conexões que talvez não pertencessem à experiência original.

O filme não oferece uma solução para esse problema porque talvez ela não exista. Em vez disso, aceita que a criação artística possa nascer justamente da impossibilidade de recuperar completamente aquilo que foi perdido. Julie não faz um filme porque conseguiu compreender definitivamente Rosalind, mas porque precisa encontrar alguma forma para uma relação que continua existindo dentro dela depois que a presença física da mãe terminou.

Nesse sentido, o título deixa de definir apenas uma personagem e passa a formular a condição central da obra. Julie é a filha eterna porque a morte da mãe não encerra a relação; modifica sua natureza. A conversa deixa de acontecer entre duas pessoas presentes e passa a ocorrer entre uma pessoa e aquilo que ela consegue conservar da outra.

Ao adotar as convenções do cinema gótico, Joanna Hogg encontra uma forma particularmente adequada para representar essa permanência. Casas assombradas são lugares em que o passado se recusa a permanecer no passado, e o luto produz experiência semelhante: alguém que já não existe continua surgindo em lugares, gestos, objetos e pensamentos. The Eternal Daughter transforma essa condição numa história de fantasmas em que o verdadeiro espectro não precisa atravessar corredores durante a noite, porque já encontrou um lugar muito mais duradouro para permanecer: a memória da pessoa que continua vivendo.


Duna (2021) Dune: Part One - 2 h 35 min

 


Duna (2021) - IMDb
Dir: Denis Villeneuve

Ação, Aventura, Drama, Ficção Científica


CLC Score: 7,8





Sinopse

Num futuro distante, a Casa Atreides recebe do imperador a incumbência de assumir o controle de Arrakis, planeta desértico que constitui a única fonte conhecida da especiaria, substância indispensável às viagens interestelares e, por consequência, ao funcionamento político e econômico do Império. O duque Leto Atreides aceita transferir sua família e suas forças de Caladan para Arrakis, embora saiba que a decisão envolve riscos extraordinários: durante décadas, o planeta esteve sob domínio da Casa Harkonnen, inimiga dos Atreides, e a mudança de administração dificilmente corresponde apenas a uma redistribuição pacífica de poder.

Paul Atreides, filho de Leto e Lady Jessica, chega a Arrakis carregando outro tipo de inquietação. Treinado para suceder ao pai, ele também herdou da mãe conhecimentos das Bene Gesserit, ordem feminina que conduz há gerações um complexo programa político e genético. Visões recorrentes ligam Paul aos Fremen, povo nativo de Arrakis, e especialmente à jovem Chani, fazendo com que a transferência para o planeta pareça relacionada a um destino muito maior do que aquele imaginado por sua família. Adaptando aproximadamente a primeira metade do romance de Frank Herbert, Denis Villeneuve constrói menos uma aventura sobre o surgimento de um herói do que o início de uma investigação sobre poder, colonialismo, religião e o perigo contido na fabricação de figuras messiânicas.

Análise Crítica

A decisão mais importante de Denis Villeneuve está em não tentar transformar todo o romance de Herbert em um único filme. Duna possui uma quantidade extraordinária de instituições, personagens, relações econômicas, tradições religiosas e conceitos políticos, e adaptações anteriores haviam demonstrado a dificuldade de condensar esse universo sem converter parte significativa da narrativa em exposição. Ao encerrar o filme antes da conclusão do romance, Villeneuve pode tratar a chegada a Arrakis como processo e permitir que o espectador aprenda progressivamente as regras daquele mundo.

Isso não significa que o filme seja simples. Termos como Bene Gesserit, Kwisatz Haderach, Landsraad, especiaria e Fremen aparecem dentro de uma estrutura que raramente interrompe a narrativa para explicar completamente seu funcionamento. Villeneuve prefere confiar na acumulação de informações visuais, diálogos e comportamentos. O espectador compreende primeiro relações de poder e somente depois domina parte do vocabulário utilizado para descrevê-las.

Timothée Chalamet interpreta Paul a partir de uma combinação importante entre privilégio e insegurança. Ele pertence a uma das famílias mais poderosas do Império e foi preparado desde criança para ocupar uma posição de comando, mas ainda não controla aquilo que os outros projetam sobre ele. Essa condição permite que o filme evite, pelo menos nesta primeira parte, apresentá-lo como herói plenamente formado. Paul encontra-se no centro de diferentes projetos antes mesmo de possuir um projeto inteiramente seu.

Rebecca Ferguson oferece a Lady Jessica uma posição particularmente complexa. Ela é simultaneamente mãe, companheira do duque e integrante das Bene Gesserit, o que significa que suas decisões familiares nunca estão completamente separadas de uma estratégia construída ao longo de gerações. A relação entre Jessica e Paul constitui um dos centros emocionais da narrativa justamente porque amor materno e manipulação política coexistem sem que o filme consiga separá-los confortavelmente.

Oscar Isaac confere ao duque Leto uma dignidade que torna mais clara a diferença entre os Atreides e os Harkonnen sem transformar essa diferença numa oposição absoluta entre governo virtuoso e tirania. Leto pretende estabelecer uma relação diferente com os Fremen e compreende que precisa conquistar sua confiança, mas continua chegando a Arrakis como representante de uma estrutura imperial que transfere o controle de um planeta e de seus recursos entre famílias aristocráticas sem consultar sua população nativa. Suas intenções podem ser melhores; a estrutura que permite sua presença permanece colonial.

Essa ambiguidade é essencial para que o filme não reduza sua política ao confronto entre uma casa boa e outra má. Os Harkonnen, comandados pelo barão interpretado por Stellan Skarsgård, representam uma forma explicitamente predatória de exploração, mas a especiaria continua sendo o motivo pelo qual todas as potências se interessam por Arrakis. O planeta possui valor para o Império principalmente porque contém um recurso necessário ao funcionamento de uma civilização localizada muito além dele.

A concepção visual desenvolvida por Villeneuve, pelo diretor de fotografia Greig Fraser e pelas equipes de design de produção transforma essa estrutura política em escala física. Construções gigantescas, naves monumentais e vastas extensões desérticas diminuem continuamente os indivíduos. A monumentalidade não funciona apenas para produzir espetáculo; ela comunica a existência de sistemas muito maiores do que qualquer personagem.

A trilha de Hans Zimmer trabalha na mesma direção. Em vez de limitar-se a acompanhar emocionalmente as cenas, utiliza vozes, percussões e massas sonoras para produzir a sensação de que Arrakis possui uma dimensão simultaneamente material e ritual. Em alguns momentos, o som parece anteceder a compreensão racional, como se o planeta fosse experimentado fisicamente antes de ser compreendido politicamente.

Os vermes de areia constituem o exemplo mais evidente dessa estratégia. Sua escala poderia reduzi-los a criaturas espetaculares, mas Villeneuve os apresenta como forças pertencentes a uma ecologia que os colonizadores compreendem apenas parcialmente. Para quem chega de fora, o deserto parece vazio; para os Fremen, possui ritmos, perigos, recursos e formas de vida que exigem outro tipo de conhecimento.

A duração deliberada dos planos, a relativa solenidade dos diálogos e o ritmo contemplativo podem produzir uma experiência distante para espectadores que esperam a velocidade narrativa habitual do blockbuster contemporâneo. Essa opção também constitui uma limitação ocasional, porque alguns personagens secundários recebem pouco desenvolvimento afetivo antes de acontecimentos decisivos. Ainda assim, a lentidão possui coerência com o projeto: Villeneuve quer que a entrada em Arrakis pareça uma mudança de mundo, não apenas uma troca de cenário.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A primeira imagem conceitualmente decisiva de Duna não pertence aos Atreides, mas aos Fremen. Essa escolha modifica desde o início a perspectiva através da qual deveríamos observar a disputa por Arrakis. Antes de acompanharmos Paul, somos informados de que aquele planeta já possui habitantes e que esses habitantes conhecem uma sucessão de ocupações estrangeiras.

A pergunta formulada por Chani sobre quem serão os próximos opressores estabelece uma desconfiança que acompanhará todo o filme. Quando os Harkonnen deixam Arrakis e os Atreides chegam, existe uma tendência narrativa imediata a interpretar a mudança como libertação, porque Leto é mais humano e os Harkonnen são brutalmente exploradores. A perspectiva Fremen impede essa simplificação.

Do ponto de vista de quem vive no planeta, uma família imperial está sendo substituída por outra.

Essa estrutura é importante para compreender Paul. Ele pertence à casa que o filme nos ensina a acompanhar afetivamente, mas também chega a Arrakis como herdeiro de uma potência estrangeira. Suas visões sugerem que terá uma relação excepcional com os Fremen, e uma narrativa heroica convencional poderia utilizar essa ligação para transformá-lo no estrangeiro destinado a libertar um povo que aparentemente aguardava sua chegada.

Duna começa a desmontar essa interpretação ao revelar que a própria expectativa messiânica dos Fremen foi parcialmente preparada pelas Bene Gesserit.

A Missionaria Protectiva espalhou crenças e profecias entre diferentes populações como mecanismo destinado a facilitar a sobrevivência e a atuação futura das integrantes da ordem. Isso significa que aquilo que Paul encontra em Arrakis não é simplesmente uma antiga profecia que milagrosamente começa a cumprir. Parte da linguagem religiosa através da qual ele será reconhecido foi politicamente cultivada.

A diferença altera radicalmente o significado do messianismo.

Paul pode possuir capacidades extraordinárias e suas visões podem ser reais dentro do universo do filme, mas isso não torna espontânea a estrutura religiosa que passa a interpretá-lo. Existe uma infraestrutura cultural preparada para reconhecer determinados sinais, e Jessica sabe utilizá-la.

A cena em que mãe e filho atravessam a multidão em Arrakeen demonstra essa ambiguidade. Para aqueles que observam Paul, determinados acontecimentos parecem confirmar uma profecia. Para Jessica, existe também o conhecimento de como essa profecia foi implantada. Para Paul, a experiência começa a revelar que sua identidade está sendo construída simultaneamente por forças que não controla.

Essa situação explica por que suas visões não devem ser interpretadas simplesmente como anúncios de um futuro glorioso. Paul começa a perceber possibilidades nas quais seu nome se transforma em instrumento de guerra e multidões cometem violência em seu nome. O futuro messiânico contém desde o início uma ameaça.

O filme introduz, portanto, uma distinção decisiva entre possuir poder e controlar as consequências desse poder.

Paul está cercado por instituições que tentam utilizá-lo. O duque Leto prepara-o para governar a Casa Atreides. Jessica treinou-o segundo métodos das Bene Gesserit. A Reverenda Madre testa suas capacidades porque ele pode representar o resultado de um projeto genético que ultrapassa muitas gerações. Os Fremen começam a interpretá-lo através de profecias anteriores à sua chegada.

Todos parecem saber alguma coisa sobre aquilo que Paul deverá tornar-se.

O próprio Paul é justamente quem menos sabe.

O teste do gom jabbar concentra esse conflito de maneira particularmente eficiente. A Reverenda Madre exige que ele mantenha a mão dentro de uma caixa que produz dor extrema e ameaça matá-lo caso retire-a. O objetivo declarado é distinguir um ser humano capaz de dominar seus impulsos de um animal que reage instintivamente.

A cena estabelece uma ideia que continuará presente durante todo o filme: poder significa capacidade de controlar não apenas os outros, mas a si mesmo. Entretanto, existe uma ironia nessa prova. A instituição que testa a humanidade de Paul pertence a um sistema que manipula linhagens, crenças e sociedades inteiras durante séculos.

O autocontrole individual convive, portanto, com uma extraordinária disposição para controlar coletivamente outras pessoas.

Arrakis amplia essa contradição através da especiaria. Para o Império, o planeta existe sobretudo como fonte de um recurso estratégico. Todo o sistema de administração está organizado em torno de sua extração. Colheitadeiras, transportes e trabalhadores entram no deserto para retirar aquilo que mantém a economia interestelar funcionando.

Os Fremen, porém, vivem no mesmo espaço segundo outra lógica. Eles conhecem o valor da água, compreendem os movimentos da areia e desenvolveram tecnologias adequadas às condições ambientais. Aquilo que os estrangeiros enxergam como território hostil a ser dominado constitui para eles um mundo que precisa ser compreendido.

A diferença entre as duas relações com o deserto torna-se visível na sequência da colheitadeira ameaçada pelo verme. Para a estrutura imperial, a perda da máquina significa perda econômica. Leto surpreende seus subordinados ao priorizar as vidas dos trabalhadores, demonstrando uma diferença ética real em relação aos Harkonnen.

Ainda assim, ninguém questiona naquele momento a premissa fundamental de que a especiaria deve continuar sendo extraída.

Essa é uma das maneiras pelas quais o filme separa indivíduos relativamente benevolentes de sistemas estruturalmente predatórios. Leto pode ser um governante melhor sem deixar de participar de uma ordem imperial. Sua ética modifica a administração da exploração, mas não elimina automaticamente a exploração.

A destruição da Casa Atreides revela outra dimensão dessa ordem. O imperador não tolera o crescimento do prestígio de Leto e utiliza os Harkonnen e os Sardaukar para neutralizar uma possível ameaça. A transferência de Arrakis, apresentada oficialmente como concessão de poder, revela-se armadilha.

O Império funciona através de cerimônias, juramentos e códigos de honra, mas sua estabilidade depende também de conspiração e violência.

A morte de Leto encerra para Paul qualquer possibilidade imediata de simplesmente herdar o lugar preparado pelo pai. O jovem aristocrata que chegou a Arrakis como futuro duque precisa desaparecer no deserto, espaço que sua sociedade considera praticamente inabitável.

Essa inversão é fundamental. Paul só pode começar a compreender Arrakis quando perde a proteção da estrutura colonial que o levou até lá.

Entretanto, o filme evita transformar imediatamente essa passagem numa purificação. Tornar-se fugitivo não apaga sua origem aristocrática, e aproximar-se dos Fremen não significa automaticamente tornar-se um deles.

O encontro final com o grupo de Stilgar deixa isso evidente. Paul e Jessica precisam ser avaliados segundo regras que não controlam. Pela primeira vez, o herdeiro Atreides encontra uma comunidade cuja legitimidade não depende de seu título.

O duelo com Jamis concentra essa transformação.

As visões anteriores de Paul haviam mostrado Jamis de maneira aparentemente contraditória, algumas vezes como alguém capaz de ensinar-lhe aspectos da vida no deserto. Quando os dois acabam obrigados a lutar, poderia parecer que as visões estavam simplesmente erradas.

A questão é mais complexa porque o filme apresenta o futuro como conjunto de possibilidades, não como roteiro completamente determinado. Jamis efetivamente se torna um professor, mas de maneira diferente daquela que Paul imaginava.

Ao matar Jamis, Paul aprende que entrar no mundo Fremen possui consequências irreversíveis.

Sua hesitação durante o duelo também é interpretada erroneamente pelos observadores. Paul nunca havia matado alguém e procura repetidamente oferecer ao adversário uma oportunidade de rendição, enquanto os Fremen interpretam sua demora segundo códigos próprios. Mais uma vez, o mesmo comportamento produz significados diferentes conforme a cultura que o observa.

A morte de Jamis encerra simbolicamente uma etapa da vida de Paul. O jovem protegido por Duncan Idaho, Gurney Halleck, Jessica e Leto precisa agora agir dentro de um ambiente no qual sua linhagem não consegue poupá-lo das consequências.

Mas o filme termina justamente quando uma narrativa convencional talvez começasse a celebrar sua transformação heroica.

A escolha é importante porque Chani diz que aquilo é apenas o começo. A frase descreve literalmente a posição do filme dentro da adaptação, mas possui também sentido temático. Paul acaba de entrar num processo cujo resultado suas próprias visões já demonstraram poder ser terrível.

O deserto pode oferecer a ele uma nova identidade, mas essa identidade não está necessariamente associada à libertação.

Conclusão

Duna funciona como uma grande narrativa de formação construída deliberadamente contra a segurança da narrativa messiânica tradicional. Quase todos os elementos necessários para transformar Paul Atreides num salvador estão presentes: linhagem extraordinária, capacidades incomuns, profecias, visões do futuro, perda do pai, exílio e encontro com um povo oprimido. Denis Villeneuve organiza esses elementos de maneira que cada um deles também contenha uma advertência.

Paul não chega a Arrakis como indivíduo exterior às estruturas de poder. É herdeiro de uma família aristocrática enviada para administrar um planeta cuja principal riqueza abastece um império. Mesmo quando os Atreides demonstram maior respeito pelos Fremen do que os Harkonnen, sua presença continua inserida numa ordem que trata Arrakis como território transferível entre casas governantes.

Da mesma maneira, as profecias que parecem legitimar Paul possuem uma história política. As Bene Gesserit compreenderam que crenças podem funcionar como tecnologias de poder e prepararam durante gerações narrativas capazes de ser ativadas quando necessário. O messias não surge simplesmente diante de uma população que o reconhece espontaneamente; encontra um imaginário que foi parcialmente preparado para recebê-lo.

Isso torna as visões de Paul especialmente inquietantes. A questão não é apenas se ele será capaz de cumprir determinado destino, mas se conseguirá impedir que aquilo que os outros esperam dele adquira uma força própria. A imagem de multidões lutando em seu nome transforma a promessa messiânica em ameaça política.

Villeneuve encontra na escala visual do filme uma forma particularmente adequada para expressar essa ideia. Paul parece pequeno diante das construções imperiais, dos desertos e dos vermes porque ainda não domina as forças que o cercam. A monumentalidade recorda continuamente que indivíduos podem ocupar o centro de uma narrativa sem controlar os sistemas históricos dos quais fazem parte.

Arrakis constitui o elemento que resiste mais profundamente a esses projetos de controle. Harkonnen, Atreides e Império observam o planeta sobretudo através da especiaria, enquanto os Fremen aprenderam a perceber relações ecológicas que os colonizadores não compreendem. O deserto que parece vazio para quem chega de fora contém uma civilização, conhecimentos e formas de adaptação que desafiam a própria definição imperial de desenvolvimento.

Por isso, a entrada final de Paul no território Fremen não deve ser confundida com a conclusão de sua transformação. Ele não conquistou Arrakis, não se tornou plenamente Fremen e tampouco compreendeu todas as implicações de suas visões. Apenas atravessou a fronteira entre o mundo que determinava antecipadamente quem ele deveria ser e outro mundo no qual sua presença poderá produzir consequências muito maiores do que suas intenções.

Ao terminar nesse ponto, Duna transforma aquilo que poderia parecer uma origem heroica numa pergunta ainda aberta. Paul pode tornar-se libertador, conquistador, símbolo religioso, instrumento político ou uma combinação contraditória dessas possibilidades. O perigo está justamente em imaginar que capacidades extraordinárias e boas intenções seriam suficientes para determinar qual delas prevalecerá.

A primeira parte da adaptação de Villeneuve encontra, assim, sua ideia mais importante não na descoberta de que Paul Atreides possui um grande destino, mas na percepção de que um destino capaz de mobilizar povos inteiros talvez seja algo a temer tanto quanto a desejar.