quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sargento Getúlio (1983) - 1 h 25 min

 



Drama

CLC SCORE: 7,1 (só público)







Sinopse

No sertão nordestino, o sargento Getúlio recebe de seu chefe político uma missão que parece perfeitamente compatível com o mundo em que aprendeu a exercer autoridade: prender um adversário e conduzi-lo até Aracaju. Ao lado de Amaro, Getúlio inicia a viagem levando o prisioneiro, submetido à violência física e à humilhação de um homem acostumado a compreender ordens como compromissos que devem ser cumpridos independentemente das circunstâncias. Durante o percurso, porém, a situação política se modifica e chega a determinação para que a missão seja interrompida e o preso libertado.

Getúlio recusa-se a aceitar a contraordem. Aquilo que poderia parecer apenas obstinação revela progressivamente uma crise muito mais profunda, pois obedecer à nova determinação significaria admitir que o sistema ao qual dedicou sua vida pode modificar suas regras sem reconhecer qualquer responsabilidade por aqueles que executaram suas ordens anteriores. Dirigido por Hermanno Penna e adaptado do romance de João Ubaldo Ribeiro, o filme acompanha a transformação de uma missão policial numa viagem trágica através de um mundo em transição, no qual um homem formado pelo coronelismo descobre que a fidelidade absoluta ao poder não garante que o poder permaneça fiel a ele.

Análise Crítica

A força de Sargento Getúlio começa pela contradição inscrita em seu protagonista. Getúlio é simultaneamente agente da violência e produto de uma estrutura política que necessita dessa violência para funcionar. Ele prende, ameaça, agride e mata, mas não possui o poder que suas ações parecem demonstrar. Sua autoridade existe por delegação. Acima dele estão chefes políticos capazes de determinar quem deve ser perseguido, protegido ou libertado, enquanto ao sargento cabe converter essas decisões em força concreta. Hermanno Penna constrói o filme precisamente no momento em que essa cadeia de autoridade começa a falhar.

Lima Duarte encontra no personagem uma combinação difícil de brutalidade, orgulho, humor, medo e vulnerabilidade. Seria relativamente simples transformar Getúlio numa representação unidimensional do jagunço ou do policial violento, mas o filme necessita que compreendamos a lógica interna que sustenta seu comportamento sem que essa compreensão seja confundida com absolvição. Getúlio possui um código, acredita em hierarquias, valoriza coragem e fidelidade e entende a palavra dada como algo que distingue um homem dos demais. O problema é que esse código pertence a um sistema no qual a fidelidade nunca foi realmente recíproca.

A adaptação enfrenta ainda uma dificuldade específica decorrente do romance de João Ubaldo Ribeiro, cuja força está profundamente ligada à linguagem e à voz de Getúlio. O personagem não apenas participa dos acontecimentos; ele produz continuamente uma interpretação do mundo através de uma fala torrencial, marcada por memória, violência, crenças, fantasias e associações. O filme preserva algo dessa dimensão ao conceder grande espaço à palavra e à presença de Lima Duarte, fazendo com que o discurso do sargento seja tão importante quanto o deslocamento físico que estrutura a narrativa.

A viagem funciona como princípio dramático e espacial. À medida que Getúlio conduz o prisioneiro, atravessa um sertão no qual as relações tradicionais de poder ainda possuem enorme força, mas já demonstram sinais de transformação. Estradas, povoados, propriedades e esconderijos não constituem apenas etapas geográficas. Cada deslocamento torna mais evidente que o personagem está tentando completar uma missão cuja legitimidade política desaparece enquanto ele ainda a executa.

Existe nisso uma diferença importante em relação ao modelo clássico de perseguição. Getúlio não está apenas fugindo de inimigos ou tentando alcançar determinado destino. Está tentando preservar o sentido de uma ordem que deixou de existir. Quanto mais insiste em chegar a Aracaju, mais sua viagem se transforma numa tentativa de impedir que o mundo mude antes que ele consiga terminar aquilo que começou.

A direção de Hermanno Penna evita em grande medida transformar o sertão em cenário épico destinado a engrandecer o protagonista. A paisagem frequentemente reforça isolamento, desgaste e exposição. O corpo de Getúlio é submetido ao percurso, e sua autoridade torna-se progressivamente mais precária à medida que os mecanismos políticos que a sustentavam deixam de protegê-lo. A tragédia nasce justamente da distância crescente entre a imagem que o personagem possui de si mesmo e a posição que realmente ocupa dentro do sistema.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A ordem para libertar o prisioneiro constitui o verdadeiro ponto de ruptura porque obriga Getúlio a confrontar uma ideia para a qual sua formação não lhe forneceu instrumentos: uma ordem pode deixar de ser válida sem que sua obediência anterior tenha qualquer importância. Para um funcionário moderno, uma contraordem poderia ser simplesmente uma alteração administrativa; para Getúlio, ela ameaça toda a estrutura moral através da qual compreende a própria existência.

Ele recebeu uma missão de uma autoridade reconhecida e acredita que sua dignidade depende de completá-la. Se aceitar que a ordem pode ser anulada por conveniência política, terá de admitir que aquilo que considerava dever talvez nunca tenha passado de instrumento temporário dos interesses de outra pessoa.

É nesse momento que obediência e rebeldia começam paradoxalmente a se confundir. Getúlio torna-se insubordinado porque leva a obediência longe demais. Ao recusar a contraordem, ele se rebela contra seus superiores justamente para permanecer fiel ao sistema de valores que esses mesmos superiores lhe ensinaram.

Essa contradição torna sua trajetória particularmente trágica. O personagem não se emancipa do poder quando decide continuar a missão. Pelo contrário, permanece tão profundamente submetido à lógica desse poder que não consegue sobreviver à descoberta de que seus dirigentes são mais pragmáticos do que ele.

O chefe político pode alterar alianças, rever estratégias e adaptar-se a novas circunstâncias porque sua relação com o poder é instrumental. Getúlio não possui esse privilégio. Para ele, a estrutura hierárquica tornou-se identidade. Sua patente, sua reputação, suas histórias de violência e sua própria concepção de masculinidade dependem da ideia de que existe uma ordem relativamente estável dentro da qual ele ocupa determinado lugar.

A política, porém, não respeita essa estabilidade. O que ontem justificava uma prisão pode tornar-se inconveniente amanhã, e aqueles que mandaram executar determinada ação podem afastar-se dela quando as circunstâncias mudam. O subordinado permanece então carregando no corpo e na memória as consequências de decisões que seus superiores conseguem abandonar.

O prisioneiro adquire importância especial porque passa a representar muito mais do que o adversário que Getúlio deveria transportar. Libertá-lo significaria aceitar que toda a violência utilizada para capturá-lo e mantê-lo preso perdeu retrospectivamente sua justificativa institucional. Por isso, continuar conduzindo-o torna-se uma tentativa desesperada de provar que a missão ainda possui sentido.

Essa transformação explica por que a violência de Getúlio aumenta justamente quando sua autoridade real diminui. Enquanto o sistema o sustentava, sua brutalidade podia apresentar-se como exercício de uma função. Quando perde essa sustentação, precisa produzir sozinho os sinais de autoridade que anteriormente recebia de cima.

A masculinidade do personagem está profundamente vinculada a esse processo. Getúlio construiu sua identidade em torno de resistência física, coragem, capacidade de impor medo e disposição para cumprir aquilo que prometeu. Recuar não significaria apenas modificar um plano; seria reconhecer diante de si mesmo que existe uma força superior à sua vontade.

O problema é que sua concepção de honra foi construída dentro de uma estrutura que nunca pretendeu ser honrada nos mesmos termos.

Essa diferença entre fidelidade pessoal e conveniência política constitui uma das críticas mais incisivas da obra ao coronelismo. Sistemas baseados em relações pessoais de poder podem produzir uma aparência de proximidade entre chefe e subordinado, mas essa proximidade não elimina a desigualdade fundamental entre eles. Getúlio pode acreditar que serve a um homem e que esse homem, em troca, reconhece sua lealdade; para o chefe, porém, o sargento continua sendo um recurso utilizável enquanto permanecer conveniente.

A viagem revela gradualmente essa assimetria. Quanto mais Getúlio se afasta da proteção institucional, mais evidente se torna que sua autoridade dependia de algo exterior a ele. A violência continua disponível, mas o poder político que lhe conferia legitimidade desapareceu.

Essa distinção entre violência e poder é central para compreender o filme. Getúlio consegue ameaçar, ferir e matar, mas já não consegue determinar as regras do mundo em que atua. Sua capacidade de produzir sofrimento permanece intacta enquanto sua capacidade de influenciar os acontecimentos se reduz progressivamente.

O monólogo, nesse contexto, funciona como tentativa de reconstruir pela palavra a autoridade que a realidade está retirando. Getúlio fala sobre inimigos, feitos passados, coragem, homens, mulheres, política e morte porque narrar a própria história permite conservar temporariamente uma imagem coerente de si. Sua fala não é apenas exposição psicológica; é um mecanismo de sobrevivência.

Quanto mais o mundo deixa de reconhecê-lo, mais ele precisa narrar quem é.

Há também algo historicamente mais amplo nessa crise. Getúlio pertence a uma ordem política fundada em chefes locais, fidelidades pessoais, coerção e uma fronteira instável entre autoridade pública e interesse privado. Sua missão possui aparência oficial, mas está profundamente contaminada pela disputa entre grupos políticos. Polícia e poder particular não se encontram claramente separados.

Quando as circunstâncias mudam, o personagem descobre que aquilo que imaginava ser uma ordem sólida dependia de negociações às quais nunca teve acesso. Ele conhecia as ordens, mas não conhecia o jogo que as produzia.

A impossibilidade de adaptação torna-se então decisiva. Outros personagens conseguem perceber que a situação mudou e procuram ajustar o comportamento às novas condições. Getúlio interpreta essa flexibilidade como covardia ou traição porque aceitar a mudança exigiria reconstruir a própria identidade.

Sua tragédia não decorre simplesmente de ser um homem antigo diante de um mundo moderno. Essa oposição seria excessivamente confortável, pois permitiria imaginar que a transformação histórica elimina automaticamente a violência que ele representa. O filme é mais perturbador porque sugere que as estruturas podem mudar sem necessariamente desaparecer por completo. Práticas antigas sobrevivem dentro de instituições novas, enquanto homens como Getúlio podem ser descartados sem que os mecanismos que os produziram sejam inteiramente superados.

A morte do protagonista completa essa lógica. Getúlio termina enfrentando forças que já não consegue controlar, mas sua resistência final preserva até o limite a imagem de homem que construiu para si. Não existe verdadeira reconciliação entre ele e o novo estado das coisas porque reconhecer esse mundo significaria reconhecer que sua vida foi organizada em torno de uma fidelidade unilateral.

O fim físico do personagem não resolve a contradição histórica que ele encarna.

Ele morre, mas a estrutura de poder que o criou não desaparece necessariamente com ele.

Conclusão

Sargento Getúlio constrói sua força a partir de um paradoxo particularmente fértil: seu protagonista é simultaneamente opressor e subordinado. Ele exerce violência sobre aqueles que estão abaixo ou diante dele, mas depende de autoridades superiores que podem retirar sua legitimidade no instante em que sua atuação deixa de ser conveniente. A brutalidade de Getúlio é real, assim como é real sua condição de instrumento.

Hermanno Penna e Lima Duarte evitam que essa contradição se transforme numa desculpa moral. Compreender de onde vem a violência do sargento não significa eliminar sua responsabilidade pelos atos que pratica. O filme permite, porém, enxergar que sua crueldade foi formada e utilizada por uma estrutura política que necessita de homens capazes de agir dessa maneira enquanto preserva para os dirigentes a possibilidade de afastar-se das consequências.

A ordem para libertar o preso expõe definitivamente essa desigualdade. O chefe pode mudar de posição porque possui poder suficiente para tratar a política como estratégia; Getúlio transformou a obediência em princípio existencial e, por isso, não consegue acompanhar a mesma mudança. Aquilo que para um é adaptação às circunstâncias torna-se, para o outro, destruição da identidade.

Essa é uma das razões pelas quais o personagem permanece tão complexo. Sua insistência em cumprir a missão pode parecer coragem, fanatismo, orgulho, lealdade ou incapacidade de compreender a realidade, e o filme permite que essas dimensões coexistam. Getúlio não é um herói de resistência contra o sistema, pois continua defendendo a lógica que o produziu, mas também já não é simplesmente seu representante, porque o sistema retirou dele a autorização para agir.

Ele se torna um homem preso entre a ordem antiga que interiorizou e uma nova situação política na qual já não possui lugar.

A linguagem desempenha papel decisivo nessa experiência. Quando sua autoridade institucional começa a desaparecer, resta a Getúlio a possibilidade de continuar produzindo a si mesmo através da fala. Suas histórias, lembranças, ameaças e afirmações funcionam como tentativa de manter íntegra uma identidade que os acontecimentos estão desmontando. A palavra prolonga aquilo que o poder já abandonou.

Por isso, a viagem até Aracaju vai progressivamente deixando de ser uma missão de transporte. O destino geográfico torna-se secundário diante da necessidade de provar que a ordem recebida ainda significa alguma coisa. Chegar passa a equivaler a confirmar que Getúlio não viveu segundo um código vazio.

O percurso demonstra exatamente o contrário.

A força trágica de Sargento Getúlio nasce dessa descoberta impossível de ser plenamente aceita pelo protagonista: ele acreditava que sua violência lhe concedia poder, quando na realidade ela era uma das formas pelas quais o poder de outros se exercia através dele. Quando os chefes deixam de precisar desse serviço, permanece um homem armado, perigoso e ainda capaz de produzir violência, mas desprovido da estrutura que transformava essa violência em autoridade.

Getúlio consegue desobedecer à última ordem. O que não consegue é deixar de pertencer ao mundo que lhe ensinou a obedecer.


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