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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Logan Lucky: Roubo em Família (2017) Logan Lucky - 1 h 58 min

DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão

Jimmy Logan, um homem de família da Virgínia Ocidental, encaminha Clyde, o seu irmão maneta, e Mellie, a sua irmã cabeleireira, para um elaborado esquema para roubar a pista de corrida de Charlotte Motor Speedway, na Carolina do Norte. Para os ajudar a aceder ao subterrâneo sistema de armazenamento de dinheiro da pista, Jimmy recruta Joe Bang, um instável especialista em demolições. Para complicar o plano, já por si arriscado, um imprevisto obriga-os a executar o assalto durante a Coca-Cola 600, a corrida de Nascar mais popular do ano. Enquanto levam a cabo este ambicioso projeto, os azarados dos Logan ainda têm que enfrentar um obstáculo: uma implacável agente do FBI, que começa a investigar o caso.


Dir: Steven Soderbergh
Filme de Assalto, Ação, Comédia, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,0   METASCORE: 7,8
Letterboxd: 7,2   Flick Metrix: 70
92%Tomatometer288 Reviews   76%Popcornmeter

Dois irmãos, um cofre, uma corrida de NASCAR e um plano que só parece idiota.


Soderbergh e a classe trabalhadora sem condescendência

Logan Lucky chegou dez anos depois de Ocean's Thirteen e foi imediatamente chamado de Hillbilly Ocean's pela crítica, o que é uma descrição precisa e uma redução simultânea. Soderbergh usa a estrutura do heist de Ocean's mas desloca o ambiente para um território que raramente recebe esse tratamento no cinema americano: a classe trabalhadora do sul dos Estados Unidos, com suas caminhonetes, suas bandeiras confederadas e sua fé profunda num sistema que sistematicamente os esquece. O argumento político de Logan Lucky está no fato de que Jimmy Logan é tão inteligente quanto Danny Ocean, e que o único que não sabe disso é o mundo que o demitiu por causa de uma condição pré-existente. 

Channing Tatum e a inteligência não declarada

Jimmy Logan é construído como personagem que o mundo subestima constantemente e Channing Tatum usa esse subestimação como instrumento dramático: cada cena em que alguém trata Jimmy como simples é seguida de uma revelação de que Jimmy estava três passos à frente. Tatum, que construiu boa parte de sua carreira em filmes que também o subestimavam, traz para o personagem uma consciência do próprio jogo que só aparece completamente na revisita, quando você vê o plano real por baixo do plano aparente.

Daniel Craig e o especialista como revelação


Joe Bang é a melhor performance cômica de Daniel Craig por uma razão simples: ele entendeu que o humor do personagem não vem de fazer piadas mas de tratar situações absurdas com seriedade absoluta. Joe Bang explica a química dos explosivos com a seriedade de um professor universitário, planeja evasões da prisão com a precisão de um general e toma cerveja com a convicção de um sommelier. Craig encontrou no personagem uma liberdade que o Bond nunca permitiu, e o resultado é um ator completamente transformado pelo material certo.

Adam Driver e o irmão de poucas palavras


 Clyde Logan, o bartender de um braço interpretado por Adam Driver, existe no filme como contraponto à energia de Jimmy: mais lento, mais cuidadoso, mais desconfiante do plano. Driver usa essa cautela para construir um personagem que o filme vai revelando ser mais complexo do que a posição de suporte sugere, e a revelação final sobre Clyde é um dos momentos mais satisfatórios do terceiro ato, exatamente porque Driver passou o filme inteiro plantando o que seria revelado sem que o espectador percebesse.

Onde assistir e o que esperar

Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 119 minutos e uma estrutura que usa a corrida de NASCAR como relógio dramático: o espectador sabe quanto tempo o plano tem para funcionar e Soderbergh usa essa contagem regressiva com a mesma precisão que usou os cassinos em Ocean's. A investigação que ocupa o terceiro ato, com Hilary Swank como agente federal, adiciona uma camada que a maioria dos heists não inclui e que enriquece a estrutura.

O heist como ato político

Logan Lucky fecha a mostra com o argumento mais explicitamente político disponível no gênero: que roubar do sistema não é apenas crime, é resposta a um sistema que rouba sistematicamente de quem não tem recursos para reclamar. Jimmy Logan não é Robin Hood e o filme não o romantiza dessa forma, mas a satisfação de torcer por sua vitória tem uma dimensão que vai além do prazer formal do heist. É a satisfação específica de ver alguém que o mundo subestimou provar que o mundo estava errado. No cinema de assalto, isso é tudo.


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Batman Begins (2005) - 2 h 20 min

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo

CHRISTOPHER NOLAN: O Arquiteto dos Sonhos Cinematográficos


Batman Begins (2005) - IMDb
Dir: Christopher Nolan
Ação, Super-Herói, Drama Psicológico, crime, suspense

MP4 / HD- / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 8,2   METASCORE: 7,0
Letterboxd: 7,6   CLC Balanced Rating: 7,8
85%Tomatometer

Bruce Wayne passou anos tentando entender o próprio medo. Quando entendeu, vestiu o medo e o devolveu para Gotham.


Reconstruir um personagem do zero

Em 2005, Batman era uma propriedade que Hollywood havia exaurido. Batman & Robin, de 1997, tinha deixado a franquia num estado que parecia irrecuperável: tom de pastiche, visual de brinquedo, personagens reduzidos a piada. Christopher Nolan recebeu o projeto com uma proposta que parecia simples e era radical: tratar Batman como personagem dramático, não como ícone de quadrinhos. A origem da história não seria pretexto para chegar mais rápido à ação. Seria o filme.

Batman Begins dedica boa parte do tempo de tela ao Bruce Wayne que ainda não é Batman: o trauma da morte dos pais, os anos de treinamento na Liga das Sombras, a relação com Henri Ducard e Ra's al Ghul, a construção lenta de um código moral antes da construção do traje. Nolan e o co-roteirista David Goyer apostaram que o público aceitaria esperar pelo Batman se o que viesse antes fosse suficientemente sólido. A aposta funcionou porque o que vem antes é o argumento do filme.


O medo como tema central

O Espantalho, interpretado por Cillian Murphy, é o vilão escolhido para um filme sobre medo, e a escolha não é arbitrária. Jonathan Crane usa uma toxina que materializa os medos mais profundos de quem a inala, e o filme constrói em torno dessa ideia uma estrutura temática que conecta vilão e herói: Bruce Wayne também transformou o próprio medo em instrumento, mas para proteger em vez de aterrorizar. A diferença entre os dois é de propósito, não de método, e o filme deixa essa simetria implícita sem precisar declará-la.

Liam Neeson como Ducard constrói um mentor que oferece a Bruce exatamente o que ele precisa e, ao mesmo tempo, algo que ele precisa recusar. A Liga das Sombras propõe justiça através do medo absoluto, sem limites morais, e a recusa de Bruce em seguir esse caminho até o fim é o momento em que o personagem se torna Batman em vez de se tornar outra coisa.


Gotham como personagem

Nolan filmou Gotham City com uma escala e uma textura que nenhum filme anterior da franquia havia tentado. A cidade é vertical, decadente, dividida entre a riqueza visível e a corrupção que sustenta tudo por baixo. O monorail elevado que cruza a cidade torna-se central ao clímax do filme e essa integração entre arquitetura urbana e narrativa é uma das contribuições mais duradouras de Nolan ao gênero.

A fotografia de Wally Pfister evita a estilização gótica exagerada dos filmes de Tim Burton sem abandonar completamente a atmosfera sombria que o personagem pede. O resultado é uma Gotham que parece uma cidade real em crise, não um cenário expressionista, e essa escolha visual ancora o tom realista que o filme persegue em todos os outros aspectos.


Christian Bale e os dois homens

Christian Bale interpreta Bruce Wayne e Batman como duas performances distintas, e a distância entre elas é parte do argumento do filme. O Bruce Wayne público, o playboy displicente que a sociedade de Gotham conhece, é uma máscara tão deliberada quanto o traje de Batman. Bale constrói os dois registros com uma consistência que torna a transformação física e vocal de Batman menos um truque e mais uma extensão lógica de um homem que já vivia escondido atrás de uma performance antes de existir qualquer traje.

Michael Caine como Alfred e Gary Oldman como Jim Gordon completam o filme com performances que ancoram Bruce Wayne em relações humanas reais, algo que os filmes anteriores da franquia raramente haviam priorizado.


O que Batman Begins mudou

Batman Begins não foi apenas um reboot bem-sucedido. Estabeleceu um modelo de como tratar material de quadrinhos com seriedade dramática sem abandonar a escala do blockbuster, e esse modelo influenciou praticamente todo o cinema de super-heróis que veio depois, para o bem e para o mal. O filme também redefiniu o que se esperava de um filme de origem: não um prólogo apressado, mas uma história completa sobre como um homem se torna o que se torna.

Vinte anos depois, Batman Begins permanece como o ponto em que o gênero de super-heróis decidiu que podia ser tratado como cinema, e não apenas como adaptação de quadrinhos para a tela.