Sinopse
Linda, uma
psicoterapeuta que atende pacientes particulares em Montauk enquanto cuida
sozinha da filha pequena, que sofre de um distúrbio alimentar severo e depende
de uma sonda para se alimentar, vê a própria rotina já sobrecarregada
desmoronar quando o teto do apartamento onde mora desaba, forçando mãe e filha
a se instalarem num motel decadente enquanto aguardam o conserto do imóvel.
Isolada num
quarto apertado, privada de sono havia semanas e às voltas com pacientes cada
vez mais exigentes, entre eles uma mulher que atravessa a própria crise
existencial, Linda recorre a um superintendente do motel disposto a ajudá-la e
a um terapeuta que mal consegue conter as próprias sessões, enquanto o marido
permanece distante em viagem de trabalho, até que a pressão acumulada a empurra
para um colapso que culmina numa confrontação decisiva à beira-mar.
Análise
Crítica
Escrito e
dirigido por Mary Bronstein, apenas seu segundo longa-metragem quinze anos após
a estreia com Yeast, o filme nasceu de experiências pessoais da própria
diretora enquanto cuidava de uma filha internada por problemas de saúde,
período em que ela também elaborou boa parte do roteiro entre idas e vindas ao
hospital.
Rodado ao longo
de vinte e sete dias em Montauk, Nova York, entre agosto e setembro de 2023, o
filme reuniu Rose Byrne como Linda, Conan O'Brien em sua primeira atuação
dramática relevante como o terapeuta da protagonista, Christian Slater como o
marido ausente Charles, A$AP Rocky como o superintendente do motel e Danielle
Macdonald como uma paciente em crise, sob produção da A24 ao lado de Josh
Safdie e de Ronald Bronstein, marido da diretora, no papel de produtores.
O longa estreou
no Sundance Film Festival em janeiro de 2025, seguiu para o Festival de Berlim,
onde Rose Byrne conquistou o Urso de Prata de Melhor Atuação Principal, e
passou ainda por Telluride, Toronto, Nova York, Londres e Roma antes da estreia
comercial nos Estados Unidos em outubro daquele ano.
O filme recebeu
92% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e nota 78 no Metacritic, rendeu
a Rose Byrne o Globo de Ouro e o Independent Spirit Award de Melhor Atriz, além
de indicações ao Oscar, ao BAFTA e ao SAG Awards, consolidando-se como um dos títulos
mais premiados da temporada.
⚠️ ATENÇÃO:
A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS
Se você
ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar
depois.
A
Interpretação da Obra
A estrutura do
filme, que recusa qualquer explicação expositiva direta sobre a condição da
filha de Linda ou sobre a origem exata de sua ansiedade, obrigando o público a
reconstruir aos poucos o quadro completo da crise através de fragmentos de
conversas e reações contidas, reproduz formalmente o próprio estado de
sobrecarga sensorial e cognitiva vivido pela protagonista, que também não
consegue mais organizar a própria experiência em narrativa coerente.
O contraste
entre a profissão de Linda, que passa o dia inteiro oferecendo escuta e
contenção emocional a pacientes alheios, e a ausência quase completa de
qualquer rede de apoio equivalente para si mesma, evidencia a hipocrisia
estrutural de um sistema que exige das mulheres, sobretudo das mães, capacidade
infinita de cuidado sem jamais oferecer o mesmo cuidado de volta.
A gentileza
inesperada do superintendente do motel interpretado por A$AP Rocky, que se
torna a única figura genuinamente disponível para Linda num momento em que
marido, terapeuta e sistema de saúde falham sucessivamente em oferecer suporte
real, sugere que o alívio mais eficaz surge muitas vezes de vínculos
improvisados e não hierárquicos, e não das instituições formalmente destinadas
a esse papel.
Ao encerrar com
Linda diante do mar sem qualquer resolução clara para a própria crise, o filme
recusa deliberadamente o arco de redenção que o gênero do drama sobre
maternidade costuma oferecer, insistindo que a exaustão retratada não se
resolve com uma epifania única, mas exige reconhecimento contínuo e coletivo.
Conclusão
Se Eu Tivesse
Pernas, Eu Te Chutaria consolidou Mary Bronstein como uma das vozes mais
incisivas do cinema americano recente sobre exaustão materna, apoiada numa
atuação de Rose Byrne que abandona qualquer vaidade para expor o colapso da
protagonista em carne viva.