BILLY WILDER: O Cinismo como Método
Orville, compositor fracassado numa cidadezinha do Nevada, é tão ciumento quanto desesperado por fama. Quando o astro Dino para na cidade por acidente, Orville enxerga sua chance e arma um esquema para vender suas músicas, colocando uma prostituta no lugar da própria esposa.
Sátira, Comédia, Romance
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 6,9 METASCORE: 6,3
Flick Metrix: 69 Criticker Average Percentile: 55%
Todo homem tem um preço. O problema é quando ele descobre
qual é.
O escândalo que virou clássico
Quando estreou, Kiss Me, Stupid foi um desastre de relações
públicas. A Legião Católica da Decência o condenou, a United Artists se recusou
a distribuir, e a crítica tratou o filme como uma prova de que Wilder havia
perdido o juízo. Hoje, com a distância necessária, fica mais fácil enxergar o
que estava acontecendo: Hollywood levou um soco no estômago e não soube como
reagir. O filme não era sujo. Era honesto demais para o gosto da época.
Ciúme, ambição e a farsa do lar perfeito
Orville, compositor fracassado numa cidadezinha do Nevada, é
tão ciumento quanto desesperado por fama. Quando o astro Dino para na cidade
por acidente, Orville enxerga sua chance e arma um esquema para vender suas
músicas, colocando uma prostituta no lugar da própria esposa. Wilder usa essa
premissa absurda para dissecar o casamento, a vaidade masculina e a hipocrisia
americana com uma frieza que desconforta. A comédia está ali, mas ela range.
Polly e o avesso da moral
Zelda, a prostituta interpretada por Kim Novak, é quem sai
do filme com mais dignidade. Numa inversão típica de Wilder, a mulher
socialmente marginalizada é a única que age com generosidade e sem cálculo. O
diretor já havia feito isso em Irma La Douce e faria de novo: colocar
personagens fora da norma moral como os únicos capazes de afeto genuíno. É uma
provocação que não precisa de discurso. Basta assistir para entender o que ele
está dizendo sobre quem, afinal, tem bons costumes.
O preço da reabilitação
Com o tempo, Kiss Me, Stupid ganhou defensores fervorosos —
entre eles, cineastas que o citam como uma das comédias mais corajosas de
Hollywood. O que parecia grosseria em 1964 revela, revisitado, uma precisão
cirúrgica na crítica aos mitos do sonho americano: a casa, a esposa, o talento,
o sucesso. Wilder nunca acreditou em nenhum deles sem reservas, e este filme é
talvez a prova mais crua disso. É desconfortável, sim. Era essa a intenção.