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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Szürkület (1990) (TWILIGHT) - 1 h 45 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca:



Szürkület (1990) - IMDb
Dir: György Fehér
Crime, Drama, Mistério

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 8,2
Letterboxd: 7,8   Flick Metrix: 75
93%Tomatometer15 Reviews

Três meninas foram assassinadas numa aldeia húngara. O único suspeito se suicida antes de ser preso. O detetive investigador não consegue abandonar o caso.

György Fehér e Béla Tarr

György Fehér trabalhou durante anos como assistente e colaborador de Béla Tarr, o cineasta húngaro conhecido por Sátántangó e Werckmeister Harmonies, filmes de planos longuíssimos em preto e branco que operam mais como experiências de tempo e espaço do que como narrativas convencionais. Miklós Gurbán, o diretor de fotografia de Szürkület, é o mesmo que fotografou Werckmeister Harmonies de Tarr em 2000. 

A influência de Tarr é visível em Szürkület mas não define o filme. Fehér usa os mesmos instrumentos, planos longos, preto e branco, câmera que observa sem comentar, para contar um tipo de história diferente: um thriller criminal que vai se dissolvendo nos seus próprios elementos até que a distinção entre investigação policial e obsessão pessoal desaparece completamente.

Dürrenmatt e a origem literária

Szürkület é baseado no romance policial A Promessa de Friedrich Dürrenmatt, publicado em 1958. Dürrenmatt descreveu o livro como um réquiem para o romance policial: é a história de um detetive que promete à mãe de uma criança assassinada que vai encontrar o culpado, e que passa anos numa aldeia esperando que o assassino apareça, usando uma menina como isca, destruindo a própria vida no processo. 

A mesma base literária foi adaptada por Sean Penn em 2001 com A Promessa, protagonizado por Jack Nicholson. As duas adaptações chegam a lugares completamente diferentes: a versão americana mantém a estrutura do thriller e a catarse da obsessão. A versão de Fehér dissolve a estrutura e remove a catarse. O que fica é a obsessão em si, sem moldura que a contenha ou explique.

O inspetor e o caso que não fecha

Péter Haumann interpreta o inspetor com uma fisicalidade de exaustão acumulada que Fehér filma sem nenhum apelo à simpatia do espectador. O inspetor chega à aldeia numa missão específica, encontra um ambiente de névoa permanente e desconfiança muda, vê o único suspeito morrer sem confessar, e decide ficar. O que o mantém ali é a incapacidade de aceitar que o caso não tem resolução disponível.

A névoa é constante e implacável, cobrindo literalmente o lugar num mistério que sugere que o dia nunca atravessa completamente a bruma dessa aldeia remota. Fehér usa essa condição climática como argumento sobre o estado mental do inspetor: é um homem que está num crepúsculo permanente, num espaço entre saber e não saber que o filme não vai resolver. 

Os planos longos e o que produzem

Szürkület tem uma montagem de planos longos e tomadas lentas que parecem ponderosas, meditativas e às vezes voyeurísticas, com design de som elaborado e uma trilha assombrosa. Fehér filma o interior de casas, corredores, janelas embaçadas, rostos que olham sem ver, com a paciência de um observador que não tem pressa de chegar a lugar nenhum porque sabe que não há lugar para chegar.

Essa qualidade temporal, o ritmo que recusa a urgência que o thriller convencional exige, é o que torna Szürkület inacessível para o espectador que chega esperando um noir de resolução. É também o que torna o filme extraordinário para quem aceita seus termos: a atmosfera acumula-se com uma precisão que transforma o desconforto em experiência.

É difícil resistir à comparação com Twin Peaks, que saiu no mesmo ano de 1990. Enquanto Twin Peaks é inerentemente mais surreal e tem interlúdios lúdicos, os dois claramente tocavam num zeitgeist global de escuridão insondável à margem da sociedade, usando uma estrutura de investigação notavelmente similar para explorá-la. 

A trilha sonora e o único tropeço

Szürkület tem uma trilha de László Vidovszky que funciona bem na maior parte do filme, mas inclui uma escolha desconcertante: um trecho de Hello Earth de Kate Bush, que aparece repetidamente sem edição cuidadosa. É o único elemento do filme que parece não ter sido completamente controlado, e a crítica tem anotado esse detalhe consistentemente. Fehér era um perfeccionista em quase tudo o que filmou, e essa costura sonora específica permanece como uma nota fora do lugar numa obra que em tudo o mais é precisa.

O desaparecimento e a restauração

A restauração em 4K usando o negativo original de 35mm e as fitas de som magnéticas foi realizada pelo Instituto Nacional de Cinema da Hungria, com a supervisão do cinematógrafo Miklós Gurbán. Estreou na seção Berlinale Classics em 2023, 33 anos depois da estreia em Locarno. A Arbelos Films adquiriu os direitos norte-americanos e o filme chegou ao Film at Lincoln Center em abril de 2023, onde ficou em cartaz por mais de uma semana além do previsto. 

Fehér realizou apenas mais um longa-metragem depois de Szürkület: Szenvedély, de 1998, também baseado em Dürrenmatt. Morreu em 2002. O que deixou é um dos menores catálogos e um dos mais singulares do cinema europeu da década de 1990.

Onde assistir: Szürkület está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver o noir levado até o limite do que o gênero consegue suportar.

Se você chegou até aqui, você é cinéfilo de verdade. Tenha acesso a este e muitos outros filmes participando do nosso grupo de Whatsapp:
 
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quinta-feira, 5 de março de 2026

Fekete pont (2024) (Lesson Learned) - 1 h 59 min

Mostra Professores Contra o Sistema: Rebeliões na Sala de Aula

A jovem professora Juci se rebela contra métodos escolares arcaicos enquanto Palkó, um novo aluno estrangeiro, luta para se adaptar ao exigente sistema educacional da Hungria. Suas histórias refletem a opressão social.


Fekete pont (2024) - IMDb
Dir: Bálint Szimler
Drama

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,6



Quando aprender se torna um ato de resistência silenciosa.

Um Aluno e um Professor no Centro da História

Dirigido por Bálint Szimler, Fekete pont acompanha a experiência de Palkó, um menino que enfrenta dificuldades para se adaptar à rígida rotina de uma escola primária na Hungria. Seu principal ponto de apoio dentro da instituição é a professora Juci, cuja abordagem pedagógica mais sensível e aberta entra em conflito com a disciplina rígida imposta pela direção e pelas regras escolares. A relação entre os dois torna-se o eixo dramático do filme.


O Sistema e Seus Conflitos

A convivência diária revela o contraste entre duas visões de educação: de um lado, a autoridade burocrática da instituição; de outro, a tentativa do professor Juci de preservar a curiosidade e a liberdade de pensamento dos alunos. À medida que o comportamento de Palkó passa a ser alvo de advertências e punições, torna-se evidente como o sistema escolar tende a enquadrar qualquer diferença como problema disciplinar.


O Significado do “Ponto Negro”


O título do filme refere-se ao “ponto negativo”, marca disciplinar utilizada pela escola para registrar faltas de comportamento. Esse pequeno símbolo torna-se um mecanismo de controle constante, capaz de moldar atitudes e gerar ansiedade entre os estudantes. O filme mostra como essa lógica transforma a experiência de aprendizagem em um sistema de vigilância permanente.


Um Retrato da Escola Contemporânea

Ambientado na Hungria contemporânea, o filme dialoga com debates sobre métodos educacionais e autoridade institucional. Ao observar a escola através das experiências de Palkó e de sua professora, a narrativa revela como estruturas rígidas podem limitar tanto o desenvolvimento dos alunos quanto a autonomia dos educadores.


Leitura Crítica — A Educação Como Campo de Conflito

Lesson Learned transforma a vida escolar em uma reflexão sobre poder e formação humana. A relação entre Palkó e a professora Juci revela que a educação não é apenas transmissão de conhecimento, mas também um espaço de disputa entre disciplina e liberdade intelectual. Ao mostrar como pequenos gestos de compreensão podem desafiar estruturas rígidas, o filme sugere que a verdadeira aprendizagem nasce da empatia e do questionamento — não do medo da punição. 🎬

quarta-feira, 4 de março de 2026

Egészséges erotika (1986) (Sound Eroticism) - 1 h 34 min

Um novo bombeiro de uma fábrica de caixas só para mulheres instala uma câmera escondida no camarim feminino para o prazer da gestão masculina, aumentando os negócios eventualmente.


Sátira, Comédia

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,4




Uma sátira absurda sobre burocracia, desejo e o ridículo da vida institucional.

O Escândalo no Escritório

Dirigido por Dusan Makavejev, Egészséges erotika (Sound Eroticism) começa quando funcionários de uma fábrica estatal descobrem que gravações eróticas estão circulando clandestinamente dentro do ambiente de trabalho. O que inicialmente parece um incidente banal rapidamente se transforma em um escândalo institucional. Chefes, burocratas e investigadores passam a tratar o episódio como uma questão moral e política, desencadeando uma série de situações absurdas que revelam o funcionamento paranoico da estrutura administrativa.


Erotismo e Hipocrisia Social


O filme utiliza o tema da sexualidade não como provocação gratuita, mas como instrumento de crítica social. A circulação das fitas eróticas expõe a hipocrisia de uma sociedade que tenta controlar comportamentos privados enquanto, nos bastidores, todos participam do mesmo sistema de repressão e curiosidade voyeurística. A comédia nasce justamente desse contraste entre o discurso oficial de moralidade e o desejo humano que insiste em escapar às regras.


Humor Absurdo do Leste Europeu


A encenação aposta em um humor seco, próximo da tradição satírica do cinema da Europa Central e Oriental dos anos 1980. A fábrica, com seus corredores burocráticos e funcionários obedientes, transforma-se em um microcosmo do sistema social mais amplo. A mise-en-scène explora o ridículo das reuniões administrativas, relatórios e investigações, convertendo procedimentos burocráticos em situações cômicas de crescente irracionalidade.


Uma Comédia Cult da Hungria


Lançado em meados da década de 1980, o filme conquistou reputação cult no cinema húngaro por sua abordagem irreverente e sua crítica indireta ao clima político e moral do período socialista tardio. Misturando farsa, sátira institucional e humor erótico, Egészséges erotika permanece como um exemplo singular da capacidade do cinema do Leste Europeu de transformar a vida cotidiana sob sistemas rígidos em material de comédia mordaz.


Leitura Crítica — O Desejo Contra a Máquina Burocrática


Por trás da leveza aparente da comédia, Egészséges erotika revela uma crítica contundente às engrenagens da burocracia. O que poderia ser apenas um pequeno episódio privado torna-se, no filme, um mecanismo de vigilância coletiva, onde autoridades tentam controlar algo essencialmente humano: o desejo. A sátira funciona precisamente porque mostra como a obsessão institucional pela ordem acaba produzindo situações cada vez mais absurdas. Nesse jogo entre repressão e curiosidade, o filme sugere que, por mais rígidas que sejam as estruturas sociais, sempre haverá fissuras pelas quais a vida — e o humor — escapam. 🎬

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Corpo e Alma (2017) Teströl és lélekröl - 1 h 56 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Quando os trabalhadores do matadouro, Endre e Mária descobrem que compartilham os mesmos sonhos, onde se encontram em uma floresta como cervos e se apaixonam, decidem realizar seus sonhos, mas isso é difícil na realidade.


Corpo e Alma (2017) - IMDb
Dir: Ildikó Enyedi
Drama, Fantasia, Mistério, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 7,7
90%Tomatometer78 Reviews   86%Popcornmeter


Um romance improvável onde duas almas solitárias se encontram primeiro no sonho para depois ousarem existir no mundo real.


🦌 Quando os Sonhos se Tocam

Em Corpo e Alma (2017) — Testről és lélekről —, a diretora húngara Ildikó Enyedi constrói uma fábula delicada sobre conexão humana em meio à solidão contemporânea. A narrativa acompanha Endre e Mária, dois colegas de trabalho em um matadouro de Budapeste que descobrem compartilhar o mesmo sonho recorrente: ambos se veem como cervos que se encontram numa paisagem nevada. A partir dessa coincidência misteriosa, nasce uma relação tão frágil quanto inesperada.


❄️ Entre a Rigidez e a Ternura


O filme contrapõe de forma poderosa dois mundos: a brutalidade mecânica do ambiente de trabalho e a pureza silenciosa do espaço onírico. Enyedi explora as dificuldades emocionais de seus protagonistas — especialmente a rigidez social e afetiva de Mária — com enorme sensibilidade. O romance se constrói em pequenos gestos, hesitações e tentativas de aproximação, revelando o quanto o contato humano pode ser ao mesmo tempo simples e profundamente desafiador.


🎬 Minimalismo de Precisão Poética

Com uma mise-en-scène rigorosa e contemplativa, a diretora aposta em enquadramentos limpos, ritmo paciente e uma direção de atores extremamente precisa. As sequências dos cervos, de beleza etérea, funcionam como contraponto lírico ao realismo frio do cotidiano. O resultado é um filme que equilibra estranhamento e ternura sem recorrer ao sentimentalismo fácil.


🏆 Recepção e Legado


Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2017, Corpo e Alma foi amplamente celebrado pela crítica internacional por sua originalidade e delicadeza emocional. O filme também conquistou indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, ampliando sua visibilidade global. Hoje, é frequentemente lembrado como uma das histórias de amor mais singulares do cinema europeu recente e como marco do retorno de Ildikó Enyedi ao longa-metragem de ficção.


O Milagre da Aproximação


Ao final, Corpo e Alma sugere que a verdadeira intimidade exige coragem para atravessar o medo e a inadequação. Entre o mundo dos sonhos e a aspereza do real, o filme encontra uma verdade simples e comovente: às vezes, reconhecer o outro é o primeiro passo para finalmente habitar o próprio corpo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A berni követ (2014) (The Ambassador to Bern) - Filme para televisão - 1 h 16 min

Um relato fictício do ataque de 1958 contra a embaixada húngara em Berna. Baseado em uma história real sobre as consequências da revolução húngara de 1956.


Drama, História, Suspense

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,0
62%Popcornmeter







quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Mephisto (1981) - 2 h 26 min

Na Alemanha, no início dos anos 30, um ator de teatro se depara com um dilema: renunciar a sua postura apolítica e seguir a doutrina do Reich, ou enfrentar o esquecimento. Mas as barganhas nunca terminam bem. Qual é o preço do sucesso?


Mephisto (1981) - IMDb
Dir: István Szabó
Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7
76%Tomatometer25 Reviews   84%Popcornmeter


Mephisto (1981) — O Artista, o Poder e o Preço da Ambição

Mephisto, dirigido por István Szabó e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é uma das mais contundentes reflexões já feitas sobre a cumplicidade entre arte e poder. Adaptado do romance de Klaus Mann, o filme narra a trajetória de Hendrik Höfgen (interpretado magistralmente por Klaus Maria Brandauer), um ator alemão cuja ambição cresce na mesma velocidade que o nazismo ascende ao poder.

O filme parte de uma pergunta central — e profundamente inquietante:

Até onde um artista pode ir para preservar sua carreira quando confrontado por um regime moralmente repulsivo?


A Jornada de Hendrik Höfgen: Entre a Vaidade e o Abismo Moral

Hendrik é apresentado como um ator provinciano, apaixonado pelo teatro e obcecado pela própria imagem. Seu talento é evidente, mas é sua vaidade que lhe serve tanto como motor quanto como armadilha.

Quando os nazistas assumem o controle, Hendrik vê sua carreira tomar impulso. Ele se torna a estrela favorita do General, claramente inspirado em Hermann Göring. Sua performance como Mephisto — o demônio manipulador da obra de Goethe — vira símbolo do regime, mesmo que Hendrik tente se convencer de que é apenas “um artista”.

É aí que o filme se torna devastador:
Hendrik acredita ser neutro, mas sua neutralidade é, de fato, cooperação.


O Teatro como Espelho da Realidade

Szabó usa o palco como metáfora direta do espetáculo político. A maquiagem, as luzes e a dramatização mostram como a estética nazista seduziu tantos intelectuais europeus.

As cenas em que Hendrik aparece maquiado como Mephisto funcionam como ironia cruel: o ator que interpreta o demônio torna-se, aos poucos, cúmplice do mal real.

Há sempre um contraste entre:

  • a grandiosidade do palco,
  • e o silêncio covarde fora dele.

Ambiguidade Moral: A Arte Pode Ser Inocente?

O grande mérito do filme é não transformar Hendrik em vilão total ou vítima pura. Ele é humano — demasiado humano. Seu medo e sua vaidade fazem com que ele racionalize cada concessão.

Ele não apoia o nazismo ideologicamente; apoia porque precisa ser amado, visto, aplaudido.
É essa fraqueza que o torna personagem trágico.

No fundo, Mephisto é sobre:

  • o fascismo que se alimenta das vaidades individuais,
  • o artista que acredita poder “não se envolver”,
  • e o preço da ascensão em tempos sombrios.

Estilo e Direção

Szabó filma com sobriedade, mas com potência emocional.
Os enquadramentos amplos contrastam com closes de Brandauer que revelam o desespero crescente do personagem. O uso das cores e das luzes teatrais reforça o dualismo entre máscara e identidade, palco e vida, verdade e mentira.

A performance de Brandauer é um dos grandes triunfos do cinema europeu dos anos 80: é ao mesmo tempo carismática, patética e terrivelmente humana.


Um Final Inesquecível

Sem entregar detalhes excessivos, o final é uma imagem de isolamento total — Hendrik finalmente percebe que, ao entregar sua autonomia moral, perdeu tudo que o fazia artista.

Ele ascende ao topo, mas o topo é um deserto.


🎭 Público para o qual Mephisto é indicado

1. Espectadores interessados em História, especialmente na ascensão do nazismo

2. Amantes de cinema europeu de autor

3. Estudiosos e interessados em teatro, artes performáticas e ética artística

4. Público que aprecia dramas morais complexos pois o filme não oferece respostas fáceis.
5. Espectadores interessados em adaptações literárias

6. Adultos que buscam cinema político e psicológico

 

Mephisto não é indicado para crianças ou adolescentes muito jovens ou para quem busca entretenimento leve ou narrativa convencional.

 

Por que Mephisto permanece tão atual?

Porque fala de:

  • artistas seduzidos pelo poder
  • intelectuais que justificam regimes por conveniência
  • a ilusão de neutralidade
  • o preço pago quando a ambição supera a ética

Em tempos em que discussões sobre responsabilidade social de figuras públicas voltam à tona, Mephisto é mais atual do que nunca.





segunda-feira, 17 de novembro de 2025

O Filho de Saul (2015) Saul fia - 1 h 47 min

1944, campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Saul (Géza Röhrig) é um judeu obrigado a trabalhar para os nazistas, sendo um dos responsáveis em limpar as câmaras de gás após dezenas de outros judeus serem mortos. Em meio à tensão do momento e às dificuldades inerentes desta tarefa, ele reconhece entre os mortos o corpo de seu próprio filho.


O Filho de Saul (2015) - IMDb
Dir: László Nemes
Drama Prisional, Drama Psicológico, Guerra


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,4   METASCORE: 9,1
96%Tomatometer230 Reviews   79%Popcornmeter


Introdução

O Filho de Saul é um dos filmes mais intensos, devastadores e inovadores do cinema contemporâneo sobre o Holocausto.
Dirigido pelo húngaro László Nemes, o longa se distingue por sua abordagem radical: a câmera acompanha quase inteiramente o rosto e a nuca do protagonista — Saul Ausländer — criando uma imersão claustrofóbica e angustiante que recusa qualquer distância emocional.

Não se trata de um filme “sobre o Holocausto” no sentido convencional, mas uma experiência sensorial, moral e psicológica extrema, que busca reproduzir o horror de forma íntima, delimitada e profundamente humana.


🎭 Enredo

Ambientado em 1944, no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, o filme acompanha Saul, um prisioneiro judeu membro do Sonderkommando — grupos forçados a auxiliar os nazistas na operação dos crematórios e câmaras de gás.

Sua função o coloca no epicentro da máquina de extermínio, mas ao mesmo tempo o obriga a viver num estado de dissociação emocional.

Tudo muda quando, durante o descarte de corpos, ele vê um menino que parece estar vivo por um instante — e reconhece nele seu próprio filho (ou acredita reconhecer). O menino morre logo depois, mas Saul entra numa obsessão quase mística:

dar ao menino um enterro digno

Algo proibido e mortalmente arriscado dentro da lógica do campo.

Enquanto seus companheiros planejam uma revolta, Saul dedica-se a uma missão pessoal impossível: encontrar um rabino, ocultar o corpo, e cumprir um ritual de sepultamento.

Essa busca íntima atravessa um ambiente de horror industrializado, num contraste que estrutura todo o filme.


🔍 Temas centrais

1. O horror impessoal versus a necessidade humana de sentido

O campo de concentração funciona como fábrica da morte:

  • corpos tratados como resíduos,
  • vítimas despidas de nome,
  • rotina mecânica da crueldade.

A obsessão de Saul por um ritual funerário rompe essa lógica. É um ato de resistência espiritual, quase loucura, mas também um grito por humanidade.

2. Ambiguidade sobre a paternidade

O filme nunca confirma se o menino é realmente filho de Saul.
Isso não importa — porque o que ele busca não é a verdade biológica, mas:

  • recuperar sua humanidade perdida,
  • atribuir sentido ao absurdo total,
  • realizar um gesto moral num mundo sem moral.

3. Dissociação psicológica

Saul caminha entre cadáveres, fumaça, gritos e ordens, mas a câmera cola em seu rosto, ignorando o contexto explícito.

O espectador só ouve o horror ao fundo, desfocado, quase invisível. Isso reproduz o estado mental de Saul: ele vê tudo, mas não olha nada.

4. O Sonderkommando como tragédia extrema

O filme aborda um dos aspectos mais terríveis do Holocausto — judeus forçados a participar, sob pena de morte imediata, da máquina nazista. Nemes recusa julgamentos fáceis: São vítimas dentro da vitimização.


🎬 Estética e linguagem cinematográfica

Câmera colada ao protagonista

A profundidade de campo é curta: Saul está nítido, o resto — borrado.
Isso cria:

  • claustrofobia,
  • imersão emocional,
  • o horror como presença sem forma.

Som como protagonista

Gritos, golpes, portas, maquinaria, ordens —
O que não vemos é mais terrível do que qualquer imagem gráfica.

Realismo brutal sem espetáculo

O filme evita pornografia da violência.
O horror está sempre ali, mas fora de foco.

Nemes provoca a imaginação, e isso é infinitamente pior.


🏆 Recepção e prêmios

O Filho de Saul foi celebrado mundialmente:

  • Oscar 2016 – Melhor Filme Internacional
  • Grande Prêmio do Júri em Cannes
  • BAFTA, Golden Globe e dezenas de prêmios internacionais

É considerado um dos retratos mais inovadores do Holocausto desde A Lista de Schindler — justamente porque recusa qualquer grande cena épica e se concentra no mundano, no fragmentado, no insuportável.


Conclusão

O Filho de Saul é um filme devastador sobre a tentativa humana de preservar a dignidade em um cenário onde toda humanidade é destruída sistematicamente.

Não é um filme para explicar o Holocausto. É um filme para fazê-lo ser sentido — ainda que minimamente, e apenas como sombra do que foi vivido.

É doloroso, perturbador, profundo e artisticamente ousado. Uma obra-prima que permanece na mente e no corpo muito tempo após o fim.




ATENÇÃO: SPOILER


A seguir, uma análise completa e interpretativa do final de O Filho de Saul (2015) (Saul fia), seu simbolismo e significados — cinematográficos, morais e existenciais.


Resumo da sequência final

Nos últimos minutos do filme:

  1. A revolta do Sonderkommando explode, em meio ao caos do campo. Saul consegue fugir, carregando o corpo do menino (possivelmente seu filho) envolto em pano.
  2. Ele se junta a outros prisioneiros fugitivos na floresta.
  3. O grupo percebe que está sendo perseguido pelos nazistas.
  4. Saul, finalmente, larga o corpo do menino num córrego.
  5. Em meio ao cansaço, ele entra num celeiro abandonado com os outros sobreviventes.
  6. Enquanto estão ali escondidos, um garoto camponês aparece na porta. Ele olha para Saul.
  7. Saul olha de volta e sorri discretamente.
  8. Corta para preto. Fim.

🎯 O que esse final significa?

1. O menino na floresta: símbolo de vida e futuro

O garoto que aparece no celeiro — loiro, limpo, livre — representa o oposto absoluto de tudo que vimos no filme: ele não está aprisionado, não está sujo de cinzas ou sangue, não carrega peso nem trauma. Ele vive.

Esse menino representa o que Saul não pôde salvar: a vida.

Ou talvez, mais profundamente:
👉 a possibilidade da vida continuar, apesar do horror.

O olhar de Saul para ele, com um sorriso tênue, é carregado de ambiguidade: É alívio? Esperança? Ilusão? Alucinação final? Farhadi não responde. E isso é intencional.


2. O sorriso de Saul: epifania ou rendição?

Esse pequeno sorriso final — o único gesto de alívio ou serenidade em todo o filme — é absolutamente decisivo.

Interpretações possíveis:

🟩 1. Restauração da humanidade

Pela primeira vez, Saul vê um ser humano vivo, não deformado pela dor.
O gesto do sorriso indica que, mesmo dentro do abismo, a esperança não foi completamente destruída.

🟨 2. Renascimento simbólico

Tendo completado sua missão absurda — dar um enterro a um filho que talvez nem fosse seu — Saul pode finalmente voltar a ser humano. Ele passou de máquina anestesiada a homem com propósito.

🟥 3. Antevisão da morte

Outros críticos veem o menino como uma aparição simbólica, quase mística. Ou seja, Saul está prestes a morrer — e seu último gesto é sorrir para a vida que ele jamais teve.


3. O enterro no córrego: o fechamento do ciclo

Ao soltar o corpo do menino no rio, Saul cumpre sua jornada.
Não é um enterro tradicional, mas é um ritual possível no inferno onde ele vive.

Esse ato é profundamente simbólico: Água como purificação, fluxo como passagem, desprendimento como libertação. Ele abre mão do corpo — e com isso, do próprio peso que carregou o filme inteiro.


4. A ambiguidade final: característica essencial do filme

O diretor László Nemes constrói um final que: não explica, não julga, não resolve, mas evoca.

Tudo é deixado em suspenso — inclusive a vida dos personagens, o destino da missão, o sentido da jornada. É coerente com a proposta do filme: No meio da barbárie, nenhum fechamento é possível. Só gestos — humanos, simbólicos, frágeis — que tentam resistir ao apagamento.


🧠 Leitura filosófica e existencial

A história de Saul pode ser vista como uma versão trágica e moderna da jornada do herói:

  • Ele está no coração do inferno (Auschwitz),
  • Recebe uma missão impossível (enterrar o filho),
  • Enfrenta obstáculos inumanos,
  • E conclui sua jornada com uma pequena centelha de transcendência (o sorriso).

Mas — ao contrário das histórias clássicas — não há glória, não há redenção final, não há aplausos.

A vitória aqui é a preservação de um fragmento de humanidade dentro do maior pesadelo do século XX.


Conclusão: um fim devastador e profundamente humano

O final de O Filho de Saul é: silencioso, ambíguo, poderoso e dilacerante.

Ele não entrega catarse nem resposta. Mas entrega algo mais raro: uma imagem de resistência através da dignidade silenciosa. O sorriso de Saul — depois de 107 minutos de horror — é o que resta quando tudo foi destruído, exceto o gesto de reconhecer a vida no outro.

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Hyppolit a lakáj (1931) (Hyppolit, the Butler) - 1 h 12 min

Um mordomo muda a vida de um empresário novo-rico, enquanto sua filha se apaixona pelo gerente da empresa em vez de um pretendente escolhido para ela.


Dir: Steve Sekely
Comédia

MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,7






CURIOSIDADES

·       Hyppolit, o Mordomo foi o segundo filme de som completo produzido na Hungria e, a princípio, gerou pouco interesse (devido ao fracasso do primeiro filme sonoro The Blue Idol, também em 1931), mas depois se tornou um favorito e ainda é um velho amado. [1] 

·       O filme foi escolhido para fazer parte do New Budapest Twelve, uma lista de filmes húngaros considerados os melhores em 2000. [2] O filme foi rodado no Hunnia Film Studios em Budapeste.

·       Foi refeito em 1999 como Hippolyt, um lakáj (com o y e o i trocados). [7]

 

ENREDO

Mátyás Schneider (Gyula Kabos) é um típico parvenu, um empresário de transporte ignorante que se tornou muito rico rapidamente. Apesar de suas origens humildes, sua esposa (Mici Haraszti) se esforça para viver um estilo de vida "sofisticado" e "aristocrático". Quando ela contrata um mordomo, Hyppolit (Gyula Csortos) - que era um homem educado e que serviu na casa de um falecido conde por 27 anos e viajou ao redor do mundo com o falecido conde - toda a sua vida vira de cabeça para baixo: Schneider tem que raspar o bigode, usar um terno para jantar e comer comida francesa em vez de suas amadas cebolas e ganso assado, enquanto sua esposa é intimidada pelo mordomo a se envolver em ginástica e uma dieta bastante escassa.

Enquanto isso, a filha espirituosa dos Schneiders, Terka (Éva Fenyvessy), se apaixona por seu empresário bonito, o ex-piloto István Benedek (Pál Jávor), que mantém em segredo que ele é na verdade um engenheiro com diploma universitário. Sua mãe, no entanto, preferiria o bem-humorado, mas bastante estúpido Makáts (Gyula Gózon) como pretendente, porque o tio de Makáts (Sándor Góth), um vereador, pode ajudá-los a conseguir um contrato lucrativo.

As coisas começam a virar de cabeça para baixo, quando Schneider segue as sugestões de Hyppolit para começar a namorar Mimi (Mici Erdélyi), uma cantora e dançarina em uma boate desprezível. Quando ele não aparece em um encontro com ela, a garota entra na villa dos Schneiders, onde está ocorrendo um jantar com convidados importantes - incluindo o tio de Makáts - e causa um escândalo. Enquanto isso, Terka segue seus próprios planos para conseguir o homem que ela quer...

Foto preta e branca de pessoas na frente de um piano

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 HISTÓRIA SUBSEQUENTE

O filme é exibido regularmente na telinha e ainda é popular entre os telespectadores.

Quase oitenta anos após sua estreia, em 2008, o filme original foi restaurado digitalmente pelo Arquivo Nacional de Filmes da Hungria