Filme incluso na mostra da Filmoteca:
Três meninas foram assassinadas numa aldeia húngara. O único suspeito se suicida antes de ser preso. O detetive investigador não consegue abandonar o caso.
György Fehér e Béla Tarr
György Fehér trabalhou durante anos como assistente e colaborador de Béla Tarr, o cineasta húngaro conhecido por Sátántangó e Werckmeister Harmonies, filmes de planos longuíssimos em preto e branco que operam mais como experiências de tempo e espaço do que como narrativas convencionais. Miklós Gurbán, o diretor de fotografia de Szürkület, é o mesmo que fotografou Werckmeister Harmonies de Tarr em 2000.A influência de Tarr é visível em Szürkület mas não define o filme. Fehér usa os mesmos instrumentos, planos longos, preto e branco, câmera que observa sem comentar, para contar um tipo de história diferente: um thriller criminal que vai se dissolvendo nos seus próprios elementos até que a distinção entre investigação policial e obsessão pessoal desaparece completamente.
Dürrenmatt e a origem literária
Szürkület é baseado no romance policial A Promessa de Friedrich Dürrenmatt, publicado em 1958. Dürrenmatt descreveu o livro como um réquiem para o romance policial: é a história de um detetive que promete à mãe de uma criança assassinada que vai encontrar o culpado, e que passa anos numa aldeia esperando que o assassino apareça, usando uma menina como isca, destruindo a própria vida no processo.A mesma base literária foi adaptada por Sean Penn em 2001 com A Promessa, protagonizado por Jack Nicholson. As duas adaptações chegam a lugares completamente diferentes: a versão americana mantém a estrutura do thriller e a catarse da obsessão. A versão de Fehér dissolve a estrutura e remove a catarse. O que fica é a obsessão em si, sem moldura que a contenha ou explique.
O inspetor e o caso que não fecha
Péter Haumann interpreta o inspetor com uma fisicalidade de exaustão acumulada que Fehér filma sem nenhum apelo à simpatia do espectador. O inspetor chega à aldeia numa missão específica, encontra um ambiente de névoa permanente e desconfiança muda, vê o único suspeito morrer sem confessar, e decide ficar. O que o mantém ali é a incapacidade de aceitar que o caso não tem resolução disponível.A névoa é constante e implacável, cobrindo literalmente o lugar num mistério que sugere que o dia nunca atravessa completamente a bruma dessa aldeia remota. Fehér usa essa condição climática como argumento sobre o estado mental do inspetor: é um homem que está num crepúsculo permanente, num espaço entre saber e não saber que o filme não vai resolver.
Os planos longos e o que produzem
Szürkület tem uma montagem de planos longos e tomadas lentas que parecem ponderosas, meditativas e às vezes voyeurísticas, com design de som elaborado e uma trilha assombrosa. Fehér filma o interior de casas, corredores, janelas embaçadas, rostos que olham sem ver, com a paciência de um observador que não tem pressa de chegar a lugar nenhum porque sabe que não há lugar para chegar.Essa qualidade temporal, o ritmo que recusa a urgência que o thriller convencional exige, é o que torna Szürkület inacessível para o espectador que chega esperando um noir de resolução. É também o que torna o filme extraordinário para quem aceita seus termos: a atmosfera acumula-se com uma precisão que transforma o desconforto em experiência.
É difícil resistir à comparação com Twin Peaks, que saiu no mesmo ano de 1990. Enquanto Twin Peaks é inerentemente mais surreal e tem interlúdios lúdicos, os dois claramente tocavam num zeitgeist global de escuridão insondável à margem da sociedade, usando uma estrutura de investigação notavelmente similar para explorá-la.
A trilha sonora e o único tropeço
Szürkület tem uma trilha de László Vidovszky que funciona bem na maior parte do filme, mas inclui uma escolha desconcertante: um trecho de Hello Earth de Kate Bush, que aparece repetidamente sem edição cuidadosa. É o único elemento do filme que parece não ter sido completamente controlado, e a crítica tem anotado esse detalhe consistentemente. Fehér era um perfeccionista em quase tudo o que filmou, e essa costura sonora específica permanece como uma nota fora do lugar numa obra que em tudo o mais é precisa.
O desaparecimento e a restauração
A restauração em 4K usando o negativo original de 35mm e as fitas de som magnéticas foi realizada pelo Instituto Nacional de Cinema da Hungria, com a supervisão do cinematógrafo Miklós Gurbán. Estreou na seção Berlinale Classics em 2023, 33 anos depois da estreia em Locarno. A Arbelos Films adquiriu os direitos norte-americanos e o filme chegou ao Film at Lincoln Center em abril de 2023, onde ficou em cartaz por mais de uma semana além do previsto.Fehér realizou apenas mais um longa-metragem depois de Szürkület: Szenvedély, de 1998, também baseado em Dürrenmatt. Morreu em 2002. O que deixou é um dos menores catálogos e um dos mais singulares do cinema europeu da década de 1990.
Onde assistir: Szürkület está disponível na Filmoteca Seu Manolo. Um filme para assistir quando você quer ver o noir levado até o limite do que o gênero consegue suportar.