Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
ATÉ ONDE VOCÊ VAI? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito
Liberdade e solidão são a mesma coisa. Depende apenas de quanto tempo você passa sozinho. Ryan Bingham viajava 322 dias por ano e chamava isso de liberdade. O filme levou 109 minutos para provar que era outra coisa.
O ar como habitat
Ryan Bingham vive em aviões. Tem um apartamento em Omaha que é pouco mais que um endereço, uma mala que cabe no compartimento superior e um programa de milhagem que é, sem ironia, a coisa mais próxima de uma relação estável que ele possui. Jason Reitman filma esse modo de vida com uma sedução inicial que é parte do argumento: há algo genuinamente atraente na leveza de quem não acumulou, não se prendeu, não deve nada a ninguém. Up in the Air entende que a filosofia de Ryan é uma resposta racional a um mundo que ele observou de perto e tirou conclusões sobre.O trabalho de Ryan é demitir pessoas. Empresas contratam sua firma para fazer o que não querem fazer, e ele aparece, senta do outro lado da mesa e entrega a notícia com uma competência que é quase gentileza. Reitman usa esse trabalho como espelho do tema central: Ryan é especialista em separar pessoas de coisas às quais estavam vinculadas, e faz isso para os outros enquanto constrói sua vida inteira ao redor do princípio oposto, a recusa de qualquer vínculo que pese.
Reitman e a comédia que não se esquece de ser séria
Up in the Air opera no registro da comédia dramática com uma precisão de tom que poucos filmes conseguem sustentar. É engraçado nas cenas certas, tem personagens com humor real, e ao mesmo tempo não pisca quando o assunto fica sério. Reitman intercala as cenas ficcionais com depoimentos de pessoas reais que foram demitidas durante a crise de 2008, e essa mistura de documento e ficção não quebra o filme: aprofunda o território em que ele está operando.A fotografia de Eric Steelberg usa os não-lugares do mundo corporativo, aeroportos, hotéis, salas de reunião genéricas, com uma familiaridade que transforma esses ambientes em algo próximo de personagem. Ryan se move por esses espaços com a fluência de quem está em casa, e o filme usa essa fluência para mostrar o quanto sua ideia de casa foi construída ao redor de lugares que foram projetados para não pertencer a ninguém.
Alex e a ilusão do espelho
Vera Farmiga interpreta Alex com uma presença que o filme usa de forma precisa: ela parece, por um longo tempo, ser a versão feminina de Ryan, alguém que encontrou o mesmo equilíbrio, que viaja tanto quanto ele, que não quer mais do que encontros pontuais bem administrados. A atração entre os dois tem a qualidade específica de quem encontrou alguém que parece entender as regras sem precisar que sejam explicadas.O que o filme faz com essa dinâmica é o seu movimento mais honesto. Alex não é o que parece ser, e a revelação não é traição no sentido convencional: é a demonstração de que Ryan projetou nela o que queria ver, que leu como espelho o que era outra coisa completamente. Farmiga constrói Alex com uma ambiguidade que só aparece em retrospecto, e rever o filme sabendo o que se sabe transforma cada cena dos dois numa leitura diferente da que a primeira visita oferece.
Natalie e o choque de gerações
Anna Kendrick interpreta Natalie, a jovem analista recém-contratada que chega com um sistema para fazer o trabalho de Ryan remotamente, por videoconferência, eliminando a necessidade de viagem. A tensão entre é geracional e filosófica. Natalie acredita em eficiência, em otimização, em resolver o problema da demissão como se fosse um problema logístico. Ryan acredita que a presença física importa, que olhar nos olhos de quem você está demitindo é uma forma de respeito que a tela não pode replicar.O filme tem a inteligência de não resolver esse debate de forma simples. Ryan está certo sobre algumas coisas e errado sobre outras, e Natalie está certa sobre algumas coisas e errada sobre outras, e a jornada que fazem juntos vai revelando os limites de cada posição sem declarar uma vencedora. Kendrick entrega uma performance que começa na superfície da competência jovem e vai revelando camadas de vulnerabilidade que o personagem preferia não mostrar.
A mochila como filosofia
Ryan tem uma palestra que dá em eventos corporativos sobre o princípio de vida que chama de mochila vazia: a ideia de que os vínculos são peso, que relacionamentos e responsabilidades são coisas que carregamos sem questionar se vale a pena carregar, e que a leveza vem de esvaziar a mochila. Up in the Air usa essa palestra como declaração de intenções do personagem e como alvo do que o filme vai fazer com ele.A elegância do roteiro de Reitman e Sheldon Turner está em não destruir a filosofia de Ryan de forma didática. O que acontece não é que Ryan aprende que estava errado e abraça os vínculos que rejeitou. O que acontece é mais sutil e mais verdadeiro: ele descobre que a mochila vazia não protege do peso, apenas muda a forma que o peso assume. A solidão de quem não se vincula tem a mesma gravidade da solidão de quem perdeu os vínculos que tinha. A diferença é que uma você escolheu e a outra aconteceu com você.
Onde assistir e o que esperar
Up in the Air está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em plataformas de streaming: Amor Sem Escalas - Veja onde assistir online . O filme tem 109 minutos que se movem com a fluidez do próprio Ryan pelos aeroportos, sem momentos de gordura e sem cenas que existam apenas para preencher tempo. George Clooney entrega uma das performances mais controladas de sua carreira, construída sobre a distinção entre charme e profundidade: Ryan tem charme de sobra e vai revelando profundidade aos poucos, e Clooney sabe exatamente quando mostrar cada coisa. O filme envelheceu bem porque o território que examina, trabalho, vínculos, liberdade e seus custos, não é datado pela crise de 2008 que o contextualiza.
O vínculo que o trabalho desfez
Up in the Air pertence é o retrato mais preciso disponível de como uma forma de trabalhar pode se tornar uma forma de viver que exclui sistematicamente a possibilidade de permanência. Ryan não é workholic no sentido convencional de alguém que trabalha demais e negligencia relacionamentos. É algo mais específico: alguém que construiu uma identidade profissional tão completa que não sobrou espaço para nenhuma outra forma de identidade, e que só percebe isso quando algo de fora força o olhar para dentro. Reitman filma a recusa da estabilidade burguesa como prisão de outro tipo, mais elegante, mais livre na aparência, igualmente solitária no resultado. O trabalho contemporâneo destrói os vínculos quando exige demais, mas também quando oferece uma forma de vida tão completa que os vínculos parecem desnecessários, até que deixam de parecer.