Mostrando postagens com marcador Vittorio Gassman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vittorio Gassman. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de maio de 2026

A Família (1987) La famiglia - 2 h 7 min

Mostra:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 1

Abrangendo 80 anos da história italiana, o filme retrata intimamente a vida de uma família burguesa romana no mesmo apartamento, desde o início do século XX, passando por duas guerras mundiais e além.


A Família (1987) - IMDb
Dir: Ettore Scola
Drama, Romance


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,4
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 75
71%Tomatometer7 Reviews

Uma sala de estar. Oitenta anos. E a descoberta de que o tempo não passa: ele se acumula.


O plano que define tudo

La Famiglia começa com uma fotografia e termina com uma fotografia, e entre as duas imagens Ettore Scola filma oitenta anos de uma família romana sem sair do apartamento onde essa família existe. A decisão formal é anunciada nos primeiros minutos e sustentada até o último: não há locações externas, não há flashbacks em outros espaços, não há saída para a rua que alivie a concentração. O que acontece fora daquele apartamento chega como notícia, como eco, como ausência, mas nunca como imagem. Scola entendeu que a restrição espacial é o argumento central do filme sobre como uma família constrói seu próprio universo e como esse universo tem bordas que o mundo externo raramente atravessa completamente.

O apartamento romano é filmado com uma mobilidade de câmera que transforma a restrição em liberdade: Scola e o diretor de fotografia Ricardo Aronovich usam os cômodos, os corredores, a varanda e a sala principal com uma consciência de espaço que vai revelando, ao longo do filme, como o mesmo ambiente físico muda de significado à medida que as pessoas que o habitam mudam. A sala onde Carlo brinca em 1906 é a mesma sala onde Carlo envelhece em 1986, e essa identidade física em contraste com a transformação humana é o instrumento narrativo mais poderoso do filme.


Scola e o tempo como matéria

Ettore Scola passou a carreira examinando a sociedade italiana com uma mistura de afeto e rigor que poucos diretores sustentaram com a mesma consistência, e La Famiglia é o trabalho em que essa mistura encontrou sua forma mais destilada. O filme foi lançado em 1987 e ganhou o César de melhor filme estrangeiro, mas sua recepção internacional nunca correspondeu à sua qualidade, provavelmente porque o que oferece não tem equivalente fácil em nenhum gênero estabelecido.

Não é drama familiar no sentido convencional porque recusa o conflito central que o drama familiar costuma exigir. Não é comédia porque o humor que contém é sempre contaminado por melancolia. Não é épico porque a escala é deliberadamente doméstica. É um filme que inventou sua própria categoria e que por isso exige do espectador uma disposição para habitar um território sem mapa prévio, o que é simultaneamente seu maior desafio e sua maior recompensa.

A decisão de filmar em tempo aproximadamente real dentro de cada sequência, com elipses entre os blocos temporais mas sem cortes que acelerem artificialmente o que está acontecendo dentro de cada cena, produz uma experiência de tempo que o cinema raramente oferece. As conversas têm a duração das conversas reais. Os silêncios têm o peso dos silêncios reais. E a acumulação dessas durações ao longo do filme vai criando uma sensação de vida vivida que a narrativa convencional, com sua compressão e sua seleção de momentos dramáticos, não consegue replicar.


Vittorio Gassman e Carlo

Vittorio Gassman interpreta Carlo em diferentes momentos de sua vida com uma amplitude que o filme usa como espinha dorsal. Carlo é o centro de gravidade de La Famiglia porque é a consciência através da qual o espectador experimenta o tempo: ver Gassman envelhecer dentro do filme, ver o corpo e a voz e os gestos mudando enquanto o apartamento permanece, é a experiência mais próxima que o cinema consegue oferecer de acompanhar uma vida de dentro.

Gassman tinha cinquenta e cinco anos quando filmou La Famiglia e precisou ser ao mesmo tempo o jovem Carlo do início do século, o Carlo de meia-idade e o Carlo idoso que fecha o filme. A solução é a capacidade de um ator extraordinário de comunicar estados físicos e emocionais diferentes através do corpo e da voz com uma convicção que torna a maquiagem irrelevante. Gassman entrega três Carlos que são reconhecivelmente o mesmo homem e reconhecivelmente pessoas diferentes, e essa duplicidade é o que torna o filme emocionalmente verdadeiro em vez de apenas formalmente interessante.


As mulheres e o apartamento

La Famiglia é também um filme sobre as mulheres que passam pelo apartamento e pelo que a família faz com elas. A mãe de Carlo, as irmãs, a mulher que Carlo amou e não ficou com ela, a mulher com quem casou, as noras, as netas: cada uma traz para o apartamento uma energia que o apartamento absorve ou resiste, e Scola filma essas dinâmicas com uma atenção que não é feminista no sentido de declarado mas que é honesta sobre o que a estrutura familiar italiana do século XX exigia das mulheres que a sustentavam.

Fanny Ardant aparece como Adriana, o amor de juventude de Carlo que reaparece décadas depois, e suas cenas com Gassman têm a qualidade específica de dois atores que entendem o que é carregar uma história longa dentro de uma cena curta. O que poderia ter sido entre Carlo e Adriana e o que foi são duas histórias paralelas que o filme mantém em tensão sem resolver, e essa tensão não resolvida é parte do argumento sobre como as escolhas que fazemos nos jovens continuam existindo como possibilidades não realizadas ao lado das vidas que construímos.


A história fora da sala

La Famiglia percorre oitenta anos da história italiana sem mostrar nenhum deles diretamente. A Primeira Guerra Mundial chega como ausência de homens jovens e como cartas. O fascismo chega como conversas interrompidas e como cautela. A Segunda Guerra Mundial chega como escuridão e como medo. O boom econômico dos anos 1950 chega como novos objetos no apartamento e como mudanças de roupa. Maio de 1968 chega como jovens que chegam com ideias que os mais velhos não acompanham completamente.

Scola usa essa estratégia de mostrar a história pelo seu reflexo doméstico com uma consciência de que é exatamente assim que a maioria das pessoas experimenta a história: não como evento que participam mas como pressão que chega de fora e muda o que está dentro. La Famiglia é um filme sobre como a história grande e a história pequena se interpenetram sem que nenhuma das duas precise ceder completamente à outra, e essa interpenetração é filmada com uma leveza que esconde a dificuldade do que está sendo feito.


Onde assistir e o que esperar

La Famiglia está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 127 minutos que pedem uma disposição específica: a disposição para habitar um espaço e um tempo com personagens que não vão entregar revelações dramáticas mas vão, se o espectador permitir, produzir algo mais raro e mais duradouro. A segunda visita, com o conhecimento de onde o filme vai chegar, transforma cada cena do início numa despedida antecipada de pessoas que você ainda não sabe que vai perder, e essa transformação é o sinal mais claro de que La Famiglia fez o que os grandes filmes fazem: mudou a forma de ver o que estava vendo.


O que a sala guarda

La Famiglia pertence à série Vale o Play não apesar de ser um filme difícil de classificar mas por causa disso. A Filmoteca Seu Manolo existe também para indicar filmes que o algoritmo não vai recomendar porque não sabe em que caixa colocar, e La Famiglia é exatamente esse tipo de filme: sem gênero fixo, sem conflito central identificável, sem o ritmo que as plataformas de streaming treinaram seus usuários a esperar.

O que Ettore Scola filmou em 1987 é uma demonstração de que o cinema pode fazer algo que nenhuma outra forma narrativa consegue com a mesma eficiência: colocar o espectador dentro do tempo de outra pessoa de uma forma que, quando o filme termina, aquele apartamento romano parece ter sido também seu apartamento, aquela família parece ter sido também sua família, e oitenta anos de uma vida que não foi a sua deixaram uma marca que as próximas horas vão precisar de algum tempo para dissipar, se é que dissipam.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Cerimônia de Casamento (1978) A Wedding - 2 h 05 min

O CINEMA DE ROBERT ALTMAN — Uma Obra em Mosaico

O casamento de Muffin com Dino Corelli será um grande acontecimento. Exceto que o padre idoso não tem muita certeza da cerimônia, apenas as famílias realmente aparecem, já que a conexão italiana Corelli é suspeita, os guardas de segurança vigiam os presentes com muito zelo e a avó de Dino morre na cama assim que a recepção começa. Pode ser uma ocasião e tanto…


Comédia, Drama

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,0
FLICK METRIX: 69   Average Percentile: 60.49%
69%Tomatometer13 Reviews   81%Popcornmeter


Rituais em Colapso

Um casamento reúne famílias, tradições e aparências — até que, sob a superfície da celebração, tudo começa a se desintegrar.


Coreografia do Caos

Em Cerimônia de Casamento, Robert Altman constrói um dos mais elaborados retratos corais de sua carreira. Com dezenas de personagens circulando por uma mansão, o filme acompanha simultaneamente múltiplas situações, conflitos e revelações. A narrativa se fragmenta em pequenas ações e diálogos sobrepostos, criando uma sensação de movimento contínuo, como se o evento jamais pudesse ser apreendido em sua totalidade.


Sátira das Aparências


Por trás da estrutura aparentemente leve, Altman articula uma crítica mordaz à alta sociedade americana. O casamento, símbolo máximo de ordem e tradição, torna-se palco de hipocrisias, interesses ocultos e tensões familiares. Segredos emergem, alianças se desfazem e a formalidade cede lugar ao constrangimento. O riso surge não como alívio, mas como exposição — revelando o vazio por trás das convenções sociais.


Recepção e Reavaliação

Lançado em um momento de intensa experimentação do diretor, o filme foi recebido com interesse, mas também com certo estranhamento diante de sua estrutura dispersa e de seu grande número de personagens. Com o tempo, passou a ser reconhecido como uma das obras mais representativas do estilo coral de Altman, consolidando sua habilidade em organizar o caos e extrair dele um retrato complexo da sociedade.


Entre Fascínio e Rejeição

Os índices de recepção refletem essa dualidade: avaliações geralmente positivas, mas não unanimemente entusiasmadas. Em plataformas amplas, o filme mantém uma boa reputação crítica, embora menos popular entre o grande público. Já em espaços mais especializados, como Flick Metrix e Criticker, sua apreciação tende a crescer, especialmente entre espectadores interessados em narrativas corais e estruturas fragmentadas. Por outro lado, o grande número de personagens e a ausência de um foco central podem afastar aqueles que buscam identificação clara ou desenvolvimento dramático tradicional, tornando o filme uma experiência tão fascinante quanto exigente.