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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Casa do Sorriso (1991) La casa del sorriso - 1 h 50 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Um casal de septuagenários se sente atraído em um asilo de idosos, mas descobre que a instituição e seus colegas pacientes desaprovam o relacionamento deles.


Drama, Romance

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 6,5





Um romance tardio que encontra ternura e rebeldia onde a vida parecia já ter silenciado os desejos.


🏡 Amor na Última Estação

Em A Casa do Sorriso (1991) — La casa del sorriso —, o diretor italiano Marco Ferreri ambienta sua narrativa em uma casa de repouso, cenário onde o tempo parece correr mais devagar e as expectativas são discretas. É nesse espaço aparentemente conformado que nasce a relação entre dois idosos, Antonio e Adelina, cujo encontro reacende impulsos afetivos e desejos que muitos ao redor prefeririam ignorar.


❤️ Desejo Contra a Convenção



Ferreri trata o amor na velhice com mistura de delicadeza e provocação, questionando tabus sociais sobre sexualidade e autonomia na terceira idade. O romance dos protagonistas funciona como gesto de resistência contra a institucionalização da vida e contra a ideia de que o desejo tem prazo de validade. O filme alterna ternura e ironia ao observar as reações do ambiente ao redor.


🎬 Entre Melancolia e Humor Amargo


A encenação carrega a marca autoral de Ferreri: um olhar simultaneamente compassivo e levemente mordaz sobre a condição humana. O ritmo contemplativo e a atenção aos pequenos gestos reforçam o tom agridoce da narrativa, enquanto o espaço fechado da instituição funciona como metáfora do confinamento social dos personagens.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1991, A Casa do Sorriso foi reconhecido por sua abordagem sensível e pouco convencional do amor na velhice. O filme reafirmou a reputação de Marco Ferreri como cineasta interessado em provocar e humanizar ao mesmo tempo. Com o passar dos anos, permanece como uma obra singular dentro de sua filmografia e do cinema europeu do período.


🌅 A Rebeldia de Sentir

Ao final, A Casa do Sorriso sugere que o impulso de amar persiste mesmo quando o mundo espera resignação. Entre fragilidade e desafio, o filme permanece como uma lembrança delicada de que a vida emocional não obedece ao calendário — ela insiste em florescer onde encontra espaço.

 



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Depois do Ensaio (1984) Efter repetitionen - Filme para televisão - 1 h 10 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

Enquanto um dramaturgo envelhecido interage com a jovem protagonista de sua peça depois que todos já foram para casa, ele relembra a mãe dela, com quem manteve um relacionamento sexual antes de ela morrer.


Depois do Ensaio (Filme para televisão 1984) - IMDb
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Drama

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,1
92%Tomatometer13 Reviews   80%Popcornmeter




O Teatro como Lugar da Memória Viva

Depois do Ensaio (Efter repetitionen, 1984) é uma das obras mais autobiográficas e contemplativas de Ingmar Bergman, um filme em que o espaço teatral se transforma em território da memória, da criação artística e do acerto de contas silencioso com o tempo vivido.


Um Palco Vazio, Três Presenças


A narrativa se passa quase integralmente em um teatro após um ensaio. Um diretor veterano permanece sozinho no palco e, ao longo da noite, recebe a visita de duas atrizes ligadas a diferentes momentos de sua vida. O que poderia ser apenas uma conversa casual se converte em reflexão profunda sobre amor, poder, criação e herança afetiva, sem que a ação jamais abandone o espaço cênico.


Amor, Autoridade e Culpa Artística

Bergman explora com franqueza desconcertante as relações assimétricas entre diretor e atriz, mestre e discípula, homem maduro e mulheres mais jovens. O afeto se mistura à autoridade, o desejo à dependência, e a criação artística à culpa, revelando como o teatro — assim como a vida — pode ser espaço tanto de revelação quanto de exploração emocional.


Teatro e Cinema em Diálogo Íntimo


Formalmente, Depois do Ensaio assume sua natureza híbrida: é cinema que se constrói a partir da teatralidade, mas que utiliza o close, o silêncio e o tempo morto para alcançar uma intimidade impossível no palco tradicional. Bergman transforma o ensaio em metáfora da própria existência: nunca finalizada, sempre sujeita a correções e revisões tardias.


O Tempo como Personagem Invisível

O filme é atravessado pela consciência da finitude. O diretor envelhecido revisita escolhas, arrependimentos e relações passadas não para corrigi-las, mas para compreendê-las. A memória não surge como nostalgia idealizada, mas como espaço ambíguo onde culpa, ternura e lucidez coexistem sem resolução clara.


Mulheres, Espelhos e Continuidade


As duas atrizes funcionam como espelhos temporais: uma representa o passado, outra o presente em formação. Entre elas, o diretor percebe tanto sua influência quanto sua falha, reconhecendo que cada relação deixou marcas irreversíveis. Bergman sugere que a criação artística se constrói não apenas a partir do talento, mas das pessoas atravessadas ao longo do caminho.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

Inserido plenamente na Fase 5 – Memória, teatro e reconciliação, Depois do Ensaio é um dos filmes mais transparentemente confessionais de Bergman. Aqui, o cineasta abandona a crueldade analítica em favor de uma lucidez melancólica, na qual o julgamento dá lugar à aceitação parcial do que foi vivido.


Um Epílogo em Tom Menor


Recebido com admiração por sua simplicidade e profundidade, o filme permanece como um epílogo íntimo dentro da obra bergmaniana. Depois do Ensaio não busca impacto dramático nem síntese filosófica grandiosa. Ele se encerra como um sussurro consciente: a arte continua, a memória persiste — e a reconciliação, quando possível, acontece apenas na escuta atenta do passado.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Gritos e Sussurros (1972) Viskningar och rop - 1 h 31 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

Quando uma mulher que morre de câncer no início do século XX, na Suécia, é visitada por suas duas irmãs, sentimentos reprimidos entre os irmãos emergem à superfície.


Gritos e Sussurros (1972) - IMDb
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Drama de Época, Drama Psicológico


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 7,9
92%Tomatometer36 Reviews   90%Popcornmeter


A Dor que Ecoa Dentro das Paredes

Gritos e Sussurros (Viskningar och rop, 1972) é uma das obras mais intensas, rigorosas e sensoriais de Ingmar Bergman, na qual o sofrimento físico e emocional se torna matéria central do cinema, filmado não como abstração filosófica, mas como experiência visceral, íntima e quase insuportável.


Uma Casa Dominada pela Agonia

Ambientado quase inteiramente em uma mansão isolada, o filme acompanha três irmãs reunidas em torno da lenta e dolorosa agonia de uma delas. O espaço doméstico, longe de oferecer acolhimento, funciona como câmara de ressonância da dor, onde cada quarto, corredor e silêncio amplifica tensões afetivas antigas e ressentimentos nunca elaborados.


Doença, Morte e Solidão Radical

Bergman confronta a morte de forma direta, sem transcendência nem consolo religioso. A dor física da personagem doente é filmada em sua materialidade brutal, enquanto as outras mulheres revelam diferentes estratégias de fuga: repressão emocional, frieza moral, autocentramento ou submissão. A morte não une; expõe.


Amor Falhado e Violência Afetiva

O filme é um retrato implacável da incapacidade de amar. As relações entre as irmãs são marcadas por inveja, culpa, rivalidade e distância emocional. Bergman sugere que a violência mais devastadora não é explícita, mas cotidiana: a recusa do cuidado, a incapacidade de escuta e o medo do contato genuíno com a dor do outro.


O Vermelho como Corpo do Filme


Formalmente, Gritos e Sussurros é uma das experiências visuais mais radicais da história do cinema. O uso obsessivo do vermelho, nas paredes, nos tecidos, na luz, transforma o espaço em metáfora orgânica: útero, ferida, interior do corpo. A cor deixa de ser elemento estético para se tornar sensação física, emocionalmente opressiva.


Silêncio, Sussurro e Grito

Bergman constrói uma partitura sonora em que o silêncio pesa tanto quanto o grito. Os sussurros indicam o que não pode ser dito, enquanto os gritos rompem qualquer possibilidade de contenção. A alternância entre esses registros cria um ritmo emocional que reproduz a oscilação entre repressão e explosão psíquica.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

Inserido no coração da Fase 4 – Maturidade psicológica e dramas conjugais, Gritos e Sussurros desloca o foco do casamento para os laços familiares, revelando que a violência emocional não se restringe ao amor romântico. É um dos filmes em que Bergman atinge máxima precisão na dissecação das relações afetivas e da dor feminina.


Uma Visão Sem Consolação

Aclamado internacionalmente e reconhecido como uma obra-prima, o filme permanece perturbador porque se recusa a oferecer redenção. Não há cura, aprendizado nem transcendência. Gritos e Sussurros afirma, com brutal honestidade, que a proximidade humana não garante cuidado e que, diante da morte, o maior terror pode ser perceber o quanto estivemos sozinhos mesmo entre aqueles que chamamos de família.









O Rito (1969) Riten - Filme para televisão - 1 h 12 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

Uma trupe de teatro é chamada ao tribunal por causa de material obsceno de performance e um interrogatório se segue, que os faz expor suas neuroses e tormento psicológico internos.


O Rito (Filme para televisão 1969) - IMDb
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Drama

MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,0
75%Tomatometer8 Reviews   72%Popcornmeter




O Julgamento como Espetáculo de Poder

O Rito (Riten, 1969) é uma obra concentrada e feroz de Ingmar Bergman, na qual o confronto entre arte e autoridade se transforma em um jogo claustrofóbico de dominação, culpa e exposição — um filme que reduz o drama ao embate nu entre corpos, palavras e instituições.


Três Artistas Diante do Estado

A narrativa acompanha três performers acusados de obscenidade e submetidos a interrogatórios por um juiz que busca definir os limites do aceitável. O espaço é mínimo, o tempo comprimido e a situação repetitiva: perguntas, suspeitas e silêncios constroem uma atmosfera de cerco, em que a justiça não busca compreender a arte, mas controlá-la.


Arte como Ameaça, Moral como Arma

Bergman apresenta a arte não como ornamento cultural, mas como força desestabilizadora. O “rito” — uma performance ambígua e provocadora — torna-se objeto de escândalo porque expõe desejos, pulsões e violências que a moral pública prefere ocultar. A acusação de obscenidade funciona, assim, como instrumento de repressão do que é incômodo.


Erotismo, Violência e Ambiguidade

O filme não esclarece plenamente o conteúdo do rito; em vez disso, explora a reação que ele provoca. Erotismo e violência surgem menos como atos explícitos e mais como tensões latentes, deslocando o foco para o olhar acusador do poder. Bergman sugere que a obscenidade reside menos na arte do que na obsessão de quem deseja regulá-la.


Interrogatório como Teatro


Formalmente, O Rito assume um rigor quase teatral: planos fechados, cenários reduzidos, ritmo cortante e diálogos afiados. Cada interrogatório é encenado como performance, invertendo papéis — o juiz torna-se ator, os artistas tornam-se espelhos — e revelando que toda autoridade também depende de máscaras e encenações.


O Corpo como Última Fronteira

Na ausência de transcendência e de consenso moral, o corpo torna-se campo final de disputa. Olhares, respirações e posturas substituem grandes ações, intensificando o embate psicológico. Bergman reduz o cinema ao essencial para mostrar como o poder opera não apenas por leis, mas pela intimidação sensível.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

Situado no encerramento da Fase 3 – Crise da fé e radicalização estética, O Rito sintetiza os vetores centrais do período: a desconfiança das instituições, a fragmentação da identidade e a recusa de narrativas conciliatórias. É também um comentário autorreflexivo sobre a posição do artista diante da censura e do julgamento público.


Um Final em Suspensão

Sem absolvição clara nem condenação inequívoca, o filme termina preservando a ambiguidade que o sustenta. O Rito não propõe reconciliação entre arte e poder; expõe, antes, a impossibilidade desse acordo. O que permanece é a tensão — e a pergunta incômoda: quem decide o que pode ou não ser mostrado quando a arte toca o nervo do desejo e da violência?

A Hora do Lobo (1968) Vargtimmen - 1 h 30 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

Enquanto estava de férias em uma remota ilha escandinava com sua jovem esposa grávida, um artista sofre um colapso emocional quando se depara com seus desejos reprimidos.


A Hora do Lobo (1968) - IMDb
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Drama Psicológico, Horror, Mistério

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5
92%Tomatometer26 Reviews   86%Popcornmeter




Quando a Noite Invade a Consciência

A Hora do Lobo (Vargtimmen, 1968) é a incursão mais direta de Ingmar Bergman no território do horror psicológico, um filme em que o medo deixa de ser externo ou simbólico e passa a emergir da própria mente, transformando a criação artística em experiência de ameaça e desintegração.


Um Artista à Beira do Colapso

A narrativa acompanha Johan Borg, pintor atormentado por insônia, visões e lembranças obsessivas, isolado com a esposa em uma ilha aparentemente tranquila. A estrutura do filme é construída a partir do relato da mulher após o desaparecimento do marido, fazendo do enredo uma reconstrução fragmentada da descida gradual de Johan à loucura — ou à revelação de algo insuportável.


A Hora do Lobo como Estado Mental

A “hora do lobo” — intervalo entre a noite e o amanhecer — é definida como o momento em que nascem os pesadelos, quando os medos mais profundos emergem sem defesa possível. Bergman transforma esse conceito em estado psíquico permanente, sugerindo que o terror não é episódico, mas condição contínua de quem perde a separação entre realidade, memória e imaginação.


Criação Artística e Autodestruição

O filme estabelece uma ligação direta entre criação e sofrimento. Johan não é vítima passiva de monstros externos: seus demônios são inseparáveis de sua sensibilidade artística. Bergman sugere que a imaginação, quando levada ao limite, pode se voltar contra o próprio criador, dissolvendo a identidade em imagens obsessivas, culpa e desejo reprimido.


O Horror como Forma Psicológica


Diferente do horror tradicional, A Hora do Lobo não depende de suspense ou choque, mas de desconforto progressivo. As figuras grotescas, os aristocratas decadentes e os episódios aparentemente sobrenaturais funcionam como materializações do inconsciente, criando um cinema em que o terror nasce da exposição extrema do eu.


Amor, Testemunho e Impotência

A esposa de Johan ocupa posição central como testemunha impotente da ruína do outro. Seu amor não salva, não interrompe, não compreende plenamente. Bergman constrói aqui uma das visões mais duras do amor conjugal: não como redenção, mas como convivência dolorosa com a impossibilidade de alcançar o outro em seu abismo interior.


Forma Fragmentada e Lógica do Pesadelo

Formalmente, o filme abandona qualquer compromisso com a continuidade clássica. Saltos narrativos, cenas abruptas, olhares diretos para a câmera e episódios sem explicação racional constroem uma lógica onírica coerente apenas emocionalmente. O espectador não assiste: participa do descontrole.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

Inserido no ápice da Fase 3 – Crise da fé e radicalização estética, A Hora do Lobo desloca o eixo bergmaniano do silêncio de Deus para o terror do eu. Se Persona fragmenta a identidade e O Silêncio elimina a linguagem, aqui Bergman expõe o que sobra: o medo nu, sem mediação simbólica ou transcendental.


Um Horror Existencial Sem Catarse


Recebido com estranhamento e fascínio, o filme foi posteriormente reconhecido como uma das obras mais perturbadoras de Bergman. A Hora do Lobo não oferece explicação nem cura: encerra-se como um pesadelo que não se resolve ao despertar, afirmando que o verdadeiro horror não está no mundo — mas na mente que já não consegue distingui-lo de si mesma.

O Silêncio (1963) Tystnaden - 1 h 36 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

Duas irmãs afastadas, Ester e Anna, e o filho de 10 anos de Anna viajam para a Europa Central à beira da guerra. Ester fica gravemente doente e os três se mudam para um hotel em uma pequena cidade chamada Timoka.


O Silêncio (1963) - IMDb
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Drama Psicológico

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7
85%Tomatometer20 Reviews   88%Popcornmeter




O Silêncio (Tystnaden, 1963) é uma das obras mais perturbadoras e radicais de Ingmar Bergman, na qual a comunicação humana entra em colapso completo e o silêncio deixa de ser metáfora religiosa para se tornar condição existencial absoluta.


Um Espaço Estrangeiro e Sem Nome

A narrativa acompanha duas irmãs e um menino em uma cidade desconhecida, marcada por uma língua incompreensível, atmosfera opressiva e tensões políticas latentes. O hotel onde se instalam funciona como espaço de confinamento psicológico: corredores intermináveis, quartos fechados e ruídos distantes substituem qualquer sensação de pertencimento ou orientação.


O Fim da Linguagem e da Escuta


Em O Silêncio, Bergman leva ao extremo a falência da comunicação já anunciada em Luz de Inverno. As personagens não apenas falham em se compreender — elas já não desejam compreender. A palavra se torna agressão, a escuta se dissolve e o diálogo cede lugar a gestos mecânicos, explosões de ressentimento e isolamento radical.


Corpo, Desejo e Desespero

Com Deus definitivamente ausente, o corpo emerge como último território de experiência. O desejo aparece despido de transcendência, reduzido a impulso, necessidade ou anestesia momentânea contra o vazio. Bergman filma o erotismo sem idealização, associando-o ao cansaço, à repetição e à incapacidade de gerar vínculo duradouro.


Um Mundo sem Mediação Moral

O filme apresenta um universo onde nenhuma instância simbólica — religiosa, ética ou social — organiza a experiência. Não há culpa redentora, nem promessa de sentido. A presença constante de ruídos mecânicos, tanques de guerra e movimentos militares reforça a sensação de um mundo entregue à força bruta e à incompreensão mútua.


A Criança como Última Testemunha


O olhar infantil atravessa o filme como possibilidade residual de curiosidade e contato. O menino observa, aprende palavras estrangeiras e tenta decifrar o mundo sem receber explicações. Ele não salva, não redime — apenas registra. Sua presença sugere que, mesmo no silêncio absoluto, algo ainda é transmitido, ainda que de forma fragmentária e precária.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

O Silêncio encerra a chamada “trilogia da fé” (Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio) e marca o ponto máximo da Fase 3 – Crise da fé e radicalização estética. Aqui, Bergman abandona definitivamente qualquer horizonte transcendental e confronta o espectador com um mundo pós-Deus, pós-linguagem e pós-consolo.


Um Limite do Cinema Moderno

Recebido com escândalo, censura e intenso debate crítico, O Silêncio permanece como uma das experiências mais extremas do cinema do século XX. Não há mensagem final nem síntese possível — apenas a constatação brutal de que, quando a palavra falha e o sagrado se ausenta, resta ao ser humano enfrentar o outro sem mediação alguma. O silêncio, então, deixa de ser vazio: torna-se presença esmagadora.

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O Sonho (1963) Ett drömspel - Filme para televisão - 1 h 53 min

Mostra O Cinema de Ingmar Bergman

A filha do deus Indra desce à terra para experimentar de perto as condições de vida das pessoas. Primeira encenação de Bergman da peça de Strindberg "Ett drömspel" (Peça dos Sonhos).


Drama, Fantasia


MP4 / SD+ / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,0





O Mundo Visto Através da Lógica do Sonho

O Sonho (Ett drömspel, 1963) é uma obra singular de Ingmar Bergman, na qual o cineasta radicaliza sua ruptura com o realismo narrativo ao assumir plenamente a lógica do sonho como estrutura dramática, temporal e emocional.


Um Drama Sem Tempo Nem Centro

Inspirado na peça homônima de August Strindberg, o filme abandona a progressão causal tradicional e se organiza como fluxo descontínuo de situações, personagens e espaços. A narrativa não avança: ela se desloca, se repete, se dissolve. Pessoas surgem e desaparecem, conflitos não se resolvem, e o mundo é apresentado como sucessão de estados de sofrimento e expectativa.


Sofrimento Humano como Experiência Universal

No centro do filme está a constatação de que a existência é marcada pela dor — não uma dor espetacular, mas cotidiana, estrutural, quase banal. Bergman transforma o sofrimento humano em matéria filosófica, mostrando personagens presos a casamentos infelizes, frustrações profissionais, humilhações sociais e desejos jamais satisfeitos, sem hierarquia ou redenção.


Identidade Fluida e Eu Fragmentado

Em O Sonho, as identidades não são estáveis: personagens se fundem, se duplicam ou se contradizem. Essa fragmentação do sujeito traduz uma visão profundamente moderna do eu, coerente com a Fase 3 – Crise da fé e radicalização estética, em que Bergman abandona a psicologia clássica para explorar estados mentais instáveis, contraditórios e inconclusos.


Forma Onírica como Ética do Cinema

Formalmente, o filme assume cenários artificiais, transições abruptas, cortes ilógicos e uma encenação deliberadamente teatral. Bergman não tenta “naturalizar” o sonho: ele o expõe como construção, recusando o conforto da ilusão realista. O espectador não é conduzido, mas lançado em um espaço de incerteza permanente.


Deus Observa, Mas Não Intervém

Diferente de Luz de Inverno, onde o silêncio de Deus é absoluto, aqui a divindade existe como olhar distante, incapaz de agir. A compaixão divina não se traduz em transformação do mundo. O sofrimento é visto, reconhecido — e ainda assim mantido, como condição inescapável da vida humana.


O Filme na Obra de Ingmar Bergman

O Sonho ocupa um lugar extremo na filmografia de Bergman: é uma das obras em que o cineasta mais se afasta da narrativa cinematográfica tradicional e mais se aproxima de uma forma ensaística, abstrata e filosófica, antecipando experimentações radicais que marcariam o restante da década.


Uma Experiência, Não um Enredo

Recebido com estranhamento e resistência, o filme permanece como uma das experiências mais exigentes do cinema de Bergman. O Sonho não busca compreensão imediata, mas adesão sensível: não se entende — atravessa-se. E ao fazê-lo, o espectador é confrontado com uma visão dura, lúcida e profundamente moderna da existência como sonho doloroso do qual não se desperta.









ANÁLISE

Indra é o deus Védico das tempestades, o rei dos céus. Este posto, segundo a crença hindu, é volátil, podendo haver um candidato ao “cargo de rei dos céus” toda vez que alguém completar mil Sacrifícios de Ashwamedha, algo que deixa o rei atual em vigilância e tensão, sempre tentando impedir que alguém consiga completar a tarefa. Na peça O Sonho (1901), do dramaturgo sueco August Strindberg, Indra tem uma filha chamada Agnes, que desce à Terra para presenciar os muitos sofrimentos pelos quais os seres humanos passam. Nessa jornada, Agnes (aqui interpretada pela sempre excelente Ingrid Thulin), encontra-se com 40 personagens, alguns deles representando versões críticas do autor para ocupações como teologia, filosofia, medicina e direito.

No mesmo ano em que foram lanços Luz de Inverno e O Silêncio, Bergman produziu para a televisão uma adaptação dessa peça de Strindberg, a primeira de três versões que ele dirigiria ao longo da vida. E que adaptação! Sabendo lidar muito bem com o caráter dual de expressionismo e surrealismo contidos no original, o diretor criou um interessante híbrido de forma e conteúdo sem tornar a história cansativa para o espectador. Como não se trata de uma peça pequena e nem de uma peça simples, era necessário uma mão experiente para colocar na TV tantas mudanças de cenários, tantos tipos diferentes de personagens, modelos de apresentar ideias, de usar a música, a fotografia e de discutir questões humanas sob o ponto de vista da filha de um Deus.

Mas há aqui também o fator da maturidade. O Sonho é tecnicamente muito superior a outras obras televisivas de Bergman, como A Chegada do Sr. Sleeman (1957) e principalmente A Mulher Veneziana (1958), até aqui, a sua pior obra, superando o maldito e rejeitado pelo próprio diretor Isto Não Aconteceria Aqui (1950). Talvez por ter um maior domínio das ferramentas de produção ou maior afinidade com o formato para tela pequena, ele criou neste telefilme uma história extremamente cativante e fluída de sonhos dentro de sonhos, tudo isso sem complicações desnecessárias. Apenas o começo do filme sofre um pouco com o peso do tema, confundindo o público. A apresentação, primeiras ações e encontros de Agnes não possuem a mesma delicadeza que as passagens após a chegada do homem que espera sua amada no teatro (“Victoriaaaaaaaa!“) — uma amada que nunca vem. Esse personagem de alguma forma encarna os tormentos do escritor, que estava em um terrível estágio emocional e psicológico quando escreveu a peça, situação na qual se viu após ser abandonado pela esposa.

Depois deste ponto, porém, o espectador entende a ideia de Bergman e o sentido da peça. Todo o texto trata o mundo onírico como uma realidade possível e não existe nada fora dele. O final da peça é, inclusive, o despertar, o momento onde talvez todas aquelas facetas embrulhadas em fotografia inteligente (temos 6 diretores de fotografia aqui!) e encontro com verdades bastante incômodas podem novamente acontecer. Coisas como pobreza, crueldade, exploração humana através do trabalho, rejeição, desamor, os muitos tipos de contendas familiares, o exercício viciado da lei e todas as complicações desnecessárias e pomposas da religião… Tudo isso pode ser encontrado no mundo da vigília, mas não é este mundo que interessa ao autor e nem ao diretor. No sonho, os encontros são acompanhados de um olhar que se importa, que se emociona e que não tem medo de falar o que algumas pessoas em posições dominadoras merecem ouvir nesses espaços sociais.

Em O Sonho Bergman conseguiu o tom correto para trabalhar diferentes tormentos gerais e perturbações íntimas em um ambiente que pode ser o de todo mundo; a vida ou a impressão que temos dela. Sua direção de atores, sua forma de dar atenção aos rostos e de capturar emoções através da câmera adiciona um tom de urgência às tribulações às vezes tão comuns em nosso mundo. Este é o poder de um bom drama e de uma boa adaptação. A capacidade que o artista tem de transformar o trivial em algo extraordinário e de fazer com que o público olhe como se deve olhar para problemas sérios que, por serem tão banais, pararam de ter a importância que tinham quando foram descobertos, observados pela primeira vez. Adota-se o ponto de vista de Agnes, daquela que experimenta a tristeza e a miséria concluindo que nós, humanos, somos sim dinos de piedade. E muito fortes.

O Sonho é o resultado final de um aprendizado obtido no cinema (cenário muito presente na primeira fase da carreira de Bergman) e uma preparação, através de outro formato e com outras técnicas, para o que viria em seus filmes seguintes. Além de uma ótima transposição de Strindberg para as telas, esta obra foi um laboratório exemplar para o cineasta. Uma cartilha de criar sonhos que lhe serviria e que ele aprimoraria muitíssimo no futuro.

O Sonho (Ett drömspel) — Suécia, 1963
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: August Strindberg
Elenco: Ingrid Thulin, Uno Henning, Allan Edwall, Olof Widgren, John Elfström, Maude Adelson, Ragnar Arvedson, Einar Axelsson, Julie Bernby, Carl Billquist, Ingrid Borthen, Helena Brodin, Märta Dorff, Elsa Ebbesen, Signe Enwall
Duração: 113 min.