Mostra O Cinema de Ingmar Bergman
A filha do deus Indra desce à terra para experimentar de perto as condições de vida das pessoas. Primeira encenação de Bergman da peça de Strindberg "Ett drömspel" (Peça dos Sonhos).
Drama, Fantasia
MP4 / SD+ / LEG: Inglês e português traduzido
IMDB: 7,0
O Mundo Visto Através da Lógica do Sonho
O Sonho (Ett drömspel, 1963) é uma obra
singular de Ingmar Bergman, na qual o cineasta radicaliza sua ruptura
com o realismo narrativo ao assumir plenamente a lógica do sonho como estrutura
dramática, temporal e emocional.
Um Drama Sem Tempo Nem Centro
Inspirado na peça homônima de August Strindberg, o filme
abandona a progressão causal tradicional e se organiza como fluxo descontínuo
de situações, personagens e espaços. A narrativa não avança: ela se desloca, se
repete, se dissolve. Pessoas surgem e desaparecem, conflitos não se resolvem, e
o mundo é apresentado como sucessão de estados de sofrimento e expectativa.
Sofrimento Humano como Experiência Universal
No centro do filme está a constatação de que a existência é
marcada pela dor — não uma dor espetacular, mas cotidiana, estrutural, quase
banal. Bergman transforma o sofrimento humano em matéria filosófica, mostrando
personagens presos a casamentos infelizes, frustrações profissionais,
humilhações sociais e desejos jamais satisfeitos, sem hierarquia ou redenção.
Identidade Fluida e Eu Fragmentado
Em
O Sonho, as identidades não são estáveis:
personagens se fundem, se duplicam ou se contradizem. Essa fragmentação do
sujeito traduz uma visão profundamente moderna do eu, coerente com a
Fase 3
– Crise da fé e radicalização estética, em que Bergman abandona a
psicologia clássica para explorar estados mentais instáveis, contraditórios e
inconclusos.
Forma Onírica como Ética do Cinema
Formalmente, o filme assume cenários artificiais, transições
abruptas, cortes ilógicos e uma encenação deliberadamente teatral. Bergman não
tenta “naturalizar” o sonho: ele o expõe como construção, recusando o conforto
da ilusão realista. O espectador não é conduzido, mas lançado em um espaço de
incerteza permanente.
Deus Observa, Mas Não Intervém
Diferente de Luz de Inverno, onde o silêncio de Deus
é absoluto, aqui a divindade existe como olhar distante, incapaz de agir. A
compaixão divina não se traduz em transformação do mundo. O sofrimento é visto,
reconhecido — e ainda assim mantido, como condição inescapável da vida humana.
O Filme na Obra de Ingmar Bergman
O Sonho ocupa um lugar extremo na filmografia de
Bergman: é uma das obras em que o cineasta mais se afasta da narrativa
cinematográfica tradicional e mais se aproxima de uma forma ensaística,
abstrata e filosófica, antecipando experimentações radicais que marcariam o
restante da década.
Uma Experiência, Não um Enredo
Recebido com estranhamento e resistência, o filme permanece
como uma das experiências mais exigentes do cinema de Bergman.
O Sonho
não busca compreensão imediata, mas adesão sensível: não se entende —
atravessa-se. E ao fazê-lo, o espectador é confrontado com uma visão dura,
lúcida e profundamente moderna da existência como sonho doloroso do qual não se
desperta.
ANÁLISE
Indra é o deus Védico das tempestades, o rei dos céus. Este posto, segundo a crença hindu, é volátil, podendo haver um candidato ao “cargo de rei dos céus” toda vez que alguém completar mil Sacrifícios de Ashwamedha, algo que deixa o rei atual em vigilância e tensão, sempre tentando impedir que alguém consiga completar a tarefa. Na peça O Sonho (1901), do dramaturgo sueco August Strindberg, Indra tem uma filha chamada Agnes, que desce à Terra para presenciar os muitos sofrimentos pelos quais os seres humanos passam. Nessa jornada, Agnes (aqui interpretada pela sempre excelente Ingrid Thulin), encontra-se com 40 personagens, alguns deles representando versões críticas do autor para ocupações como teologia, filosofia, medicina e direito.
No mesmo ano em que foram lanços Luz de Inverno e O Silêncio, Bergman produziu para a televisão uma adaptação dessa peça de Strindberg, a primeira de três versões que ele dirigiria ao longo da vida. E que adaptação! Sabendo lidar muito bem com o caráter dual de expressionismo e surrealismo contidos no original, o diretor criou um interessante híbrido de forma e conteúdo sem tornar a história cansativa para o espectador. Como não se trata de uma peça pequena e nem de uma peça simples, era necessário uma mão experiente para colocar na TV tantas mudanças de cenários, tantos tipos diferentes de personagens, modelos de apresentar ideias, de usar a música, a fotografia e de discutir questões humanas sob o ponto de vista da filha de um Deus.
Mas há aqui também o fator da maturidade. O Sonho é tecnicamente muito superior a outras obras televisivas de Bergman, como A Chegada do Sr. Sleeman (1957) e principalmente A Mulher Veneziana (1958), até aqui, a sua pior obra, superando o maldito e rejeitado pelo próprio diretor Isto Não Aconteceria Aqui (1950). Talvez por ter um maior domínio das ferramentas de produção ou maior afinidade com o formato para tela pequena, ele criou neste telefilme uma história extremamente cativante e fluída de sonhos dentro de sonhos, tudo isso sem complicações desnecessárias. Apenas o começo do filme sofre um pouco com o peso do tema, confundindo o público. A apresentação, primeiras ações e encontros de Agnes não possuem a mesma delicadeza que as passagens após a chegada do homem que espera sua amada no teatro (“Victoriaaaaaaaa!“) — uma amada que nunca vem. Esse personagem de alguma forma encarna os tormentos do escritor, que estava em um terrível estágio emocional e psicológico quando escreveu a peça, situação na qual se viu após ser abandonado pela esposa.
Depois deste ponto, porém, o espectador entende a ideia de Bergman e o sentido da peça. Todo o texto trata o mundo onírico como uma realidade possível e não existe nada fora dele. O final da peça é, inclusive, o despertar, o momento onde talvez todas aquelas facetas embrulhadas em fotografia inteligente (temos 6 diretores de fotografia aqui!) e encontro com verdades bastante incômodas podem novamente acontecer. Coisas como pobreza, crueldade, exploração humana através do trabalho, rejeição, desamor, os muitos tipos de contendas familiares, o exercício viciado da lei e todas as complicações desnecessárias e pomposas da religião… Tudo isso pode ser encontrado no mundo da vigília, mas não é este mundo que interessa ao autor e nem ao diretor. No sonho, os encontros são acompanhados de um olhar que se importa, que se emociona e que não tem medo de falar o que algumas pessoas em posições dominadoras merecem ouvir nesses espaços sociais.
Em O Sonho Bergman conseguiu o tom correto para trabalhar diferentes tormentos gerais e perturbações íntimas em um ambiente que pode ser o de todo mundo; a vida ou a impressão que temos dela. Sua direção de atores, sua forma de dar atenção aos rostos e de capturar emoções através da câmera adiciona um tom de urgência às tribulações às vezes tão comuns em nosso mundo. Este é o poder de um bom drama e de uma boa adaptação. A capacidade que o artista tem de transformar o trivial em algo extraordinário e de fazer com que o público olhe como se deve olhar para problemas sérios que, por serem tão banais, pararam de ter a importância que tinham quando foram descobertos, observados pela primeira vez. Adota-se o ponto de vista de Agnes, daquela que experimenta a tristeza e a miséria concluindo que nós, humanos, somos sim dinos de piedade. E muito fortes.
O Sonho é o resultado final de um aprendizado obtido no cinema (cenário muito presente na primeira fase da carreira de Bergman) e uma preparação, através de outro formato e com outras técnicas, para o que viria em seus filmes seguintes. Além de uma ótima transposição de Strindberg para as telas, esta obra foi um laboratório exemplar para o cineasta. Uma cartilha de criar sonhos que lhe serviria e que ele aprimoraria muitíssimo no futuro.
O Sonho (Ett drömspel) — Suécia, 1963
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: August Strindberg
Elenco: Ingrid Thulin, Uno Henning, Allan Edwall, Olof Widgren, John Elfström, Maude Adelson, Ragnar Arvedson, Einar Axelsson, Julie Bernby, Carl Billquist, Ingrid Borthen, Helena Brodin, Märta Dorff, Elsa Ebbesen, Signe Enwall
Duração: 113 min.