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sábado, 18 de abril de 2026

Ingrid Vai Para o Oeste (2017) Ingrid Goes West - 1 h 38 min

VOCÊ AINDA É VOCÊ QUANDO ESTÁ SOZINHO?: A Estranha Sensação de Estar Sempre em Cena

Uma perseguidora das mídias sociais se muda para Los Angeles e se insinua na vida de uma estrela da Instagram.


Comédia de Humor Negro, Drama, Horror, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 7,1
Flick Metrix: 66   Criticker Average Percentile: 48%
84%Tomatometer197 Reviews   71%Popcornmeter

Querer pertencer pode virar obsessão quando a vida vira vitrine


A vida como feed infinito

Ingrid Goes West acompanha uma mulher que não sabe muito bem quem é, então tenta existir através dos outros. Ingrid se muda para Los Angeles e passa a imitar cada detalhe da vida de uma influencer que ela segue online. O filme mostra de forma direta e desconfortável como a comparação constante nas redes pode distorcer a percepção da realidade.


Entre admiração e invasão


O que começa como admiração vira algo mais invasivo. Ingrid não quer apenas acompanhar aquela vida, ela quer fazer parte dela a qualquer custo. E é aí que o filme acerta muito, porque não transforma isso em algo distante ou absurdo demais. Em vários momentos, a gente reconhece pequenas versões desse comportamento em nós mesmos.


A solidão por trás da estética


Por trás das fotos bonitas e da vida aparentemente perfeita, existe um vazio que o filme não tenta esconder. Ingrid não está só buscando amizade ou reconhecimento, ela está tentando preencher um buraco emocional que nenhuma validação online consegue resolver. Isso dá ao filme um tom melancólico que contrasta com a aparência colorida e leve.


Rir desconfortável também é rir

O filme tem humor, mas é aquele tipo de humor que incomoda. Você ri e logo depois percebe que a situação não tem nada de leve. Essa mistura funciona porque expõe o ridículo sem aliviar a dor. É um riso meio travado, meio consciente.


Ser visto ou ser alguém

No fundo, Ingrid Goes West é sobre a dificuldade de existir sem plateia. Sobre como, em um mundo onde tudo pode ser mostrado, a linha entre viver e performar fica cada vez mais confusa. E o mais perturbador é perceber que o filme não exagera tanto quanto a gente gostaria de acreditar.

 







quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

As Três Filhas (2023) His Three Daughters - 1 h 41 min

Filme incuso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Drama


MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,1   METASCORE: 8,3
Letterboxd: 7,6   CLC Balanced Rating: 7,8
97%Tomatometer

Três irmãs se reúnem no apartamento do pai para acompanhar os últimos dias dele. O que elas têm em comum é o pai. O resto é tudo diferente.

Um apartamento como câmara de pressão

Azazel Jacobs filma quase o filme inteiro dentro de um apartamento do Lower East Side, em Manhattan, onde Vincent, o pai das três protagonistas, está em cuidados paliativos sob os efeitos de morfina, num quarto ao fundo do corredor. A câmera raramente sai desse espaço, e quando sai é para o saguão do prédio ou para a rua imediatamente em frente, nunca além disso. Essa contenção espacial transforma o apartamento numa câmara de pressão: três adultas que já tinham vidas separadas, hábitos separados e formas separadas de lidar com a própria existência são forçadas a compartilhar metros quadrados, banheiro e silêncio durante dias que ninguém sabe quanto vão durar.

O roteiro de Jacobs respeita o tempo real dessa espera. Não há elipses que aliviem a tensão, não há cortes que avancem semanas. O filme acontece no presente contínuo de uma família esperando uma morte que pode chegar a qualquer hora e essa estrutura é o que permite que as tensões entre as irmãs aflorem com a naturalidade de quem está exausta há tempo demais para manter as aparências.


Três temperamentos, uma mesma perda

Katie, interpretada por Carrie Coon, chega ao apartamento determinada a organizar tudo: a papelada, a rotina de cuidados, o comportamento das irmãs. Sua ansiedade se manifesta como controle e Coon constrói uma mulher que confunde administrar a situação com processar o que está sentindo. Christina, interpretada por Elizabeth Olsen, opera no registro oposto, busca harmonia, evita conflito, fala sobre o pai em termos quase espirituais e essa busca por paz funciona também como uma forma de distância emocional.

Rachel, interpretada por Natasha Lyonne, é meio-irmã das outras duas e a única que mora com o pai, cuida dele no dia a dia, fuma maconha no apartamento e aposta em jogos de futebol americano pela televisão. As outras duas chegam carregando suposições sobre Rachel que o filme vai progressivamente desmontando: ela não é a irmã ausente ou negligente que a ausência física das outras durante anos sugeriria. É a que está ali, todos os dias, fazendo o trabalho que ninguém vê.


O que cada uma carrega e não diz

O roteiro distribui ressentimentos antigos sem precisar de cenas de explicação. Uma discussão sobre o obituário do pai, sobre quem vai escrevê-lo e o que vai conter, se transforma em território onde décadas de mágoas não resolvidas encontram um pretexto formal para emergir. Katie quer um texto que reflita a história que ela conta sobre o pai. Christina quer paz acima de precisão. Rachel, que conheceu o homem que as outras duas descrevem de um jeito diferente do que ela viveu, ouve as duas discutirem sobre um pai que em parte não é o dela.

Jacobs filma essas discussões sem tomar partido. Cada irmã tem razão dentro da própria experiência, e o filme entende que conflitos de família raramente são sobre o que parecem ser. A disputa pelo obituário é, na verdade, uma disputa sobre quem tem o direito de definir quem o pai foi, e por extensão, quem cada uma delas é em relação a ele.


O enfermeiro e o mundo lá fora

Personagens secundários entram e saem do apartamento como representantes do mundo que continua existindo fora daquela espera: o enfermeiro, que trata a situação com uma profissionalidade gentil que contrasta com o caos emocional das irmãs, e Benjy, o namorado de Rachel, que tenta apoiar sem realmente entender o peso do que está acontecendo. Essas presenças dão ao filme momentos de alívio que não diminuem a tensão central, apenas lembram que a vida ao redor da morte continua acontecendo em paralelo, indiferente.


O final e o que ele faz com tudo que veio antes

Sem revelar o que acontece, o terceiro ato de As Três Filhas inclui uma escolha formal que reorganiza a experiência do filme inteiro. Depois de quase duas horas dentro da lógica realista do apartamento, Jacobs permite um momento que rompe esse registro, e a forma como esse momento é construído determina como o espectador vai lembrar de tudo que veio antes. É uma aposta arriscada, e a execução depende inteiramente da confiança que o filme já construiu com o público até aquele ponto.

O que esse momento entrega não é resolução das tensões entre as irmãs. É outra coisa: uma forma de reconhecer Vincent como pessoa completa, não apenas como o corpo no quarto ao fundo do corredor que organizou toda a tensão do filme sem nunca participar dela.


Atuação como argumento

As Três Filhas estreou no Festival de Telluride e chegou ao público através da Netflix, e a recepção se concentrou quase inteiramente nas três performances centrais. Coon, Olsen e Lyonne constroem mulheres que poderiam facilmente ter se tornado tipos, a controladora, a pacificadora, a rebelde, e em vez disso entregam pessoas específicas cujas defesas emocionais fazem sentido à luz do que cada uma perdeu e de como cada uma aprendeu a lidar com perda antes mesmo dessa.

O filme não pede que o espectador escolha um lado entre as irmãs. Pede que reconheça em cada uma delas uma forma válida e incompleta de atravessar luto, e que entenda que a incompatibilidade entre essas formas não é falha de caráter de ninguém. É só o que sobra quando três pessoas que cresceram em casas diferentes, com versões diferentes do mesmo pai, precisam compartilhar o fim dele.


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