Um apartamento como câmara de pressão
Azazel Jacobs filma quase o filme inteiro dentro de um apartamento do Lower East Side, em Manhattan, onde Vincent, o pai das três protagonistas, está em cuidados paliativos sob os efeitos de morfina, num quarto ao fundo do corredor. A câmera raramente sai desse espaço, e quando sai é para o saguão do prédio ou para a rua imediatamente em frente, nunca além disso. Essa contenção espacial transforma o apartamento numa câmara de pressão: três adultas que já tinham vidas separadas, hábitos separados e formas separadas de lidar com a própria existência são forçadas a compartilhar metros quadrados, banheiro e silêncio durante dias que ninguém sabe quanto vão durar.
O roteiro de Jacobs respeita o tempo real dessa espera. Não há elipses que aliviem a tensão, não há cortes que avancem semanas. O filme acontece no presente contínuo de uma família esperando uma morte que pode chegar a qualquer hora e essa estrutura é o que permite que as tensões entre as irmãs aflorem com a naturalidade de quem está exausta há tempo demais para manter as aparências.
Três temperamentos, uma mesma perda
Katie, interpretada por Carrie Coon, chega ao apartamento determinada a organizar tudo: a papelada, a rotina de cuidados, o comportamento das irmãs. Sua ansiedade se manifesta como controle e Coon constrói uma mulher que confunde administrar a situação com processar o que está sentindo. Christina, interpretada por Elizabeth Olsen, opera no registro oposto, busca harmonia, evita conflito, fala sobre o pai em termos quase espirituais e essa busca por paz funciona também como uma forma de distância emocional.
Rachel, interpretada por Natasha Lyonne, é meio-irmã das outras duas e a única que mora com o pai, cuida dele no dia a dia, fuma maconha no apartamento e aposta em jogos de futebol americano pela televisão. As outras duas chegam carregando suposições sobre Rachel que o filme vai progressivamente desmontando: ela não é a irmã ausente ou negligente que a ausência física das outras durante anos sugeriria. É a que está ali, todos os dias, fazendo o trabalho que ninguém vê.
O que cada uma carrega e não diz
O roteiro distribui ressentimentos antigos sem precisar de cenas de explicação. Uma discussão sobre o obituário do pai, sobre quem vai escrevê-lo e o que vai conter, se transforma em território onde décadas de mágoas não resolvidas encontram um pretexto formal para emergir. Katie quer um texto que reflita a história que ela conta sobre o pai. Christina quer paz acima de precisão. Rachel, que conheceu o homem que as outras duas descrevem de um jeito diferente do que ela viveu, ouve as duas discutirem sobre um pai que em parte não é o dela.
Jacobs filma essas discussões sem tomar partido. Cada irmã tem razão dentro da própria experiência, e o filme entende que conflitos de família raramente são sobre o que parecem ser. A disputa pelo obituário é, na verdade, uma disputa sobre quem tem o direito de definir quem o pai foi, e por extensão, quem cada uma delas é em relação a ele.
O enfermeiro e o mundo lá fora
Personagens secundários entram e saem do apartamento como representantes do mundo que continua existindo fora daquela espera: o enfermeiro, que trata a situação com uma profissionalidade gentil que contrasta com o caos emocional das irmãs, e Benjy, o namorado de Rachel, que tenta apoiar sem realmente entender o peso do que está acontecendo. Essas presenças dão ao filme momentos de alívio que não diminuem a tensão central, apenas lembram que a vida ao redor da morte continua acontecendo em paralelo, indiferente.
O final e o que ele faz com tudo que veio antes
Sem revelar o que acontece, o terceiro ato de As Três Filhas inclui uma escolha formal que reorganiza a experiência do filme inteiro. Depois de quase duas horas dentro da lógica realista do apartamento, Jacobs permite um momento que rompe esse registro, e a forma como esse momento é construído determina como o espectador vai lembrar de tudo que veio antes. É uma aposta arriscada, e a execução depende inteiramente da confiança que o filme já construiu com o público até aquele ponto.
O que esse momento entrega não é resolução das tensões entre as irmãs. É outra coisa: uma forma de reconhecer Vincent como pessoa completa, não apenas como o corpo no quarto ao fundo do corredor que organizou toda a tensão do filme sem nunca participar dela.
Atuação como argumento
As Três Filhas estreou no Festival de Telluride e chegou ao público através da Netflix, e a recepção se concentrou quase inteiramente nas três performances centrais. Coon, Olsen e Lyonne constroem mulheres que poderiam facilmente ter se tornado tipos, a controladora, a pacificadora, a rebelde, e em vez disso entregam pessoas específicas cujas defesas emocionais fazem sentido à luz do que cada uma perdeu e de como cada uma aprendeu a lidar com perda antes mesmo dessa.
O filme não pede que o espectador escolha um lado entre as irmãs. Pede que reconheça em cada uma delas uma forma válida e incompleta de atravessar luto, e que entenda que a incompatibilidade entre essas formas não é falha de caráter de ninguém. É só o que sobra quando três pessoas que cresceram em casas diferentes, com versões diferentes do mesmo pai, precisam compartilhar o fim dele.
Siga a Filmoteca no Instagram. Você vai assistir melhor.