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sábado, 13 de junho de 2026

A Filha Perdida (2021) The Lost Daughter - 2 h 1 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



A Filha Perdida (2021) - IMDb
Dir: Maggie Gyllenhaal
Drama Psicológico

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 6,7   METASCORE: 8,6
Letterboxd: 7,0   CLC Balanced Rating: 7,6
94%Tomatometer

Leda está de férias sozinha numa praia grega. Uma boneca encontrada na areia abre uma fenda no passado que ela passou a vida tentando manter fechada.


Uma estreia que não pede licença

Maggie Gyllenhaal, conhecida até então como atriz, escreveu e dirigiu seu primeiro longa-metragem adaptando o romance de Elena Ferrante com uma segurança que normalmente se associa a diretores de carreira longa. A Filha Perdida não tem nenhuma das hesitações típicas das primeiras obras: a câmera sabe onde olhar, o roteiro sabe quando reter informação e a estrutura em duas linhas temporais funciona porque Gyllenhaal confia que o espectador vai acompanhar sem precisar de explicações.

Ferrante escreveu o romance em primeira pessoa, com uma narradora que examina os próprios pensamentos com uma honestidade que beira o desconforto. Gyllenhaal precisou encontrar um equivalente cinematográfico para essa interioridade sem recorrer a voz em off constante e a solução foi confiar inteiramente nas duas atrizes que dividem o papel de Leda.


Olivia Colman e Jessie Buckley como a mesma pessoa

Olivia Colman interpreta Leda no presente, uma professora de literatura em férias sozinha numa praia grega. Jessie Buckley interpreta Leda mais jovem, casada, mãe de duas filhas pequenas, afogada numa vida doméstica que a está consumindo. As duas performances não tentam imitar uma à outra. Em vez disso, constroem a mesma pessoa em dois momentos tão distantes emocionalmente que parecem quase incompatíveis e essa incompatibilidade é o argumento do filme.

Colman opera no registro da observação contida: Leda no presente está sempre processando algo, sempre um passo atrás do que está sentindo, e Colman comunica isso através de pausas, de olhares que duram um segundo além do esperado. Buckley opera no registro do colapso iminente: a Leda jovem está afundando em tempo real e a performance carrega uma urgência física, quase claustrofóbica, que contrasta deliberadamente com a quietude de Colman.


A boneca como detonador

O objeto que desencadeia a narrativa, uma boneca pertencente a uma menina que Leda observa na praia, parece trivial até que não parece mais. Leda rouba a boneca num impulso que ela mesma não consegue explicar completamente e o objeto se torna o ponto de contato entre as duas linhas temporais: cuidar da boneca, ou recusar-se a cuidar dela, espelha decisões que Leda tomou décadas antes sobre as próprias filhas.

O filme nunca trata esse espelhamento como simbolismo óbvio. A boneca é estranha, suja, desconfortável de se olhar e Leda a trata com uma mistura de repulsa e atenção obsessiva que o espectador entende emocionalmente antes de entender racionalmente. É um objeto que carrega peso sem precisar de explicação verbal e essa é uma das decisões mais precisas do roteiro.


O abandono sem arrependimento limpo

A revelação central do filme, que a Leda jovem deixou as filhas pequenas por um período para viver sozinha e perseguir a própria carreira acadêmica, é tratada sem o arco de redenção que o cinema costuma impor a esse tipo de escolha. Leda não retorna transformada em mãe perfeita. Não pede perdão de forma que resolva tudo. O filme também não a condena moralmente de forma definitiva.

O que existe é uma mulher que fez uma escolha, viveu com as consequências dela por décadas e que ainda está processando o que essa escolha significa sobre quem ela é. Dakota Johnson interpreta Nina, a mãe jovem que Leda observa na praia e que parece estar à beira de repetir uma versão da mesma escolha, e a relação entre as duas mulheres, que nunca se torna amizade convencional, é onde o filme examina mais diretamente o que significa reconhecer em outra pessoa um impulso que você mesma já teve.


O que o filme recusa explicar

A Filha Perdida tem vários momentos que o espectador espera que sejam explicados e que permanecem em aberto: por que exatamente Leda roubou a boneca, o que aconteceu de fato durante o período em que ela esteve longe das filhas, o que Nina vai fazer com sua própria vida. Gyllenhaal entende que explicar essas coisas resolveria a tensão de uma forma que trairia o que o filme está tentando capturar, que é precisamente a experiência de viver com decisões que não têm explicação satisfatória, só consequências.


Reconhecimento e o que ele revelou

A Filha Perdida recebeu três indicações ao Oscar, incluindo Melhor Roteiro Adaptado para Gyllenhaal, Melhor Atriz para Colman e Melhor Atriz Coadjuvante para Buckley. O reconhecimento da Academia para um filme centrado inteiramente na experiência interior de uma mulher, sem nenhum elemento de gênero ou ação que normalmente atrai esse tipo de atenção, sinaliza algo sobre a precisão do que Gyllenhaal construiu.

O filme não tenta fazer Leda simpática. Tenta fazer Leda compreensível, o que é uma ambição muito mais difícil e muito mais rara.











terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Donnie Darko (2001) - 1 h 53 min

VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento

Um adolescente é atormentado com visões de um homem numa roupa de coelho que o manipula para fazer crimes.


Donnie Darko (2001) - IMDb
Dir: Richard Kelly
Drama Psicológico, Suspense Psicológico, Viagem no Tempo, Ficção Científica, Mistério


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 8,0   METASCORE: 8,8
Flick Metrix: 83   Criticker Average Percentile: 63%
88%Tomatometer124 Reviews   80%Popcornmeter


Donnie Darko, dirigido por Richard Kelly, é um dos filmes mais enigmáticos e influentes do cinema contemporâneo sobre viagem no tempo. Situado entre o drama adolescente, o thriller psicológico e a ficção científica metafísica, o filme transforma o deslocamento temporal em uma experiência de crise existencial, onde destino, livre-arbítrio e sacrifício se confundem.

Inserido no BLOCO 6 - ESTRUTURA da mostra VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento, Donnie Darko não oferece um sistema temporal transparente. Ele exige interpretação, reconstrução e dúvida.


O tempo como ruptura da normalidade

A narrativa começa com um evento inexplicável: um motor de avião cai do céu e destrói o quarto de Donnie enquanto ele dormia fora de casa. A partir desse ponto, o mundo aparentemente banal dos subúrbios americanos dos anos 1980 passa a revelar fendas na realidade.

O tempo deixa de ser contínuo. Ele se torna instável, sujeito a desvios e colapsos. O filme sugere a existência de um “universo tangente”, uma linha temporal defeituosa que precisa ser corrigida para que o mundo volte ao seu curso original.

Mas essa explicação nunca é plenamente didática. Ela existe como hipótese, não como certeza.


Frank: mensageiro, alucinação ou destino?

A figura de Frank, o homem com fantasia de coelho, é o elemento mais perturbador do filme. Ele aparece para Donnie como guia, ameaça e oráculo, anunciando o fim do mundo em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

Frank pode ser lido como:

  • projeção psíquica,
  • entidade temporal,
  • consequência futura de eventos ainda não ocorridos.

Essa ambiguidade é essencial. Donnie Darko nunca estabiliza sua ontologia. O tempo se manifesta como voz, não como mecanismo.


Adolescência, inadequação e consciência temporal

Donnie é um jovem deslocado, crítico, sensível e profundamente desconectado do mundo ao seu redor. A viagem no tempo não surge como desejo de aventura, mas como amplificação de um mal-estar pré-existente.

O filme associa a instabilidade temporal à instabilidade emocional:

  • a sensação de não pertencer,
  • a percepção de hipocrisia social,
  • o medo de um futuro já programado.

Viajar no tempo, aqui, é perceber cedo demais que o mundo funciona por sistemas que não acolhem o indivíduo.


Determinismo e escolha

No núcleo dramático do filme está uma tensão central: se o tempo exige correção, alguém precisa pagar o preço.

Donnie gradualmente compreende que sua morte é necessária para restaurar a linha temporal original. O gesto final não é fuga nem heroísmo clássico, mas aceitação consciente do sacrifício.

Diferente de narrativas fatalistas puras, Donnie Darko propõe um paradoxo ético:

  • o destino existe,
  • mas só se cumpre plenamente quando alguém escolhe aceitá-lo.

O quebra-cabeça como forma narrativa

A estrutura fragmentada do filme - elipses, sonhos, símbolos, textos científicos inseridos de forma indireta - obriga o espectador a montar o sentido a posteriori. Não há solução única.

Esse caráter aberto faz de Donnie Darko um filme-labirinto:

  • quem busca coerência absoluta encontra frustração;
  • quem aceita a ambiguidade encontra ressonância emocional.

O tempo, aqui, é menos um sistema lógico do que um estado de consciência.


Lugar no subgênero da viagem no tempo

Dentro do subgênero, Donnie Darko ocupa posição singular: menos rigor científico que Primer, mais subjetividade e metafísica.

Ele se aproxima de La jetée e Je t’aime, je t’aime na medida em que trata o tempo como experiência interior, mas traduz isso para a linguagem do cinema pop e da cultura jovem.


Conclusão: salvar o mundo é desaparecer

Donnie Darko sugere que o tempo não se corrige com engenhosidade, mas com perda. A ordem do mundo depende, paradoxalmente, do apagamento daquele que a compreendeu.

Viajar no tempo, neste filme, não é dominar o futuro, mas aceitar que algumas consciências só existem para impedir que ele exista de outra forma.

Donnie Darko não explica o tempo; faz o espectador senti-lo como angústia, presságio e escolha trágica


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) The Dark Knight - 2 h 32 min

CHRISTOPHER NOLAN: O Arquiteto dos Sonhos Cinematográficos

7 FILMES - CHRISTIAN BALE: A Arte de se Tornar Outro.


Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) - IMDb
Dir: Christopher Nolan
Ação, Drama, Super-Herói, Suspense Psicológico, Crime

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 9,1   METASCORE: 8,5
Letterboxd: 9,0 CLC Balanced Rating: 8,8
94%Tomatometer

O Coringa não queria dinheiro, nem poder, nem vingança. Queria provar que, sob pressão suficiente, qualquer pessoa decente vira o que ele é.


Um filme sobre escolhas sob pressão

Batman Begins construiu Bruce Wayne. O Cavaleiro das Trevas testa o que ele construiu e testa também todos os outros personagens que cercam Gotham. Christopher Nolan e o co-roteirista Jonathan Nolan estruturaram o filme como uma série de dilemas morais em escala crescente, cada um desenhado pelo Coringa para forçar pessoas decentes a fazer escolhas indecentes. O filme não é sobre Batman derrotando um vilão. É sobre Gotham descobrindo até onde sua própria decência resiste quando alguém decide testá-la sem nenhum limite.

Essa estrutura é o que diferencia O Cavaleiro das Trevas de praticamente todo filme de super-herói feito até então. O antagonista não tem plano no sentido convencional. Tem um experimento, e o experimento é a cidade inteira.


Heath Ledger e o vazio como método

A performance de Heath Ledger como o Coringa recebeu o Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante, e o reconhecimento, por mais merecido que seja, corre o risco de transformar a performance numa lenda separada do filme. O que Ledger constrói é um personagem sem origem estável, sem motivação que possa ser resolvida ou compreendida, sem nada que o espectador possa usar para prever o próximo movimento. As cicatrizes no rosto têm explicações diferentes cada vez que o Coringa as menciona e essa inconsistência deliberada é o ponto: não há verdade por trás da máscara porque não há nada por trás da máscara.

A maneira como Ledger usa o corpo, a língua passando pelos lábios, a postura desleixada que se transforma em ameaça instantânea, comunica uma imprevisibilidade que nenhum diálogo precisaria reforçar. É uma performance construída para deixar o espectador desconfortável o tempo inteiro, e funciona porque nunca oferece o alívio de entender o personagem completamente.


Harvey Dent e a queda do herói que Gotham merecia

Aaron Eckhart interpreta Harvey Dent, o promotor que Gotham via como seu futuro, e a transformação de Dent em Duas-Caras é o argumento moral central do filme. Dent não é corrompido por ambição ou ganância. É corrompido pela perda, pela injustiça pessoal que o atinge no momento em que está mais próximo de vencer e o filme trata essa queda com uma tragédia genuína. O Coringa não cria o Duas-Caras. Apenas remove o que impedia Dent de se tornar o que já era capaz de ser.

A decisão de Batman e Gordon de proteger a imagem de Dent depois de sua morte, escondendo seus crimes para preservar a esperança que ele representava para Gotham, é o tipo de escolha moralmente ambígua que o filme recusa resolver de forma confortável. É uma mentira bem-intencionada construída sobre um cadáver e o filme sabe disso.


As duas balsas e o limite do experimento

A sequência das balsas, em que o Coringa coloca civis e prisioneiros em posição de decidir quem sobrevive, é o momento em que o experimento do filme chega ao limite e falha. Ninguém aperta o botão. É a única vez em todo o filme em que a aposta do Coringa sobre a natureza humana não se confirma e Nolan filma esse momento sem grandiosidade, quase como nota de rodapé, o que o torna mais convincente do que se fosse tratado como clímax triunfal.

Esse contraste entre o fracasso do experimento das balsas e o sucesso da corrupção de Dent é o que dá ao filme sua complexidade moral real: as pessoas resistiram onde o Coringa apostou que cederiam, e cederam onde ninguém esperava.


Gotham como espelho pós-11 de setembro

O Cavaleiro das Trevas foi lido, com razão, como um filme profundamente marcado pelo contexto político americano do pós-2001: vigilância em massa, terrorismo sem demanda negociável, a tensão entre segurança e liberdades civis. O dispositivo de vigilância que Batman constrói para localizar o Coringa, usando os celulares de toda Gotham, é apresentado como necessário e simultaneamente como linha que não deveria ter sido cruzada. Batman destrói o dispositivo no fim, mas o usou.

Essa ambiguidade não é acidental. Nolan constrói um filme que reflete as ansiedades de seu momento sem oferecer respostas fáceis sobre elas, e é essa recusa que faz O Cavaleiro das Trevas continuar relevante muito além do gênero em que está inserido.



O legado

Batman: O Cavaleiro das Trevas redefiniu o que um filme de super-herói podia ser em termos de ambição temática, e a sombra que projeta sobre o gênero permanece visível quase duas décadas depois. Poucos filmes de super-heróis tentaram repetir sua complexidade moral e menos ainda conseguiram. O que Nolan e Ledger fizeram foi elevar o nível do gênero e que o gênero podia carregar peso que ninguém imaginava que coubesse ali.