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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Obsessão (2025) Obsession - 1 h 40 min

 

Obsessão (2025) - IMDb
Dir: Curry Barker
Terror Monstruoso, Terror Psicológico, Terror Sobrenatural, Romance Sombrio, Suspense


CLC Score: 8,1




Bear não consegue dizer para Nikki o que sente. Em vez de ser honesto, compra um brinquedo antigo que promete realizar um desejo. O desejo é concedido. O que acontece com Nikki é o horror.


A premissa mais simples do ano, executada de forma que ninguém esperava

Curry Barker tinha 26 anos quando filmou Obsessão com orçamento de 750 mil dólares, vindo de uma carreira como criador de conteúdo no YouTube. O ponto de partida é um dos mais antigos do horror: o desejo realizado que se volta contra quem desejou. Bear quebra um galho de um brinquedo chamado One Wish Willow e pede para que Nikki, colega de trabalho e amiga de infância, o ame mais do que qualquer coisa no mundo. O pedido é atendido literalmente: Nikki passa a amá-lo mais do que qualquer coisa no mundo, e isso a destrói como pessoa.

O que Barker faz com essa premissa é o argumento central do filme: ele conta a história exclusivamente do ponto de vista de Bear, o perpetrador, e nunca do de Nikki, a vítima. Essa escolha é a mais provocadora do roteiro, e a que mais divide a crítica.


O incel como protagonista, sem absolvição e sem distância irônica segura

Bear é apresentado como simpático, sensível e corajoso o suficiente para reconhecer que está errado depois que o desejo é concedido. O filme trabalha no território da empatia controlada: o espectador entende Bear o suficiente para acompanhar seu ponto de vista, e esse entendimento se torna progressivamente mais incômodo conforme as consequências do desejo sobre Nikki se tornam visíveis.

A crítica do IndieWire identificou com precisão o que Barker está fazendo: contar uma história sobre algo objetivamente horrível, um homem que remove a alma de uma mulher para ter sexo com seu corpo e fingir que estão namorando, exclusivamente pela perspectiva do responsável. A frase do Rotten Tomatoes captura o paradoxo: se você quer que alguém te ame acima de tudo, a única forma de conseguir isso é desumanizá-la, remover tudo nela que a tornava alguém que você queria estar com.


Inde Navarrette e a performance que o filme depende

Michael Johnston, como Bear, ancora o ponto de vista, mas Inde Navarrette é onde o filme vive ou morre. Nikki antes do desejo e Nikki depois do desejo são duas performances dentro de uma, e Navarrette transita entre a coquete casual da primeira parte e a psicótica do resto com uma credibilidade que críticos descrevem como uma revelação. A comparação com o que Barker exigiu dela equivale ao que Darren Aronofsky exigiu de Natalie Portman em Cisne Negro: um personagem que precisa ser completamente diferente de si mesmo em dois registros, e que o espectador precisa reconhecer como a mesma pessoa em ambos.

Andy Richter, apresentador de late night, aparece num papel de suporte que serve principalmente para estabelecer o tom de comédia negra que o filme usa como camada de proteção sobre o horror mais direto.


A geração Zoomer como público-alvo declarado

A crítica do Rotten Tomatoes aponta que Barker, com 26 anos, está falando diretamente para a própria geração: Zoomers crescendo numa cultura de incels, de discourse sobre consentimento e manipulação, de apps de relacionamento que prometem entregar amor mediante o algoritmo certo. Obsessão é um filme de terror sobre o desejo de controlar outra pessoa, e esse desejo não é exclusivo de vilões com bigode. É o desejo de alguém como Bear, que o espectador entendeu e até acompanhou por uma hora inteira antes de ter clareza completa sobre o que estava acompanhando.

Essa é a aposta mais arriscada do filme, e a que define se funciona ou não para cada espectador individualmente: alguns saem sentindo que o ponto de vista de Bear foi tratado com simpatia excessiva. Outros saem sentindo que o desconforto de ter acompanhado Bear é exatamente o argumento do filme.


TIFF, Focus Features e os números que ninguém esperava

Obsessão estreou no bloco Midnight Madness do Festival de Toronto em setembro de 2025, e a Focus Features adquiriu os direitos mundiais por 14 a 15 milhões de dólares, o maior valor já pago por um filme de gênero na história do festival. Jason Blum entrou como produtor executivo depois da estreia, o que explica parte do alcance comercial posterior.

O desempenho nas bilheterias superou qualquer expectativa razoável para um filme de 750 mil dólares dirigido por um estreante: tornou-se o filme de maior bilheteria da história da Focus Features, superando Downton Abbey, e o maior título adquirido em festival de todos os tempos em termos de bilheteria, ultrapassando O Projeto Blair Witch. Em junho de 2026, havia cruzado 300 milhões de dólares mundialmente, tornando-se o filme original em inglês de maior bilheteria dos anos 2020.


Por que vale

Obsessão é o tipo de horror que só funciona se o espectador aceitar o pacto que o filme propõe: ficar do lado de alguém que fez algo irreparável, sem que o filme resolva o desconforto disso. Barker não absolveu Bear. Também não o transformou em monstro conveniente. Deixou-o humano, o que é o mais perturbador dos três.

94% de aprovação no Rotten Tomatoes. Um orçamento de 750 mil dólares. Uma estreia que mudou a conversa sobre o que o horror da geração atual pode dizer sobre relacionamentos, consentimento e o que chamamos de amor quando o que queremos é controle.