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domingo, 14 de junho de 2026

Viver (2022) Living - 1 h 42 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:



Viver (2022) - IMDb
Dir: Oliver Hermanus
Drama de Época, Drama no Trabalho

MP4 / HD / LEG: Português

AVALIAÇÕES:
IMDB: 7,2   METASCORE: 8,1
Letterboxd: 7,2   CLC Balanced Rating: 7,7
96%Tomatometer

Williams trabalha no mesmo escritório há décadas, seguindo a mesma rotina, sem nunca ter vivido de fato. Um diagnóstico terminal muda o que resta do tempo, mas não da forma que ele esperava.


De Kurosawa para Ishiguro

Viver é uma adaptação de Ikiru, o filme de Akira Kurosawa de 1952, que por sua vez se inspirava em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói. Kazuo Ishiguro, autor de Não Me Abandone Jamais e O Resto do Dia, escreveu o roteiro nesta sua primeira incursão como roteirista de cinema, e a escolha de transplantar a história do Japão do pós-guerra para a Londres dos anos 1950 não é arbitrária. Ishiguro reconheceu em Ikiru algo profundamente afim ao próprio território literário dele: a repressão emocional como sistema, a formalidade como armadura e a tragédia de uma vida vivida inteiramente dentro dos limites do que é apropriado.

A transposição cultural funciona porque a burocracia britânica do pós-guerra, com seus ternos escuros, chapéus-coco e hierarquias rígidas, oferece um equivalente quase perfeito à rigidez social que Kurosawa retratava no funcionalismo público japonês. Oliver Hermanus dirige com uma elegância visual que recupera o Technicolor britânico da época e o resultado tem a textura de um filme que poderia ter sido feito nos anos 1950.


A burocracia como linguagem

O escritório onde Williams trabalha, no departamento de obras públicas de Londres, é definido por pilhas de papel que circulam de mesa em mesa sem que nada seja efetivamente decidido. Um grupo de mulheres procura há meses conseguir que um terreno baldio seja transformado em playground para crianças e o processo das requisições vira uma espécie de demonstração viva de como a burocracia pode operar perpetuamente sem produzir resultado algum, cada departamento empurra a papelada para o próximo, numa coreografia de responsabilidade diluída que todos entendem e que ninguém questiona.

Bill Nighy interpreta Williams como o homem que perfeitamente incorpora e perpetua esse sistema. Ele não é cruel nem incompetente. É apenas alguém que aprendeu, ao longo de uma vida inteira, que manter as coisas funcionando exatamente como sempre funcionaram é a única forma de manter a si mesmo funcionando também.


Bill Nighy e a economia do gesto

A performance de Nighy, que lhe rendeu indicação ao Oscar de Melhor Ator, opera quase inteiramente no registro da contenção. Williams fala pouco, move-se com uma rigidez controlada, e a informação de que recebeu um diagnóstico de câncer terminal não provoca nele nenhuma explosão emocional visível. O que muda é sutil: pequenas hesitações, um olhar que demora um segundo além do esperado, a forma como ele começa a notar coisas que passou décadas ignorando.

A cena em que Williams visita um balneário costeiro depois de receber o diagnóstico, na companhia de um escritor boêmio que conhece num bar, é o ponto em que o filme mais se aproxima de uma virada convencional de "viver intensamente o tempo que resta". Hermanus e Ishiguro tratam essa fase como o que ela é: uma tentativa que não funciona completamente, uma forma de fuga que Williams abandona não porque encontrou algo melhor, mas porque percebe que essa também não é a resposta.


Margaret e o que ela revela sobre Williams

Aimee Lou Wood interpreta Margaret Harris, jovem funcionária do escritório que decide deixar o emprego para trabalhar num café, e que Williams passa a procurar repetidamente nos últimos dias, não por atração romântica, mas porque Margaret representa algo que ele nunca teve: uma relação despreocupada com o próprio tempo, a capacidade de simplesmente estar presente sem que isso precise significar nada além disso.

As conversas entre os dois são onde Williams se aproxima mais de articular o que está sentindo, e Margaret, sem saber do diagnóstico até certo ponto, oferece a ele algo que nenhum colega de trabalho ou familiar conseguiu: companhia sem expectativa. É através dela que Williams encontra, finalmente, o que decide fazer com o tempo que resta.


Peter Wakeling como ponto de entrada

Alex Sharp interpreta Peter Wakeling, o novo funcionário que chega ao escritório no primeiro dia do filme e que serve como os olhos do espectador sobre esse mundo. Peter observa Williams e os outros funcionários com a curiosidade de quem ainda não foi absorvido pelo sistema e é através do olhar de Peter que o público entende, gradualmente, o que esse sistema faz com as pessoas que passam décadas dentro dele.

Essa estrutura espelha a de Ikiru, onde uma jovem colega de trabalho cumpre função similar, e permite que o filme termine não apenas com a morte de Williams, mas com a pergunta sobre o que Peter vai fazer com o que testemunhou. A última cena do filme pertence a Peter, não a Williams, e essa escolha estrutural é o que transforma Viver de retrato individual em pergunta sobre ciclos que se repetem ou se rompem.


O parquinho como ato final

Diante do diagnóstico, Williams decide usar a autoridade que tem, modesta mas real, para finalmente fazer avançar o processo do playground que as mulheres do bairro pediam há meses. Não é um gesto grandioso. É a aplicação de décadas de conhecimento sobre como o sistema burocrático funciona, agora usado para fazer o sistema produzir, pela primeira vez, algo que ele deveria ter produzido o tempo todo.

A cena em que Williams, já perto do fim, senta no balanço do playground recém-construído e canta uma canção escocesa baixinho, sozinho, à noite, é o momento que Ishiguro e Hermanus escolheram como clímax emocional do filme. Não há platéia para esse momento dentro da narrativa. É puramente para Williams, e essa privacidade é o que o torna verdadeiro.


O que muda e o que permanece

Comparado a Ikiru, Viver é um filme mais contido em escala e mais breve em duração, e essa contenção é coerente com o que o filme está dizendo sobre a cultura que retrata. Kurosawa filmava o Japão do pós-guerra com uma amplitude que incluía cenas de velório longas e desconfortáveis, expondo hipocrisias coletivas. Hermanus e Ishiguro optam por uma escala mais íntima, britânica no sentido de que o que não é dito carrega tanto peso quanto o que é.

O que permanece intacto é o argumento central: que uma vida inteira de cumprimento de deveres pode coexistir com uma ausência quase total de ter vivido e que essa descoberta, quando chega, pode ainda assim resultar em algo que vale a pena, mesmo que pequeno, mesmo que tardio.


Por que vale

Viver recebeu duas indicações ao Oscar, Melhor Ator para Nighy e Melhor Roteiro Adaptado para Ishiguro, e o reconhecimento é justo por reconhecer algo raro: uma adaptação que entende profundamente a obra original e ainda assim encontra um território cultural próprio para habitá-la. É um filme pequeno sobre a pergunta mior que existe e a resposta que oferece não é grandiosa. É exatamente do tamanho de uma tarde no balanço de um playground que, sem Williams, provavelmente nunca teria existido.





quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Questão de Tempo (2013) About Time - 2 h 3 min

VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento

Tim descobre que pode viajar no tempo e mudar o que acontece e aconteceu em sua vida. Sua decisão de tornar seu mundo um lugar melhor ao conseguir uma namorada acaba não sendo tão fácil.


Dir: Richard Curtis
Romance Alegre, Viagem no Tempo, Comédia, Drama, Ficção Científica


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 5,5
Flick Metrix: 71  Criticker Average Percentile: 59%
71%Tomatometer168 Reviews   82%Popcornmeter



About Time, dirigido por Richard Curtis, é um dos filmes mais delicados e enganosamente simples sobre viagem no tempo. Sob a aparência de comédia romântica, ele propõe uma reflexão madura e profundamente humana: e se a viagem no tempo não servisse para mudar o mundo, mas apenas para aprender a viver melhor dentro dele?

Na lógica da mostra, o filme se insere no eixo existencial-afetivo do subgênero, onde o tempo não é conflito externo, mas ferramenta íntima de consciência.


A viagem no tempo como herança


O filme apresenta uma regra mínima e quase banal: os homens de uma família podem voltar a momentos específicos do próprio passado, desde que estejam sozinhos e em um espaço fechado. Não há máquinas, portais ou efeitos espetaculares. O tempo é tratado como dom doméstico, passado de pai para filho como um segredo incômodo.

Essa escolha é crucial. Ao naturalizar a viagem no tempo, o filme desloca a pergunta central: não “como funciona?”, mas “como usar sem se perder?”


Corrigir o erro… e depois?


Inicialmente, o protagonista usa o poder como qualquer um faria: para consertar gafes sociais, melhorar encontros amorosos, evitar humilhações. O tempo funciona como ensaio geral da vida, permitindo versões cada vez mais “perfeitas” de si mesmo.

Mas logo surge a fratura moral do filme:
👉 se tudo pode ser refeito, o que ainda é vivido de verdade?

A repetição começa a esvaziar a experiência.


O custo invisível da correção

Ao contrário de narrativas mais sombrias, About Time não pune o uso do poder com catástrofes imediatas. A punição é afetiva e silenciosa. Cada correção elimina algo que não pode coexistir com o novo arranjo: memórias, encontros, até pessoas.

O tempo ensina que toda escolha “melhor” implica uma perda invisível, mesmo quando parece correta.


Pai e filho: o tempo compartilhado


O coração do filme não está no romance, mas na relação entre pai e filho. A viagem no tempo se torna, progressivamente, ritual de convivência, uma forma de estender momentos, de revisitar conversas, de adiar despedidas.

Aqui, o tempo deixa de ser ferramenta de controle e se torna espaço de luto antecipado. O filme reconhece que nem tudo deve, ou pode, ser refeito.


A decisão radical: parar de voltar

O gesto mais importante de Questão de Tempo não é uma correção, mas uma renúncia. O protagonista escolhe viver cada dia como se pudesse repeti-lo sem jamais repeti-lo de fato.

Essa decisão redefine o subgênero: a verdadeira viagem no tempo é aprender a estar presente.


Tempo, felicidade e aceitação


O filme rejeita tanto o fatalismo quanto a obsessão pelo controle. Ele propõe uma ética suave, mas firme: viver bem não é eliminar erros, e sim aceitar a imperfeição do fluxo.

A felicidade surge não da manipulação do tempo, mas da atenção ao cotidiano: às conversas triviais, aos dias comuns, às pequenas alegrias que só existem porque não podem ser refeitas.


Lugar no subgênero da viagem no tempo


Dentro da história do cinema, About Time dialoga com:

  • It’s a Wonderful Life (tempo como revelação moral),
  • Somewhere in Time (amor e sacrifício),
  • Arrival (escolha consciente diante do inevitável).

Mas se diferencia por sua gentileza conceitual. Não há paradoxo a resolver, nem ameaça a vencer. O conflito é interno e cotidiano.

O filme representa o ponto em que a viagem no tempo abandona a fantasia de controle e assume a maturidade da aceitação.


Conclusão: viver sem rascunho

Questão de Tempo sustenta uma ideia simples e profundamente transformadora: o problema não é não poder voltar no tempo; é viver como se sempre fosse necessário.

Ao final, o filme afirma que a maior sabedoria não está em corrigir o passado nem antecipar o futuro, mas em habitar plenamente o presente, sabendo que ele é único justamente porque passa.

About Time funciona como lembrete essencial: depois de paradoxos, guerras e loops, talvez a viagem no tempo mais radical seja decidir não usá-la.





domingo, 16 de novembro de 2025

Simplesmente Amor (2003) Love Actually - 2 h 15 min

Acompanha a vida de oito casais muito diferentes que lidam com suas vidas amorosas em várias histórias vagamente inter-relacionadas, todas ambientadas em um mês frenético antes do Natal em Londres, Inglaterra.


Simplesmente Amor (2003) - IMDb
Dir: Richard Curtis
Comédia Romântica, Sátira, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 5,5
64%Tomatometer229 Reviews   72%Popcornmeter



Love Actually — Um Mosaico Afetivo Sobre Todas as Formas de Amor

Simplesmente Amor” (Love Actually), dirigido e escrito por Richard Curtis, é um dos filmes natalinos mais populares do século XXI e um marco do cinema romântico moderno. Lançado em 2003, ele conquistou o público por sua estrutura envolvente, seu humor britânico afiado e sua habilidade de equilibrar leveza, emoção e melancolia com enorme naturalidade.

A proposta do filme é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: mostrar como diferentes vidas se conectam por meio do amor. Curtis constrói uma narrativa em formato de mosaico, acompanhando cerca de nove histórias paralelas, todas se cruzando de maneira sutil e orgânica. Há romances que nascem, relações que se rompem, amores silenciosos, paixões improváveis e afetos que desafiam distâncias. Esse mecanismo — hoje comum — foi revitalizado de maneira brilhante pelo filme, que soube usar a pluralidade para explorar o sentimento humano em sua forma mais universal.

Um dos grandes trunfos da obra é seu elenco excepcional. Hugh Grant vive um primeiro-ministro carismático e tímido, cuja história de amor com sua funcionária (Martine McCutcheon) mistura doçura e humor. Emma Thompson entrega uma das performances emocionais mais marcantes do cinema romântico, especialmente na cena em que percebe a infidelidade do marido (Alan Rickman). Liam Neeson interpreta um viúvo aprendendo a lidar com a dor enquanto ajuda o enteado a navegar seu primeiro amor. E Bill Nighy rouba cenas como o roqueiro decadente Billy Mack, trazendo energia cômica e um toque de irreverência à narrativa.

O que torna “Simplesmente Amor” tão irresistível é sua capacidade de equilibrar tons. O filme é engraçado e leve, mas não foge da melancolia. Ele reconhece que o amor pode ser alegre, mas também doloroso; que ele se manifesta no romantismo, mas também na amizade, na família, no cuidado e até nos equívocos que cometemos. Essa visão ampla e honesta cria identificação emocional e dá profundidade ao que poderia ser apenas uma comédia romântica natalina.

A ambientação do Natal potencializa cada emoção. As ruas iluminadas de Londres, os ensaios escolares, os presentes, a correria das festas — tudo funciona como um pano de fundo aconchegante, que reforça a sensação de que o amor, apesar de tudo, persiste. A trilha sonora também desempenha papel importante, com músicas que se tornaram inseparáveis da identidade do filme, como “All I Want for Christmas Is You” e “God Only Knows”.

O final, ambientado no aeroporto de Heathrow, sintetiza a mensagem central: o amor está por toda parte. A montagem com pessoas reais se abraçando, chegando e partindo, transforma o filme não apenas em uma narrativa romântica, mas em uma celebração da humanidade. É por isso que, desde 2003, “Simplesmente Amor” se tornou um ritual afetivo para muitos espectadores — um filme que conforta, aquece e ilumina, como as luzes de Natal que permeiam cada cena.




quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Joy (2024) - 1 h 55 min

Três pioneiros: uma jovem enfermeira, um cientista visionário e um cirurgião inovador enfrentam oposição da igreja, do estado, da mídia e do establishment médico em sua busca pelo primeiro 'bebê de proveta' do mundo, Louise Joy Brown.


Dir: Ben Taylor
Drama Médico, Biografia, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,1   METASCORE: 6,2
89%Tomatometer55 Reviews   88%Popcornmeter





Lindamente feito e dado um pouco de entusiasmo por um deliciosamente seco Bill Nighy, Joy é um tributo edificante aos milagres da ciência.


Thomasin McKenzie, James Norton, Bill Nighy