Mostrando postagens com marcador Monica Vitti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monica Vitti. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de março de 2026

O Mistério de Oberwald (1980) Il mistero di Oberwald - 2 h 9 min

MOSTRA ARQUITETURAS DO VAZIO — O Universo de Antonioni

Uma longa década após o assassinato do marido, uma rainha reclusa se depara cara a cara com o sósia e poeta anarquista do falecido, e faz um pacto de três dias; No entanto, o destino tem outros planos. Qual é o mistério de Oberwald?


O Mistério de Oberwald (1980) - IMDb
Dir: Michelangelo Antonioni
Drama, Romance

MP4 / SD / LEG: Português

IMDB: 6,2
50%Tomatometer10 Reviews   41%Popcornmeter


Entre desejo e conspiração, uma rainha confronta os fantasmas do poder e da paixão.


Teatro, política e paixão

Em O Mistério de Oberwald, Michelangelo Antonioni adapta livremente a peça L’Aigle à deux têtes, de Jean Cocteau, transformando um drama teatral em uma experiência cinematográfica singular. A história se passa em um reino imaginário da Europa, onde uma jovem rainha vive reclusa em um castelo após o assassinato de seu marido, o rei.

Anos depois da tragédia, um jovem anarquista invade o castelo com a intenção de assassiná-la. Contudo, ao se encontrarem, a rainha percebe que o intruso se parece extraordinariamente com seu falecido marido. Entre suspeita, fascínio e desejo, nasce uma relação ambígua que mistura atração, manipulação e jogo político.


Um experimento visual


O filme ocupa um lugar único na filmografia de Antonioni por seu caráter experimental. Foi uma das primeiras obras do diretor realizadas com tecnologia de vídeo eletrônico, posteriormente transferida para película cinematográfica. Esse processo permitiu manipular as cores e as texturas da imagem de forma inédita, criando uma atmosfera artificial e onírica.

A estética visual reforça o caráter teatral da narrativa. O castelo, os corredores e os interiores ornamentados tornam-se espaços carregados de simbolismo, onde os personagens parecem presos em um jogo de aparências, memória e desejo.


Poder e identidade

A relação entre a rainha e o jovem anarquista evolui como um duelo psicológico. O encontro entre os dois personagens dissolve gradualmente as fronteiras entre inimigo e amante, realidade e representação.

Antonioni explora temas recorrentes em sua obra — identidade, projeção e desejo — agora inseridos em um cenário político e quase mítico. A figura da rainha torna-se um reflexo da própria ideia de poder isolado, enquanto o intruso representa uma força de ruptura que ameaça destruir a ordem existente.



Leitura Crítica

O Mistério de Oberwald representa uma fase de experimentação dentro da trajetória de Antonioni. Ao combinar teatro, tecnologia eletrônica e estilização visual, o diretor cria um filme que se distancia do realismo de suas obras anteriores e mergulha em um universo mais simbólico e artificial. Ainda assim, os temas centrais de sua filmografia permanecem presentes: a solidão do poder, a instabilidade das identidades e a impossibilidade de compreender plenamente o outro. O resultado é uma obra singular, que demonstra a contínua busca de Antonioni por novas formas de expressão cinematográfica. 🎬

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Fantasma da Liberdade (1974) Le fantôme de la liberté - 1 h 44 min

Mostra O Discreto Escândalo da Realidade — O Cinema de Luis Buñuel

Uma série de sequências surreais que criticam a moralidade e a sociedade em um estilo de consciência.


O Fantasma da Liberdade (1974) - IMDb
Direção e Roteiro: Luis Buñuel
Comédia de Humor Negro, Sátira


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,7
85%Tomatometer26 Reviews   91%Popcornmeter


A Liberdade como Assombração

Em O Fantasma da Liberdade, Buñuel radicaliza sua crítica ao apresentar a liberdade não como conquista concreta, mas como presença espectral: algo constantemente invocado e imediatamente negado. O filme não busca uma tese única; prefere a dispersão, sugerindo que a liberdade existe apenas enquanto ideia — quando se tenta praticá-la, ela se desfaz.


Inversões que Desnudam a Norma


A estrutura do filme se organiza por inversões lógicas: o que é íntimo torna-se público, o que deveria escandalizar é normalizado, o que é socialmente aceito passa a soar absurdo. Buñuel não cria um mundo “ao contrário” por brincadeira; ele revela que as normas são convenções arbitrárias, sustentadas pela repetição.


Episódios sem Centro

Não há protagonista nem progressão narrativa tradicional. Personagens entram e saem sem aviso, histórias começam e se interrompem. Essa fragmentação não é capricho formal: é método. Buñuel afirma que a realidade social também é descontínua, feita de regras que não se comunicam entre si.


Autoridade Ridicularizada

Polícia, exército, família e justiça aparecem como instituições presas a protocolos vazios. A autoridade não oprime apenas pela força, mas pelo automatismo. Buñuel sugere que o poder mais eficaz é o que não precisa se explicar, apenas repetir seus gestos.


Desejo sem Linguagem

O erotismo atravessa o filme de forma deslocada, nunca celebratória. O desejo não encontra vocabulário legítimo e surge como mal-entendido, punição ou silêncio. Buñuel expõe a hipocrisia de uma sociedade que regula o corpo enquanto finge ignorá-lo.


Humor como Estratégia de Desorientação

O riso provocado pelo filme não conduz ao alívio, mas à perplexidade. Buñuel utiliza o humor para retirar o chão do espectador, impedindo qualquer acomodação moral. Rimos e, em seguida, percebemos que não sabemos exatamente do quê.


Liberdade Sem Saída

Ao contrário de filmes que buscam libertação simbólica, O Fantasma da Liberdade insiste na ausência de solução. Cada tentativa de ruptura é absorvida por outra convenção igualmente arbitrária. A liberdade não é reprimida — é administrada.


O Cinema como Último Espaço de Desordem

Buñuel transforma o próprio cinema em território de insubordinação. Ao negar coerência narrativa e conforto interpretativo, ele faz do filme um gesto político em si. A forma não ilustra a crítica — é a crítica.


Síntese

O Fantasma da Liberdade é um dos filmes mais livres e implacáveis de Luis Buñuel. Ao mostrar uma sociedade que aceita qualquer absurdo desde que ritualizado, Buñuel afirma que o verdadeiro fantasma não é a repressão explícita, mas a normalidade que se passa por liberdade. Aqui, o escândalo não choca — circula.