Mostra Caminhos do Olhar - A Obra de Abbas Kiarostami
Três olhares, um trem e a delicadeza dos encontros que só
existem enquanto duram.
Viagem como Estado de Espírito
Tickets (2005) é menos um filme do que um percurso — um trajeto emocional que se constrói na passagem. Dirigido por Ermanno Olmi, Abbas Kiarostami e Ken Loach, o longa se organiza em três episódios conectados por um trem que cruza a Europa. Mais do que destino, importa o deslocamento: corpos que compartilham o mesmo espaço por algumas horas e, nesse intervalo, revelam fragmentos de suas vidas. O cinema aqui se faz de gestos mínimos, de olhares que hesitam e de silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo.
Três Diretores, Três Sensibilidades
O Encontro como Narrativa
Em Tickets, a narrativa não se constrói por grandes eventos, mas por encontros efêmeros: um cientista e uma jovem assistente, uma mulher solitária e um estranho, torcedores barulhentos e imigrantes marginalizados. São pequenas colisões humanas que revelam desigualdades, empatia e estranhamento. O trem funciona como microcosmo social — um espaço onde hierarquias se manifestam, mas também podem ser momentaneamente suspensas.
Cinema da Observação
Recepção e Legado
Lançado no circuito de festivais, Tickets foi
recebido com respeito, mas sem grande entusiasmo popular. A crítica destacou a
coerência temática entre três cineastas tão distintos, embora alguns apontassem
uma certa irregularidade entre os episódios. Com o tempo, o filme passou a ser
visto como um experimento curioso de colaboração autoral — uma obra menor
dentro das filmografias envolvidas, mas reveladora na forma como articula
diferentes olhares sob uma mesma proposta. Seu legado reside menos no impacto e
mais na ideia: a possibilidade de um cinema coletivo que preserva a
individualidade.
Para Quem é Essa Viagem
Os ratings em plataformas como Flick Metrix e Criticker tendem a posicionar Tickets em uma faixa intermediária, refletindo sua natureza contemplativa e fragmentada. No Criticker, o filme encontra maior ressonância entre espectadores que valorizam cinema de autor e narrativas minimalistas, enquanto o Flick Metrix aponta uma recepção mais morna entre o público geral, menos habituado a estruturas episódicas e ritmos lentos.
Assim, Tickets tende a agradar quem aprecia o cinema
observacional, interessado em nuances e atmosferas — fãs de Kiarostami, do
realismo social de Loach ou do humanismo europeu de Olmi. Por outro lado, pode
frustrar espectadores que buscam narrativas mais definidas, conflitos
explícitos ou progressões dramáticas tradicionais. É um filme que pede
disponibilidade: mais do que entender, é preciso habitar sua duração.