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sábado, 13 de junho de 2026

Feliz como Lázaro (2018) Lazzaro felice - 2 h 8 min



Feliz como Lázaro (2018) - IMDb
Dir: Alice Rohrwacher

Amadurecimento, Drama, Fantasia, Mistério


CLC Score: 8,1





Sinopse

Na propriedade isolada de Inviolata, um grupo de meeiros cultiva tabaco sob o comando da marquesa Alfonsina de Luna, que esconde dos trabalhadores que a meação havia sido abolida por lei décadas antes. Lazzaro (Adriano Tardiolo), o mais dócil e trabalhador entre os camponeses, se aproxima de Tancredi (Luca Chikovani), filho entediado da marquesa, que brinca dizer que os dois são meio-irmãos por conta das infidelidades do pai. Lazzaro leva a brincadeira ao pé da letra e passa a dedicar a Tancredi uma lealdade incondicional.

Tancredi arma um falso sequestro de si mesmo para extorquir a própria mãe, mas o plano expõe, por acidente, todo o esquema de exploração que mantinha os camponeses de Inviolata isolados e enganados havia gerações. Uma rara janela de sinal de celular permite que a filha do administrador da fazenda avise a polícia, e um resgate de helicóptero liberta os meeiros. No meio da confusão, Lazzaro cai de um penhasco.

Análise Crítica

Feliz como Lázaro se inspira em casos reais de meeiros italianos mantidos, por décadas, na ignorância de que a meação havia sido legalmente extinta, isolados em propriedades remotas por proprietários que exploravam justamente essa falta de informação. Alice Rohrwacher descreveu o fato que originou o roteiro como algo mais perturbador do que a escravidão explícita: os trabalhadores não estavam acorrentados nem presos, apenas nunca haviam sido informados de que podiam escolher outra vida, e é essa ausência de grilhões visíveis que, para a diretora, torna a situação impossível de superar por completo.

Rohrwacher optou por elenco majoritariamente não profissional, incluindo mais de cinquenta agricultores da região real para compor o grupo de meeiros, e escolheu Adriano Tardiolo, em sua estreia como ator, depois de buscar alguém capaz de transmitir bondade sem parecer ingênuo ou simplório. A fotografia de Hélène Louvart, rodada em película 16mm, reforça a textura quase documental da primeira metade do filme, enquanto a estrutura narrativa bebe abertamente dos contos populares reunidos por Italo Calvino, referência que a própria diretora citou como fundamental para a concepção do roteiro.

O filme se move sem qualquer transição explicativa entre o realismo rural da primeira parte e o tom de fábula que domina a segunda, unidas pela figura de um lobo que reconhece em Lazzaro algo sagrado. Rohrwacher definiu o protagonista como uma espécie de santo pré-histórico, anterior a qualquer religião organizada, um homem bom que não distingue o que é certo do que é errado porque permanece aberto a tudo sem filtro algum.

A recepção crítica internacional foi entusiástica: o filme venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2018, soma 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e 87 pontos no Metacritic, faixa de aclamação universal. A. O. Scott, do New York Times, descreveu a experiência de assistir ao filme como se render à sua estranheza "da forma como uma criança se deixa envolver por uma história de ninar", e o crítico brasileiro Hugo Gomes, do C7nema, chamou o longa de "uma cápsula personificada de uma Itália perdida", aproximando-o da tradição de Ettore Scola, Ermanno Olmi e Federico Fellini.

⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

Lazzaro desperta anos depois, sem ter envelhecido um só dia, e descobre Inviolata abandonada. Ao procurar os antigos companheiros, encontra Antonia (Alba Rohrwacher) já madura e os demais ex-meeiros sobrevivendo na periferia de uma cidade, sustentados por pequenos golpes e trabalhos precários. Quando reencontra Tancredi, agora um homem arruinado e desacreditado depois de perder a fortuna da família, Lazzaro mantém intacta a mesma devoção de décadas antes, sem qualquer amargura pelo tempo perdido nem pela queda do amigo.

Ao saber que Tancredi foi enganado por um banco e perdeu o que lhe restava do patrimônio, Lazzaro entra na agência com um estilingue quebrado para exigir a devolução do dinheiro em nome do amigo. Os funcionários o confundem com um assaltante armado, o pânico se espalha, e uma multidão o espanca até a morte ao perceber que a arma era falsa. O lobo, que também havia entrado na cidade, escapa da agência bancária e corre livre pelas ruas.

Pouco antes desse desfecho, Lazzaro e o grupo são barrados à porta de uma igreja, e o órgão da nave para de funcionar no instante em que ele se afasta, como se a própria música o seguisse para fora do templo que acabara de recusá-lo. A cena sugere que a santidade de Lazzaro não cabe dentro de uma instituição, assim como sua morte não redime nem transforma a cidade ao seu redor: ao inverter a ressurreição bíblica que empresta o nome ao personagem, o filme mostra um santo que volta à vida sem trazer consigo nenhuma mudança estrutural, já que a exploração que o vitimou em Inviolata apenas trocou de forma, da servidão feudal disfarçada para os golpes financeiros da vida urbana contemporânea.

Conclusão

Feliz como Lázaro sustenta, do início ao fim, a aposta arriscada de colocar no centro da narrativa um protagonista definido inteiramente pela bondade, sem arco de transformação nem ironia que o proteja do sentimentalismo. Alice Rohrwacher transforma essa escolha em força ao recusar qualquer consolo fácil para o espectador: o mundo ao redor de Lazzaro muda de século, de paisagem e de disfarce, mas segue incapaz de reconhecer, e menos ainda de merecer, a pureza que ele encarna.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quando o Amor é Cruel (1966) Incompreso (Vita col figlio) - 1 h 44 min

Mostra:

FORA DO RADAR: filmes que ficaram menores do que são

Um estudo das relações amargas entre um viúvo e seus dois filhos.



Drama

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,6
Letterboxd: 8,0



Comencini não usa um único truque para fazer você chorar. Não precisa. A realidade já é suficiente.


A morte que o filme não mostra

Quando o Amor é Cruel começa depois do funeral. A mãe já está morta, o pai já voltou para casa com os dois filhos, e Luigi Comencini recusa qualquer cena de luto performático que estabeleça o peso do que aconteceu. Não há choro coletivo, não há câmera lenta sobre o caixão, não há trilha que instrua o espectador sobre o que sentir. O que há é um pai que precisa voltar ao trabalho, um filho mais velho de dez anos que o pai decide que é suficientemente maduro para suportar a verdade, e um filho mais novo de seis anos que precisa ser protegido da verdade.

Essa decisão do pai, aparentemente razoável e até carinhosa, é o mecanismo que o filme vai desmontar ao longo de seus 105 minutos com uma paciência e uma precisão que não precisam de drama explícito para chegar onde precisam chegar. Andrea, o mais velho, recebe a verdade sobre a morte da mãe e a tarefa implícita de ser forte. Milo, o mais novo, recebe uma fantasia sobre a mãe que foi para longe. E o pai, convicto de que fez a escolha certa para cada filho, volta ao consulado britânico em Florença e deixa os dois meninos numa mansão enorme com uma babá severa e a ausência que vai crescendo.


Comencini e a câmera que respeita as crianças

Luigi Comencini passou a carreira filmando crianças com uma atenção que o cinema italiano dos anos 1960 raramente demonstrou com essa consistência. Fez Pinocchio para a televisão, fez comédias populares que tinham crianças no centro, e desenvolveu ao longo desse percurso uma linguagem específica para filmar a infância que não infantiliza nem instrumentaliza: filma as crianças como pessoas com vida interior completa, com lógica própria, com formas de processar o mundo que os adultos ao redor frequentemente não veem porque não estão olhando.

Em Quando o Amor é Cruel essa linguagem encontra seu material mais preciso. Comencini filma Andrea com uma câmera que o acompanha sem comentar, que registra o que ele faz e deixa o espectador tirar suas próprias conclusões sobre o que está acontecendo por dentro. Andrea não chora nas cenas em que o espectador esperaria que chorasse. Ri nas cenas em que o espectador ficaria confuso se não estivesse prestando atenção. E carrega uma dor que Comencini nunca externaliza em gesto óbvio, confiando que o acúmulo de cenas pequenas vai criar o peso que a cena grande não precisaria criar.


Anthony Quayle e o pai que não está errado

Anthony Quayle interpreta o pai com uma contenção que o filme precisa que seja precisa: o personagem não pode ser um pai mau, não pode ser negligente no sentido de indiferente, não pode ser o vilão que o espectador descarta facilmente. É um pai que ama seus filhos, que está sofrendo a própria perda, que toma decisões que parecem razoáveis a partir de onde ele está e que são devastadoras a partir de onde Andrea está.

Quayle constrói esse homem com uma rigidez que é britânica no sentido cultural do termo: a contenção emocional como valor, a força como virtude que se ensina aos filhos, a crença de que proteger Milo da verdade e exigir maturidade de Andrea são gestos de amor. O que o filme vai mostrando, sem acusar o pai diretamente, é a distância entre o amor que ele tem e o amor que Andrea precisa receber, e essa distância é incompreensão no sentido mais preciso da palavra, a incapacidade de ver o que está bem na sua frente porque o que está bem na sua frente não corresponde ao que você espera que esteja lá.


Andrea e o preço de ser forte

Stefano Colagrande tinha dez anos quando filmou Quando o Amor é Cruel e entrega uma performance que a crítica internacional consistentemente coloca entre as melhores atuações infantis do cinema europeu, pela naturalidade com que habita um estado interno muito específico: a criança que aprendeu que demonstrar fragilidade não é seguro e que por isso constrói uma superfície de competência que o adulto ao redor interpreta como prova de que a criança está bem.

Andrea protege Milo, aceita a culpa quando Milo faz travessuras, tenta ser o companheiro que o pai não consegue ser para o irmão mais novo. Faz isso não porque é extraordinariamente maduro mas porque leu corretamente o que o ambiente espera dele e está tentando corresponder. Comencini filma esse processo de adaptação com a consciência de que o espectador adulto vai reconhecer o mecanismo antes que o pai dentro do filme reconheça, e essa antecipação é onde o filme instala seu peso mais duradouro: você vê o que está acontecendo, quer que o pai veja também, e o pai não vê.


Milo e o irmão como protetor

Simone Giannozzi como Milo é o contraponto necessário para que o filme funcione. Milo tem seis anos, é travesso, transfere a culpa de suas aventuras para Andrea com a naturalidade de quem ainda não desenvolveu a consciência moral que reconheceria o dano, e ama o irmão com a intensidade inconsciente da infância, sem saber o que esse amor está custando a Andrea.

A relação entre os dois irmãos é o coração emocional do filme e o que Comencini filma com mais alegria: há cenas de brincadeira, de cumplicidade, de invenção infantil que têm a qualidade de vida não encenada, de câmera que chegou cedo e ficou invisível o suficiente para que as crianças esquecessem que estava lá. Essa leveza existe no filme em contraponto direto com o peso do que Andrea está carregando, e Comencini a usa com a consciência de que a infância real contém as duas coisas simultaneamente, que a criança que brinca de tarde pode ser a criança que chora de noite, e que o adulto que vê apenas a brincadeira e conclui que está tudo bem não está vendo a criança inteira.


Mozart como argumento

A trilha de Fiorenzo Carpi usa o Andante do Concerto para Piano nº 23 de Mozart de uma forma que se tornou inseparável da memória do filme para quem o viu. A escolha não é decorativa: o movimento lento do concerto tem uma qualidade de beleza melancólica que o filme usa como estado emocional de fundo, presente quando Andrea está sozinho, quando a mansão parece grande demais, quando a ausência da mãe ocupa o espaço que as palavras não conseguem preencher.

Comencini usa Mozart com a parcimônia de quem sabe que a música tem poder suficiente para substituir cenas que o roteiro não precisaria escrever, e com a consciência de que usá-la em excesso seria exatamente o tipo de truque que o filme recusa. A música aparece quando a imagem já disse o que tinha a dizer e quando o silêncio seria excessivo: no intervalo entre os dois, onde o espectador está processando o que viu, Mozart chega e confirma o que o coração já estava sentindo.


Onde assistir e o que esperar

Quando o Amor é Cruel tem disponibilidade limitada no Brasil, sem presença confirmada nas plataformas de streaming principais. A Radiance Films lançou recentemente uma edição em Blu-ray de alta qualidade que é a melhor forma de assistir, e versões com legenda em inglês estão disponíveis em plataformas de cinema de arte internacionais. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo com boa qualidade. O filme tem 105 minutos em italiano legendado e foi refilmado em 1984 com Gene Hackman num filme muito inferior que ajudou a enterrar o original no esquecimento anglófono.

O espectador que chegar sabendo que o filme vai exigir entrega emocional vai encontrar exatamente isso, e vai encontrar também algo que o melodrama convencional raramente oferece: a sensação de que o que está vendo é verdadeiro, não construído para fazer você sentir o que o filme quer que você sinta, mas observado com suficiente honestidade para que o que você sente seja seu, não emprestado pela câmera.


Por que ficou fora do radar

Quando o Amor é Cruel ficou fora do radar por razões que têm a ver com o lugar que o cinema italiano popular ocupa na hierarquia crítica internacional. Comencini era considerado um diretor de entretenimento, não um autor no sentido que a crítica dos anos 1960 valorizava, e um filme sobre um pai e dois filhos numa mansão florentina não tinha a ambição formal que o circuito de arte exigia para tomar nota.

O que o radar perdeu é um dos estudos mais precisos que o cinema já produziu sobre o dano que o amor mal direcionado pode causar, sobre a distância entre amar alguém e ver alguém, e sobre o preço que as crianças pagam quando os adultos ao redor interpretam a ausência de choro como prova de que está tudo bem. Sessenta anos depois, o filme parece mais contemporâneo do que a maioria do que foi feito na semana passada sobre os mesmos temas, e essa contemporaneidade involuntária é o sinal mais claro de que Comencini havia filmado algo que pertence menos ao seu tempo do que ao tempo humano em geral.

terça-feira, 12 de maio de 2026

A Família (1987) La famiglia - 2 h 7 min

Mostra:

VALE O PLAY: Prime Video - Edição 1

Abrangendo 80 anos da história italiana, o filme retrata intimamente a vida de uma família burguesa romana no mesmo apartamento, desde o início do século XX, passando por duas guerras mundiais e além.


A Família (1987) - IMDb
Dir: Ettore Scola
Drama, Romance


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,4
Letterboxd: 7,6   Flick Metrix: 75
71%Tomatometer7 Reviews

Uma sala de estar. Oitenta anos. E a descoberta de que o tempo não passa: ele se acumula.


O plano que define tudo

La Famiglia começa com uma fotografia e termina com uma fotografia, e entre as duas imagens Ettore Scola filma oitenta anos de uma família romana sem sair do apartamento onde essa família existe. A decisão formal é anunciada nos primeiros minutos e sustentada até o último: não há locações externas, não há flashbacks em outros espaços, não há saída para a rua que alivie a concentração. O que acontece fora daquele apartamento chega como notícia, como eco, como ausência, mas nunca como imagem. Scola entendeu que a restrição espacial é o argumento central do filme sobre como uma família constrói seu próprio universo e como esse universo tem bordas que o mundo externo raramente atravessa completamente.

O apartamento romano é filmado com uma mobilidade de câmera que transforma a restrição em liberdade: Scola e o diretor de fotografia Ricardo Aronovich usam os cômodos, os corredores, a varanda e a sala principal com uma consciência de espaço que vai revelando, ao longo do filme, como o mesmo ambiente físico muda de significado à medida que as pessoas que o habitam mudam. A sala onde Carlo brinca em 1906 é a mesma sala onde Carlo envelhece em 1986, e essa identidade física em contraste com a transformação humana é o instrumento narrativo mais poderoso do filme.


Scola e o tempo como matéria

Ettore Scola passou a carreira examinando a sociedade italiana com uma mistura de afeto e rigor que poucos diretores sustentaram com a mesma consistência, e La Famiglia é o trabalho em que essa mistura encontrou sua forma mais destilada. O filme foi lançado em 1987 e ganhou o César de melhor filme estrangeiro, mas sua recepção internacional nunca correspondeu à sua qualidade, provavelmente porque o que oferece não tem equivalente fácil em nenhum gênero estabelecido.

Não é drama familiar no sentido convencional porque recusa o conflito central que o drama familiar costuma exigir. Não é comédia porque o humor que contém é sempre contaminado por melancolia. Não é épico porque a escala é deliberadamente doméstica. É um filme que inventou sua própria categoria e que por isso exige do espectador uma disposição para habitar um território sem mapa prévio, o que é simultaneamente seu maior desafio e sua maior recompensa.

A decisão de filmar em tempo aproximadamente real dentro de cada sequência, com elipses entre os blocos temporais mas sem cortes que acelerem artificialmente o que está acontecendo dentro de cada cena, produz uma experiência de tempo que o cinema raramente oferece. As conversas têm a duração das conversas reais. Os silêncios têm o peso dos silêncios reais. E a acumulação dessas durações ao longo do filme vai criando uma sensação de vida vivida que a narrativa convencional, com sua compressão e sua seleção de momentos dramáticos, não consegue replicar.


Vittorio Gassman e Carlo

Vittorio Gassman interpreta Carlo em diferentes momentos de sua vida com uma amplitude que o filme usa como espinha dorsal. Carlo é o centro de gravidade de La Famiglia porque é a consciência através da qual o espectador experimenta o tempo: ver Gassman envelhecer dentro do filme, ver o corpo e a voz e os gestos mudando enquanto o apartamento permanece, é a experiência mais próxima que o cinema consegue oferecer de acompanhar uma vida de dentro.

Gassman tinha cinquenta e cinco anos quando filmou La Famiglia e precisou ser ao mesmo tempo o jovem Carlo do início do século, o Carlo de meia-idade e o Carlo idoso que fecha o filme. A solução é a capacidade de um ator extraordinário de comunicar estados físicos e emocionais diferentes através do corpo e da voz com uma convicção que torna a maquiagem irrelevante. Gassman entrega três Carlos que são reconhecivelmente o mesmo homem e reconhecivelmente pessoas diferentes, e essa duplicidade é o que torna o filme emocionalmente verdadeiro em vez de apenas formalmente interessante.


As mulheres e o apartamento

La Famiglia é também um filme sobre as mulheres que passam pelo apartamento e pelo que a família faz com elas. A mãe de Carlo, as irmãs, a mulher que Carlo amou e não ficou com ela, a mulher com quem casou, as noras, as netas: cada uma traz para o apartamento uma energia que o apartamento absorve ou resiste, e Scola filma essas dinâmicas com uma atenção que não é feminista no sentido de declarado mas que é honesta sobre o que a estrutura familiar italiana do século XX exigia das mulheres que a sustentavam.

Fanny Ardant aparece como Adriana, o amor de juventude de Carlo que reaparece décadas depois, e suas cenas com Gassman têm a qualidade específica de dois atores que entendem o que é carregar uma história longa dentro de uma cena curta. O que poderia ter sido entre Carlo e Adriana e o que foi são duas histórias paralelas que o filme mantém em tensão sem resolver, e essa tensão não resolvida é parte do argumento sobre como as escolhas que fazemos nos jovens continuam existindo como possibilidades não realizadas ao lado das vidas que construímos.


A história fora da sala

La Famiglia percorre oitenta anos da história italiana sem mostrar nenhum deles diretamente. A Primeira Guerra Mundial chega como ausência de homens jovens e como cartas. O fascismo chega como conversas interrompidas e como cautela. A Segunda Guerra Mundial chega como escuridão e como medo. O boom econômico dos anos 1950 chega como novos objetos no apartamento e como mudanças de roupa. Maio de 1968 chega como jovens que chegam com ideias que os mais velhos não acompanham completamente.

Scola usa essa estratégia de mostrar a história pelo seu reflexo doméstico com uma consciência de que é exatamente assim que a maioria das pessoas experimenta a história: não como evento que participam mas como pressão que chega de fora e muda o que está dentro. La Famiglia é um filme sobre como a história grande e a história pequena se interpenetram sem que nenhuma das duas precise ceder completamente à outra, e essa interpenetração é filmada com uma leveza que esconde a dificuldade do que está sendo feito.


Onde assistir e o que esperar

La Famiglia está disponível no Prime Video e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 127 minutos que pedem uma disposição específica: a disposição para habitar um espaço e um tempo com personagens que não vão entregar revelações dramáticas mas vão, se o espectador permitir, produzir algo mais raro e mais duradouro. A segunda visita, com o conhecimento de onde o filme vai chegar, transforma cada cena do início numa despedida antecipada de pessoas que você ainda não sabe que vai perder, e essa transformação é o sinal mais claro de que La Famiglia fez o que os grandes filmes fazem: mudou a forma de ver o que estava vendo.


O que a sala guarda

La Famiglia pertence à série Vale o Play não apesar de ser um filme difícil de classificar mas por causa disso. A Filmoteca Seu Manolo existe também para indicar filmes que o algoritmo não vai recomendar porque não sabe em que caixa colocar, e La Famiglia é exatamente esse tipo de filme: sem gênero fixo, sem conflito central identificável, sem o ritmo que as plataformas de streaming treinaram seus usuários a esperar.

O que Ettore Scola filmou em 1987 é uma demonstração de que o cinema pode fazer algo que nenhuma outra forma narrativa consegue com a mesma eficiência: colocar o espectador dentro do tempo de outra pessoa de uma forma que, quando o filme termina, aquele apartamento romano parece ter sido também seu apartamento, aquela família parece ter sido também sua família, e oitenta anos de uma vida que não foi a sua deixaram uma marca que as próximas horas vão precisar de algum tempo para dissipar, se é que dissipam.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Primavera (2025) - 1 h 50 min

Filme incluso na série CLC INDICA




Primavera (2025) - IMDb
Dir: Damiano Michieletto
Biografia, Drama, História, Música

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,1
Letterboxd: 7,2


Vivaldi não salva Cecilia. A música que ele ensina é que salva. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Um diretor de ópera no cinema


Damiano Michieletto é um dos diretores de ópera mais respeitados da Europa, com encenações no Teatro alla Scala e na Royal Opera House, e Primavera é seu primeiro longa-metragem. Essa origem importa porque define a lógica do filme: Michieletto não trata a música como trilha sonora nem como ornamento de época. Trata como força dramática primária, o elemento que move personagens, que rompe silêncios, que diz o que as palavras do roteiro não alcançam. A câmera de Daria D'Antonio e a montagem de Walter Fasano, habitual colaborador de Luca Guadagnino, constroem um ritmo visual que responde ao ritmo musical com uma coerência que o cinema raramente consegue quando o assunto é o universo clássico.

Veneza como organismo, não como cartão postal

Michieletto filma a Veneza do século XVIII com uma brutalidade discreta que recusa a nostalgia decorativa. A cidade que aparece em Primavera é um organismo movido por dinheiro, hierarquia e barganha: os patronos escolhem onde gastar seus domingos com a frieza de investidores, o orfanato da Pietà administra suas órfãs como ativos, e a beleza das concertinas que emergem desse ambiente é inseparável da opressão que as produz. A fotografia tem uma qualidade pictórica que remete à pintura veneziana do período, mas sem o brilho contemplativo que esse referencial costuma trazer. Tintoretto, não Ticiano: luz em movimento, diagonais ousadas, drama resolvido num gesto único.


Cecilia e o peso de ser um instrumento

Tecla Insolia interpreta Cecilia com uma presença que sustenta o filme nos momentos em que o roteiro vacila. Cecilia sabe desde o início que é uma commodity: nasceu no orfanato, toca violino porque o orfanato precisa de sua música para atrair doadores, e seu destino fora dos muros é o casamento com um soldado que ela não escolheu. O arco dela não é de descoberta do talento, que já existe e é reconhecido, mas de descoberta do valor desse talento como ferramenta de agência num mundo que não previu que ela pudesse usá-lo assim. Insolia carrega essa consciência crescente com uma economia expressiva que o filme respeita sem sublinhar.

Vivaldi como catalisador, não como herói

Michele Riondino interpreta Vivaldi como um homem que já foi genial e sabe disso, que chega à Pietà diminuído e precisando tanto da orquestra quanto ela precisa dele. A decisão de não romantizar a figura histórica é o acerto central do roteiro de Michieletto e Ludovica Rampoldi: Vivaldi não é o mestre iluminado que liberta a pupila. É alguém que encontra em Cecilia um espelho de sua própria luta com o reconhecimento e as limitações impostas pelo sistema. A relação entre os dois funciona porque nenhum dos dois é redentor do outro. São dois artistas presos em estruturas diferentes que se reconhecem.

A música como argumento, não como ilustração

A trilha original de Fabio Massimo Capogrosso, construída em diálogo com as composições reais de Vivaldi, é parte inseparável da experiência do filme. Michieletto usa a música com a mesma intenção com que a usaria numa encenação de ópera: para expressar o que os personagens não podem dizer, para contradizer o que estão dizendo, para puxar a cena para frente quando a narrativa ameaça parar. Há momentos em que o filme abandona a lógica do drama realista e entra num território mais próximo do musical sem declarar isso, e nesses momentos Primavera encontra sua voz mais própria.

Onde assistir e o que esperar

Primavera estreou no Festival de Toronto em setembro de 2025 e foi lançado na Itália em dezembro do mesmo ano pela Warner Bros. Está disponível em múltiplas plataformas internacionais segundo o Plex, com distribuição confirmada em mais de 50 países. No Brasil, verificar disponibilidade nas plataformas de streaming europeias com acesso regional. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 111 minutos e um ritmo que exige do espectador disposição para habitar o ambiente antes de julgar a narrativa. Espectadores que chegam esperando um cinebiografia convencional de Vivaldi vão precisar reajustar as expectativas: ele é personagem secundário numa história que pertence a Cecilia.


Arte como única saída possível

Primavera pertence a uma tradição de filmes que entendem a criação artística não como privilégio ou vocação romântica, mas como a única forma de existência digna disponível para quem não tem acesso a nenhuma outra. Cecilia não escolhe a música porque a ama acima de tudo. A escolhe porque é o único território onde as regras que a aprisionam têm uma brecha. Michieletto, vindo do universo da ópera onde essa tensão entre disciplina e liberdade é o próprio material de trabalho, filma essa brecha com a precisão de quem a conhece por dentro.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Gli anni ruggenti (1962) (ROARING YEARS) - 1 h 46 min

FORA DO RADAR: Filmes que mais gente deveria ter visto

A visita incógnita de um hierarca fascista em uma pequena cidade do interior abala profundamente a classe dominante e sua falta de integridade.


Comédia

MP4 / SD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 7,4 (0,5 mil)
Letterboxd: 7,2 (0,7 mil)   Flick Metrix: 73



Um inspetor fascista chega a uma cidade pequena para encontrar culpados. A cidade pequena devolve um espelho.


Zampa e a tradição da comédia com consciência

Luigi Zampa pertence a uma geração de diretores italianos que aprendeu com o neorrealismo que o cinema podia ser popular e honesto ao mesmo tempo, e Gli Anni Ruggenti é talvez sua síntese mais bem realizada. O filme opera no registro da commedia all'italiana, com toda a leveza e o timing cômico que o gênero exige, mas nunca perde de vista o que está debaixo da piada: a anatomia de uma sociedade que aprendeu a conviver com o autoritarismo não por covardia, mas por uma sabedoria prática que é ela mesma uma forma de resistência.

Nino Manfredi e o funcionário que acredita

A performance de Nino Manfredi como Battipaglia é o centro de gravidade do filme. O inspetor não é um vilão convencional: é um homem que acredita genuinamente no que faz, que internalizou a ideologia do regime com uma sinceridade que o torna simultaneamente ridículo e perturbador. Manfredi encontra o equilíbrio exato entre a caricatura e a humanidade, e o resultado é um personagem que o espectador consegue rir e reconhecer ao mesmo tempo, o que é exatamente o território mais incômodo que a comédia pode ocupar.

A cidade como organismo de sobrevivência

O verdadeiro protagonista de Gli Anni Ruggenti não é Battipaglia mas a cidade que ele vai investigar. Zampa constrói uma comunidade que desenvolveu um sistema coletivo de autopreservação: todos colaboram, todos mentem de forma coordenada, todos entendem as regras não escritas de como se comportar diante do poder sem se destruir. Essa inteligência coletiva não é apresentada como heroísmo, mas como pragmatismo, e essa recusa da romantização é o que torna o retrato honesto.

O fascismo como burocracia do absurdo


Zampa filma o aparato do regime como uma máquina produtora de absurdo: formulários que não servem, hierarquias que se contradizem, ordens que chegam de lugares que ninguém sabe identificar. Essa representação burocrática do fascismo tem uma eficácia crítica que a representação monstruosa raramente alcança, porque humaniza o mecanismo sem absolvê-lo. O mal aqui não tem face dramática. Tem carimbo, tem protocolo, tem expediente regular.


Onde assistir e o que esperar

Gli Anni Ruggenti não está disponível nas principais plataformas de streaming brasileiras. Vale buscar em acervos especializados em cinema italiano clássico ou plataformas de importação europeias. Está disponível na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 106 minutos e um ritmo que combina o timing da comédia italiana com a densidade do drama político. Espectadores familiarizados com a commedia all'italiana de Pietro Germi e Dino Risi vão reconhecer o território. Para quem chega sem essa referência, é uma porta de entrada generosa para um dos melhores momentos do cinema italiano.


Por que ficou fora do radar

Gli Anni Ruggenti chegou em 1962 numa janela de mercado ocupada por nomes maiores e mais barulhentos. Fellini lançava Oito e Meio no ano seguinte, Visconti dominava o prestígio internacional, e a commedia all'italiana de Risi e Monicelli consumia o espaço do cinema popular. Zampa, sem o perfil de autor nem o apelo comercial dos contemporâneos mais famosos, ficou numa faixa de invisibilidade que o tempo não corrigiu. O filme merecia o mesmo circuito que encontrou para Germi e para Risi. Não encontrou. E continua esperando.





sexta-feira, 13 de março de 2026

Nascida Para Você (2023) Nata per te - 1 h 53 min

Conta a história de Luca, solteiro, católico e homossexual, que em 2017 adotou Alba, uma criança com síndrome de Down deixada no hospital logo após nascer. Trinta famílias heterossexuais a rejeitaram antes que o tribunal decidisse confiá-la a ele. Luca foi, de fato, o primeiro caso na Itália de uma pessoa homossexual solteira que conseguiu adotar uma filha. Mas o seu gesto não foi de caridade: ele simplesmente queria uma família. 


Drama



IMDB: 7,1


terça-feira, 10 de março de 2026

Me Chame pelo Seu Nome (2017) Call Me by Your Name - 2 h 12 min

<= Juventude em Trânsito

No verão de 1983, Elio Perlman, um jovem de dezessete anos, passa as férias na casa de sua família no interior da Itália. Sua rotina muda com a chegada de Oliver, um estudante norte-americano que permanecerá algumas semanas trabalhando com seu pai, professor de arqueologia. Entre passeios, conversas, leituras, música e dias aparentemente tranquilos, nasce uma relação que transforma profundamente ambos. Ao longo daquele verão, Elio experimenta o primeiro grande amor e descobre que algumas experiências, embora breves, permanecem para sempre.


Amadurecimento, Romance Sensual, Drama


CLC Score: 8,6





Análise Crítica

Poucos filmes contemporâneos compreenderam o primeiro amor com tanta delicadeza quanto Me Chame pelo Seu Nome. Adaptando o romance de André Aciman, Luca Guadagnino constrói uma obra em que os acontecimentos mais importantes raramente se manifestam através de grandes gestos dramáticos. O filme prefere observar pequenos deslocamentos do olhar, pausas entre palavras e silêncios que revelam emoções ainda incapazes de encontrar linguagem. Essa escolha determina toda a experiência narrativa.

Durante boa parte do filme, quase nada parece acontecer. Os dias transcorrem lentamente entre refeições, leituras, banhos de rio, passeios de bicicleta e apresentações musicais. Entretanto, é justamente nessa aparente ausência de acontecimentos que Guadagnino encontra a matéria de seu cinema. O desejo nasce de forma gradual, confundindo-se com a própria passagem do verão.

Timothée Chalamet realiza uma das interpretações mais marcantes da década. Seu Elio combina inteligência, curiosidade intelectual, ironia e extrema vulnerabilidade emocional. O ator constrói um personagem permanentemente dividido entre o impulso de aproximar-se de Oliver e o receio de interpretar equivocadamente seus gestos. Grande parte da riqueza de sua atuação encontra-se justamente naquilo que permanece não verbalizado.

Armie Hammer interpreta Oliver evitando qualquer caricatura do objeto de desejo inalcançável. Carismático, seguro e afetuoso, Oliver também revela momentos de hesitação e conflito. Sua postura inicialmente distante transforma-se aos poucos em reconhecimento de uma atração que igualmente desafia suas certezas. A relação entre ambos desenvolve-se sem pressa.

Luca Guadagnino compreende que o desejo raramente nasce de maneira instantânea. Ele é construído através da convivência, da observação e da expectativa. O filme dedica muito tempo à aproximação dos personagens porque entende que o verdadeiro centro da narrativa está justamente nesse processo.

A direção revela extraordinária elegância. Guadagnino utiliza movimentos de câmera discretos e enquadramentos que frequentemente mantêm certa distância dos personagens. Em vez de impor emoções ao espectador, permite que elas surjam naturalmente da interação entre corpos, espaços e tempo.

A fotografia de Sayombhu Mukdeeprom transforma o verão italiano em presença dramática permanente. A luz quente, os jardins, os pomares, as antigas construções e as paisagens rurais não funcionam apenas como cenário, mas como extensão da experiência emocional dos protagonistas. A natureza acompanha o florescimento do desejo e, posteriormente, a inevitável consciência de sua transitoriedade.

A música ocupa lugar igualmente importante. As composições de Sufjan Stevens, especialmente "Mystery of Love" e "Visions of Gideon", dialogam profundamente com a dimensão afetiva da narrativa. Paralelamente, a presença constante da música clássica reforça o ambiente intelectual em que Elio cresceu, mostrando que arte e sensibilidade fazem parte de sua formação desde a infância.

Outro mérito do filme está na maneira como retrata a família Perlman. Diferentemente de muitas narrativas sobre descoberta da sexualidade, o conflito principal não nasce da rejeição familiar. Guadagnino desloca o foco da intolerância para a própria complexidade da experiência amorosa, permitindo que a narrativa alcance dimensão muito mais universal.



⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Se você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar depois.

A Interpretação da Obra

A grande força de Me Chame pelo Seu Nome está em compreender que o primeiro amor não transforma apenas nossa relação com outra pessoa, mas também nossa percepção do tempo.

O verão de 1983 adquire uma dimensão quase suspensa. Elio vive aqueles dias como se o mundo existisse apenas naquele pequeno espaço entre a chegada e a partida de Oliver. O filme sugere que certas experiências parecem escapar à cronologia comum, permanecendo na memória com intensidade desproporcional à sua duração.

O gesto que dá título ao filme sintetiza essa experiência. Quando Oliver diz "Me chame pelo seu nome e eu chamarei você pelo meu", ambos suspendem temporariamente os limites entre identidade própria e alteridade. Não se trata de perda da individualidade, mas da rara experiência de reconhecer-se profundamente no outro.

A estátua antiga encontrada durante as escavações arqueológicas também possui forte significado simbólico. Assim como os arqueólogos procuram revelar aquilo que permaneceu oculto sob a terra durante séculos, Elio descobre sentimentos que sempre existiram em potência, mas que ainda não haviam encontrado ocasião para emergir. O desejo aparece como algo simultaneamente novo e ancestral.

O discurso final do pai de Elio constitui um dos momentos mais importantes do cinema contemporâneo. Em vez de minimizar o sofrimento do filho ou incentivá-lo a esquecer rapidamente aquela experiência, ele propõe exatamente o contrário. Afirma que a dor faz parte da intensidade de viver e que anestesiar-se para evitar o sofrimento significa também renunciar à possibilidade de sentir plenamente a alegria.

Essa conversa amplia profundamente o sentido da obra. O filme deixa de ser apenas a narrativa de um romance para tornar-se uma reflexão sobre a importância de preservar nossa capacidade de sentir, mesmo quando isso implica enfrentar inevitáveis perdas. O pai compreende que amadurecer não consiste em sofrer menos, mas em recusar a tentação de endurecer emocionalmente.

O extraordinário plano final resume toda essa filosofia. Durante vários minutos, a câmera permanece fixa no rosto de Elio diante da lareira. Enquanto escuta a notícia do noivado de Oliver, ele atravessa sucessivamente tristeza, saudade, aceitação e uma silenciosa gratidão pela experiência vivida. Poucos filmes recentes confiaram tanto na capacidade de um rosto humano expressar a complexidade da vida interior.

Conclusão

Me Chame pelo Seu Nome figura entre as obras mais importantes do cinema do século XXI. Luca Guadagnino realiza um filme de extraordinária delicadeza formal, capaz de transformar um romance de verão em uma profunda meditação sobre desejo, memória e passagem do tempo.

As interpretações excepcionais de Timothée Chalamet e Armie Hammer, aliadas à fotografia luminosa de Sayombhu Mukdeeprom, à trilha sonora sensível e à direção rigorosamente observacional de Guadagnino, produzem uma experiência cinematográfica de rara beleza. Mais do que contar a história de um primeiro amor, o filme investiga como determinadas experiências moldam definitivamente nossa identidade. Ao afirmar que o sofrimento também faz parte da plenitude da existência, Me Chame pelo Seu Nome recorda que a verdadeira maturidade talvez consista não em proteger o coração contra a dor, mas em preservar sua capacidade de permanecer aberto ao mundo.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Identificação de uma Mulher (1982) Identificazione di una donna - 2 h 10 min

MOSTRA ARQUITETURAS DO VAZIO — O Universo de Antonioni

A esposa de um diretor o deixa. Ele persegue outra mulher que também parte. Isso inspira uma ideia cinematográfica sobre os relacionamentos das mulheres. Ele busca uma atriz para estrelar o filme e sua vida.


Drama, Romance

MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,6
60%Tomatometer15 Reviews   55%Popcornmeter

Entre o desejo e o mistério, um cineasta tenta compreender as mulheres — e a si mesmo.

Um cineasta em busca de uma história

Em Identificação de uma Mulher, Michelangelo Antonioni retoma alguns dos temas mais recorrentes de sua obra: o amor como enigma, a incomunicabilidade entre homens e mulheres e a busca por sentido em relações instáveis. O protagonista é Niccolò, um diretor de cinema que tenta desenvolver o roteiro de seu próximo filme enquanto atravessa um período de incerteza emocional.

Durante esse processo, ele se envolve com Mavi, uma mulher misteriosa e fascinante pertencente à alta sociedade romana. A relação entre os dois nasce com intensidade, mas permanece cercada de ambiguidades, silêncios e segredos. A própria identidade de Mavi parece sempre escapar às tentativas de compreensão do protagonista.


Amor, desaparecimento e mistério

A história sofre uma ruptura inesperada quando Mavi desaparece repentinamente da vida de Niccolò. O desaparecimento ecoa um dos gestos narrativos mais célebres do cinema de Antonioni — a ausência que reorganiza toda a narrativa.

A partir desse momento, o protagonista inicia um percurso emocional marcado por perplexidade e tentativa de compreensão. Em sua busca, ele se aproxima de outra mulher, Ida, cuja presença traz uma energia mais direta e concreta. Ainda assim, Niccolò continua perseguindo a imagem de Mavi, como se tentasse decifrar um mistério que talvez nunca possa ser plenamente resolvido.


O cinema como espelho

O filme possui também um forte caráter metacinematográfico. Niccolò procura encontrar uma atriz para seu novo projeto, mas sua dificuldade em definir a personagem feminina revela algo mais profundo: a impossibilidade de capturar plenamente a identidade de alguém.

Antonioni transforma essa busca artística em reflexão sobre o próprio ato de filmar. O diretor sugere que o cinema — assim como o amor — é uma tentativa de compreender o outro através de imagens, gestos e fragmentos de realidade.



Leitura Crítica


 Identificação de uma Mulher
pode ser visto como uma síntese tardia das inquietações que atravessaram toda a obra de Antonioni. O filme revisita temas como o desaparecimento, o desejo e a dificuldade de comunicação entre os indivíduos, agora filtrados por um olhar mais introspectivo e reflexivo. Ao acompanhar a busca de Niccolò por uma mulher que talvez nunca possa ser plenamente compreendida, Antonioni reafirma uma das ideias centrais de seu cinema: a identidade humana permanece sempre envolta em mistério, resistindo a qualquer tentativa definitiva de interpretação. 🎬