Sinopse
Na propriedade isolada de Inviolata,
um grupo de meeiros cultiva tabaco sob o comando da marquesa Alfonsina de Luna,
que esconde dos trabalhadores que a meação havia sido abolida por lei décadas
antes. Lazzaro (Adriano Tardiolo), o mais dócil e trabalhador entre os
camponeses, se aproxima de Tancredi (Luca Chikovani), filho entediado da
marquesa, que brinca dizer que os dois são meio-irmãos por conta das
infidelidades do pai. Lazzaro leva a brincadeira ao pé da letra e passa a
dedicar a Tancredi uma lealdade incondicional.
Tancredi arma um falso sequestro de
si mesmo para extorquir a própria mãe, mas o plano expõe, por acidente, todo o
esquema de exploração que mantinha os camponeses de Inviolata isolados e
enganados havia gerações. Uma rara janela de sinal de celular permite que a
filha do administrador da fazenda avise a polícia, e um resgate de helicóptero
liberta os meeiros. No meio da confusão, Lazzaro cai de um penhasco.
Análise Crítica
Feliz como Lázaro se inspira em casos
reais de meeiros italianos mantidos, por décadas, na ignorância de que a meação
havia sido legalmente extinta, isolados em propriedades remotas por
proprietários que exploravam justamente essa falta de informação. Alice
Rohrwacher descreveu o fato que originou o roteiro como algo mais perturbador
do que a escravidão explícita: os trabalhadores não estavam acorrentados nem
presos, apenas nunca haviam sido informados de que podiam escolher outra vida,
e é essa ausência de grilhões visíveis que, para a diretora, torna a situação
impossível de superar por completo.
Rohrwacher optou por elenco
majoritariamente não profissional, incluindo mais de cinquenta agricultores da
região real para compor o grupo de meeiros, e escolheu Adriano Tardiolo, em sua
estreia como ator, depois de buscar alguém capaz de transmitir bondade sem
parecer ingênuo ou simplório. A fotografia de Hélène Louvart, rodada em
película 16mm, reforça a textura quase documental da primeira metade do filme,
enquanto a estrutura narrativa bebe abertamente dos contos populares reunidos
por Italo Calvino, referência que a própria diretora citou como fundamental
para a concepção do roteiro.
O filme se move sem qualquer
transição explicativa entre o realismo rural da primeira parte e o tom de
fábula que domina a segunda, unidas pela figura de um lobo que reconhece em
Lazzaro algo sagrado. Rohrwacher definiu o protagonista como uma espécie de
santo pré-histórico, anterior a qualquer religião organizada, um homem bom que
não distingue o que é certo do que é errado porque permanece aberto a tudo sem
filtro algum.
A recepção crítica internacional foi
entusiástica: o filme venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes
de 2018, soma 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e 87 pontos no Metacritic,
faixa de aclamação universal. A. O. Scott, do New York Times, descreveu a
experiência de assistir ao filme como se render à sua estranheza "da forma
como uma criança se deixa envolver por uma história de ninar", e o crítico
brasileiro Hugo Gomes, do C7nema, chamou o longa de "uma cápsula
personificada de uma Itália perdida", aproximando-o da tradição de Ettore
Scola, Ermanno Olmi e Federico Fellini.
⚠️ ATENÇÃO: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM
SPOILERS
Se
você ainda não assistiu ao filme, recomendamos interromper a leitura e retornar
depois.
A Interpretação da
Obra
Lazzaro desperta anos depois, sem ter
envelhecido um só dia, e descobre Inviolata abandonada. Ao procurar os antigos
companheiros, encontra Antonia (Alba Rohrwacher) já madura e os demais
ex-meeiros sobrevivendo na periferia de uma cidade, sustentados por pequenos
golpes e trabalhos precários. Quando reencontra Tancredi, agora um homem
arruinado e desacreditado depois de perder a fortuna da família, Lazzaro mantém
intacta a mesma devoção de décadas antes, sem qualquer amargura pelo tempo
perdido nem pela queda do amigo.
Ao saber que Tancredi foi enganado
por um banco e perdeu o que lhe restava do patrimônio, Lazzaro entra na agência
com um estilingue quebrado para exigir a devolução do dinheiro em nome do
amigo. Os funcionários o confundem com um assaltante armado, o pânico se
espalha, e uma multidão o espanca até a morte ao perceber que a arma era falsa.
O lobo, que também havia entrado na cidade, escapa da agência bancária e corre
livre pelas ruas.
Pouco antes desse desfecho, Lazzaro e
o grupo são barrados à porta de uma igreja, e o órgão da nave para de funcionar
no instante em que ele se afasta, como se a própria música o seguisse para fora
do templo que acabara de recusá-lo. A cena sugere que a santidade de Lazzaro
não cabe dentro de uma instituição, assim como sua morte não redime nem
transforma a cidade ao seu redor: ao inverter a ressurreição bíblica que
empresta o nome ao personagem, o filme mostra um santo que volta à vida sem
trazer consigo nenhuma mudança estrutural, já que a exploração que o vitimou em
Inviolata apenas trocou de forma, da servidão feudal disfarçada para os golpes
financeiros da vida urbana contemporânea.
Conclusão
Feliz como Lázaro sustenta, do início
ao fim, a aposta arriscada de colocar no centro da narrativa um protagonista
definido inteiramente pela bondade, sem arco de transformação nem ironia que o
proteja do sentimentalismo. Alice Rohrwacher transforma essa escolha em força
ao recusar qualquer consolo fácil para o espectador: o mundo ao redor de
Lazzaro muda de século, de paisagem e de disfarce, mas segue incapaz de
reconhecer, e menos ainda de merecer, a pureza que ele encarna.