DO OUTRO LADO DA LEI: filmes que fazem você torcer pelo ladrão
Jimmy Logan, um homem de família da Virgínia Ocidental, encaminha Clyde, o seu irmão maneta, e Mellie, a sua irmã cabeleireira, para um elaborado esquema para roubar a pista de corrida de Charlotte Motor Speedway, na Carolina do Norte. Para os ajudar a aceder ao subterrâneo sistema de armazenamento de dinheiro da pista, Jimmy recruta Joe Bang, um instável especialista em demolições. Para complicar o plano, já por si arriscado, um imprevisto obriga-os a executar o assalto durante a Coca-Cola 600, a corrida de Nascar mais popular do ano. Enquanto levam a cabo este ambicioso projeto, os azarados dos Logan ainda têm que enfrentar um obstáculo: uma implacável agente do FBI, que começa a investigar o caso.
Dir: Steven Soderbergh
Filme de Assalto, Ação, Comédia, Drama
MP4 / HD / LEG: Português
IMDB: 7,0 METASCORE: 7,8
Letterboxd: 7,2 Flick Metrix: 70
Dois irmãos, um cofre, uma corrida de NASCAR e um plano
que só parece idiota.
Soderbergh e a classe trabalhadora sem condescendência
Logan Lucky chegou dez anos depois de Ocean's Thirteen e foi
imediatamente chamado de Hillbilly Ocean's pela crítica, o que é uma descrição
precisa e uma redução simultânea. Soderbergh usa a estrutura do heist de
Ocean's mas desloca o ambiente para um território que raramente recebe esse
tratamento no cinema americano: a classe trabalhadora do sul dos Estados
Unidos, com suas caminhonetes, suas bandeiras confederadas e sua fé profunda
num sistema que sistematicamente os esquece. O argumento político de Logan
Lucky está no fato de que Jimmy Logan é tão inteligente quanto Danny Ocean, e
que o único que não sabe disso é o mundo que o demitiu por causa de uma
condição pré-existente.
Channing Tatum e a inteligência não declarada
Jimmy Logan é construído como personagem que o mundo
subestima constantemente e Channing Tatum usa esse subestimação como
instrumento dramático: cada cena em que alguém trata Jimmy como simples é
seguida de uma revelação de que Jimmy estava três passos à frente. Tatum, que
construiu boa parte de sua carreira em filmes que também o subestimavam, traz
para o personagem uma consciência do próprio jogo que só aparece completamente
na revisita, quando você vê o plano real por baixo do plano aparente.
Daniel Craig e o especialista como revelação
Joe Bang é a melhor performance cômica de Daniel Craig por
uma razão simples: ele entendeu que o humor do personagem não vem de fazer
piadas mas de tratar situações absurdas com seriedade absoluta. Joe Bang
explica a química dos explosivos com a seriedade de um professor universitário,
planeja evasões da prisão com a precisão de um general e toma cerveja com a
convicção de um sommelier. Craig encontrou no personagem uma liberdade que o
Bond nunca permitiu, e o resultado é um ator completamente transformado pelo
material certo.
Adam Driver e o irmão de poucas palavras
Clyde Logan, o bartender de um braço interpretado por Adam
Driver, existe no filme como contraponto à energia de Jimmy: mais lento, mais
cuidadoso, mais desconfiante do plano. Driver usa essa cautela para construir
um personagem que o filme vai revelando ser mais complexo do que a posição de
suporte sugere, e a revelação final sobre Clyde é um dos momentos mais
satisfatórios do terceiro ato, exatamente porque Driver passou o filme inteiro
plantando o que seria revelado sem que o espectador percebesse.
Onde assistir e o que esperar
Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 119 minutos e uma estrutura que usa a corrida de NASCAR como
relógio dramático: o espectador sabe quanto tempo o plano tem para funcionar e
Soderbergh usa essa contagem regressiva com a mesma precisão que usou os
cassinos em Ocean's. A investigação que ocupa o terceiro ato, com Hilary Swank
como agente federal, adiciona uma camada que a maioria dos heists não inclui e
que enriquece a estrutura.
O heist como ato político
Logan Lucky fecha a mostra com o argumento mais
explicitamente político disponível no gênero: que roubar do sistema não é
apenas crime, é resposta a um sistema que rouba sistematicamente de quem não
tem recursos para reclamar. Jimmy Logan não é Robin Hood e o filme não o
romantiza dessa forma, mas a satisfação de torcer por sua vitória tem uma
dimensão que vai além do prazer formal do heist. É a satisfação específica de
ver alguém que o mundo subestimou provar que o mundo estava errado. No cinema
de assalto, isso é tudo.
