Mostra:
O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado
Duas pessoas que ainda se amam descobrindo que amor não é
argumento suficiente.
O inventário do amor
Marriage Story começa com uma sequência que é, tecnicamente, um exercício de terapia de casal: Nicole e Charlie listam o que amam um no outro, em voz over, enquanto imagens do cotidiano compartilhado passam na tela. É uma das aberturas mais precisas do cinema romântico recente porque estabelece tudo que o filme vai desmontar sem parecer que está fazendo isso. A lista é real. O amor é real. E o filme começa exatamente no momento em que essas duas realidades deixaram de ser suficientes para manter duas pessoas no mesmo lugar.Noah Baumbach escreve e dirige Marriage Story a partir de uma experiência pessoal que não é segredo, e essa proximidade com o material produz uma precisão que o distanciamento não alcançaria. O filme sabe como um divórcio começa antes de começar, como os advogados entram e mudam a natureza do que estava acontecendo, como duas pessoas que se amam podem se tornar adversárias sem que nenhuma delas tenha planejado isso. É um filme feito por alguém que estava do lado de dentro quando tudo isso aconteceu, e essa perspectiva é visível em cada cena.
Baumbach e a recusa do julgamento
A decisão mais importante de Baumbach é estrutural: o filme não escolhe um lado. Nicole e Charlie recebem quantidades equivalentes de câmera, de compreensão, de cenas em que estão certos e cenas em que estão errados. Scarlett Johansson e Adam Driver foram escalados com consciência dessa equivalência, e os dois entregam performances que funcionam em paralelo sem que uma precise diminuir a outra para existir.Nicole tem razões reais para o que sente: uma carreira que foi subordinada à visão artística de Charlie, uma identidade que foi sendo construída ao redor da dele, um desejo de voltar para Los Angeles que virou negociação e depois batalha. Charlie tem razões reais para o que sente: a sensação de que o casamento estava funcionando até que Nicole decidiu que não estava, a perda progressiva do controle sobre sua própria vida familiar, a distância do filho que vai se instalando enquanto os advogados conversam. Baumbach não decide quem está mais certo porque entende que a questão não é essa.
Os advogados como aceleradores
Marriage Story entende o mecanismo específico pelo qual um divórcio amigável se torna uma guerra: a entrada dos advogados. Não porque os advogados sejam vilões, o filme é cuidadoso em não transformá-los nisso, mas porque o sistema legal do divórcio é construído sobre adversarialidade, e duas pessoas que queriam resolver as coisas entre si passam a existir dentro de uma estrutura que as posiciona como oponentes e recompensa quem joga melhor dentro dessa estrutura.Laura Dern interpreta Nora, a advogada de Nicole, com uma energia que o filme usa como comentário sobre o que o processo faz com as pessoas que passam por ele. Ray Liotta aparece como o advogado que Charlie eventualmente contrata quando percebe que estar do lado mais fraco da batalha jurídica tem consequências reais. Alan Alda é o advogado que Charlie procura primeiro, gentil e conciliador, e a cena em que ele explica por que não pode representá-lo adequadamente é uma das mais honestas do filme sobre o que o sistema exige de quem entra nele.
A cena da briga
Há uma cena em Marriage Story que concentra tudo que o filme está fazendo e que é, isoladamente, uma das mais bem escritas e bem executadas do cinema americano da década. Charlie vai ao apartamento de Nicole em Los Angeles para uma conversa que começa controlada e vai perdendo o controle de forma tão gradual e tão reconhecível que assistir é fisicamente desconfortável.Baumbach deixa a cena durar. Não corta quando o desconforto aumenta, não alivia a tensão com nenhum recurso de roteiro que desvie o olhar do que está acontecendo. Nicole e Charlie dizem coisas que não podem ser retiradas, coisas que os dois sabem que vão custar, e dizem mesmo assim porque chegaram ao ponto em que o custo já não funciona mais como freio. Driver chora depois de dizer o que disse, e esse choro não é arrependimento performático: é o choro de alguém que acabou de descobrir o que estava guardando e não sabia que guardava. A cena termina com os dois no chão, esgotados, e por um momento o filme deixa existir algo que parece ternura. Baumbach não explica esse momento. Deixa ele existir e passa adiante.
Henry como medida do dano
O filho de Nicole e Charlie, Henry, existe no filme como medida silenciosa do que o processo está custando. Henry está lá, observando, se adaptando, sendo transportado entre apartamentos e cidades com uma naturalidade que é ela mesma um retrato de como as crianças processam o que os adultos ao redor não conseguem processar.Há um momento perto do fim em que Charlie lê em voz alta uma composição que Henry escreveu na escola, e o que a composição revela sobre como a criança está vendo o mundo ao redor é suficiente para fazer o que nenhuma cena de choro explícito conseguiria. Baumbach entendeu que o dano mais real de um divórcio raramente aparece nas cenas de confronto. Aparece nos momentos laterais, nas adaptações silenciosas, nas formas que as crianças encontram de dar sentido ao que os adultos desfizeram.
Onde assistir e o que esperar
Marriage Story está disponível na Netflix e na Filmoteca Seu Manolo. A fotografia de Robbie Ryan usa a diferença entre Nova York e Los Angeles de forma funcional: as duas cidades têm qualidades de luz e de espaço diferentes que o filme usa para comunicar estados emocionais sem precisar verbalizar. A trilha de Randy Newman é discreta a ponto de quase não existir, e essa discrição é a escolha certa para um filme que já tem música suficiente na cena em que Charlie canta Being Alive numa festa, que é ao mesmo tempo o momento de maior leveza e maior tristeza do filme. O filme tem 137 minutos que não têm gordura, e a segunda visita, com o conhecimento do que vem, transforma a abertura numa despedida que você não soube que estava vendo na primeira vez.
O amor que sobrevive ao fim
Marriage Story pertence ao bloco do amor depois da idealização romântica porque é o retrato mais preciso de quando a decisão foi tomada e o que resta é negociar os termos do fim. Charlie e Nicole ainda se amam durante o divórcio, e Baumbach filma esse amor residual com a mesma atenção que filma o conflito, porque os dois coexistem e a coexistência é o que torna tudo mais difícil.%20Goodfellas.jpeg)