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domingo, 10 de maio de 2026

História de um Casamento (2019) Marriage Story - 2 h 17 min

Mostra:

O AMOR NO TEMPO DO QUASE: Vínculos Frágeis num Mundo Acelerado


Um diretor de teatro e sua esposa lidam com seu complicado divórcio, explorando extremos pessoais e profissionais.

Drama Psicológico, Romance Sombrio, Romance Trágico


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,9   METASCORE: 9,4
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 85
95%Tomatometer407 Reviews

Duas pessoas que ainda se amam descobrindo que amor não é argumento suficiente.


O inventário do amor

Marriage Story começa com uma sequência que é, tecnicamente, um exercício de terapia de casal: Nicole e Charlie listam o que amam um no outro, em voz over, enquanto imagens do cotidiano compartilhado passam na tela. É uma das aberturas mais precisas do cinema romântico recente porque estabelece tudo que o filme vai desmontar sem parecer que está fazendo isso. A lista é real. O amor é real. E o filme começa exatamente no momento em que essas duas realidades deixaram de ser suficientes para manter duas pessoas no mesmo lugar.

Noah Baumbach escreve e dirige Marriage Story a partir de uma experiência pessoal que não é segredo, e essa proximidade com o material produz uma precisão que o distanciamento não alcançaria. O filme sabe como um divórcio começa antes de começar, como os advogados entram e mudam a natureza do que estava acontecendo, como duas pessoas que se amam podem se tornar adversárias sem que nenhuma delas tenha planejado isso. É um filme feito por alguém que estava do lado de dentro quando tudo isso aconteceu, e essa perspectiva é visível em cada cena.


Baumbach e a recusa do julgamento

A decisão mais importante de Baumbach é estrutural: o filme não escolhe um lado. Nicole e Charlie recebem quantidades equivalentes de câmera, de compreensão, de cenas em que estão certos e cenas em que estão errados. Scarlett Johansson e Adam Driver foram escalados com consciência dessa equivalência, e os dois entregam performances que funcionam em paralelo sem que uma precise diminuir a outra para existir.

Nicole tem razões reais para o que sente: uma carreira que foi subordinada à visão artística de Charlie, uma identidade que foi sendo construída ao redor da dele, um desejo de voltar para Los Angeles que virou negociação e depois batalha. Charlie tem razões reais para o que sente: a sensação de que o casamento estava funcionando até que Nicole decidiu que não estava, a perda progressiva do controle sobre sua própria vida familiar, a distância do filho que vai se instalando enquanto os advogados conversam. Baumbach não decide quem está mais certo porque entende que a questão não é essa.


Os advogados como aceleradores

Marriage Story entende o mecanismo específico pelo qual um divórcio amigável se torna uma guerra: a entrada dos advogados. Não porque os advogados sejam vilões, o filme é cuidadoso em não transformá-los nisso, mas porque o sistema legal do divórcio é construído sobre adversarialidade, e duas pessoas que queriam resolver as coisas entre si passam a existir dentro de uma estrutura que as posiciona como oponentes e recompensa quem joga melhor dentro dessa estrutura.

Laura Dern interpreta Nora, a advogada de Nicole, com uma energia que o filme usa como comentário sobre o que o processo faz com as pessoas que passam por ele. Ray Liotta aparece como o advogado que Charlie eventualmente contrata quando percebe que estar do lado mais fraco da batalha jurídica tem consequências reais. Alan Alda é o advogado que Charlie procura primeiro, gentil e conciliador, e a cena em que ele explica por que não pode representá-lo adequadamente é uma das mais honestas do filme sobre o que o sistema exige de quem entra nele.


A cena da briga

Há uma cena em Marriage Story que concentra tudo que o filme está fazendo e que é, isoladamente, uma das mais bem escritas e bem executadas do cinema americano da década. Charlie vai ao apartamento de Nicole em Los Angeles para uma conversa que começa controlada e vai perdendo o controle de forma tão gradual e tão reconhecível que assistir é fisicamente desconfortável.

Baumbach deixa a cena durar. Não corta quando o desconforto aumenta, não alivia a tensão com nenhum recurso de roteiro que desvie o olhar do que está acontecendo. Nicole e Charlie dizem coisas que não podem ser retiradas, coisas que os dois sabem que vão custar, e dizem mesmo assim porque chegaram ao ponto em que o custo já não funciona mais como freio. Driver chora depois de dizer o que disse, e esse choro não é arrependimento performático: é o choro de alguém que acabou de descobrir o que estava guardando e não sabia que guardava. A cena termina com os dois no chão, esgotados, e por um momento o filme deixa existir algo que parece ternura. Baumbach não explica esse momento. Deixa ele existir e passa adiante.


Henry como medida do dano

O filho de Nicole e Charlie, Henry, existe no filme como medida silenciosa do que o processo está custando. Henry está lá, observando, se adaptando, sendo transportado entre apartamentos e cidades com uma naturalidade que é ela mesma um retrato de como as crianças processam o que os adultos ao redor não conseguem processar.

Há um momento perto do fim em que Charlie lê em voz alta uma composição que Henry escreveu na escola, e o que a composição revela sobre como a criança está vendo o mundo ao redor é suficiente para fazer o que nenhuma cena de choro explícito conseguiria. Baumbach entendeu que o dano mais real de um divórcio raramente aparece nas cenas de confronto. Aparece nos momentos laterais, nas adaptações silenciosas, nas formas que as crianças encontram de dar sentido ao que os adultos desfizeram.


Onde assistir e o que esperar

Marriage Story está disponível na Netflix e na Filmoteca Seu Manolo. A fotografia de Robbie Ryan usa a diferença entre Nova York e Los Angeles de forma funcional: as duas cidades têm qualidades de luz e de espaço diferentes que o filme usa para comunicar estados emocionais sem precisar verbalizar. A trilha de Randy Newman é discreta a ponto de quase não existir, e essa discrição é a escolha certa para um filme que já tem música suficiente na cena em que Charlie canta Being Alive numa festa, que é ao mesmo tempo o momento de maior leveza e maior tristeza do filme. O filme tem 137 minutos que não têm gordura, e a segunda visita, com o conhecimento do que vem, transforma a abertura numa despedida que você não soube que estava vendo na primeira vez.


O amor que sobrevive ao fim

Marriage Story pertence ao bloco do amor depois da idealização romântica porque é o retrato mais preciso de quando a decisão foi tomada e o que resta é negociar os termos do fim. Charlie e Nicole ainda se amam durante o divórcio, e Baumbach filma esse amor residual com a mesma atenção que filma o conflito, porque os dois coexistem e a coexistência é o que torna tudo mais difícil.






sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Os Bons Companheiros (1990) Goodfellas - 2 h 25 min

Mostra Martin Scorsese - Vida, Obra e Estilo

Mostra Filmes Live Action do IMDB Top 250 - #17

Mostra Os Vencedores do BAFTA: Uma Linhagem de Grandes Filmes

A história do Henry Hill e sua vida na máfia, sua relação com sua esposa Karen Hill e seus colegas da máfia Jimmy Conway e Tommy DeVito no sindicato ítalo-americano do crime.


Os Bons Companheiros (1990) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Crime Verdadeiro, Docudrama, Gângster, Biografia


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,7   METASCORE: 9,2
94%Tomatometer166 Reviews   97%Popcornmeter


Os Bons Companheiros (1990)

A ascensão e queda da máfia através dos olhos de um homem que queria pertencer a qualquer custo


1. Contexto Histórico e Produção

O filme é baseado no livro Wiseguy (1985), de Nicholas Pileggi, que documenta a vida do mafioso Henry Hill. Scorsese se encantou pelo material por seu tom documental, cotidiano e, principalmente, pela oportunidade de explorar o funcionamento interno da máfia não como épico, mas como vida diária — rotinas, códigos, vícios, recompensas e punições.

Esse é o projeto que marca a chegada de Scorsese aos anos 1990 com toda sua maturidade:

  • realização técnica exuberante,
  • energia narrativa incansável,
  • violência estilizada,
  • humor sombrio,
  • e o tema central de sua carreira:
    um homem tentando pertencer a uma comunidade moralmente questionável.

Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci formam o trio principal, com performances icônicas.


2. Enredo

A história acompanha Henry Hill (Ray Liotta) desde a infância em um bairro ítalo-americano até sua vida adulta dentro da máfia.

A estrutura segue três movimentos:



Ascensão (década de 1950–60)

  • Henry seduzido pelos gângsteres locais.
  • Sua entrada no mundo do crime organizado.
  • Pequenos golpes, camaradagem, poder, dinheiro fácil.

Auge (década de 1970)

  • Parceria com Jimmy Conway (De Niro) e Tommy DeVito (Joe Pesci).
  • O famoso assalto da Lufthansa.
  • Estabilidade e glamour, festas e restaurantes, carros e ternos.

Queda (final dos anos 1970–1980)

  • A cocaína, a paranoia e a desconfiança.
  • A violência de Tommy.
  • Henry se tornando informante do FBI para sobreviver.

A narrativa acompanha o colapso dessas relações e de toda a vida criminosa dos personagens — algo inevitável no universo scorsesiano.


3. Temas Centrais

3.1 Pertencimento e identidade

Henry quer ser alguém. Quer respeito, quer comunidade, quer família.
A máfia oferece tudo isso… por um preço alto demais.

3.2 Sedução do crime

O filme mostra o crime como sedutor, divertido, luxuoso — e depois desmonta essa ilusão com brutalidade.



3.3 Violência banalizada

A violência não é épica; é cotidiana, impulsiva, irracional.

3.4 Masculinidade e poder

Scorsese examina como os laços entre homens são guiados por ego, lealdade, controle e medo.

3.5 Consequências e decadência

O preço da escolha criminosa é pago lentamente, em paranoia e isolamento.


4. Estilo Visual e Narrativo

4.1 O plano-sequência do Copacabana

Um dos momentos mais famosos do cinema:
Henry conduz Karen por corredores, cozinhas e entradas secretas em um movimento contínuo que simboliza a sedução do mundo mafioso.

4.2 Montagem frenética

Thelma Schoonmaker cria um ritmo acelerado, hipnótico, especialmente na sequência da cocaína no final do filme.

4.3 Narração em off dupla

Henry e Karen narram parte da história, oferecendo um olhar íntimo e irônico.

4.4 Realismo brutal

Scorsese evita glamourizar a violência: ela é suja, repentina, chocante — especialmente nas mãos de Tommy, interpretado por Joe Pesci.




4.5 Uso magistral da trilha sonora

Rock, soul e pop dos anos 50 a 80, com canções usadas como comentários emocionais e irônicos da ação.


5. Personagens e Atuações


Henry Hill (Ray Liotta)

Um protagonista ambíguo, carismático, frágil e perdido. Liotta entrega uma das performances mais intensas da década.

Jimmy Conway (Robert De Niro)

Frio, calculista, elegante e assustador. O “mentor” que nunca demonstra afeto de verdade.

Tommy DeVito (Joe Pesci)

Explosivo, imprevisível, violento. Pesci venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
Sua cena “Funny how?” é histórica.

Karen Hill (Lorraine Bracco)

A voz feminina que observa o mundo mafioso com fascínio e horror. Nomeada ao Oscar.



6. Importância na Carreira de Scorsese

marco absoluto de sua maturidade artística;
redefiniu o filme de máfia moderno, influenciando Família Soprano e dezenas de obras;
consolidou parcerias, especialmente com Thelma Schoonmaker;
tornou-se estudo obrigatório em escolas de cinema.

É considerado por muitos críticos o maior filme de Scorsese.


7. Recepção e Legado

  • 6 indicações ao Oscar; Pesci ganhou sua estatueta.
  • Elogiado como uma obra-prima instantânea.
  • Presença constante em listas dos melhores filmes da história.
  • Influenciou Cassino (1995), Os Infiltrados (2006) e até filmes de outros autores.
  • A frase "As far back as I can remember, I always wanted to be a gangster" tornou-se ícone cultural.
Hoje, Os Bons Companheiros é visto como um dos pilares do cinema americano contemporâneo — e uma obra que permanece fresca, veloz 
e fascinante décadas após sus estreia.