terça-feira, 13 de janeiro de 2026
ABC do Amor (2005) Little Manhattan - 1 h 24 min
domingo, 12 de outubro de 2025
Amadeus (1984) - 3 h 00 min
"ENTRE ACORDES E ABISMOS - O cinema diante do mito do artista musical"
ANSIEDADE - Do cotidiano ao limite
O narrador como armadilha
Amadeus é narrado por Salieri velho, internado num hospício, confessando ao padre o assassinato de Mozart. Miloš Forman e Peter Shaffer estabelecem desde o início que o narrador é não confiável, obcecado e possivelmente louco, e então fazem algo mais interessante: contam a história pelo ponto de vista dele mesmo assim. O que o espectador recebe não é um retrato de Mozart, mas o retrato que Salieri faz de Mozart, saturado de admiração e ódio em proporções que variam a cada cena. Essa escolha narrativa transforma o filme numa investigação sobre percepção, não sobre fatos.
Mozart como provocação
involuntária
Tom Hulce interpreta Mozart como alguém completamente alheio ao efeito que causa. Ele ri alto, faz piadas ruins, é infantil e indisciplinado, e produz música de uma perfeição que ninguém ao redor consegue explicar. Forman usa esse contraste de forma implacável: cada cena em que Mozart aparece sendo vulgar é seguida de uma cena em que sua música desfaz qualquer argumento contra ele. O filme entende que o gênio genuíno não precisa de dignidade para ser insuportável, e que é exatamente essa indiferença às formas que torna Salieri louco.
A ansiedade da comparação
O que Amadeus mapeia com precisão clínica é o mecanismo psicológico da comparação como fonte de sofrimento. Salieri não seria infeliz numa vida sem Mozart. Sua competência seria suficiente, sua reputação seria real, sua relação com Deus seria estável. Mozart não faz nada para destruí-lo. Apenas existe, e essa existência redefine o padrão. O filme transforma esse mecanismo banal e universal numa narrativa de proporções épicas, o que explica por que ressoa tão além do contexto histórico ou musical.
Forman e a escala do
ressentimento
Miloš
Forman filma Amadeus com a grandiosidade da ópera porque o ressentimento de
Salieri tem essa escala. A fotografia de Miroslav Ondríček usa os interiores
vienenses com uma suntuosidade que não é decorativa: o ambiente opulento torna
a miséria interior de Salieri ainda mais visível por contraste. A trilha,
obviamente, é Mozart, e Forman usa isso como argumento visual: toda vez que a
música entra, o filme prova o ponto de Salieri contra ele mesmo.
Onde assistir e o que esperar
A versão do diretor, com três horas de duração, é a mais completa e a recomendada. Está disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. O filme exige paciência no primeiro ato, mas a performance de F. Murray Abraham sustenta cada minuto. Assistir sabendo que Shaffer adaptou sua própria peça teatral ajuda a entender por que os monólogos de Salieri têm a densidade que têm.
A insuficiência como tema central
do bloco
Amadeus estabelece a forma mais devastadora da ansiedade de não ser suficiente: aquela que não tem conserto. Salieri não pode trabalhar mais, não pode se dedicar mais, não pode melhorar o suficiente para alcançar Mozart, porque o problema não é a distância entre os dois, é a natureza do talento de Mozart. Amadeus coloca um caso extremo, onde a insuficiência é estrutural e irreversível.