Mostra Caminhos do Olhar - A Obra de Abbas Kiarostami
Durante uma viagem de trem da Europa Central a Roma, os personagens se conectam por meio de encontros casuais e contam uma história de amor, acaso e sacrifício. Uma única jornada provoca muitas mudanças para muitas pessoas.
Comédia, Drama
MP4 / SD+ / LEG: Português
IMDB: 6,9
FLICK METRIX: 72 Average Percentile: 52.54%
Três olhares, um trem e a delicadeza dos encontros que só
existem enquanto duram.
Viagem como Estado de Espírito
Tickets (2005) é menos um filme do que um percurso —
um trajeto emocional que se constrói na passagem. Dirigido por Ermanno Olmi, Abbas
Kiarostami e Ken Loach, o longa se organiza em três episódios conectados por um
trem que cruza a Europa. Mais do que destino, importa o deslocamento: corpos
que compartilham o mesmo espaço por algumas horas e, nesse intervalo, revelam
fragmentos de suas vidas. O cinema aqui se faz de gestos mínimos, de olhares
que hesitam e de silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo.
Três Diretores, Três Sensibilidades
Cada segmento carrega a assinatura de seu autor, mas todos
convergem na observação do humano em trânsito. Olmi abre o filme com uma
melancolia quase espiritual; Kiarostami introduz um jogo sutil de identidades e
relações; Loach encerra com seu olhar social atento às tensões de classe e
solidariedade. Não há rupturas bruscas — apenas variações de tom dentro de uma
mesma sinfonia discreta. O trem, como eixo, dissolve fronteiras estilísticas e
transforma diferenças em continuidade.
O Encontro como Narrativa
Em
Tickets, a narrativa não se constrói por grandes
eventos, mas por encontros efêmeros: um cientista e uma jovem assistente, uma
mulher solitária e um estranho, torcedores barulhentos e imigrantes
marginalizados. São pequenas colisões humanas que revelam desigualdades,
empatia e estranhamento. O trem funciona como microcosmo social — um espaço
onde hierarquias se manifestam, mas também podem ser momentaneamente suspensas.
Cinema da Observação
O filme aposta em uma encenação discreta, quase invisível. A
câmera observa sem interferir, permitindo que o espectador se aproxime dos
personagens como quem divide o mesmo vagão. Essa abordagem ecoa especialmente o
cinema de Kiarostami, onde o real e o ficcional se confundem, e o de Loach, com
sua ética do cotidiano. Em
Tickets, o extraordinário surge justamente da
atenção ao banal.
Recepção e Legado
Lançado no circuito de festivais, Tickets foi
recebido com respeito, mas sem grande entusiasmo popular. A crítica destacou a
coerência temática entre três cineastas tão distintos, embora alguns apontassem
uma certa irregularidade entre os episódios. Com o tempo, o filme passou a ser
visto como um experimento curioso de colaboração autoral — uma obra menor
dentro das filmografias envolvidas, mas reveladora na forma como articula
diferentes olhares sob uma mesma proposta. Seu legado reside menos no impacto e
mais na ideia: a possibilidade de um cinema coletivo que preserva a
individualidade.
Para Quem é Essa Viagem
Os ratings em plataformas como Flick Metrix e Criticker
tendem a posicionar
Tickets em uma faixa intermediária, refletindo sua
natureza contemplativa e fragmentada. No Criticker, o filme encontra maior
ressonância entre espectadores que valorizam cinema de autor e narrativas
minimalistas, enquanto o Flick Metrix aponta uma recepção mais morna entre o
público geral, menos habituado a estruturas episódicas e ritmos lentos.
Assim, Tickets tende a agradar quem aprecia o cinema
observacional, interessado em nuances e atmosferas — fãs de Kiarostami, do
realismo social de Loach ou do humanismo europeu de Olmi. Por outro lado, pode
frustrar espectadores que buscam narrativas mais definidas, conflitos
explícitos ou progressões dramáticas tradicionais. É um filme que pede
disponibilidade: mais do que entender, é preciso habitar sua duração.