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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Fedora (1978) - 1 h 56 min

BILLY WILDER: O Cinismo como Método

Barry ''Dutch'' Detweiler, produtor de Hollywood, tenta atrair Fedora.


Fedora (1978) - IMDb
Dir: Billy Wilder
Drama do Mundo do Espetáculo, Tragédia, Romance

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,8
Flick Metrix: 69   Criticker Average Percentile: 51%
72%Tomatometer18 Reviews   63%Popcornmeter


Hollywood sabe fabricar deusas. O que não sabe é o que fazer quando elas se recusam a envelhecer.


O espelho de Crepúsculo dos Deuses

Quase trinta anos depois de Sunset Blvd., Wilder voltou ao tema que mais o assombrava: a indústria que cria mitos e depois os abandona. Fedora é frequentemente lido como o irmão mais sombrio daquele filme, e a comparação faz sentido, mas é também uma simplificação. Aqui Wilder não tem mais a raiva jovem de 1950. Tem algo mais pesado e mais difícil de nomear, uma lucidez cansada sobre o tempo, a beleza e o preço que se paga para preservar ambos.


O segredo por trás da máscara

A premissa gira em torno de uma estrela que parece não envelhecer, cercada de mistério e isolamento numa ilha grega. Um produtor falido vai até ela em busca de um último projeto. O que ele encontra é uma verdade que Wilder revela com a estrutura de um thriller e a sensibilidade de um réquiem. A reviravolta no centro do filme é uma declaração sobre o que o culto à juventude exige das mulheres, e sobre quem paga a conta no final.


William Holden e o peso dos anos

Wilder escalou William Holden para o papel do produtor, e a escolha carrega um peso que vai além da atuação. Holden havia protagonizado Sunset Blvd. em 1950, e vê-lo aqui, visivelmente marcado pelo tempo, adiciona uma camada de melancolia que nenhum roteiro poderia escrever. É como se Wilder estivesse dizendo que todos nós, inclusive os que ficaram atrás das câmeras, somos engolidos pela mesma máquina. A auto-convivência do gesto é comovente e perturbadora ao mesmo tempo.


O último grande gesto

Fedora foi ignorado na época e continua sendo um dos títulos menos vistos da filmografia de Wilder. É um erro que o tempo vai corrigindo devagar. Há nesse filme uma tristeza adulta e sem concessões que só aparece na obra de quem viveu o suficiente para não precisar mais fingir. Wilder tinha 72 anos quando o fez. Sabia exatamente o que estava filmando, e sabia também que poucos iriam entender na hora. Às vezes o cinema mais honesto é o que chega mais tarde.

 






quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Viagem dos Condenados (1976) Voyage of the Damned - 2 h 35 min

Mostra Orson Welles: Um Homem, Muitos Palcos

Um transatlântico de luxo transporta refugiados judeus da Alemanha de Hitler em uma luta desesperada pela sobrevivência.


Drama de Época, Tragédia, Guerra

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,4   METASCORE: 3,1
82%Tomatometer11 Reviews   52%Popcornmeter




Um drama histórico que transforma uma travessia marítima em alegoria do abandono moral do mundo diante da perseguição.


O Navio como Mundo Fechado

A Viagem dos Condenados concentra sua força dramática em um espaço delimitado: o transatlântico que transporta refugiados judeus em fuga do nazismo. O navio funciona como microcosmo da humanidade, onde esperança, medo e ilusão convivem sob a promessa frágil de um porto seguro que talvez nunca venha.


A Esperança como Suspensão

Durante boa parte da narrativa, a expectativa de acolhimento sustenta os passageiros. O filme constrói essa esperança com delicadeza, permitindo que pequenos gestos e conversas reforcem a crença em uma solução diplomática. No entanto, essa espera prolongada torna-se forma de sofrimento: quanto mais se acredita na chegada, mais devastador será o retorno.


A Política como Negação


A tragédia não se dá por explosão de violência imediata, mas por sucessivas recusas administrativas. Portos fechados, negociações interrompidas e decisões burocráticas transformam o destino dos passageiros em impasse cruel. O filme expõe como a indiferença institucional pode ser tão letal quanto a perseguição explícita.


A Retórica do Poder


Na participação de Orson Welles, o discurso oficial adquire gravidade perturbadora. Welles encarna a face eloquente do regime, demonstrando como a linguagem pode justificar o injustificável. Sua presença reforça a dimensão trágica do filme: o mal não precisa gritar — ele pode falar com calma e convicção.


O Retorno como Condenação


O momento em que o navio é obrigado a regressar à Europa não possui espetáculo, mas devastação silenciosa. A travessia, que prometia salvação, transforma-se em sentença. O filme afirma que o verdadeiro horror não está apenas na perseguição, mas na falha coletiva de impedir que ela continue.


Recepção e Legado

Lançado com elenco internacional e grande expectativa, Voyage of the Damned recebeu críticas mistas, elogiado por sua relevância histórica, mas acusado por alguns de excesso melodramático. Com o tempo, o filme passou a ser valorizado como importante representação cinematográfica do episódio do navio St. Louis e como denúncia da apatia internacional diante do avanço do nazismo. A participação de Orson Welles consolidou-se como uma de suas presenças mais sombrias, simbolizando o poder que fala com eloquência enquanto o mundo falha em agir. Hoje, o filme permanece como alerta histórico sobre responsabilidade coletiva e as consequências da indiferença política.

 





terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (1982) A Midsummer Night's Sex Comedy - 1 h 28 min

Mostra Retrospectiva Woody Allen - Risos, Neurose e Nova York

No início do século XX, o inventor maluco Andrew Hobbs e sua esposa Adrian convidam outros dois casais para uma festa de fim de semana em sua romântica casa de veraneio no interior do país.


Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (1982) - IMDb
Dir: Woody Allen
Comédia


MP4 / HD- / LEG: Português

IMDB: 6,6   METASCORE: 5,1
74%Tomatometer27 Reviews   57%Popcornmeter


Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão é um dos filmes mais leves, solares e conscientemente artificiais de Woody Allen. Inspirado livremente em Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare, e nas comédias de costumes do cinema europeu (especialmente Ingmar Bergman, em sua fase mais lúdica), o filme funciona como uma fantasia pastoral sobre desejo, casamento e ilusão amorosa.

Aqui, Allen abandona a neurose urbana e aposta numa comédia de corpos, impulsos e equívocos, ambientada longe de Nova York e de suas angústias intelectuais.


O campo como espaço da liberação

Ambientado no início do século XX, em uma casa de campo durante o verão, o filme desloca seus personagens para um ambiente onde regras sociais parecem temporariamente suspensas. A natureza funciona como catalisador do desejo: noites quentes, bosques, lagos e caminhos sinuosos estimulam encontros inesperados.

Allen sugere que o desejo não nasce da transgressão moral, mas da proximidade física e do ócio.


Três casais, múltiplas fantasias

A narrativa gira em torno de três casais cujas relações estão marcadas por frustração, insegurança e desejo deslocado. Não há vilões nem grandes conflitos trágicos — apenas pessoas confusas tentando entender o que querem.

O sexo, aqui, não é dramático nem libertador em sentido profundo: é cômico, atrapalhado e revelador. Ele expõe expectativas irreais, fantasias românticas e o medo constante de inadequação.


O desejo como imaginação

Mais do que o ato sexual em si, o filme se interessa pelo desejo como projeção. Os personagens desejam aquilo que não possuem, idealizam o outro e se frustram quando a fantasia não se sustenta.

Allen trabalha com a ideia de que o erotismo nasce menos do corpo do outro e mais da imaginação que construímos sobre ele — e que essa imaginação raramente sobrevive ao contato real.


Humor físico e tradição clássica


Diferente do humor verbal afiado de Annie Hall, aqui Allen investe em comédia física, mal-entendidos e timing corporal. Portas que se abrem, pessoas escondidas, encontros interrompidos e situações embaraçosas remetem diretamente à tradição da farsa clássica.

O riso é leve, quase infantil, sem o peso moral que marcaria seus filmes posteriores.


Uma utopia temporária

O verão do filme funciona como intervalo utópico. Durante alguns dias, os personagens podem testar desejos, errar, trocar afetos e se enganar. Ao final, nada se transforma radicalmente — mas algo se acomoda.

Allen sugere que essas escapadas não mudam a vida, mas a tornam suportável.


Estilo deliberadamente artificial

A mise-en-scène é clara, ensolarada, quase pictórica. O artificialismo é assumido: figurinos, gestos e situações parecem levemente deslocados do real. Essa escolha reforça o caráter de fábula erótica, não de retrato psicológico profundo.

É um cinema que não quer convencer — quer encantar provisoriamente.


Um Allen em suspensão filosófica

Ao contrário de Crimes e Pecados ou Interiores, aqui Allen suspende grandes perguntas existenciais. O filme não busca respostas sobre o sentido da vida, apenas observa, com humor gentil, a confusão permanente entre desejo e felicidade.

Esse gesto torna o filme singular dentro de sua obra.


Síntese final

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão é uma comédia de verão sobre fantasias afetivas, ilusões românticas e o eterno desencontro entre o que desejamos e o que realmente nos satisfaz. Um filme que prefere o sorriso ao diagnóstico e o jogo ao julgamento.

Na filmografia de Woody Allen, ocupa o lugar da trégua luminosa:
um momento em que o cinema se permite brincar com o desejo sem punição, sem culpa e sem tragédia — apenas com a consciência leve de que amar, desejar e errar fazem parte do mesmo movimento humano.

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