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sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia (2026) The Odyssey - 2 h 52 min

Toda adaptação é também uma autobiografia

Existe uma expectativa quase inevitável quando um grande cineasta decide adaptar um clássico da literatura. Espera-se que ele seja fiel ao texto, que preserve sua essência e que encontre uma forma cinematográfica para uma obra que nasceu em outro tempo e em outra linguagem. Mas essa expectativa talvez parta de um equívoco. Nenhuma adaptação é apenas um encontro com a obra original. Ela é também o encontro de um artista com sua própria maneira de enxergar o mundo.

É por isso que raramente saímos de uma adaptação conhecendo melhor o autor adaptado. Na maioria das vezes, saímos conhecendo melhor o cineasta que a realizou. A Odisseia, de Christopher Nolan, confirma essa impressão.

Ao escolher um dos textos fundadores da cultura ocidental, Nolan não tenta esconder sua presença atrás de Homero. Pelo contrário. O poema parece funcionar como uma matéria-prima sobre a qual ele continua investigando as questões que percorrem toda a sua filmografia: a relação entre tempo e memória, a reconstrução da identidade, a culpa, o peso das escolhas e a dificuldade de distinguir aquilo que realmente aconteceu da maneira como nos lembramos dos acontecimentos. Nesse sentido, A Odisseia é um filme profundamente nolaniano.

Isso não significa que seja infiel ao poema. Significa apenas que sua fidelidade não está na superfície da narrativa, mas naquilo que ela lhe permite explorar.

A adaptação parte de uma interpretação bastante específica do texto de Homero, aproximando-se de leituras contemporâneas que enxergam Ulisses menos como um herói exemplar e mais como um homem marcado pelas ambiguidades da guerra. Essa perspectiva reduz a distância entre o mito e a experiência humana, deslocando o interesse dos deuses para as decisões do protagonista. O extraordinário continua presente, mas deixa de ocupar o centro da narrativa. O que importa é compreender como vinte anos de violência alteraram a percepção que Ulisses tem de si mesmo e do mundo ao qual pretende regressar.

Talvez seja justamente aí que Nolan encontre seu ponto de contato com Homero. Seus filmes nunca trataram o tempo apenas como uma medida cronológica. Em Amnésia, a memória determina a forma da narrativa. Em A Origem, o tempo psicológico vale mais do que o tempo do relógio. Em Interestelar, ele se torna a própria matéria da experiência humana. Em A Odisseia, o tempo assume outra função: mede a distância entre aquele que partiu para Troia e aquele que finalmente retorna a Ítaca.

Essa aproximação, entretanto, produz um efeito curioso.

Se Homero parece oferecer a Nolan um terreno fértil para desenvolver suas preocupações, Nolan também submete Homero à lógica de seu próprio cinema. A narrativa torna-se fragmentada, reorganiza acontecimentos, alterna tempos distintos e exige do espectador uma participação constante para reconstruir os vínculos entre as diferentes partes da história. Não é um procedimento estranho ao poema, que também rompe a linearidade ao começar a narrativa quando Ulisses ainda está longe de casa. Mas Nolan radicaliza essa estrutura e a transforma em um princípio organizador de toda a experiência.

Foi justamente essa escolha que dividiu a crítica. Quase não houve divergências em relação à qualidade técnica da produção. A fotografia, o uso extensivo de película IMAX, as locações e a direção de atores foram amplamente elogiados. Também recebeu reconhecimento a insistência de Nolan em defender uma forma de fazer cinema baseada na materialidade das imagens e na experiência coletiva da sala de exibição, numa época em que boa parte das superproduções parece concebida para circular prioritariamente pelas plataformas de streaming.

As reservas dirigem-se a outro aspecto. Diversos críticos observaram que a extraordinária precisão formal do filme acaba produzindo uma certa distância emocional. A narrativa impressiona pela complexidade de sua construção, mas nem sempre permite que o espectador compartilhe plenamente o desejo que move Ulisses durante toda a viagem. Não se trata de uma crítica nova. Ela acompanha Christopher Nolan desde seus primeiros trabalhos e reaparece sempre que sua engenharia narrativa parece competir com a dimensão afetiva de seus personagens.

Essa observação torna-se especialmente significativa em A Odisseia. O poema de Homero não permanece vivo apenas por causa de seus monstros, tempestades ou aventuras extraordinárias. Ele continua sendo lido porque, sob todas essas imagens, existe uma experiência profundamente humana: a tentativa de voltar para casa depois de ter sido transformado pela guerra. Se essa experiência perde intensidade, parte da força do poema inevitavelmente se enfraquece.

Talvez seja por isso que a discussão em torno do filme seja mais interessante do que a pergunta sobre sua fidelidade ao original. Christopher Nolan não filmou A Odisseia como um arqueólogo interessado em preservar um monumento literário. Filmou-a como um autor que encontrou em Homero uma oportunidade de continuar refletindo sobre questões que há décadas estruturam seu cinema. O resultado não substitui o poema nem pretende oferecer sua leitura definitiva. Oferece, antes, uma interpretação pessoal, coerente e ambiciosa, que convida o espectador a voltar ao texto original para confrontar as diferenças entre ambos.

No fim, talvez essa seja a função mais valiosa de uma grande adaptação. Não encerrar uma obra em imagens, mas devolvê-la ao debate. Homero continua presente em A Odisseia de Christopher Nolan, mas o que vemos na tela é também o retrato de um cineasta olhando para um clássico e, inevitavelmente, encontrando nele um reflexo de si mesmo.