Mostra Roman Polanski - Cinema do Cerco
Um drama ambientado na véspera do Ano Novo de 1999 em um luxuoso hotel suíço, onde as vidas dos funcionários do hotel e de vários hóspedes se entrelaçam.
Em The Palace, Roman Polanski encerra sua
filmografia até aqui com uma sátira amarga e desencantada que funciona como epílogo
grotesco de todo o seu cinema. Ambientado em um hotel de luxo nos Alpes
suíços durante a noite de Réveillon de 1999 para 2000, o filme concentra elites
decadentes, funcionários subalternos e figuras ridículas em um único espaço —
um microcosmo fechado onde poder, privilégio e vazio moral se exibem sem
pudor.
Aqui, o cerco não é trágico nem conspiratório: é civilizatório.
O hotel como mundo fechado
Como nos apartamentos de Carnage ou O Inquilino,
não há fuga possível — mas, diferentemente deles, ninguém deseja sair. O
confinamento é confortável.
Elite como caricatura
O riso, quando surge, é incômodo. A sátira não humaniza — expõe.
Funcionários: ordem sem poder
Polanski reforça uma ideia recorrente: quem mantém o
sistema funcionando não decide seus rumos.
O fim de século como farsa
O filme sugere que o verdadeiro desastre não é o erro do
sistema, mas sua perfeita continuidade.
Humor escatológico e degradação
A degradação não é punição moral; é estado natural.
Um cinema sem absolvição
The Palace não oferece aprendizado, redenção ou esperança. Não há personagem que represente alternativa ética. Todos estão implicados — por ação, omissão ou conveniência. O julgamento é coletivo e silencioso.
Nesse sentido, o filme radicaliza a lógica de Deus da
Carnificina: o mundo é um tribunal permanente, mas ninguém é absolvido e
ninguém cumpre pena.
Lugar na obra de Polanski
Como filme tardio, The Palace funciona menos como síntese formal e mais como comentário final. O cerco que antes esmagava indivíduos agora revela algo ainda mais perturbador: os que vencem também estão presos, mas não se importam.
O mal não precisa mais se esconder, organizar conspirações
ou justificar-se. Ele se hospeda em hotéis de luxo.
Conclusão
The Palace é um filme feio por escolha, incômodo por
princípio e indiferente à empatia. Polanski encerra sua obra com uma
constatação seca: o mundo não caminha para o colapso por acidente, mas por acomodação.
Nada explode, nada muda, nada melhora.
Quando o ano 2000 chega, o relógio vira — e tudo permanece.
O verdadeiro cerco, afinal, não é imposto. É aceito com champanhe, conforto
e silêncio.