Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Jeffrey Wigand foi leal a Brown and Williamson durante
sete anos. A empresa foi leal a ele enquanto ele servia. Quando deixou de
servir, a empresa destruiu o que pode.
Mann
e o thriller como instrumento de análise
Michael Mann dirigiu O Informante com a consciência de que o material que tinha em mãos era simultaneamente uma história de thriller, com perseguição, pressão e consequências reais, e uma análise da forma como as instituições corporativas e mediáticas funcionam quando seus interesses são ameaçados. A solução de Mann foi usar a linguagem do thriller para examinar o que normalmente seria material de jornalismo investigativo, e o resultado é um filme que é ao mesmo tempo emocionalmente urgente e intelectualmente preciso.
O Informante tem 157 minutos e usa cada um
deles para construir um argumento sobre sistemas: o sistema corporativo da
indústria do tabaco, o sistema jurídico dos acordos de confidencialidade, o
sistema mediático da televisão comercial, e o sistema pessoal de um homem que
havia estruturado toda a sua vida ao redor de uma lealdade que o sistema não
havia honrado. Mann não simplifica nenhum desses sistemas: cada um tem sua
própria lógica interna, seus próprios incentivos e suas próprias formas de
produzir comportamentos que individualmente parecem defensáveis e coletivamente
produzem injustiça.
Russell
Crowe e Al Pacino
Russell Crowe como Jeffrey Wigand e Al Pacino como Lowell Bergman, o produtor do 60 Minutes que convenceu Wigand a falar, formam o par central do filme e representam dois tipos diferentes de coragem e dois tipos diferentes de custo. Wigand paga o preço pessoal: perde o emprego, o plano de saúde, o casamento, a seguranca financeira, e enfrenta uma campanha de descrédito que a Brown and Williamson financiou para destruir sua credibilidade antes que o depoimento fosse ao ar. Bergman paga o preço institucional: descobre que a própria CBS, por razões financeiras ligadas a uma aquisição corporativa, decidiu não por no ar o depoimento de Wigand, e que o sistema de jornalismo que acreditava servir tem os mesmos mecanismos de autoproteção que o sistema corporativo que estava investigando.
Crowe interpreta Wigand com uma
fisicalidade que documenta o custo acumulado: o corpo de Wigand vai ficando
mais pesado, mais resistente ao movimento, mais custoso de manter em posição
ereta a medida que a pressão aumenta. Não há cenas de colapso dramático: há uma
progressão de pequenos momentos em que o espectador vê o preço sendo pago em
tempo real, sem que o personagem o verbalize e sem que o filme o sublinhe com
música dramática.
A
questão da lealdade e sua complexidade
O Informante foi lançado num momento em que o whistleblowing estava sendo discutido nos Estados Unidos em termos que frequentemente simplificavam a questão moral: quem revela segredos corporativos é um herói ou um traidor? Mann recusou essa simplificação e filmou a questão com a complexidade que ela tem.
Wigand havia assinado um acordo de
confidencialidade em troca de uma indenização que permitia que sua familia
mantivesse o plano de saúde que os filhos precisavam. A empresa havia cumprido
o acordo financeiro. Wigand havia assinado conscientemente. A questão moral não é simples: Wigand sabia de práticas que causavam danos a saúde pública, e
guardar esse conhecimento era cumplicidade com esses danos, mas revelar era
violar um acordo legal que havia assinado em troca de algo que precisava. Mann
filma essa tensão sem resolvê-la porque a resolução dependeria de uma
hierarquia de valores que o filme se recusa a impor ao espectador.
O
sistema mediático e seus limites
A dimensão mais perturbadora de O Informante é a que examina o sistema de jornalismo: Bergman, que havia passado a carreira acreditando que a CBS e o 60 Minutes eram instituições comprometidas com a verdade acima dos interesses corporativos, descobre que a CBS tem os mesmos mecanismos de autoproteção que qualquer outra corporação. A decisão de não ir ao ar com o depoimento de Wigand por razoes ligadas a uma aquisição corporativa pendente é o momento em que o filme revela que o sistema que deveria ser o contrapeso das corporações é ele mesmo uma corporação.
Bergman paga um preço diferente do de
Wigand: não perde o emprego imediatamente, mas descobre que o que acreditava
que estava fazendo quando fazia jornalismo investigativo era mais contingente
do que imaginava, e que a independência editorial que considerava garantida era
uma concessão que a corporação podia revogar quando os incentivos fossem
suficientemente grandes.
O
que fica
O Informante termina com Wigand voltando ao que resta da sua vida depois que o depoimento finalmente foi ao ar, e com Bergman deixando a CBS. Os dois pagaram preços reais por decisões que tomaram dentro de sistemas que não haviam projetado para honrar o tipo de lealdade que exigiram. O que fica não é a resolução do caso jurídico nem a punição da Brown and Williamson: é a pergunta que o filme faz ao longo de 157 minutos sobre o que as instituições devem às pessoas que confiam nelas, e a resposta que o filme oferece implicitamente: menos do que prometem e mais do que admitem.
Onde assistir: O Informante está disponível na Filmoteca Seu Manolo e, ocasionalmente, em plataformas de streaming no Brasil: O Informante - Veja onde assistir online. O filme tem 157 minutos que exigem disponibilidade para um ritmo que prioriza a construção de tensão sobre a urgência de ação. Mann usa o tempo do filme para fazer o espectador sentir o peso acumulado do que Wigand está carregando, e essa duração é parte do argumento.
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