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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um Homem com uma Câmera (1929) Chelovek s kino-apparatom - 1 h 8 min (MUDO)

Mostra:

TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos (2022)

Um homem viaja por uma cidade com uma câmera no ombro, documentando a vida urbana com uma invenção deslumbrante.


Documentário


MP4 / HD- / SEM FALAS

IMDB: 8,3   METASCORE: 9,6
Letterboxd: 8,6   Flick Metrix: 89
98%Tomatometer43 Reviews

Um filme sobre fazer filmes que ainda não sabia que estava inventando o cinema.


O documento que virou manifesto

O Homem com a Câmera não tem roteiro, não tem atores, não tem intertítulos explicativos e não tem narrativa no sentido convencional. Dziga Vertov filmou a vida soviética de 1929, Moscou e Kiev e Odessa em movimento, e montou o material numa sequência que é simultaneamente documento, experimento formal e declaração de intenções sobre o que o cinema pode ser quando liberto das convenções que havia importado do teatro e da literatura. O filme começa com uma plateia entrando numa sala de cinema para assistir a um filme, e o filme que assistem é o filme que estamos assistindo, e dentro desse filme há um cameraman filmando o filme que estamos assistindo. Vertov instala essa recursividade nos primeiros minutos e a usa como argumento central: o cinema não é uma janela transparente para a realidade. É um instrumento que constrói a realidade que registra, e ser honesto sobre isso é condição para fazer cinema honesto.

Vertov chamava sua teoria de Cine-Olho, kino-glaz em russo, a ideia de que a câmera vê de forma que o olho humano não vê e que o cinema deve explorar essas capacidades em vez de escondê-las para simular a percepção humana convencional. O Homem com a Câmera é a demonstração prática dessa teoria, e o que a demonstração revela é que Vertov estava certo sobre o que o cinema levou décadas para assimilar completamente.


Vertov e a montagem como pensamento

Dziga Vertov e sua irmã Elizaveta Svilova, que editou o filme e aparece nele editando o filme, desenvolveram uma linguagem de montagem que vai além do que Eisenstein havia feito com a montagem de atrações. Onde Eisenstein usava o corte para criar choque e significado político através da colisão de imagens, Vertov usa o corte para criar ritmo e associação e análise, para mostrar conexões entre coisas que a narrativa linear não conectaria, para fazer o espectador pensar através da justaposição em vez de receber através da sequência.

O filme acelera e desacelera, usa câmera lenta e câmera rápida, congela a imagem, divide a tela, filma em ângulos que a convenção cinematográfica da época considerava errados, e faz tudo isso com uma consciência de que cada escolha formal é também uma escolha de significado. Svilova montando o filme dentro do filme não é apenas autorreferência: é a afirmação de que a montagem é onde o cinema pensa, que o sentido não está nas imagens individuais mas no que acontece entre elas, e que mostrar esse processo é parte do que o filme está fazendo.


A cidade soviética como personagem

O material filmado por Mikhail Kaufman, o irmão de Vertov que opera a câmera e aparece no filme operando a câmera, cobre a vida urbana soviética com uma abrangência que vai do amanhecer ao anoitecer, do trabalho nas fábricas ao lazer nas praias, do nascimento à morte, do casamento ao divórcio. Sem fazer propaganda no sentido de glorificar o projeto soviético com imagens selecionadas para esse fim, Vertov faz um inventário da vida moderna que inclui o trabalho e o descanso e o movimento e a pausa com uma equanimidade que transforma o cotidiano em material cinematográfico sem precisar elevá-lo artificialmente.

A cidade que emerge desse inventário é uma cidade em movimento permanente, onde os bondes e os automóveis e os corpos humanos e as máquinas industriais existem numa coreografia que a montagem de Svilova torna visível como coreografia. Vertov está mostrando que a modernidade tem um ritmo e que o cinema é o instrumento capaz de capturar e revelar esse ritmo, de tornar perceptível o que a percepção humana desacelera demais para ver.


As técnicas que o cinema absorveu sem lembrar a origem

O inventário de recursos formais que O Homem com a Câmera usa em 1929 é perturbador para qualquer espectador que conheça a história do cinema: câmera na mão, câmera oculta, split screen, slow motion, stop motion, câmera acelerada, imagem congelada, câmera subjetiva, montagem paralela de múltiplas ações simultâneas. Vertov sistematizou e usou todos esses recursos com uma consciência teórica que o cinema comercial da época não tinha e que o cinema experimental levaria décadas para recuperar.

O cinema de vanguarda dos anos 1960 e 1970, o cinema direto americano e o cinéma vérité francês, o videoclipe dos anos 1980, o cinema de não ficção contemporâneo: todos eles usam linguagens que Vertov havia desenvolvido, frequentemente sem saber que estavam usando Vertov. O Homem com a Câmera é um dos filmes mais influentes da história do cinema precisamente porque sua influência se dissolveu no ar que o cinema respira, tornando-se invisível de tão onipresente.


Mikhail Kaufman como personagem

A presença de Mikhail Kaufman no filme, o cameraman que aparece filmando as cenas que estamos vendo, é o dispositivo através do qual Vertov resolve o problema central de sua teoria: como fazer um filme honesto sobre a realidade sem fingir que a câmera não está lá. A resposta de Vertov é colocar a câmera dentro do filme, tornar o ato de filmar parte do que é filmado, fazer do cameraman um personagem cuja presença lembra constantemente ao espectador que está assistindo a uma construção e não a uma janela.

Kaufman filmou em condições que o filme documenta com prazer: em cima de trens em movimento, dentro de fábricas, embaixo de carroças, em ângulos que exigem posições físicas que a câmera da época tornava ainda mais difíceis. A fisicalidade do ato de filmar é parte do argumento do filme sobre o que o cinema é: uma intervenção ativa na realidade, que exige corpo e risco e escolha a cada segundo.


Onde assistir e o que esperar

O Homem com a Câmera está disponível em domínio público em múltiplas versões online, e a escolha da versão importa: o filme foi lançado sem trilha sonora original, e as trilhas adicionadas ao longo das décadas variam enormemente em adequação ao material. A versão com trilha do grupo The Alloy Orchestra é uma das mais respeitadas e uma das que melhor replica o ritmo que Vertov pretendia. O filme tem 68 minutos que passam com a velocidade do material que filma: a cidade em movimento é a experiência do filme, e o espectador que se deixar mover pelo ritmo da montagem vai descobrir que 1929 e o presente não estão tão distantes quanto o calendário sugere. A segunda visita revela camadas de construção que a primeira passagem, ocupada em absorver o ritmo, não tem tempo de registrar completamente.


O cinema que se vê fazendo

O Homem com a Câmera pertence à lista do Sight & Sound 2022 no nono lugar, e sua presença ali é a mais antiga da lista, um filme de 1929 que continua sendo votado por críticos contemporâneos não por reverência histórica mas porque continua sendo mais radical do que a maioria do que foi feito depois. Vertov resolveu em 1929 problemas que o cinema ainda está tentando resolver: como ser honesto sobre o que a câmera faz à realidade, como usar a montagem como instrumento de pensamento em vez de instrumento de ilusão, como fazer um filme que seja simultaneamente sobre o mundo e sobre o ato de filmá-lo.

Que um eleitorado de dois mil e quinhentos críticos e programadores e curadores tenha colocado esse filme entre os dez maiores de todos os tempos é a confirmação de que a grandeza cinematográfica não envelhece quando é grandeza real. O Homem com a Câmera tinha noventa e três anos quando entrou no top 10 do Sight & Sound. Ainda parecia mais novo do que a maioria dos filmes feitos na semana anterior.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Cabra Marcado Para Morrer (1984) - 1 h 59 min



Eduardo Coutinho estava rodando um filme no nordeste do Brasil em 1964, quando ocorreu o golpe militar. Ele teve que interromper o projeto, e voltou em 1981, procurando os mesmos lugares, mostrando o que havia acontecido desde então.



Documentário, História


CLC Score: 8,7


Vinte anos depois, o filme que não pôde ser feito voltou para encontrar os que sobreviveram a ele.


A história dentro da história

Em 1964, Eduardo Coutinho estava filmando no nordeste brasileiro a história de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado por latifundiários. A ditadura militar interrompeu as filmagens, dispersou a equipe e confiscou o material. Vinte anos depois, Coutinho voltou com o que havia sobrado, algumas latas de filme, a memória do que foi filmado e a pergunta sobre o que havia acontecido com as pessoas que estavam na frente da câmera em 1964. O que encontrou foi um dos documentários mais extraordinários já produzidos no cinema brasileiro e um dos mais importantes da história do documentário mundial.


Elisabeth Teixeira e o poder da sobrevivência


O centro do filme é Elisabeth Teixeira, viúva de João Pedro, que viveu durante vinte anos escondida sob identidade falsa para sobreviver à perseguição política. Coutinho a encontra no interior do Rio Grande do Norte, trabalhando como professora primária sob outro nome, desconhecida pelos próprios vizinhos. O momento em que ela é filmada e reconhece a si mesma nas imagens de 1964 é um dos mais devastadores do documentário brasileiro: duas Elisabeths separadas por vinte anos de medo, de luto e de silêncio forçado, reunidas pela câmera que a ditadura havia tentado destruir.


A forma como argumento político

Coutinho entendeu que a estrutura do filme era ela mesma um argumento sobre o que a ditadura havia feito ao Brasil. O material de 1964 e o material de 1984 coexistem no mesmo filme, separados por duas décadas mas unidos pela câmera que voltou ao mesmo lugar com as mesmas perguntas. Essa montagem temporal não é apenas recurso narrativo: é um documento da interrupção e do que se perde quando a história é proibida de ser contada. Os rostos de 1964 e os rostos de 1984 dos mesmos personagens são o argumento mais eloquente disponível sobre o custo humano da repressão política.


O documentário que inventou o documentário brasileiro

Cabra Marcado para Morrer estabeleceu um método e uma ética que o documentário brasileiro ainda pratica. A câmera como instrumento de escuta, não de julgamento. O personagem como sujeito, não como objeto. A memória como território de investigação, não de ilustração. Coutinho passou as décadas seguintes desenvolvendo e radicalizando esse método em filmes como Santo Forte, Edifício Master e Jogo de Cena, mas as raízes estão aqui, nessa câmera que voltou ao nordeste em 1984 para encontrar o que a ditadura havia tentado apagar.


O que o acaso produziu

Há uma dimensão involuntária no filme que Coutinho foi o primeiro a reconhecer: a interrupção forçada de 1964 transformou o projeto original num projeto completamente diferente e muito mais rico. O filme sobre João Pedro Teixeira que não pôde ser feito deu lugar ao filme sobre o que acontece com as pessoas quando a história é proibida de acontecer. A ditadura tentou destruir o projeto e inadvertidamente criou as condições para algo que o projeto original nunca poderia ter sido. Coutinho filmou esse paradoxo com uma lucidez que nunca vira para o sentimentalismo.


Onde assistir e o que esperar

Cabra Marcado para Morrer está disponível em plataformas de streaming nacionais e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem uma estrutura que se revela gradualmente: os primeiros trinta minutos estabelecem o contexto histórico e o material de 1964, e o restante é a jornada de Coutinho pelos estados do nordeste reencontrando os sobreviventes. A qualidade visual é variável pelo caráter de arquivo de parte do material, mas essa variação é parte do argumento do filme. Assistir sabendo o contexto histórico da ditadura militar brasileira enriquece a experiência de forma considerável.


O filme que o Brasil quase não teve


Cabra Marcado para Morrer é o quarto colocado na lista da Abraccine dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, e a posição é justa por razões que vão além da qualidade cinematográfica. É o documento mais preciso disponível sobre o que a ditadura fez com pessoas reais, não com personagens ficcionais, em lugares reais, durante vinte anos reais. E é ao mesmo tempo um dos mais belos argumentos já filmados sobre a capacidade da memória de resistir ao apagamento, sobre o que permanece quando tudo que deveria ter acontecido foi impedido de acontecer. Coutinho não fez um filme sobre a ditadura. Fez um filme que a ditadura tentou impedir e que existe exatamente porque falhou.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Casa é Escura (1963) Khaneh siah ast - 20 min (CURTA) (DOC)

Mostra Cinema do Irã – A Nova Onda Iraniana e Seus Herdeiros

Ambientado em uma colônia de leprosos no norte do Irã, A Casa é Escura justapõe a "feiura", que é abundante no mundo, conforme mostrado nas cenas iniciais, com a religião e a gratidão.

Curta, Documentário


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8



Um poema filmado que transforma exclusão em dignidade e dor em contemplação.


A Beleza Onde Ninguém Queria Olhar


Realizado por Forough Farrokhzad, The House Is Black foi filmado em uma colônia de leprosos no norte do Irã e redefine os limites entre documentário e poesia. Longe de qualquer impulso sensacionalista, a diretora constrói um olhar profundamente humano sobre pessoas marcadas pela doença e pelo isolamento social. A câmera observa rostos, gestos cotidianos e silêncios com uma delicadeza que desloca o espectador do choque para a empatia.


Quando a Palavra se Torna Imagem

A narração combina trechos bíblicos com versos da própria Farrokhzad, criando uma tessitura lírica que transcende o registro documental. A montagem alterna imagens da rotina — crianças estudando, homens trabalhando, mulheres rezando — com reflexões sobre fé, sofrimento e esperança. O filme não busca explicar a lepra, mas revelar humanidade. Ao fundir literatura e cinema, a diretora inaugura uma linguagem que se tornaria central na futura Nova Onda Iraniana.


O Nascimento de um Olhar Moderno

Embora anteceda o auge do movimento, o curta é frequentemente apontado como um dos marcos inaugurais da renovação estética iraniana que se consolidaria no final da década de 1960 com obras como The Cow, de Dariush Mehrjui. Seu minimalismo formal, sua recusa ao melodrama e sua ética do enquadramento antecipam caminhos que seriam aprofundados por cineastas como Abbas Kiarostami. Aqui, já se percebe a essência do cinema iraniano moderno: poucos recursos, grande densidade moral.


Análise Crítica – A Ética do Enquadramento


Para fins de catálogo, A Casa é Negra pode ser compreendido como um gesto radical de reposicionamento do olhar. O filme desloca o espectador de uma postura voyeurística para uma experiência contemplativa, recusando a espetacularização da dor. A câmera permanece próxima, mas nunca invasiva; a montagem é sóbria; o tempo, dilatado. A obra opera uma inversão ética: a “casa” não é negra por causa de seus habitantes, mas pela exclusão que os cerca. Ao iluminar esses corpos marginalizados, Farrokhzad questiona a própria ideia de normalidade e devolve dignidade à imagem.


Recepção e Legado – Um Curta que Ecoa Décadas


Exibido internacionalmente e amplamente reconhecido pela crítica, o filme tornou-se uma referência incontornável do cinema iraniano e do documentário poético mundial. Sua influência atravessa gerações e permanece visível na tradição humanista do Irã. Mesmo sendo o único filme dirigido por Forough Farrokhzad, sua potência estética e ética garantiu-lhe um lugar permanente na história do cinema — prova de que, às vezes, uma obra breve é suficiente para inaugurar uma era.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

All the Beauty and the Bloodshed (2022) - 1 h 53 min (DOC)

Mostra Filmes Ganhadores do Leão de Ouro - Festival de Veneza

Segue a vida da artista Nan Goldin e a queda da família Sackler, a dinastia farmacêutica que foi a grande responsável pelo insondável número de mortos da epidemia de opióides.


All the Beauty and the Bloodshed (2022) - IMDb
Dir: Laura Poitras
Biografia, Documentário, História


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,5   METASCORE: 9,1
95%Tomatometer145 Reviews   64%Popcornmeter


All the Beauty and the Bloodshed é um documentário que articula, de forma rigorosa e profundamente política, a vida e a obra da fotógrafa Nan Goldin com sua luta pública contra a família Sackler, associada à crise dos opioides nos Estados Unidos. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2022, o filme reafirma o documentário como cinema de urgência, memória e confronto ético.

Vida, arte e militância inseparáveis

Poitras constrói o filme como um retrato em camadas. De um lado, acompanha a trajetória pessoal e artística de Nan Goldin: sua inserção na cena underground de Nova York, a documentação íntima de comunidades marginalizadas, o impacto devastador da AIDS e a centralidade da fotografia como gesto de amor, testemunho e sobrevivência. De outro, observa sua atuação política recente, especialmente à frente do coletivo PAIN, que denunciou o financiamento cultural de museus por parte dos Sackler.

O filme recusa separar artista e ativista. Em All the Beauty and the Bloodshed, a militância surge como continuação natural da obra: fotografar, lembrar, expor — tudo é uma forma de resistência.

A estética da intimidade como arma política


A força do documentário está na forma como Poitras organiza imagens de arquivo, fotografias, registros pessoais e cenas de protesto sem hierarquizá-los. A intimidade não é tratada como confissão sentimental, mas como campo político. As imagens de Goldin — corpos feridos, amores frágeis, noites excessivas — não pedem piedade; exigem reconhecimento.

Ao conectar essas imagens à crise dos opioides, o filme constrói uma crítica clara à lógica de poder que transforma sofrimento em lucro e depois o apaga por meio do prestígio cultural. O museu, espaço tradicional de consagração artística, torna-se também campo de batalha simbólica.

Forma e ética do documentário

Diferente de narrativas investigativas clássicas, o filme não busca o efeito de denúncia espetacular. Sua força está na persistência, na repetição, na memória acumulada. Poitras filma com distância respeitosa, deixando que a voz de Goldin conduza o relato — não como heroína, mas como alguém que transforma dor em ação coletiva.

O tempo do filme é o tempo da cicatriz: não linear, não conclusivo, sempre em processo.



Por que o Leão de Ouro

A premiação em Veneza reconheceu um documentário que ultrapassa fronteiras entre arte, política e história recente. All the Beauty and the Bloodshed afirma que o cinema pode ser simultaneamente arquivo, denúncia e gesto de cuidado. Não oferece soluções fáceis nem finais catárticos — oferece memória, insistência e responsabilidade.

👉 Um filme que lembra que toda beleza carrega sangue — e que olhar para isso é um dever ético do cinema contemporâneo.