Mostra:
TOP 10. MAS DE QUEM? - Sight and Sound / BFI: Os Maiores Filmes de Todos os Tempos (2022)
Um filme sobre fazer filmes que ainda não sabia que estava inventando o cinema.
O documento que virou manifesto
O Homem com a Câmera não tem roteiro, não tem atores, não tem intertítulos explicativos e não tem narrativa no sentido convencional. Dziga Vertov filmou a vida soviética de 1929, Moscou e Kiev e Odessa em movimento, e montou o material numa sequência que é simultaneamente documento, experimento formal e declaração de intenções sobre o que o cinema pode ser quando liberto das convenções que havia importado do teatro e da literatura. O filme começa com uma plateia entrando numa sala de cinema para assistir a um filme, e o filme que assistem é o filme que estamos assistindo, e dentro desse filme há um cameraman filmando o filme que estamos assistindo. Vertov instala essa recursividade nos primeiros minutos e a usa como argumento central: o cinema não é uma janela transparente para a realidade. É um instrumento que constrói a realidade que registra, e ser honesto sobre isso é condição para fazer cinema honesto.Vertov chamava sua teoria de Cine-Olho, kino-glaz em russo, a ideia de que a câmera vê de forma que o olho humano não vê e que o cinema deve explorar essas capacidades em vez de escondê-las para simular a percepção humana convencional. O Homem com a Câmera é a demonstração prática dessa teoria, e o que a demonstração revela é que Vertov estava certo sobre o que o cinema levou décadas para assimilar completamente.
Vertov e a montagem como pensamento
Dziga Vertov e sua irmã Elizaveta Svilova, que editou o filme e aparece nele editando o filme, desenvolveram uma linguagem de montagem que vai além do que Eisenstein havia feito com a montagem de atrações. Onde Eisenstein usava o corte para criar choque e significado político através da colisão de imagens, Vertov usa o corte para criar ritmo e associação e análise, para mostrar conexões entre coisas que a narrativa linear não conectaria, para fazer o espectador pensar através da justaposição em vez de receber através da sequência.O filme acelera e desacelera, usa câmera lenta e câmera rápida, congela a imagem, divide a tela, filma em ângulos que a convenção cinematográfica da época considerava errados, e faz tudo isso com uma consciência de que cada escolha formal é também uma escolha de significado. Svilova montando o filme dentro do filme não é apenas autorreferência: é a afirmação de que a montagem é onde o cinema pensa, que o sentido não está nas imagens individuais mas no que acontece entre elas, e que mostrar esse processo é parte do que o filme está fazendo.
A cidade soviética como personagem
O material filmado por Mikhail Kaufman, o irmão de Vertov que opera a câmera e aparece no filme operando a câmera, cobre a vida urbana soviética com uma abrangência que vai do amanhecer ao anoitecer, do trabalho nas fábricas ao lazer nas praias, do nascimento à morte, do casamento ao divórcio. Sem fazer propaganda no sentido de glorificar o projeto soviético com imagens selecionadas para esse fim, Vertov faz um inventário da vida moderna que inclui o trabalho e o descanso e o movimento e a pausa com uma equanimidade que transforma o cotidiano em material cinematográfico sem precisar elevá-lo artificialmente.A cidade que emerge desse inventário é uma cidade em movimento permanente, onde os bondes e os automóveis e os corpos humanos e as máquinas industriais existem numa coreografia que a montagem de Svilova torna visível como coreografia. Vertov está mostrando que a modernidade tem um ritmo e que o cinema é o instrumento capaz de capturar e revelar esse ritmo, de tornar perceptível o que a percepção humana desacelera demais para ver.
As técnicas que o cinema absorveu sem lembrar a origem
O inventário de recursos formais que O Homem com a Câmera usa em 1929 é perturbador para qualquer espectador que conheça a história do cinema: câmera na mão, câmera oculta, split screen, slow motion, stop motion, câmera acelerada, imagem congelada, câmera subjetiva, montagem paralela de múltiplas ações simultâneas. Vertov sistematizou e usou todos esses recursos com uma consciência teórica que o cinema comercial da época não tinha e que o cinema experimental levaria décadas para recuperar.O cinema de vanguarda dos anos 1960 e 1970, o cinema direto americano e o cinéma vérité francês, o videoclipe dos anos 1980, o cinema de não ficção contemporâneo: todos eles usam linguagens que Vertov havia desenvolvido, frequentemente sem saber que estavam usando Vertov. O Homem com a Câmera é um dos filmes mais influentes da história do cinema precisamente porque sua influência se dissolveu no ar que o cinema respira, tornando-se invisível de tão onipresente.
Mikhail Kaufman como personagem
A presença de Mikhail Kaufman no filme, o cameraman que aparece filmando as cenas que estamos vendo, é o dispositivo através do qual Vertov resolve o problema central de sua teoria: como fazer um filme honesto sobre a realidade sem fingir que a câmera não está lá. A resposta de Vertov é colocar a câmera dentro do filme, tornar o ato de filmar parte do que é filmado, fazer do cameraman um personagem cuja presença lembra constantemente ao espectador que está assistindo a uma construção e não a uma janela.Kaufman filmou em condições que o filme documenta com prazer: em cima de trens em movimento, dentro de fábricas, embaixo de carroças, em ângulos que exigem posições físicas que a câmera da época tornava ainda mais difíceis. A fisicalidade do ato de filmar é parte do argumento do filme sobre o que o cinema é: uma intervenção ativa na realidade, que exige corpo e risco e escolha a cada segundo.
Onde assistir e o que esperar
O Homem com a Câmera está disponível em domínio público em múltiplas versões online, e a escolha da versão importa: o filme foi lançado sem trilha sonora original, e as trilhas adicionadas ao longo das décadas variam enormemente em adequação ao material. A versão com trilha do grupo The Alloy Orchestra é uma das mais respeitadas e uma das que melhor replica o ritmo que Vertov pretendia. O filme tem 68 minutos que passam com a velocidade do material que filma: a cidade em movimento é a experiência do filme, e o espectador que se deixar mover pelo ritmo da montagem vai descobrir que 1929 e o presente não estão tão distantes quanto o calendário sugere. A segunda visita revela camadas de construção que a primeira passagem, ocupada em absorver o ritmo, não tem tempo de registrar completamente.
O cinema que se vê fazendo
O Homem com a Câmera pertence à lista do Sight & Sound 2022 no nono lugar, e sua presença ali é a mais antiga da lista, um filme de 1929 que continua sendo votado por críticos contemporâneos não por reverência histórica mas porque continua sendo mais radical do que a maioria do que foi feito depois. Vertov resolveu em 1929 problemas que o cinema ainda está tentando resolver: como ser honesto sobre o que a câmera faz à realidade, como usar a montagem como instrumento de pensamento em vez de instrumento de ilusão, como fazer um filme que seja simultaneamente sobre o mundo e sobre o ato de filmá-lo.Que um eleitorado de dois mil e quinhentos críticos e programadores e curadores tenha colocado esse filme entre os dez maiores de todos os tempos é a confirmação de que a grandeza cinematográfica não envelhece quando é grandeza real. O Homem com a Câmera tinha noventa e três anos quando entrou no top 10 do Sight & Sound. Ainda parecia mais novo do que a maioria dos filmes feitos na semana anterior.