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domingo, 28 de dezembro de 2025

O Oficial e o Espião (2019) J'accuse - 2 h 12 min

Mostra Roman Polanski - Cinema do Cerco

Em 1894, o capitão francês Alfred Dreyfus é injustamente condenado por traição e sentenciado a prisão perpétua na Ilha do Diabo.


O Oficial e o Espião (2019) - IMDb
Dir: Roman Polanski
Drama de época, Drama Histórico, Drama Jurídico, História, Suspense


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,2   METASCORE: 6,0
78%Tomatometer46 Reviews   83%Popcornmeter


Em O Oficial e o Espião, Roman Polanski realiza um drama histórico de precisão rigorosa que funciona, ao mesmo tempo, como thriller institucional e anatomia do antissemitismo de Estado. Ao revisitar o Caso Dreyfus, o diretor constrói um filme sobre verdade sufocada por procedimentos, onde a justiça não falha por ausência de provas, mas por excesso de interesses.

Aqui, o cerco é burocrático e moral.


Um sistema que decide antes de investigar

A narrativa acompanha o coronel Georges Picquart, oficial do Exército francês que, ao assumir um cargo administrativo, descobre inconsistências na condenação de Alfred Dreyfus. O filme deixa claro desde o início: a instituição não quer saber. A culpa já foi atribuída; o processo existe apenas para confirmá-la.

Polanski filma a engrenagem do poder com frieza: memorandos, selos, assinaturas e reuniões substituem a violência física. O dano é produzido por procedimentos corretos a serviço de uma decisão injusta.


Antissemitismo como política

O Oficial e o Espião evita caricaturas. O preconceito não se manifesta apenas em ódio explícito, mas em conveniência administrativa, em “razões de Estado”, em pactos de silêncio. O antissemitismo opera como atalho institucional: útil, funcional e protegido.

Ao deslocar o foco do mártir para o investigador, Polanski mostra como o sistema se preserva punindo quem insiste na verdade.


Verdade sem heroísmo

Picquart não é um idealista puro. Ele pertence ao mesmo meio que produz a injustiça e compartilha de muitos de seus valores. Sua transformação não nasce de empatia imediata, mas do choque com os fatos. Essa escolha é central: a verdade emerge não como virtude, mas como obstáculo à manutenção da ordem.

O filme rejeita a retórica edificante. Defender a verdade tem custo — e raramente traz recompensa.


A palavra contra o arquivo

Cartas, laudos, caligrafias e relatórios tornam-se armas. Polanski constrói o suspense a partir da disputa entre documentos falsificados e provas ignoradas. O arquivo, que deveria guardar a verdade, passa a enterrá-la.

A célebre acusação pública (“J’accuse”) não é clímax libertador; é exposição tardia de um sistema já decidido a resistir.


Encenação clássica, visão implacável

A mise-en-scène é clássica, contida e austera. Uniformes, gabinetes e rituais reforçam a sensação de um mundo que se legitima pela forma. Quanto mais correta a encenação, mais brutal a constatação: a legalidade pode ser instrumento da injustiça.

Não há pressa narrativa; há insistência — como a da verdade tentando atravessar camadas de negação.


Julgamento permanente

Como em Chinatown e O Escritor Fantasma, o poder aparece difuso, sem centro visível. Ninguém decide sozinho; todos participam. A responsabilidade se dilui, e é justamente essa diluição que protege os culpados.

O filme afirma que o tribunal nunca se fecha: quando a instituição é julgada, ela julga de volta.


Lugar na obra de Polanski

O Oficial e o Espião integra a fase final do diretor, marcada por:

  • poder sistêmico,
  • confronto entre indivíduo e instituição,
  • verdade sem absolvição,
  • cerco histórico.

Aqui, o apartamento dá lugar ao Estado; o silêncio íntimo, ao silêncio oficial.


Conclusão

O Oficial e o Espião é um filme sobre o custo de dizer o óbvio quando o óbvio ameaça a ordem. Polanski recusa o conforto da reparação plena e insiste na ferida: a verdade pode ser reconhecida tarde demais — e, ainda assim, não reparar o dano.

Sem heroísmo triunfal e sem catarse, o filme sustenta uma tese dura e atual: quando a injustiça se institucionaliza, defender os fatos é um ato de desobediência — e o cerco, longe de se romper, apenas muda de forma. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Lobo de Wall Street (2013) The Wolf of Wall Street - 3 h

Filme incluso nas mostras da Filmoteca Seu Manolo:

MARTIN SCORSESE: Vida, Obra e Estilo

ATÉ ONDE VOCÊ VAI? O Trabalho como Território de Poder, Ambição e Conflito


O Lobo de Wall Street (2013) - IMDb
Dir: Martin Scorsese
Comédia Atrevida, Comédia de Humor Negro, Crime Verdadeiro, Docudrama, Drama no Trabalho, Sátira, Biografia

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 8,2   METASCORE: 7,5
Letterboxd: 8,0   Flick Metrix: 8,1
79%Tomatometer283 Reviews


Uma farsa épica sobre excesso, ambição, vício e a fantasia interminável do capitalismo americano


1. Contexto Histórico e Produção

Baseado no livro autobiográfico de Jordan Belfort, o filme explora a trajetória de um corretor que construiu (e destruiu) um império financeiro através de:

  • fraude,
  • lavagem de dinheiro,
  • manipulação do mercado,
  • corrupção,
  • e um hedonismo fora de controle.



Scorsese viu no material não apenas uma história sobre crimes financeiros, mas uma chance de:

  • retratar a lógica do capitalismo como vício,
  • examinar masculinidades tóxicas,
  • explorar excessos com energia cômica,
  • e criar uma sátira feroz sobre a cultura americana da ganância.

O filme tornou-se um fenômeno cultural, indicado ao Oscar (inclusive Melhor Diretor e Melhor Ator) e lembrado por suas cenas icônicas e sua linguagem provocadora.


2. Enredo

Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio)

Jovem ambicioso que entra em Wall Street buscando sucesso rápido.
Após a queda da bolsa em 1987, ele percebe que pode ganhar mais enganando pequenos investidores do que vendendo ações legítimas.



A Straton Oakmont

Belfort funda sua própria empresa, uma espécie de:

  • seita corporativa,
  • sala de culto ao dinheiro,
  • ambiente de degradação constante.



A empresa se transforma em símbolo de excessos:

  • drogas,
  • sexo público,
  • lavagem de dinheiro,
  • festas destrutivas,
  • discursos motivacionais histéricos.


Donnie Azoff (Jonah Hill)

Braço direito de Belfort; carismático e profundamente perturbado.





Naomi Lapaglia (Margot Robbie)

Esposa de Belfort, que representa o fascínio e o custo emocional e pessoal de sua vida de excessos.





A história acompanha ascensão meteórica, queda espetacular e prisão, mas, mais importante, a incapacidade total de Belfort de sentir remorso.


3. Temas Centrais

3.1 O capitalismo como vício

A narrativa mostra que Belfort é o produto ideal de um sistema que recompensa:

  • manipulação,
  • falta de ética,
  • narcisismo,
  • agressividade,
  • performatividade.

Jordan é o “monstro” que o mercado cria e depois finge repudiar.


3.2 Masculinidade tóxica como espetáculo

O filme mergulha em:

  • competitividade destrutiva,
  • humilhação,
  • sexualização,
  • agressividade,
  • tribalismo masculino.

Toda a cultura da Straton Oakmont é construída como um delírio machista Nietzscheano.

3.3 Excessos como anestesia emocional

Os personagens usam:

  • cocaína,
  • Quaaludes,
  • prostituição,
  • dinheiro,
  • violência verbal.

Tudo para evitar lidar com a própria mediocridade emocional.


3.4 A ética como ilusão perdida

A linha entre certo e errado desaparece completamente quando os personagens percebem que:

“Se ninguém está olhando, tudo é permitido.”

3.5 O humor como forma de revelação

Scorsese filma o horror como comédia para expor sua estupidez. A risada vira desconforto.


4. Estilo Visual e Estético

4.1 Montagem frenética (Thelma Schoonmaker)

O filme corre em velocidade alucinada, com ritmo intenso, cortes ágeis e energia contagiante.

4.2 Narrativa em primeira pessoa

Belfort fala direto para a câmera, quebra a quarta parede, manipula o público e mente descaradamente.




4.3 Estilo documental exagerado

Scorsese usa técnicas de:

  • comerciais de TV,
  • vídeos motivacionais,
  • reality shows,
  • palestras,
  • videoclipes.

Tudo para construir um mundo onde cada pessoa é um personagem de si mesma.

4.4 Coreografia dos excessos

As cenas com centenas de figurantes em festas, escritórios e reuniões corporativas são filmadas como números musicais caóticos.


5. Leonardo DiCaprio – atuação histórica

DiCaprio entrega uma performance:

  • cômica,
  • física,
  • neurótica,
  • exagerada,
  • carismática,
  • desprezível,
  • impossível de ignorar.



A cena dos Quaaludes vencidos, em que ele se arrasta pelo chão até o carro, virou imediatamente parte da história do cinema.


6. Um filme sobre nós, não sobre Jordan

Scorsese deixa claro: Jordan Belfort não é incomum, apenas extremo. O sistema financeiro real produz “mini Belforts” todos os dias. O filme mostra:

  • a mitologia americana do self-made man,
  • a ilusão de mérito,
  • a pornografia do sucesso,
  • a substituição da moral por performance,
  • o apetite por narrativas de ascensão.

Quando o público ri, participa do jogo e é isso que Scorsese quer expor.


7. O Final – a pergunta incômoda

No fim, Belfort vira um guru motivacional. Não está arrependido, não aprendeu nada e não mudou.

As pessoas continuam olhando para ele como um modelo.

O plano final - rostos fascinados por suas palavras - é uma crítica violenta: “O problema não é o lobo. O problema é que queremos ser devorados.”


8. Importância na Carreira de Scorsese

  • seu filme mais abertamente cômico desde Depois de Horas;
  • sua obra mais caótica e barulhenta;
  • crítica feroz ao capitalismo moderno;
  • consolida DiCaprio como colaborador essencial;
  • mostra um Scorsese livre, sem pudores, irreverente e radical.

Conclusão

O Lobo de Wall Street é um carnaval obsceno para mostrar o vazio que existe dentro da busca por poder e prazer ilimitados.

É Scorsese no auge da energia, filmando o capitalismo como uma comédia infernal, onde a queda é tão espetacular quanto a ascensão.

Onde assistir: O Lobo de Wall Street esta disponível na Filmoteca Seu Manolo em plataformas de streaming no Brasil: O Lobo de Wall Street - Veja onde assistir. O filme tem 180 minutos que passam com a velocidade do thriller bem executado.







domingo, 12 de outubro de 2025

O Artista (2011) The Artist - 1 h 40 min (MUDO)

ENTRE O RECONHECIMENTO E O TEMPO: Uma interpretação crítica da história do Oscar

VENCEDORES DO BAFTA: Uma Linhagem de Grandes Filmes

Uma estrela de cinema egoísta desenvolve um relacionamento com uma jovem dançarina no contexto da era do cinema mudo de Hollywood.


Dir: Michel Hazanavicius
Drama de Época, Drama do Mundo do Espetáculo, Pastelão, Romance


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 8,9
Flick Metrix: 82   Criticker Average Percentile: 62%
95%Tomatometer322 Reviews   87%Popcornmeter

Uma declaração de amor ao cinema mudo onde o silêncio fala mais alto que qualquer diálogo.

Dirigido por Michel Hazanavicius, O Artista (The Artist, 2011) constrói sua narrativa como uma homenagem ao cinema mudo, recriando suas formas e convenções dentro de uma estrutura contemporânea. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, o longa organiza sua experiência a partir do diálogo entre passado e presente.


🎞️ O Crepúsculo das Estrelas

Ambientado na Hollywood do final dos anos 1920, The Artist acompanha George Valentin, astro consagrado do cinema mudo que vê sua carreira ruir com a chegada do cinema falado. Enquanto a indústria se transforma rapidamente, ele se apega ao passado, incapaz de aceitar a mudança. Paralelamente, a jovem Peppy Miller ascende como símbolo da nova era sonora, desenhando um contraste entre declínio e ascensão.


🌟 Amor e Transformação


A narrativa equilibra romance e melancolia ao explorar o orgulho ferido de George e a admiração silenciosa de Peppy. O filme trata a transição tecnológica não apenas como revolução industrial, mas como abalo existencial. Adaptar-se torna-se questão de sobrevivência artística, revelando que talento e sensibilidade precisam dialogar com o tempo histórico.


🎬 Estética do Silêncio


Dirigido por Michel Hazanavicius, o longa é filmado em preto e branco e praticamente sem diálogos, recriando com precisão o estilo dos clássicos do cinema mudo. A performance carismática de Jean Dujardin e a expressividade física do elenco reforçam a homenagem estética. A trilha sonora conduz emoções e ritmos, provando que o silêncio pode ser profundamente eloquente.


🏆 Recepção e Legado

Aclamado internacionalmente, The Artist surpreendeu ao conquistar público e crítica em plena era digital. Vencedor do BAFTA e do Oscar de Melhor Filme, tornou-se símbolo da permanência da tradição cinematográfica em diálogo com o presente.
 
Inserido no Bloco 3: O Tempo que Revela Limites da mostra ENTRE O RECONHECIMENTO E O TEMPO: Uma interpretação crítica da história do Oscar, O Artista mantém seu charme, mas expõe com maior clareza sua estrutura. Com o passar do tempo: sua elegância permanece; sua construção revela dependência do conceito; seu impacto se reduz fora do contexto. O filme não perde valor — ele se torna mais específico.