Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:]
Bruno Davert foi demitido. Escondeu da família.
Começou a eliminar os concorrentes que disputavam a mesma vaga. Costa-Gavras
filmou o que a obsolescência produz quando não há saída disponível.
Costa-Gavras
e a comédia negra como instrumento político
Costa-Gavras passou a carreira examinando como os sistemas políticos e econômicos produzem violência, desde Z em 1969 até Missing em 1982 e além. O Corte, lançado em 2005, é o filme mais radicalmente diferente da sua filmografia porque usa a comédia negra em vez do thriller político para examinar o mesmo território: o que o sistema econômico faz com as pessoas que descarta. A escolha do humor é o reconhecimento de que a lógica de Bruno Davert é ao mesmo tempo absurda e completamente racional dentro das premissas que o sistema estabeleceu, e que só o humor pode habitar essa combinação sem que a absurdidade destrua a análise ou a análise destrua a absurdidade.
O Corte foi bem recebido na Europa e
praticamente ignorado nos Estados Unidos, e essa assimetria de recepção é ela
mesma um argumento: o filme examina a obsolescência profissional com uma
radicalidade que o cinema americano raramente se permite, e a lógica de Bruno,
embora levada ao extremo que só a comedia negra permite, parte de premissas que
qualquer trabalhador desempregado em qualquer mercado competitivo reconhece
como reais.
José Garcia e a normalidade como horror
José Garcia como Bruno Davert é uma das performances mais difíceis porque exige que o ator construa um personagem que é simultaneamente normal e monstruoso, e que o espectador acompanhe a lógica do personagem sem nunca esquecer que é uma lógica monstruosa. Garcia resolve o problema pela monotonia deliberada: Bruno não é um assassino de filmes de suspense com intensidade dramática e momentos de revelação psicológica. É um homem de classe media que resolveu um problema da forma mais eficiente que encontrou, com a mesma atitude com que resolveria qualquer outro problema profissional.
Essa monotonia é a escolha formal mais
precisa do filme e a mais perturbadora: Bruno planeja cada eliminação com a
metodologia de um gerente de projeto, documenta o progresso, avalia os
resultados e ajusta a estratégia quando necessário. A ausência de drama interno é o que torna O Corte mais inquietante do que qualquer thriller convencional:
não há luta moral, não há momento em que Bruno hesita por razoes éticas. Há apenas a lógica do mercado aplicada ao mercado de vagas com o mesmo rigor que o
mercado aplica a tudo mais.
A
lógica do mercado levada ao fim
O argumento central de O Corte e que a lógica de Bruno e a lógica do mercado de trabalho levada ao seu extremo lógico. O mercado de trabalho funciona por competição: candidatos competem por vagas, e quem elimina a concorrência tem mais chance de conseguir o emprego. Bruno simplesmente elimina a concorrência de forma literal em vez de metafórica, e o filme usa essa literalização para revelar o que a metáfora esconde: que a competição por vagas tem consequências reais para pessoas reais, e que o vocabulário guerreiro que o mercado de trabalho usa normalmente, eliminar a concorrência, destruir os rivais, matar a vaga, descreve algo que tem custos humanos reais mesmo quando não é literal.
Costa-Gavras filmou O Corte com a
consciência de que Bruno não é uma anomalia mas um produto lógico de um sistema
que pede competição sem limite e depois se surpreende com os resultados quando
a competição é levada além dos limites que o sistema esperava que fossem
respeitados mas nunca explicitou.
A
família e o que Bruno protege
A dimensão mais humana de O Corte e a relação de Bruno com a família a quem está escondendo a demissão. Bruno mente por amor ou por orgulho, e o filme deixa essa questão em aberto porque os dois motivos são simultaneamente verdadeiros e nenhum deles justifica o que Bruno faz para proteger a mentira. A família de Bruno é o elemento do filme que impede que seja apenas sátira: há pessoas reais sendo afetadas pelas decisões de Bruno, e essas pessoas não sabem que estão sendo afetadas porque Bruno construiu uma realidade alternativa para elas.
Costa-Gavras usa a família para examinar o
custo da obsolescência que o mercado não registra: o que o desemprego faz com
as relações, com a identidade doméstica, com a capacidade de uma pessoa de se
apresentar a si mesma como o que acredita que deveria ser. Bruno elimina
concorrentes por razões econômicas, mas esconde a demissão da família por
razões de identidade, e é essa segunda motivação que o filme apresenta como
mais fundamental: a economia pode ser recuperada, mas a identidade que o
trabalho sustentava é mais difícil de reconstruir.
O
que fica
O Corte termina com Bruno tendo conseguido
o emprego, e o final é filmado com uma ironia que é o gesto mais honesto do
filme: o sistema recompensou Bruno com exatamente o que prometia recompensar.
Ele foi mais eficiente do que os concorrentes na competição por uma vaga, e o
mercado não tem mecanismo para distinguir entre eficiência legítima e
eficiência literal. Bruno venceu dentro das regras do sistema porque o sistema
não tem regras suficientemente específicas para o que Bruno fez.
Onde assistir: O Corte está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em plataformas de streaming: O Corte - Veja onde assistir online. O filme tem 111 minutos em francês legendado que passam com a fluidez da comédia negra bem executada. O espectador que chegar esperando um thriller de suspense convencional vai precisar de ajuste: este é um filme sobre a lógica do mercado de trabalho levada ao absurdo, e o humor é o instrumento de análise, não de escape.