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terça-feira, 19 de maio de 2026

O Corte (2005) Le couperet - 1 h 57 min

Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:]



O Corte (2005) - IMDb
Dir: Costa-Gavras
Comédia de Humor Negro, Crime, Drama, Suspense

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,3
Letterboxd = 7,4
80%Tomatometer5 Reviews

Bruno Davert foi demitido. Escondeu da família. Começou a eliminar os concorrentes que disputavam a mesma vaga. Costa-Gavras filmou o que a obsolescência produz quando não há saída disponível.

Costa-Gavras e a comédia negra como instrumento político

Costa-Gavras passou a carreira examinando como os sistemas políticos e econômicos produzem violência, desde Z em 1969 até Missing em 1982 e além. O Corte, lançado em 2005, é o filme mais radicalmente diferente da sua filmografia porque usa a comédia negra em vez do thriller político para examinar o mesmo território: o que o sistema econômico faz com as pessoas que descarta. A escolha do humor é o reconhecimento de que a lógica de Bruno Davert é ao mesmo tempo absurda e completamente racional dentro das premissas que o sistema estabeleceu, e que só o humor pode habitar essa combinação sem que a absurdidade destrua a análise ou a análise destrua a absurdidade.

O Corte foi bem recebido na Europa e praticamente ignorado nos Estados Unidos, e essa assimetria de recepção é ela mesma um argumento: o filme examina a obsolescência profissional com uma radicalidade que o cinema americano raramente se permite, e a lógica de Bruno, embora levada ao extremo que só a comedia negra permite, parte de premissas que qualquer trabalhador desempregado em qualquer mercado competitivo reconhece como reais.

José Garcia e a normalidade como horror

José Garcia como Bruno Davert é uma das performances mais difíceis porque exige que o ator construa um personagem que é simultaneamente normal e monstruoso, e que o espectador acompanhe a lógica do personagem sem nunca esquecer que é uma lógica monstruosa. Garcia resolve o problema pela monotonia deliberada: Bruno não é um assassino de filmes de suspense com intensidade dramática e momentos de revelação psicológica. É um homem de classe media que resolveu um problema da forma mais eficiente que encontrou, com a mesma atitude com que resolveria qualquer outro problema profissional.

Essa monotonia é a escolha formal mais precisa do filme e a mais perturbadora: Bruno planeja cada eliminação com a metodologia de um gerente de projeto, documenta o progresso, avalia os resultados e ajusta a estratégia quando necessário. A ausência de drama interno é o que torna O Corte mais inquietante do que qualquer thriller convencional: não há luta moral, não há momento em que Bruno hesita por razoes éticas. Há apenas a lógica do mercado aplicada ao mercado de vagas com o mesmo rigor que o mercado aplica a tudo mais.

A lógica do mercado levada ao fim

O argumento central de O Corte e que a lógica de Bruno e a lógica do mercado de trabalho levada ao seu extremo lógico. O mercado de trabalho funciona por competição: candidatos competem por vagas, e quem elimina a concorrência tem mais chance de conseguir o emprego. Bruno simplesmente elimina a concorrência de forma literal em vez de metafórica, e o filme usa essa literalização para revelar o que a metáfora esconde: que a competição por vagas tem consequências reais para pessoas reais, e que o vocabulário guerreiro que o mercado de trabalho usa normalmente, eliminar a concorrência, destruir os rivais, matar a vaga, descreve algo que tem custos humanos reais mesmo quando não é literal.

Costa-Gavras filmou O Corte com a consciência de que Bruno não é uma anomalia mas um produto lógico de um sistema que pede competição sem limite e depois se surpreende com os resultados quando a competição é levada além dos limites que o sistema esperava que fossem respeitados mas nunca explicitou.

A família e o que Bruno protege

A dimensão mais humana de O Corte e a relação de Bruno com a família a quem está escondendo a demissão. Bruno mente por amor ou por orgulho, e o filme deixa essa questão em aberto porque os dois motivos são simultaneamente verdadeiros e nenhum deles justifica o que Bruno faz para proteger a mentira. A família de Bruno é o elemento do filme que impede que seja apenas sátira: há pessoas reais sendo afetadas pelas decisões de Bruno, e essas pessoas não sabem que estão sendo afetadas porque Bruno construiu uma realidade alternativa para elas.

Costa-Gavras usa a família para examinar o custo da obsolescência que o mercado não registra: o que o desemprego faz com as relações, com a identidade doméstica, com a capacidade de uma pessoa de se apresentar a si mesma como o que acredita que deveria ser. Bruno elimina concorrentes por razões econômicas, mas esconde a demissão da família por razões de identidade, e é essa segunda motivação que o filme apresenta como mais fundamental: a economia pode ser recuperada, mas a identidade que o trabalho sustentava é mais difícil de reconstruir.

O que fica

O Corte termina com Bruno tendo conseguido o emprego, e o final é filmado com uma ironia que é o gesto mais honesto do filme: o sistema recompensou Bruno com exatamente o que prometia recompensar. Ele foi mais eficiente do que os concorrentes na competição por uma vaga, e o mercado não tem mecanismo para distinguir entre eficiência legítima e eficiência literal. Bruno venceu dentro das regras do sistema porque o sistema não tem regras suficientemente específicas para o que Bruno fez.

Onde assistir: O Corte está disponível na Filmoteca Seu Manolo e em plataformas de streaming: O Corte  - Veja onde assistir online. O filme tem 111 minutos em francês legendado que passam com a fluidez da comédia negra bem executada. O espectador que chegar esperando um thriller de suspense convencional vai precisar de ajuste: este é um filme sobre a lógica do mercado de trabalho levada ao absurdo, e o humor é o instrumento de análise, não de escape.

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terça-feira, 21 de abril de 2026

O Quarto Poder (1997) Mad City - 1 h 54 min

JORNALISMO NO CINEMA: Antes da Verdade Vir à Tona

Um homem perturbado inadvertidamente faz um grupo de crianças reféns em um museu enquanto um repórter experiente e faminto tenta ressuscitar sua carreira cobrindo a história.


Suspense Psicológico, Tragédia, Crime, Drama


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 6,3   METASCORE: 4,5
Flick Metrix: 57   Criticker Average Percentile: 38%
30%Tomatometer30 Reviews   43%Popcornmeter

Quando a notícia precisa continuar, mesmo que a realidade não acompanhe


Um acontecimento que vira narrativa

Em Mad City, tudo começa com um evento isolado, quase banal. Um erro, uma tensão, uma situação que foge do controle. Mas o que realmente importa não é o fato em si, mas sim o que ele se torna quando entra no circuito da mídia. A partir daí, a história ganha outra dimensão.


A construção ao vivo

O filme mostra como a cobertura transforma o acontecimento em espetáculo. Cada fala, cada imagem, cada decisão passa a ser moldada pensando no impacto. A realidade vai sendo reorganizada em tempo real, como se precisasse se ajustar ao que é mais interessante de transmitir.


O jornalista dentro do jogo


O repórter interfere, conduz, negocia. Existe uma linha tênue entre observar e participar e o filme explora exatamente esse ponto. O jornalismo deixa de ser mediação e passa a ser agente ativo do que está acontecendo.


A pressão por manter a atenção

Nada pode parar. A cobertura precisa continuar, a audiência precisa crescer, o interesse precisa ser sustentado. Mesmo quando a situação já pede recuo, reflexão ou silêncio, o movimento segue. O espetáculo não pode perder força.


Quando a realidade se esgota

Com o tempo, fica claro que o acontecimento não sustenta o tamanho que ganhou. Mas já é tarde. A narrativa criada é maior do que os fatos. E, nesse ponto, não existe mais como voltar ao que era antes.


Leitura Crítica

Mad City é um filme sobre o jornalismo como espetáculo contínuo. Ele revela como a necessidade de manter a atenção pode distorcer, ampliar e até esgotar a realidade. Sua força está em mostrar que, quando a notícia vira performance, o que está em jogo deixa de ser apenas o fato. Passa a ser a própria forma como ele é mantido vivo diante do público.

 






terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Muito Mais que um Crime (1989) Music Box - 2 h 4 min

Mostra Festival de Berlim: A Linhagem do Urso de Ouro

Um advogado defende seu pai acusado de crimes de guerra, mas há mais no caso do que ele suspeita.


Crime, Drama, Suspense

MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,4
75%Tomatometer20 Reviews   76%Popcornmeter




Um drama judicial que transforma a busca pela verdade numa dolorosa investigação da própria família.


⚖️ Quando o Passado Bate à Porta


Em Muito Mais que um Crime (1989) — Music Box —, o diretor Costa-Gavras constrói um thriller político de forte densidade moral. A história acompanha Ann Talbot, advogada que assume a defesa do próprio pai, imigrante húngaro acusado de ter colaborado com crimes de guerra nazistas. O que começa como um caso jurídico se transforma rapidamente numa jornada íntima de dúvida e revelação.


🧠 Lealdade em Conflito

O centro dramático do filme reside no dilema de Ann, dividida entre a confiança filial e o peso crescente das evidências. Costa-Gavras explora com precisão o tema da memória histórica e da responsabilidade individual, mostrando como crimes do passado continuam a reverberar nas gerações seguintes. O tribunal torna-se, assim, também um espaço de confronto emocional.


🎬 Suspense Político de Precisão

Com narrativa clara e progressivamente tensa, o filme combina o rigor do drama judicial com a urgência do thriller político — marca registrada do diretor. A encenação privilegia o desenvolvimento psicológico e a acumulação de provas, mantendo o espectador em estado constante de incerteza moral.


🏆 Recepção e Legado

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1990, Music Box foi amplamente elogiado pela crítica, especialmente pela atuação de Jessica Lange, premiada com o Oscar por seu desempenho. O filme reforçou a reputação de Costa-Gavras como um dos grandes nomes do cinema político e permanece como obra importante no debate cinematográfico sobre memória do Holocausto e justiça tardia.


🗝️ A Verdade que Fere

Ao final, Muito Mais que um Crime sugere que a busca pela verdade pode exigir o preço mais alto: a perda das certezas afetivas. Entre amor filial e responsabilidade histórica, o filme permanece como um estudo poderoso sobre o momento em que conhecer se torna inevitavelmente doloroso.

 



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Z (1969) - 2 h 7 min

O MUNDO EM DISPUTA: Cinema Sociopolítico

Após o assassinato de um esquerdista de destaque, um investigador tenta descobrir a verdade, enquanto funcionários do governo tentam encobrir seus papéis.


Z (1969) - IMDb
Dir: Costa-Gavras
Drama Político, Suspense Político, Crime

MP4 / HD / LEG: Inglês e português traduzido

IMDB: 8,1   METASCORE: 8,6
FLICK METRIX: 77   Average Percentile: 76.49%
94%Tomatometer51 Reviews   93%Popcornmeter




Z (1969), dirigido por Costa-Gavras, é um dos mais contundentes filmes políticos já realizados — um thriller político que combina urgência documental, ironia corrosiva e uma linguagem cinematográfica que denuncia, sem disfarces, os mecanismos de opressão do Estado. Baseado livremente no assassinato do deputado grego Grigoris Lambrakis em 1963, o filme transforma um caso real em um retrato universal da repressão e da manipulação institucional.


1. Contexto e impacto

Lançado em 1969, “Z” chega em plena ebulição mundial: ditaduras militares pela Europa e América Latina, movimentos estudantis, Guerra Fria, radicalização ideológica. Seu discurso sobre governos que se camuflam sob aparência democrática — enquanto esmagam dissidências — tornou o filme um fenômeno global.

A letra "Z" é símbolo de resistência: em grego, significa “Ele está vivo”, afirmando a sobrevivência moral do líder assassinado mesmo após sua eliminação física.

Costa-Gavras e o roteirista Jorge Semprún constroem uma narrativa direta e feroz, sem espaço para ambiguidade: a opressão é mostrada como estruturada, sistêmica e intencional.


2. Estilo narrativo e direção

O filme mistura:

  • Ritmo de thriller — montagem rápida, tensão crescente.
  • Estética quase documental — câmeras de mão, enquadramentos improvisados, luz natural.
  • Sátira política — diálogos irônicos, figuras militares caricatas porém assustadoramente reais.
  • Investigação jurídica — acompanhamos a tentativa do magistrado (interpretado por Jean-Louis Trintignant) de reconstruir a verdade apesar de pressões e manipulações.

Essa combinação permite a Costa-Gavras criar um cinema político vibrante, jamais panfletário, sempre cinematográfico.


3. Temas centrais

a) Violência de Estado e impunidade

O assassinato é apenas o primeiro ato. O verdadeiro horror surge na investigação — quando o Estado mobiliza todo um aparato para distorcer evidências, intimidar testemunhas e fabricar versões convenientes.
O filme mostra que a violência política não é acidente: é método.

b) A manipulação da verdade

“Z” desvela como:

  • polícia,
  • militares,
  • tribunais,
  • imprensa alinhada

trabalham para produzir uma narrativa falsa.
A verdade torna-se um campo de batalha ideológica — um tema assustadoramente atual.

c) Coragem individual vs. sistema

O juiz, figura silenciosa e obstinada, representa a resistência institucional. Seu idealismo contrasta com a máquina repressora. Ele sabe que sua busca pode ser inútil — e talvez fatal — mas continua.

d) A presença invisível do autoritarismo

Mesmo quando o regime tenta parecer democrático, sua essência está na violência subterrânea.
O filme revela a lógica do fascismo: punir qualquer movimento que questione a ordem.


4. Personagens principais

O Deputado (Yves Montand)

Carismático, pacifista, defensor de reformas. Sua morte é planejada e executada como mensagem: eliminar ideias, não apenas pessoas.

O Juiz (Jean-Louis Trintignant)

Um dos personagens mais enigmáticos e fascinantes. Contido, metódico, quase sem emoções visíveis — um símbolo da legalidade enfrentando um sistema criminoso.

Os militares e oficiais da polícia

Representam o cinismo do poder. São fanáticos anticomunistas que se consideram defensores do “bem” e da “ordem”, e justificam qualquer crime em nome disso.


5. Por que o filme continua atual?

Porque retrata:

  • fake news fabricadas pelo Estado;
  • perseguição de opositores;
  • manipulação institucional;
  • violência política organizada;
  • juízes pressionados ou silenciados;
  • a tênue fronteira entre democracia e autoritarismo.

A sensação, ao assistir “Z” hoje, é de espelho. Poucos filmes políticos envelheceram tão bem.



6. Considerações finais

Z é um clássico absoluto do cinema político — feroz, inteligente e cinematograficamente inventivo. Não há neutralidade possível: Costa-Gavras filma como quem denuncia um crime em tempo real.

É um filme sobre coragem e covardia, verdade e mentira, poder e resistência.
E, como lembra a letra que dá título ao filme:

"Ele está vivo."
E a luta por justiça também.





quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Desaparecido: Um Grande Mistério (1982) Missing - 2 h 2 min

O filme aborda a história de um americano que viaja para a América do Sul durante um período de agitação política. Ele busca seu filho, que desapareceu sob circunstâncias misteriosas. A trama explora temas como a repressão política, a luta pela verdade e a busca por justiça em um ambiente hostil.


Dir: Costa-Gavras
Thriller Político, Biografia, Drama, História, Mistério


MP4 / SD+ / LEG: Português

IMDB: 7,7   METASCORE: 7,8
94%Tomatometer35 Reviews   85%Popcornmeter


Temas Principais

  • Desaparecimento Forçado: O filme retrata a realidade de muitos que desapareceram durante regimes autoritários.
  • Busca pela Verdade: A jornada do protagonista reflete a determinação em descobrir o que realmente aconteceu.
  • Impacto Político: A obra destaca a influência de governos opressivos na vida dos cidadãos.

Recepção

  • Crítica: O filme foi bem recebido, sendo elogiado pela sua abordagem sensível de um tema delicado.
  • Prêmios: Recebeu diversas indicações e prêmios, destacando a atuação e a direção. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes

Curiosidades

  • Baseado em Fatos Reais: A história é inspirada em eventos reais que ocorreram durante regimes militares na América Latina.
  • Trilha Sonora: A música do filme contribui para a atmosfera tensa e dramática da narrativa.

Conclusão

"Desaparecido: Um Grande Mistério" é uma obra poderosa que não só entretém, mas também provoca reflexão sobre a luta por direitos humanos e a importância de lembrar aqueles que foram perdidos em meio à opressão