A decisão como ponto de partida
Frango com Ameixas começa onde a maioria dos filmes terminaria: com a decisão irreversível já tomada. Nasser Ali Khan, músico renomado no Teerã de 1958, deita na cama depois que a mulher quebra seu violino durante uma briga e resolve não se levantar mais. O filme não trata isso como crise a ser resolvida. Trata como fato estabelecido em torno do qual tudo o mais vai girar.Marjane Satrapi adapta sua própria graphic novel — publicada em 2004 e premiada em Angoulême — e co-dirige com Vincent Paronnaud, a mesma dupla de Persépolis. A passagem do desenho animado para o live action é a primeira aposta do filme, e Satrapi a faz sem ansiedade: os atores são europeus, falam francês, e o Irã de 1958 é reconstruído com uma liberdade estilística que deve mais à tradição da fábula do que ao realismo histórico. Quem espera Persépolis em versão live action vai encontrar algo diferente, e o filme não se desculpa por isso.
A estrutura como forma de sentir
O roteiro organiza os oito dias de Nasser Ali de forma não linear, intercalando o presente da cama com flashbacks, flash-forwards e digressões que incluem o Anjo da Morte, visões do futuro dos filhos e uma conversa imaginária com Sophia Loren. Satrapi e Paronnaud constroem essa estrutura para criar acúmulo emocional. O espectador vai entendendo o peso da decisão de Nasser Ali à medida que entende o que ele perdeu, e a ordem em que essas perdas são reveladas importa tanto quanto as perdas em si.A cena central do filme, quando a história de amor com Irane é contada em sua extensão completa, reorganiza tudo o que veio antes e explica o que o violino representava além do violino. Satrapi filmou o amor que não se realizou com a mesma precisão com que filmou o casamento que não deveria ter acontecido, e a comparação entre os dois não precisa ser declarada porque a câmera já a fez.
Mathieu Amalric e o limite da contenção
Amalric é um ator de grande superfície interna e pouca superfície externa, o que o torna ideal para personagens que carregam mais do que mostram. Nasser Ali é construído sobre essa qualidade: um homem que decidiu encerrar tudo e que ainda assim não consegue não reagir ao mundo que continua acontecendo ao redor da cama. A performance tem momentos de uma precisão que o filme inteiro depende, especialmente nas cenas com os filhos, onde Nasser Ali precisa ser simultaneamente ausente e presente.Parte da crítica da época apontou rigidez na performance. É uma leitura possível, mas confunde uma escolha com uma limitação. Nasser Ali não é um homem que demonstra, é um homem que decidiu parar de demonstrar, e Amalric sustenta essa recusa com consistência.
O que Satrapi entende sobre perda
Frango com Ameixas é um filme sobre o amor que ficou no passado e envenenou tudo o que veio depois, mas Satrapi tem inteligência suficiente para não romantizar essa leitura. Nasser Ali é um homem difícil, egoísta em relação aos filhos, incapaz de reconhecer o que a mulher carregou ao lado dele por anos. O filme não pede que o espectador o absolva pela grandeza artística, e não sugere que a arte justifica a ausência emocional. O que faz é mais honesto: mostra um homem que fez escolhas e que vai morrer com o peso delas, e deixa o espectador decidir o que fazer com isso.Por que vale
Frango com Ameixas chegou às salas em 2011 e ficou pouco tempo. É um filme que pede um tipo de atenção que o circuito comercial raramente consegue sustentar: lento, estruturalmente incomum, emocionalmente caro. Para quem tem paciência para deixar o filme trabalhar no seu próprio tempo, o resultado é um dos retratos mais honestos sobre perda, escolha e o custo de viver com as próprias decisões que o cinema europeu produziu nos anos 2010.