Filme incluso na mostra da Filmoteca Seu Manolo:
Malcolm Little virou Malcolm X virou El-Hajj Malik El-Shabazz. Três homens num. Washington interpretou os três.
Uma década de preparação
Spike Lee passou dez anos tentando fazer esse filme. O estúdio queria Norman Jewison na direção. Lee argumentou que um filme sobre Malcolm X precisava ser dirigido por um homem negro. Ganhou o argumento e herdou o projeto mais ambicioso do cinema americano dos anos 90: três horas e vinte minutos de biografia, com Washington em cena praticamente o tempo todo, interpretando três versões do mesmo homem em três fases radicalmente distintas da vida.O problema da hagiografia
Filmes biográficos sobre figuras históricas de grande carga simbólica tendem a transformar o sujeito em monumento antes que o espectador tenha tempo de conhecê-lo como pessoa. Lee resiste a esse impulso durante a maior parte do filme. O Malcolm de Washington tem vaidade, tem erros de julgamento, tem momentos de crueldade pequena que nenhum monumento admitiria. A fase do crime em Boston e Nova York é filmada com uma energia que beira o prazer, e Washington entrega esse prazer sem pedir desculpas por ele.Os discursos como terreno próprio
As cenas de discurso são onde Washington opera no registro mais alto da performance. Malcolm X era um orador extraordinário, e o filme precisava de um ator capaz de reproduzir essa qualidade sem transformar as cenas em imitação. O que Washington encontrou foi um equilíbrio preciso entre a cadência específica de Malcolm e a presença própria de um ator que sabe que está sendo filmado de perto.A peregrinação como ruptura
A viagem à Meca é o momento em que Malcolm se torna El-Hajj Malik El-Shabazz, e o momento em que Washington enfrenta o desafio mais delicado do filme. A transformação aqui é interna, sem o suporte de cenário ou figurino para marcar a mudança. O que o espectador vê é um homem escrevendo cartas para casa e olhando ao redor como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez depois de anos enxergando apenas o que esperava encontrar.O que a indicação ao Oscar não disse
Washington foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por Malcolm X e não ganhou. O prêmio foi para Al Pacino em Perfume de Mulher, numa das decisões mais discutidas da Academia nos anos 90. A comparação entre as duas performances diz mais sobre os critérios da Academia do que sobre os filmes: Pacino entrega uma performance de grande superfície, calculada para ser reconhecida como grande. Washington entrega algo mais difícil de ver e mais difícil de avaliar, uma performance que desaparece dentro do personagem e que só revela sua extensão quando o filme acaba e o espectador tenta entender o que acabou de acontecer.Dez anos depois, em Training Day, a Academia acertaria a conta.
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