<= se7e - Jane Austen
Enviada para morar com o rico tio Sir Thomas, a jovem Fanny deixa sua família pobre para ser educada conforme os costumes da alta sociedade, junto aos primos em uma mansão inglesa.
Dir: Patricia Rozema
Drama de Época, Romance
CLC Score: 7,0
Rozema inseriu em Mansfield Park o que Austen havia
deixado nas margens. O resultado dividiu os leitores e produziu a adaptação
mais honesta sobre o que o romance estava dizendo sem dizer.
A obra original e seu lugar na trajetória de Austen
Mansfield Park foi escrito entre 1812 e 1813 e é o romance
mais sombrio e moralmente complexo de Austen, o único que divide
consistentemente os leitores entre os que o consideram a obra-prima da
escritora e os que o consideram seu trabalho menos satisfatório. A protagonista
Fanny Price é fraca fisicamente, tímida socialmente e moralmente inflexível de
uma forma que o público acostumado com Elizabeth Bennet e Emma Woodhouse
frequentemente encontra difícil de acompanhar.

O romance foi escrito num momento em que Austen estava
examinando questões que os romances anteriores haviam deixado à margem. A
fortuna da família Crawford, cujos membros chegam a Mansfield Park e perturbam
o equilíbrio moral que o lugar representava, vem parcialmente das plantações
nas Antilhas. Austen menciona isso de forma breve e sem desenvolver, mas a
menção existe, e críticos como Edward Said argumentaram que Mansfield Park é um
romance sobre o colonialismo tanto quanto sobre moral doméstica inglesa, que a
ordem que Fanny defende é inseparável da desordem que a sustenta economicamente
do outro lado do Atlântico.
Rozema decidiu desenvolver o que Austen havia deixado como
menção, e essa decisão é a mais corajosa e mais controvertida da mostra
inteira.
Rozema e a autora dentro da protagonista
Patricia Rozema fez uma escolha formal que nenhuma outra
adaptação da mostra tentou: inseriu nos escritos juvenis da própria Jane
Austen, cartas e diários que Austen escreveu e que são documentos históricos
reais, na voz e na perspectiva de Fanny Price. Fanny no filme de Rozema escreve
com a ironia e a agudeza que o texto original da protagonista não tem, e essa
ironia vem diretamente dos escritos da própria Austen.
Essa decisão é defensável e foi defendida por Rozema com um
argumento simples: Fanny Price é frequentemente lida como o alter ego de
Austen, a escritora projetando numa protagonista sem recursos econômicos e sem
as vantagens sociais que tornavam a vida mais fácil a personagem que mais se
aproximava de sua própria situação. Se isso é verdade, dar a Fanny a voz que
Austen usava nos escritos privados é uma forma de honrar essa identificação, de
tornar visível o que o romance havia mantido implícito.
Frances O'Connor e a Fanny que Austen não publicou
Frances O'Connor interpreta Fanny Price com uma presença que
combina com a escolha de Rozema: esta não é a Fanny tímida e passiva do romance
mas uma jovem com vida interior rica e ironia desenvolvida que aprende a
existir dentro de um sistema que não foi projetado para valorizar o que ela
tem. O'Connor constrói esse equilíbrio entre a contenção exterior que o
ambiente exige e a vida interior que os escritos revelam com uma consistência
que torna o personagem mais acessível do que qualquer Fanny puramente fiel ao
texto teria sido para o público contemporâneo.
Jonny Lee Miller como Edmund Bertram e Alessandro Nivola
como Henry Crawford completam o triângulo de forma que o filme usa para
examinar o que Mansfield Park está dizendo sobre escolha moral: Edmund
representa a integridade que comete o erro de não ver o que está diante dele,
Crawford representa o charme que esconde a falta de princípios, e Fanny é a
única personagem que vê os dois com clareza desde o início.
A dimensão colonial e o que Rozema filmou
A cena mais controversa de Palácio das Ilusões é aquela em
que Fanny encontra os diários e esboços do Sir Thomas Bertram mostrando as
condições das plantações nas Antilhas que financiam o estilo de vida de
Mansfield Park. Rozema filma essas imagens com uma brutalidade que não está em
Austen e que a crítica austeniana dividiu: alguns consideraram uma imposição de
preocupações contemporâneas sobre um texto do início do século XIX, outros
consideraram a explicitação honesta de algo que Austen havia deixado visível o
suficiente para ser visto e invisível o suficiente para ser ignorado.
A posição mais defensável é que Rozema não inventou a
dimensão colonial de Mansfield Park: tornou impossível ignorá-la. E tornar
impossível ignorar o que está lá é uma forma de fidelidade ao texto que a
fidelidade superficial às cenas e diálogos frequentemente trai.
Onde assistir e o que esperar
Palácio das Ilusões está disponível na Apple TV de Portugal, no Youtube com legendas em inglês e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 112 minutos que exigem
uma disposição para a ambiguidade que os outros filmes da mostra não exigem na
mesma medida: Rozema não resolve as tensões que instala de forma que satisfaça
completamente nenhum dos lados do debate sobre o que Mansfield Park é.
Espectadores que chegam como leitores devotos de Austen podem se incomodar com
as liberdades que Rozema toma. Espectadores que chegam sem essa lealdade prévia
vão encontrar o filme mais cinematograficamente ambicioso da mostra e o que
mais diretamente faz perguntas sobre o mundo em que Austen escreveu.
Jane Austen - Mansfield Park 1999 (full movie)
A Austen que examinou o custo da ordem moral
Mansfield Park é o romance em que Austen parou de confiar
que a ironia era instrumento suficiente e examinou diretamente o que sustenta a
ordem moral que seus romances anteriores haviam defendido. O resultado é um
texto mais difícil, mais desconfortável, menos satisfatório no sentido
convencional, e mais honesto sobre as contradições que os romances anteriores
haviam deixado por examinar. Rozema filmou esse desconforto com uma coragem que
combina com o romance, e Palácio das Ilusões é o filme da mostra que mais
claramente faz o que o cinema de adaptação raramente tem coragem de fazer: não
reverenciar o texto mas interrogá-lo.