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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Palácio das Ilusões (1999) Mansfield Park - 1 h 52 min

<= se7e - Jane Austen

Enviada para morar com o rico tio Sir Thomas, a jovem Fanny deixa sua família pobre para ser educada conforme os costumes da alta sociedade, junto aos primos em uma mansão inglesa.

Dir: Patricia Rozema

Drama de Época, Romance



CLC Score: 7,0


Rozema inseriu em Mansfield Park o que Austen havia deixado nas margens. O resultado dividiu os leitores e produziu a adaptação mais honesta sobre o que o romance estava dizendo sem dizer.


A obra original e seu lugar na trajetória de Austen

Mansfield Park foi escrito entre 1812 e 1813 e é o romance mais sombrio e moralmente complexo de Austen, o único que divide consistentemente os leitores entre os que o consideram a obra-prima da escritora e os que o consideram seu trabalho menos satisfatório. A protagonista Fanny Price é fraca fisicamente, tímida socialmente e moralmente inflexível de uma forma que o público acostumado com Elizabeth Bennet e Emma Woodhouse frequentemente encontra difícil de acompanhar.

O romance foi escrito num momento em que Austen estava examinando questões que os romances anteriores haviam deixado à margem. A fortuna da família Crawford, cujos membros chegam a Mansfield Park e perturbam o equilíbrio moral que o lugar representava, vem parcialmente das plantações nas Antilhas. Austen menciona isso de forma breve e sem desenvolver, mas a menção existe, e críticos como Edward Said argumentaram que Mansfield Park é um romance sobre o colonialismo tanto quanto sobre moral doméstica inglesa, que a ordem que Fanny defende é inseparável da desordem que a sustenta economicamente do outro lado do Atlântico.

Rozema decidiu desenvolver o que Austen havia deixado como menção, e essa decisão é a mais corajosa e mais controvertida da mostra inteira.


Rozema e a autora dentro da protagonista

Patricia Rozema fez uma escolha formal que nenhuma outra adaptação da mostra tentou: inseriu nos escritos juvenis da própria Jane Austen, cartas e diários que Austen escreveu e que são documentos históricos reais, na voz e na perspectiva de Fanny Price. Fanny no filme de Rozema escreve com a ironia e a agudeza que o texto original da protagonista não tem, e essa ironia vem diretamente dos escritos da própria Austen.

Essa decisão é defensável e foi defendida por Rozema com um argumento simples: Fanny Price é frequentemente lida como o alter ego de Austen, a escritora projetando numa protagonista sem recursos econômicos e sem as vantagens sociais que tornavam a vida mais fácil a personagem que mais se aproximava de sua própria situação. Se isso é verdade, dar a Fanny a voz que Austen usava nos escritos privados é uma forma de honrar essa identificação, de tornar visível o que o romance havia mantido implícito.


Frances O'Connor e a Fanny que Austen não publicou

Frances O'Connor interpreta Fanny Price com uma presença que combina com a escolha de Rozema: esta não é a Fanny tímida e passiva do romance mas uma jovem com vida interior rica e ironia desenvolvida que aprende a existir dentro de um sistema que não foi projetado para valorizar o que ela tem. O'Connor constrói esse equilíbrio entre a contenção exterior que o ambiente exige e a vida interior que os escritos revelam com uma consistência que torna o personagem mais acessível do que qualquer Fanny puramente fiel ao texto teria sido para o público contemporâneo.

Jonny Lee Miller como Edmund Bertram e Alessandro Nivola como Henry Crawford completam o triângulo de forma que o filme usa para examinar o que Mansfield Park está dizendo sobre escolha moral: Edmund representa a integridade que comete o erro de não ver o que está diante dele, Crawford representa o charme que esconde a falta de princípios, e Fanny é a única personagem que vê os dois com clareza desde o início.


A dimensão colonial e o que Rozema filmou

A cena mais controversa de Palácio das Ilusões é aquela em que Fanny encontra os diários e esboços do Sir Thomas Bertram mostrando as condições das plantações nas Antilhas que financiam o estilo de vida de Mansfield Park. Rozema filma essas imagens com uma brutalidade que não está em Austen e que a crítica austeniana dividiu: alguns consideraram uma imposição de preocupações contemporâneas sobre um texto do início do século XIX, outros consideraram a explicitação honesta de algo que Austen havia deixado visível o suficiente para ser visto e invisível o suficiente para ser ignorado.

A posição mais defensável é que Rozema não inventou a dimensão colonial de Mansfield Park: tornou impossível ignorá-la. E tornar impossível ignorar o que está lá é uma forma de fidelidade ao texto que a fidelidade superficial às cenas e diálogos frequentemente trai.


Onde assistir e o que esperar

Palácio das Ilusões está disponível na Apple TV de Portugal, no Youtube com legendas em inglês e na Filmoteca Seu Manolo. O filme tem 112 minutos que exigem uma disposição para a ambiguidade que os outros filmes da mostra não exigem na mesma medida: Rozema não resolve as tensões que instala de forma que satisfaça completamente nenhum dos lados do debate sobre o que Mansfield Park é. Espectadores que chegam como leitores devotos de Austen podem se incomodar com as liberdades que Rozema toma. Espectadores que chegam sem essa lealdade prévia vão encontrar o filme mais cinematograficamente ambicioso da mostra e o que mais diretamente faz perguntas sobre o mundo em que Austen escreveu.

Jane Austen - Mansfield Park 1999 (full movie)


A Austen que examinou o custo da ordem moral

Mansfield Park é o romance em que Austen parou de confiar que a ironia era instrumento suficiente e examinou diretamente o que sustenta a ordem moral que seus romances anteriores haviam defendido. O resultado é um texto mais difícil, mais desconfortável, menos satisfatório no sentido convencional, e mais honesto sobre as contradições que os romances anteriores haviam deixado por examinar. Rozema filmou esse desconforto com uma coragem que combina com o romance, e Palácio das Ilusões é o filme da mostra que mais claramente faz o que o cinema de adaptação raramente tem coragem de fazer: não reverenciar o texto mas interrogá-lo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Questão de Tempo (2013) About Time - 2 h 3 min

VIAGEM NO TEMPO NO CINEMA: Paradoxos, Memória e Destino em Movimento

Tim descobre que pode viajar no tempo e mudar o que acontece e aconteceu em sua vida. Sua decisão de tornar seu mundo um lugar melhor ao conseguir uma namorada acaba não sendo tão fácil.


Dir: Richard Curtis
Romance Alegre, Viagem no Tempo, Comédia, Drama, Ficção Científica


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,8   METASCORE: 5,5
Flick Metrix: 71  Criticker Average Percentile: 59%
71%Tomatometer168 Reviews   82%Popcornmeter



About Time, dirigido por Richard Curtis, é um dos filmes mais delicados e enganosamente simples sobre viagem no tempo. Sob a aparência de comédia romântica, ele propõe uma reflexão madura e profundamente humana: e se a viagem no tempo não servisse para mudar o mundo, mas apenas para aprender a viver melhor dentro dele?

Na lógica da mostra, o filme se insere no eixo existencial-afetivo do subgênero, onde o tempo não é conflito externo, mas ferramenta íntima de consciência.


A viagem no tempo como herança


O filme apresenta uma regra mínima e quase banal: os homens de uma família podem voltar a momentos específicos do próprio passado, desde que estejam sozinhos e em um espaço fechado. Não há máquinas, portais ou efeitos espetaculares. O tempo é tratado como dom doméstico, passado de pai para filho como um segredo incômodo.

Essa escolha é crucial. Ao naturalizar a viagem no tempo, o filme desloca a pergunta central: não “como funciona?”, mas “como usar sem se perder?”


Corrigir o erro… e depois?


Inicialmente, o protagonista usa o poder como qualquer um faria: para consertar gafes sociais, melhorar encontros amorosos, evitar humilhações. O tempo funciona como ensaio geral da vida, permitindo versões cada vez mais “perfeitas” de si mesmo.

Mas logo surge a fratura moral do filme:
👉 se tudo pode ser refeito, o que ainda é vivido de verdade?

A repetição começa a esvaziar a experiência.


O custo invisível da correção

Ao contrário de narrativas mais sombrias, About Time não pune o uso do poder com catástrofes imediatas. A punição é afetiva e silenciosa. Cada correção elimina algo que não pode coexistir com o novo arranjo: memórias, encontros, até pessoas.

O tempo ensina que toda escolha “melhor” implica uma perda invisível, mesmo quando parece correta.


Pai e filho: o tempo compartilhado


O coração do filme não está no romance, mas na relação entre pai e filho. A viagem no tempo se torna, progressivamente, ritual de convivência, uma forma de estender momentos, de revisitar conversas, de adiar despedidas.

Aqui, o tempo deixa de ser ferramenta de controle e se torna espaço de luto antecipado. O filme reconhece que nem tudo deve, ou pode, ser refeito.


A decisão radical: parar de voltar

O gesto mais importante de Questão de Tempo não é uma correção, mas uma renúncia. O protagonista escolhe viver cada dia como se pudesse repeti-lo sem jamais repeti-lo de fato.

Essa decisão redefine o subgênero: a verdadeira viagem no tempo é aprender a estar presente.


Tempo, felicidade e aceitação


O filme rejeita tanto o fatalismo quanto a obsessão pelo controle. Ele propõe uma ética suave, mas firme: viver bem não é eliminar erros, e sim aceitar a imperfeição do fluxo.

A felicidade surge não da manipulação do tempo, mas da atenção ao cotidiano: às conversas triviais, aos dias comuns, às pequenas alegrias que só existem porque não podem ser refeitas.


Lugar no subgênero da viagem no tempo


Dentro da história do cinema, About Time dialoga com:

  • It’s a Wonderful Life (tempo como revelação moral),
  • Somewhere in Time (amor e sacrifício),
  • Arrival (escolha consciente diante do inevitável).

Mas se diferencia por sua gentileza conceitual. Não há paradoxo a resolver, nem ameaça a vencer. O conflito é interno e cotidiano.

O filme representa o ponto em que a viagem no tempo abandona a fantasia de controle e assume a maturidade da aceitação.


Conclusão: viver sem rascunho

Questão de Tempo sustenta uma ideia simples e profundamente transformadora: o problema não é não poder voltar no tempo; é viver como se sempre fosse necessário.

Ao final, o filme afirma que a maior sabedoria não está em corrigir o passado nem antecipar o futuro, mas em habitar plenamente o presente, sabendo que ele é único justamente porque passa.

About Time funciona como lembrete essencial: depois de paradoxos, guerras e loops, talvez a viagem no tempo mais radical seja decidir não usá-la.





sábado, 11 de outubro de 2025

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) - 1 h 59 min

Mostras:

ENTRE O RECONHECIMENTO E O TEMPO: Uma interpretação crítica da história do Oscar

Um fracassado ator tenta recuperar sua carreira com uma produção da Broadway que ele escreve, dirige e protagoniza.


Dir: Alejandro G. Iñárritu
Comédia de Humor Negro, Drama do Mundo do Espetáculo, Drama no Trabalho, Sátira


MP4 / HD / LEG: Português

IMDB: 7,7   METASCORE: 8,7
Flick Metrix: 81   Letterboxd: 8,0
91%Tomatometer360 Reviews   78%Popcornmeter

Relevância é a droga mais viciante que existe, e a ressaca nunca avisa quando vem



O plano-sequência como prisão

Birdman foi filmado para parecer um único plano ininterrupto, e essa escolha formal não é exibicionismo técnico. É argumento. A câmera que nunca corta e nunca abandona Riggan Thomson replica a experiência interna do personagem: sem pausa, sem respiro, sem o alívio de um corte que separe um momento do seguinte. Emmanuel Lubezki, que ganhou o Oscar pela fotografia, cria um espaço visual claustrofóbico mesmo quando a câmera se move pelos bastidores do teatro, porque o confinamento não é físico, é psicológico.

Keaton e a sombra do que foi

A decisão de escalar Michael Keaton, ex-Batman, para interpretar um ator famoso pelo papel de um super-herói é o tipo de escolha que ou afunda o filme em autoindulgência ou o eleva a outro nível. Iñárritu e Keaton fazem a segunda coisa. A performance não pisca para o espectador nem usa a referência como piada. Keaton habita Riggan com uma desesperança que só funciona porque parece real, e a voz do Birdman que o assombra tem a textura de algo que ele próprio poderia ter internalizado ao longo de décadas.

A crítica como poder e como vaidade


Lindsay Duncan interpreta Tabitha, a crítica do New York Times que decide destruir o espetáculo de Riggan antes de assisti-lo, e o filme tem a honestidade de tratá-la como argumento, não como antagonista. A cena em que ela e Riggan se confrontam no bar é um dos melhores diálogos do cinema americano dos anos 2010: dois egos em colapso discutindo legitimidade sem que nenhum dos dois tenha razão suficiente para ganhar. Iñárritu entende que a ansiedade de relevância não é exclusiva do artista. O crítico também precisa ser visto.

O teatro como arena de julgamento


Iñárritu escolhe o teatro como ambiente não por acidente. O teatro carrega um peso de legitimidade que o cinema pop não tem, e é exatamente esse peso que Riggan está buscando. A Broadway representa a validação que o Birdman não pode dar: reconhecimento artístico, não comercial. O filme mapeia com precisão a hierarquia de prestígio que existe dentro do mundo artístico e o quanto essa hierarquia é capaz de produzir ansiedade em quem está tentando subir nela ou se manter dentro dela

Entre Impacto e Limitação

A força inicial do filme reside na novidade de sua execução. Com o tempo, torna-se mais evidente o funcionamento do dispositivo.

O filme tende a:

  • esgotar sua proposta
  • reduzir variações
  • tornar visível sua construção

O Tempo que Revela Limites

Birdman mantém sua energia e inventividade, mas expõe com maior clareza sua estrutura.

Com o passar do tempo:

  • seu impacto permanece
  • sua forma revela dependência do dispositivo
  • sua experiência se torna mais previsível

O filme não perde sua força, mas se torna mais transparente.

Onde assistir e o que esperar

Disponível em plataformas de streaming e na Filmoteca Seu Manolo. A trilha de Antonio Sanchez, baseada quase inteiramente em bateria ao vivo, cria uma urgência rítmica que é parte da experiência tanto quanto a fotografia. O filme recompensa revisitas: sabendo o que acontece, a construção da loucura de Riggan aparece com mais clareza, e as cenas com Edward Norton e Emma Stone ganham camadas que a primeira passagem não entrega completamente.